ME SINTO
ABSINTO.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
TÍTULO: Uma vida cheia de
surpresas.
PERSONAGENS:
Funcionário;
Encarregado (a);
Funcionário (a);
Funcionária (o);
CENA
Uma linha de produção;
alguns funcionários com chaves de boca nas mãos, trabalhando com rapidez.
FUNCIONÁRIO: (para o
público) disseram-me que a vida seria cheia de surpresas. Háh! Meus pais sempre
me aconselharam a estudar e trabalhar muito. Nunca desistir dos estudos para
conseguir um bom emprego. Um ótimo emprego! Ótimo emprego esse que consegui! (mostra
a mesa de produção para o publico) isso é um ótimo emprego? Tanto estudo e
tantos sonhos, para ficar apertando parafusos?
(volta a trabalhar, com as
chaves de mão a apertar os parafusos na linha de produção).
- Um lindo dia de Sol lá
fora e eu aqui nesse “ótimo emprego”. Técnico, formado e apertando parafusos.
“ótimo emprego” esse, disse meu tio. “Eu também sonhava em ser piloto de avião,
rapaz, ou médico, mas isso quando somos jovens é normal. Sonhos são somente
sonhos.” Será que esses sonhos são para os mais ricos?
(Volta a trabalhar).
- Desde as quatro da
madrugada. Até parece na roça! Pior! Antes dos galos acordarem! O Sol ainda
estava dormindo e a Lua já havia saído de cena, e eu enfiado dentro de um
ônibus da empresa. Com toda essa gente que não dá um sorriso, ou só dizem
bobagens. Até parecem essas máquinas desumanas que nós operamos! Só produzem
bobagens! Para vender. E nós TRABALHADORES é quem compramos! Alienados e sem
cultura. Não entendem que poderiam ser os donos da situação. Estudei tanto, sou
técnico, tinha tantos sonhos e desde as quatro horas da manhã em pé. Sem sonhar.
Com essas ferramentas nas mãos. Parecem grilhões! E o Sol lá fora lindo...
(volta a trabalhar em ritmo
acelerado. Seca o suor do rosto, quando aparece ao seu lado o/a encarregado
(a), olha desconfiado para o funcionário trabalhando).
ENCARREGADO (A) – Estou
ouvindo muita conversa aqui. Vamos concentrar no trabalho e parar com a
conversa. Nossas metas estão bem abaixo do esperado. Quero foco no trabalho
gente. Metas a serem alcançadas. Trabalhando sem conversas.
(sai de cena o encarregado
(a). trabalham acelerados).
FUNCIONÁRIO – as nove,
almoço. Ás nove e meia, já acabou o almoço. Volto ao trabalho. Alguém aqui já
tentou almoçar as nove horas da manhã? Já? Você já tentou? Não desce!
Parafusos, chaves, parafusos, chaves! Calor, muito calor. Sapatão de operário!
Algemado a linha de produção, só com a condicional das duas e quarenta da tarde
posso respirar. Quando assinei o contrato de trabalho parece perdi os direitos
sobre meu corpo, direito de ir e vir. Tenho que me explicar por que cheguei
atrasado, por que faltei, não posso ficar doente. Onde fui? Qual a cor da merda
que fiz no banheiro. “Ótimo emprego”, disse meu tio. Pode ter sido para ele. Mas
para mim...
(Volta a apertar parafusos).
_ (trabalhando e falando)
meu tio passou 35 anos aqui! 35 anos! Sabem o que é isso? Ele me indicou para a
sua vaga quando se aposentou. “É um bom emprego”, disse ele. Junto com meu pai,
os dois me convenceram de que ser musico não tem futuro. Esse negócio de violão
e guitarra é coisa de vagabundo que fica na noite pelos bares, bebendo e usando
drogas. Não tem futuro. Eu tinha uma banda e tocava violão e guitarra. Três
vezes por semana tocava com uns amigos em um barzinho e até tirava uma grana
boa. Mas não quis contrariar papai, e nem meu tio. Fiz o que queriam. Sempre os
respeitei. Diziam que os jovens devem sempre ouvir os pais, os mais velhos.
Sonhos de transformar o mundo todo mundo tem, especialmente quando somos
jovens. E esses sonhos são coisas de maconheiros. Diziam que meus amigos eram
todos maconheiros e eu iria acabar igualzinho a eles. “O mundo menino é assim
mesmo e nunca irá mudar. Nesse mundo, manda quem pode e obedece quem tem juízo”.
E ai, aqui estou eu. Apertando parafusos!
Salário? É uma piada, e sem graça. Com este salário de fome, com três
filhos de três ex-namoradas para criar e pagar pensão para meus filhos, não dá!
E ainda só tenho 21 anos. Ainda bem que mamãe me ajuda.
(Acelera no trabalho. Volta
o encarregado (a)).
ENCARREGADO (A) – Assim não
vai dar! Tem muita conversa aqui, gente. Vamos parar de falar e começar a
trabalhar! O pessoal lá de cima está de olho em vocês. A meta mais uma vez não
será alcançada. Vocês querem ir para a rua? Já tem uma lista de demissão lá em
cima no RH. Você quer ir para a rua? Tem muita gente ai fora que quer fazer o
que tu está fazendo aqui. E olha que está fazendo muito mal feito! Olha isso
aqui? Tá um lixo, cara! Tu achas que isso irá passar na qualidade? Tem muita
gente lá fora que faria muito melhor do que você. Lá fora a fila tá grande. Presta
a atenção! Ter uma chance, um emprego hoje é um luxo nesses tempos de crise que
vivemos. Vamos melhorar. Tá muito ruim mesmo seu trabalho. E vamos parar de
falar. Se não fizer direito vai para a rua! Já andaram reclamando de você por
ai. Só ainda não te dispensaram por causa de seu tio e seu pai. Eles ainda são
muito considerados por aqui. Já pensou o que vão pensar se você for dispensado?
Isso aqui é um desperdício para a empresa. Precisa melhorar. Metas, vamos
alcançar as metas. Olha isso aqui? Tá muito ruim. Vamos melhorar.
(Sai o encarregado (a).
Mantem o trabalho).
FUNCIONÁRIO – (para o
público) “ótimo emprego!” “ótimo trabalho!” Que piada de mau gosto, vocês não
acham? Não posso ser músico, mas posso ser apertador de parafusos. Aonde isso
vai me levar? Desde as quatro da matina. Na segunda, na terça, na quarta, na
quinta, na sexta. “nos sábados, domingos e feriados é muito bom, ganha horas
extras.” Isso dizia papai e meu tio. Encostado com varizes nas pernas, problema
de coluna e nas articulações dos pulsos. Mas ainda insistem que foi um ótimo
emprego. Pode ter sido para eles!
(continua na sina de apertar
os parafusos).
FUNCIONÁRIO – que horas são?
(pergunta a uma moça, também funcionária ao seu lado, que trabalha em ritmo
alucinante).
FUNCIONÁRIA – Não sei. Tu
não ouviste o (a) encarregado (a)? Cala a boca e faça o seu trabalho bem
feitinho. Seu chato! É assim a vida. Dê graças a Deus por ter esse emprego! Eu
preciso desse emprego, e muito. Tem muita gente por ai precisando também. Cala a
boca e trabalha. Não pode ficar reclamando. Melhor que passar fome.
FUNCIONÁRIO – “Graças a
Deus?” (Ficam em silêncio. Trabalham em ritmo acelerado).
- Desde as quatro da manhã
até às duas e quarenta da tarde. E hoje é somente quarta-feira ainda. Que vida
cheia de surpresas essa! E ainda tenho que agradecer a Deus? Queria ver se
fosse Ele que tivesse que ficar em pé aqui esse tempo todo, apertando
parafusos. Meia hora de almoço.
FUNCIONÁRIA – Cala a boca e
trabalha idiota! Que merda! Se ficar ai
falando sozinho vai acabar fodendo com todo mundo. Quer ir pra rua? Pede logo
pra sair, eu tenho duas filhas e sou sozinha para criar minhas meninas. Não
posso ir pra rua.
(Trabalham. As horas passam.
Trabalham sem parar. Quando chegam as duas e quarenta é o fim do turno. Volta o
encarregado (a) a se reunir com os funcionários).
ENCARREGADO (A) – deixem
tudo limpo, rapidinho que preciso passar algumas informações para vocês.
(Os funcionários varrem o
local e guardam as ferramentas).
ENCARREGADO (A) – Antes de
vocês saírem tenho um pedido dos gerentes lá de cima: vamos precisar de
voluntários para fazer hora extra hoje para conseguirmos fechar a meta do mês. Quem
vai ficar? Preciso de comprometimento por parte da equipe, gente. Eu sempre
estou ajudando vocês, sempre estou defendendo vocês, agora preciso que me
ajudem. Estamos longe de atingir a meta, pessoal. E já adiantando: sábado e
domingo tem hora extra. Precisamos alcançar a meta desse mês, quem quiser é só
dizer o nome. É preciso um esforço de todos para alcançar nossos objetivos. O crescimento
da empresa depende de vocês. E vocês sabem que os diretores estão de olho nos
números. Eles sabem de cada um que dá resultados ou não.
UM DOS FUNCIONÁRIOS – você
vai ficar hoje? (pergunta para o encarregado(a)).
ENCARREGADO (A) – Eu não
posso. Vou para a faculdade.
OUTRA FUNCIONÁRIA – hoje
minha irmã fica com meus filhos, mas no fim de semana eu não posso. Não tenho
com quem deixar as crianças.
ENCARREGADO (A) – cada um
com seus problemas. A gerência está de olho nos resultados e na lista de quem
participa ou não das horas extras. Quem faz um esforço, tem comprometimento com
o crescimento de nossa empresa está garantido. E quem não tem, não participa e
não se compromete com as metas, tem maiores chances de ir embora. Entenderam?
FUNCIONÁRIO – “nossa
empresa?”
ENCARREGADO (A) – O que você
falou?
FUNCIONÁRIO – nada não.
ENCARREGADO (A) – e você vai
ficar hoje? Vai vir no final de semana? Seria bom você ficar, seu tio sempre
ficou e sempre foi comprometido com a empresa.
FUNCIONÁRIO – eu vou pra
praia sábado. Estou pensando em ir pra praia.
ENCARREGADO (A) – XÍ! Não
deixe os gerentes saberem disso. Se eu fosse você deixaria a praia para outro
dia. Sua situação aqui pode ficar complicada. Mais do que já está. Então?
Voluntários? Não saiam para assinar o ponto antes de falarem comigo. Quem vir
sábado e domingo já assinem aqui para eu levar para o RH. Quem não vai ficar
hoje e não vai vir fim de semana vou ter de repassar os nomes para o RH, esses
que não tem comprometimento com a empresa. Infelizmente.
OUTRO FUNCIONÁRIO – Mas eu
trabalho direitinho e estudo também, faço faculdade a noite. Nem durmo mais
direito. Sábado faço um curso técnico. Fico até às dez e meia na aula todos os
dias só consigo dormir depois da meia noite não consigo nem descansar mais. É
injusto isso.
OUTRO FUNCIONÁRIO – E aquela
promessa de uma ajuda no salário da gente, que foi prometido e acordado com os
patrões?
(não recebe resposta do encarregado
(a)).
ENCARREGADO (A) – Como disse
antes: cada um com seus problemas! O que eu, a empresa e os diretores esperamos
é comprometimento. Somos uma equipe e tudo que vocês, colaboradores, pedem eu
corro atrás para conseguir, quando consigo fico feliz, mas muitas vezes também
não consigo e fico feliz do mesmo jeito. Vamos lá gente, façam um esforço. Se
não atingirmos a meta para o mês, com certeza haverá demissões. Depende de
vocês.
(Saem todos ficando só o
funcionário).
FUNCIONÁRIO – Me disseram
que a vida seria cheia de surpresas. Essas surpresas? Desde as quatro da manhã
até às duas e quarenta da tarde, perco o controle de minha vida e de meu corpo.
Não sou mais dono de mim e de minhas vontades. Realmente são surpresas. De
segunda-feira a domingo. “ótimo emprego!” diziam papai e meu tio. Por 35 anos
algemados a mesa da linha de produção. Nunca participaram de uma greve. Movimentos
mecânicos repetitivos e intensos que custaram a saúde dos dois, dores nas
costas, varizes nas pernas, os pulmões carregados de toxinas, fibromialgia, e
enriqueceram os patrões que sempre choram que a fábrica tá no vermelho! Foi o
que ganharam. Por 35 anos! E eles ainda dizem que não posso reclamar?
(fecham as cortinas)
FIM.
segunda-feira, 27 de novembro de 2017
O
NOME.
Personagens:
Maria Antonieta
Pedro Ernesto
Balconista.
(A
cena se passa em uma loja. Um balcão compõe a cena).
BALCONISTA
Seu CPF, senhor. Por favor.
PEDRO ERNESTO
Vou pagar com cartão e no
crédito. É preciso isso tudo?
BALCONISTA
Sim senhor. É uma exigência
da loja quando a compra é feita com cartão de crédito.
PEDRO
ERNESTO
Tudo bem então. Pode ser o
CPF de minha esposa? Eu deixei meus documentos com cartão em casa.
BALCONISTA
Sim. Mas a compra vai sair
no nome dela.
ANTONIETA
É sempre assim não é senhor Pedro? Quem paga
suas contas sou eu porque você sempre esquece seus documentos em casa.
Engraçadinho você não é Pedro?
(procura
os documentos na bolsa)
PEDRO
ERNESTO
Não é assim Antonieta.
ANTONIETA
‘Não é assim’ coisa nenhuma!
Você sempre consegue me enrolar. Quando compra e quando se esquece de pagar!
PEDRO
ERNESTO
Não é verdade isso moça.
ANTONIETA
É verdade sim querida. Mas
não te preocupe, deixa que eu pago. Se não meu nome é que fica sujo. Até deveria
ficar mesmo ai eu queria ver quem iria comprar cuecas para você, Pedro Ernesto.
Está aqui o cartão e o CPF.
BALCONISTA
Obrigada.
(a
balconista lê o documento)
...Maria Antonieta, CPF,
número... Quantas vezes? 12? A senha, por favor. Agora só aguardar a notinha.
Está aqui a nota, Obrigada.
(devolve
o documento e o cartão)
[Pedro
Ernesto olha para a esposa com uma expressão de espanto]
PEDRO
ERNESTO
Um minuto! Deixa-me ver isso aqui!
(pega
os documentos das mãos da balconista antes da esposa)
O que é isso aqui?
ANTONIETA
O que é isso aqui o que,
Pedro Ernesto?
PEDRO
ERNESTO
Seu nome!
[com
raiva]
ANTONIETA
O que tem o meu nome, Pedro
Ernesto?
[com
paciência]
PEDRO
ERNESTO
Maria? Como assim? Você
nunca me disse que seu primeiro nome era “Maria”.
ANTONIETA
Como assim?
PEDRO
ERNESTO
Como assim digo eu! Por que
você mentiu para mim todo esse tempo? Com você conseguiu fazer isso comigo
Antonieta? Escondeu que se chamava Maria!
ANTONIETA
Eu não acredito nisso.
PEDRO
ERNESTO
Quem não acredita sou eu!
Fui enganado todo esse tempo! Há quanto tempo você se chama Maria?
(Antonieta se apoia no
balcão e põe a mão no rosto com uma voz de descrença)
ANTONIETA
Ai. Eu não acredito. Desde
quando fui batizada, Pedro Ernesto, meu amor! Ou desde quando meus pais souberam
que iam ter uma filha. Ou quando ainda na infância já sonhavam em ter uma filha
com esse nome.
PEDRO
ERNESTO
Mas por que nunca me contou?
ANTONIETA
Pedro Ernesto! Eu não posso,
aliás, eu não vou acreditar nisso! E não vou aceitar! Tem três anos que nos
conhecemos Pedro Ernesto, um ano e quatro meses de casado e você me vem com
essa agora? Me poupe vai!
PEDRO
ERNESTO
Por que você escondeu isso
de mim? Eu nem sei mais com te chamar: Antonieta? Maria? Estou decepcionado com
você! Decepcionado e espantado com isso!
ANTONIETA
Pedro Ernesto! Por favor,
não me venha com essa agora!
PEDRO
ERNESTO
Um minuto ai! Quem deve
explicações para mim é você. Você é quem mentiu para mim todo esse tempo.
ANTONIETA
Você é retardado ou só está
fingindo que é, Pedro Ernesto? Todos os meses pega meus cheques para pagar suas
contas e ainda não tinha se dado ao luxo de ler o meu nome no documento? Não!
Claro que não! O que te importa é passar o cheque para frente sem se preocupar
em como será pago suas dividas! Sem se importar qual o nome que está na folha.
Pagando suas dividas já tá bom.
PEDRO
ERNESTO
Não me venha com essa! Eu
estou sem palavras! Não sei mais como vou te chamar! E não tente mudar de
assunto. Vou te pagar um dia, já te disse isso. E não tente constranger-me na
frente das pessoas como sempre faz.
ANTONIETA
HÁ!
[Com
sarcasmo na voz]
PEDRO
ERNESTO
Agora eu exijo uma
explicação. Por que nunca me disse seu verdadeiro nome?
ANTONIETA
Eu posso com isso moça?
[com
sarcasmo na voz]
Pedro! Toma vergonha na
cara! Vai catar coquinho. Vai ver se estou na esquina!
PEDRO
ERNESTO
Eu acabei de descobrir que
estou casado a quase dois anos com uma pessoa que mentiu seu nome para mim! Eu
acreditava ser uma mulher e descobri ser outra! O que você faria no meu lugar
moça?
BALCONISTA
Bem. Eu tive meu quarto
marido que dizia ser segurança noturno, mas acabei descobrindo que era um
travesti. Transformista. Sei lá o que! Não sei o que é pior.
PEDRO
ERNESTO
Você já foi casada quatro
vezes?
BALCONISTA
Cinco. Estou no quinto casamento.
ANTONIETA
Sério isso? Você parece ser
tão jovem mocinha. Tem quantos anos, sei que não é de minha conta, mas...
BALCONISTA
27.
ANTONIETA
Nossa! Por que tantos
maridos assim? O que aconteceu nessas relações que não deram certo?
BALCONISTA
Minhas primas dizem que
pareço àquelas artistas da televisão sabe? Estão sempre casando e separando. Falando
assim vão pensar que sou uma megera. Ou uma vadia.
PEDRO
ERNESTO
Não... Que isso!
ANTONIETA
Pedro, Pedro.
(voz
com tom de ameaça)
PEDRO
ERNESTO
Vamos ouvir a menina e
depois você me deve explicações do por que escondeu seu nome verdadeiro todo
esse tempo.
ANTONIETA
Cala a boca Pedro Ernesto.
PEDRO
ERNESTO
Só vou calar por que quero
ouvir a menina. E ouvir suas explicações. E eu como seu marido exijo uma e
muito convincente, ‘Maria’.
(com
sarcasmo na voz)
ANTONIETA
Pedro: onde nos conhecemos
meu amor?
PEDRO
ERNESTO
Bem, que eu me lembre... No
banheiro daquele bar, o “BarBodega”.
ANTONIETA
Pedro Ernesto!
(grita
com raiva)
PEDRO
ERNESTO
Não foi?
ANTONIETA
Foi na internet meu amor!
Naquele site, lembra...?
PEDRO
ERNESTO
Ah! É mesmo. Nem me lembrava
disso.
ANTONIETA
Ah... Sim. Claro! Imagina! E
lá estava meu nome, Pedro Ernesto, meu querido! Com letras bem grandes: Maria
Antonieta.
(sarcasmo
na voz)
PEDRO
ERNESTO
Sério?
ANTONIETA
Seríssimo!
(sarcasmo)
PEDRO
ERNESTO
Ei. Não venha colocar a
culpa em mim. O assunto aqui é outro. Você é quem cometeu uma falta para com
seu marido.
ANTONIETA
“E minha prima, a Maristela, que você fica
babando quando vê suas pernas lindas só me chama de ‘Má” ou algumas vezes de
Maria.
PEDRO
ERNESTO
Nunca reparei nisso sabia?
ANTONIETA
Mas é claro. Não tira os
olhos das pernas dela! E minha cunhadinha, a sua digníssima irmã a Suellen, a
quem eu adoro de verdade só me chama de “Má” também. O pior é que foi ela é
quem me convenceu a acreditar em você e me casar. Ela conseguiu me enganar. Mas
eu a adoro. Acho que queria se livrar de você. E com razão.
PEDRO
ERNESTO
Não me venha com história.
Quer me enrolar. Você é quem mentiu para mim. Enganou-me! Todo esse tempo! Como
teve coragem de fazer isso?
ANTONIETA
Pedro, Pedro: por favor!
Quando você foi comigo no médico pela última vez? No psicólogo? No
ginecologista?
PEDRO
ERNESTO
Não lembro. O que isso tem
haver com sua mentira?
ANTONIETA
Lá eles chamam as pessoas
pelo primeiro nome, Pedro Ernesto Lorenzo, sabia disso meu amor? Maria
Antonieta Alves Cruz Lorenzo sabia disso meu amado marido?
BALCONISTA
Lorenzo é o nome de meu
primeiro marido. Melhor, “ex” primeiro marido. Foi meu primeiro namorado e meu
primeiro homem. Foi na igreja que aconteceu.
[morde
os lábios]
PEDRO
ERNESTO
Sério? Casaram na igreja?
ANTONIETA
Ainda bem que comigo foi com
outro que aconteceu a primeira vez, se é que a moça me entende.
(Antonieta pisca para a
balconista e aponta com o polegar para o marido escondendo o gesto com o corpo)
PEDRO
ERNESTO
Como assim Antonieta? Você jurou
que fui seu primeiro homem. Outra de suas mentiras?
ANTONIETA
Eu disse isso?
PEDRO
ERNESTO
Sua mãe também me confirmou
isso. Que fui o primeiro homem de sua vida!
ANTONIETA
E desde quando minha mãe
sabia de minha vida? Não sabia o que eu fazia na escola. Ela nunca foi comigo
na escola, nunca foi em nenhum conselho com os pais e nunca se preocupou
comigo. Pedro Ernesto, ela nunca se preocupou comigo. Nunca ligou para mim.
Desde que minhas notas fossem boas e não sujassem o bom nome da família.
PEDRO
ERNESTO
Como você pode me tratar
assim como a um estranho, Antonieta? Sou seu marido! Você me deve respeito e
respostas!
ANTONIETA
E você, meu querido marido,
deve-me uns setenta mil Reais; um carro novo que você sumiu com ele; deve-me
uma filha que nunca tivemos... Deixa-me lembrar de mais o que:
PEDRO
ERNESTO
Eu não acredito no que estou
ouvindo! Sua vagabunda! Deu pra outro homem e me enganou... Como fica a minha
honra?
ANTONIETA
Pedro! Eu te enganei? Você
acredita nas histórias de mamãe e nunca teve coragem de me perguntar sobre
essas coisas. Sempre com essa pose de galo, dono do galinheiro! Agora quer
cobrar de mim sua falta de atenção? Justo de mim Pedro Ernesto? Justo de quem
paga suas contas, de quem financia suas ‘brincadeiras’? Seus negócios? Tudo que
você tem. Sua loja no shopping da qual você nunca está presente? Nunca vai lá
ver como estão os negócios?
PEDRO
ERNESTO
Eu?
ANTONIETA
Sim, você! Seu descarado. E
o mais engraçado é que desde que aquela menina, a vendedora Janete saiu de sua
loja, grávida, diga-se de passagem, que você não tem mais aparecido por lá. Tem
duas semanas que você não pisa na loja. E você vem me falar em honra?
PEDRO
ERNESTO
Como você sabe disso,
Antonieta?
ANTONIETA
Tenho meus informantes.
PEDRO
ERNESTO
Deve ser aquela enxerida da
sua irmã que passa na loja para me incomodar.
ANTONIETA
Não sei. Quem sabe? Pergunte
a ela.
PEDRO
ERNESTO
Você não presta mulher.
ANTONIETA
Se eu não prestasse meu amor
já teria te largado sozinho. Ou na pior das hipóteses aprontado contigo. E ainda
não bancaria seus projetos, não te amaria. Para você eu presto e muito! Sem
mim, seria sem carro, sem loja, sem dinheiro...
PEDRO
ERNESTO
Que coragem! Você mentiu
para mim todo esse tempo e ainda quer me fazer culpado? Não mude de assunto
“Maria”.
ANTONIETA
Vai catar coquinho. Não se enxerga.
BALCONISTA
Todos eles mentem. Homens!
Todos mentiram para mim. Todos são uns cafajestes. Mas infelizmente eles têm
aquela “coisa”.
PEDRO
ERNESTO
Fica na sua menina!
ANTONIETA
Quieto Pedro Ernesto. Eles
mentem e nós mulheres acreditamos. Não é assim Pedro Ernesto? O que me diz
dessa história da Janete?
PEDRO
ERNESTO
Não mude de assunto.
BALCONISTA
Eu não consigo entender os
homens.
ANTONIETA
(faz um sinal de silêncio
com o dedo para Pedro Ernesto).
Posso ouvir o que a menina
tem para dizer?
PEDRO
ERNESTO
Que ouvir o que! A vida dela
não me interessa. Quero as suas explicações. O que vou dizer para meus amigos
quando souberem?
ANTONIETA
Xí! Escuta. Por favor?
PEDRO
ERNESTO
Eu não estou acreditando
nisso Antonieta!
BALCONISTA
Como já disse meu primeiro
marido eu conheci em uma festa de igreja. Aquelas festas nos salões. Na minha
cidadezinha sempre tem esses bailões. Era meu primo. Lorenzo. Oito anos mais
velho do que eu, era casado com minha irmã e tinha já dois filhos com ela. Com
quinze anos ela teve o primeiro filho e o segundo com dezesseis. Tadinha da
mana.
ANTONIETA
Era seu primo? E casado com
sua irmã? E você teve um caso com ele?
BALCONISTA
Quando “aconteceu”, eu tinha
quatorze aninhos. Quando engravidei dele o safado fugiu. Só que eu abortei. Por
conselho de minhas tias abortei.
ANTONIETA
E seus pais?
BALCONISTA
Minha mãe não liga para mim.
Principalmente depois que fiz o que fiz com minha irmã. Fui morar com minhas
tias, aliás, vim morar com minhas tias. Minha irmã já morava com elas e ainda
me perdoou pelo que fiz com ela. Tadinha.
PEDRO
ERNESTO
E depois quem não presta são
os homens.
ANTONIETA
Olha Pedro Ernesto. Respeita
a moça. Essas coisas acontecem.
BALCONISTA
Essas burradas eu repeti
várias vezes depois. O segundo marido que tive me amava de verdade. Jessé. Tratava-me
como uma rainha. Mesmo quando ele me pegou com outro na cama. Era cego de amor
por mim. E eu idiota não conseguia gostar dele. Era muita “babação”. Ninguém
gosta disso. O pobrezinho enforcou-se quando eu o deixei. Acredita nisso? Isso
era amor? Coragem tadinho.
PEDRO
ERNESTO
Coragem é mentir para o
marido todo esse tempo o próprio nome. Não consigo acreditar nisso.
BALCONISTA
O terceiro foi com quem trai
o Jessé. Ele tem uma irmã que saiu da loja onde trabalhava porque engravidou do
dono da loja...
(silêncio)
ANTONIETA
Como é essa história, moça?
(olham
as duas para Pedro Ernesto)
BALCONISTA
Desculpe!
(com a voz baixinha)
PEDRO
ERNESTO
Cala sua boca moça! Idiota.
ANTONIETA
Pedro, Pedro: tu não presta.
Fala moça o que você sabe.
BALCONISTA
Essa moça é minha cunhada.
Tinha me avisado que seu irmão não prestava.
ANTONIETA
(olhou
para Pedro Ernesto)
Diferente de sua irmã que
não me avisou não é Pedro Ernesto?
PEDRO ERNESTO
Antonieta respeite-me! Você
é quem me enganou. Feriu meu orgulho...
ANTONIETA
Pedro, Pedro. Se liga! Eu já
sei de tudo. A moça procurou o sindicato e eu sou a advogada do mesmo
sindicato, lembra querido? Sabendo que somos casados, por enquanto, confessou o
que aconteceu. Você fez uma coisa terrível sabia Pedro Ernesto?
PEDRO ERNESTO
E você não “Maria”
Antonieta? Escondendo-me a verdade por trás de seu nome.
ANTONIETA
Pedro! Dá um tempo tá? Se
liga!
PEDRO ERNESTO
Eu quero saber, não, eu
exijo saber por que mentiu para mim sobre seu nome.
ANTONIETA
Você está louco? Só pode ser
isso!
BALCONISTA
O Altair é o irmão da
Janete, um segurança do shopping. Um negão de 2 por 2...ummm. (morde os
lábios). Quando vi aquele homem nos corredores do shopping... ele virou minha
cabeça.
PEDRO ERNESTO
Você é bem saidinha mocinha.
ANTONIETA
Bom, nisso preciso concordar
com você Pedro Ernesto. OOhh idade!
(Antonieta
abana-se com a mão)
BALCONISTA
Minhas amigas dizem que sou
ninf...ninfo... sei lá o quê.
ANTONIETA
Ninfomaníaca. É o que você
quer dizer.
(Pedro fica olhando para a
balconista, direto para entre os seios. Antonieta dá uma cotovelada em Pedro).
PEDRO ERNESTO
Ei! Por que isso?
ANTONIETA
Tira o olho, Pedro Ernesto.
Seu chauvinista.
BALCONISTA
O que é isso?
ANTONIETA
Nada. É um elogio.
BALCONISTA
Conheci o Altair naquele
mesmo dia e na mesma noite fomos para a cama.
ANTONIETA
Crer em Deus Pai! ( faz o
sinal da cruz). Brincadeira! A vida é sua. Faça o que quiser com ela.
PEDRO ERNESTO
Livre nada! Essa piranha era
casada com o tal de Jessé. E você Antonieta concorda com essas putarias? Ela
devia explicações ao marido e você deve ao seu!
ANTONIETA
Pedro, não preciso te
lembrar de que você é cunhado extraoficial desse tal de Altair. Supostamente,
você também me deve explicações. E segundo a mocinha aqui o homem é grande,
então se cuide meu amor. O filho da menina pode ser seu. Além disso, ela vai
pedir o teste de paternidade. Eu havia esquecido te informar.
PEDRO ERNESTO
Eu já falei porra. Não tenho
nada a ver com aquela nega sem vergonha!
ANTONIETA
Tc,tc,tc. Além de tudo o
mais é preconceituoso e racista. Isso moça é ser chauvinista.
PEDRO ERNESTO
E para que tenho uma mulher
advogada?
ANTONIETA
Antes senhor Pedro Ernesto,
sou a advogada do sindicato que ela paga. Sou a defensora dela. Advogada do
sindicato dos trabalhadores do comércio, senhor Pedro Ernesto. Com isso tenho
que garantir o pão nosso de cada dia, o que no nosso caso convenhamos não é
nada barato. Já que você não ajuda, pelo contrário, ainda me apronta uma
dessas...! Você neste caso é o acusado. É questão trabalhista querido,
dificilmente o empregado perde. Pior ainda quando envolve assédio moral e
sexual. Entre outras coisas a mais. Só tenho uma coisa a te dizer: eu estou por
aqui com você Pedro Ernesto, querido marido!
PEDRO ERNESTO
Eu é quem deveria estar por
aqui com você Antonieta! E estou! Onde já se viu mentir o nome por tantos anos
em um casamento. Eu não consigo acreditar que casei com uma mulher sem saber
que ela tinha outro nome. Por que me escondeu isso?
ANTONIETA
Pedro, você é ridículo.
PEDRO ERNESTO
Devo ser sim um idiota,
imbecil, mas ridículo não.
ANTONIETA
Ridículo. Nojento. Você é
nojento, isso sim. Com uma funcionária, que ridículo. Com um mulherão desses em
casa, ó!
(mostra
o corpo com um gesto)
BALCONISTA
Desculpe o senhor conhece o
Altair?
PEDRO ERNESTO
Se conheço o Alta? Claro. É
meu irmão! Ele foi quem pediu a vaga para a irmã dele. (pigarro) a Janete só
trabalhou na minha loja por que ele pediu.
ANTONIETA
E cunhado extraoficial, não
esqueça.
PEDRO ERNESTO
Que cunhado! Isso é coisa de
sua cabeça, Dr.ª Maria Antonieta. Vê se posso com isto! Mentiu todos esses anos
para mim. E eu sou o errado nesta história.
BALCONISTA
O Altair me traiu com uma
zeladora lá do shopping acredita? Uma piranha que rouba o marido das outras. Dá
em cima de todo mundo. É bem bonitona a vagabunda, isso eu admito. Tem um
corpão. É meio gordinha mas daquela que tem tudo no lugar.
PEDRO ERNESTO
A Zeldinha? (risos) não acredito.
ANTONIETA
Andou por ali também, amor?
PEDRO ERNESTO
Eu? Tá pirando mulher? Ela não faz meu tipo.
ANTONIETA
Aaaa. Como é que pode? Suas
funcionárias fazem seu tipo? Sua esposa também? E a Janete?
PEDRO ERNESTO
Não posso fazer nada se ela
subia as escadas da loja para o depósito de vestidinhos ou saias.
ANTONIETA
E o que você tinha que ficar
olhando? Ou subir logo em seguida atrás dela?
PEDRO ERNESTO
Eu não fiz nada. Ela passou
na mão de todo mundo no shopping e
ANTONIETA
E na sua também.
PEDRO ERNESTO
Eu tenho minha consciência
limpa. Não toquei naquela menina. Além do mais não faz meu tipo. Feia, burra e
muito “queimadinha” para meu gosto.
ANTONIETA
Pedro, Pedro: cuidado com a
língua. Pode se encrencar.
PEDRO ERNESTO
Como já te disse, sou casado
com uma advogada. E além de tudo sou homem. Não sou cego e não tenho sangue de
barata.
ANTONIETA
Aaaa! Então isso te da o
direito de “enfiar” essa coisa aí onde bem entender? Debaixo de uma saia, sem
saia, sem roupa. E se fosse eu quem aprontasse com você Pedro Ernesto? Se eu
fosse com um homem que não conheço com uma doença no pau e passa-se para você?
PEDRO ERNESTO
Eu matava você e seu macho!
ANTONIETA
Aaaa, é?
PEDRO ERNESTO
É! E nosso assunto aqui é
outro. Ou já esqueceu que me deve explicações Dr.ª Maria Antonieta?
ANTONIETA
Pedro, tu é doido ou se faz?
Cara de pau eu sei que é.
PEDRO ERNESTO
Doido de raiva!
ANTONIETA
E como você acha que eu me
sinto, Pedro? Sabendo de seu casinho com sua ex-funcionária?
PEDRO ERNESTO
Sei lá eu. Isso não me
interessa, e não vem ao caso agora. Você deve-me explicações convincentes.
ANTONIETA
Como você é egoísta.
Machista. É uma anta! “não me interessa e não vem ao caso agora”. Canalha.
(imita
o marido de forma debochada)
Moça, muito obrigada.
BALCONISTA
Desculpe dona. Você é
advogada? Será que pode me ajudar em um caso ou ao menos aconselhar-me em como
agir em dois assuntos na justiça? Não sei o que fazer.
ANTONIETA
Sim sou advogada, sim. No
que te poderia ajudar?
BALCONISTA
Quero processar o Altair.
Tenho um filho com ele e o babaca não quer pagar pensão. Nunca pagou e nem me
ajuda. Eu conversei com ele, mas não tem jeito. O coitadinho não ganha bem, mas
minhas tias estão me enchendo o saco com isso. E eu ainda gosto dele. Ele diz
que se arrependeu quer voltar para mim. Minhas tias dizem que é mentira dele.
Só tá me enrolando para não pagar. Eu não sei o que fazer. E homem é assim
mesmo, não resistem a tentação. Estou pensando em dar mais uma chance pra ele.
ANTONIETA
Não vai nessa conversa não
moça. Eles se julgam inteligentes, superiores as mulheres, racionais, mas
quando veem um rabo de saia ou par de coxas ficam piores do que cachorros. Como
podem ser melhores do que nós mulheres? Trabalhamos mais, fazemos mais coisas
ao mesmo tempo e vivemos mais. Como podem ser melhores? Só se for à mentira.
Quanto ele te deve?
BALCONISTA
Dois anos.
ANTONIETA
Verdade? Dois anos? Ele está
enrolando mesmo você, querida.
BALCONISTA
Às vezes penso que sim, mas
é que gosto dele.
ANTONIETA
E a outra causa?
BALCONISTA
Meu quinto marido está na
cadeia. Era traficante de drogas. Ele jura que é inocente. Também é acusado de
matar dois homens. E o pior é que ele é colombiano. E eu sinto que ele diz a
verdade.
ANTONIETA
Que difícil você hein?
Quanto tempo ele tá na cadeia? Já saiu a sentença?
PEDRO
ERNESTO
Hum!
BALCONISTA
Não. Está onze meses.
ANTONIETA
Bem, o que posso fazer é
indicar dois amigos que são muito bons. Eles sabem o que fazer. Eu sou da área
trabalhista, resolvo casos entre patrão e empregados. Desonestidade, assédio
moral, assédio sexual não é Pedro Ernesto?
PEDRO
ERNESTO
Você se acha não Dr.ª
Antonieta? Eu estou enojado.
ANTONIETA
Acho moça, que ele não foi
ao nosso casamento, sabe?
BALCONISTA
Como assim?
ANTONIETA
O Pedro faltou ao nosso
casamento. Só estava uma carcaça lá. Quando o padre falou o meu nome antes de
trocarmos as alianças, ai se arrependimento matasse, ele me chamou de “Maria
Antonieta Alvez Cruz” (imitando a voz do padre) “você aceita esse imbecil como
marido por toda a infeliz vida que passarão juntos?” é, e eu disse: “sim,
aceito.” E sabe por que eu aceitei?
PEDRO
ERNESTO
Aceitou por que quis.
BALCONISTA
Não. Por que aceitou?
ANTONIETA
Eu estava esperando um filho
dele. Para não envergonhar minha família, e a dele, das altas rodas sociais,
aquelas de colunas sociais. Você lê jornal? Então casei com Pedro Ernesto. O
resto você já sabe, nos conhecemos pela internet, bar Bodega, e etc e tal.
(olhou para Pedro Ernesto).
Minha sorte é que já tinha o
meu “canudo”, formada em direito.
BALCONISTA
Sempre sonhei em casar na
igreja de branco.
PEDRO
ERNESTO
E quem vai ser o corajoso em
fazer isso e depois levar um par de chifres?
ANTONIETA
...E para meu azar esse
machista vai educar nosso filho igualzinho a ele. Ordinário, racista e nojento.
PEDRO
ERNESTO
Vou criar ele como um homem.
E não sou racista, tá aí o Altair para provar.
ANTONIETA
E a Janete também...?
PEDRO
ERNESTO
Cala a boc...(Antonieta faz
sinal de silêncio com o dedo na frente da boca)
ANTONIETA
Shiii. Além do mais meu
filho gosta desse crápula. E eu por mais difícil de acreditar também gosto
dele. Apesar de seu machismo, egoísmo, atitudes individualistas, dominadoras,
chauvinistas.
PEDRO
ERNESTO
Antonieta, não fale assim.
BALCONISTA
O Altair me bateu quando
descobri que estava me traindo. Pulei nele com uma faca. Aquela vagabunda era
minha amiga. Ele queria que eu aceitasse a outra. Eu e ela, imagina? Tem
cabimento isso?
ANTONIETA
Eles são assim mesmo, moça.
Machos!
PEDRO
ERNESTO
Eu mato se pegar alguém com
minha mulher.
ANTONIETA
Machões, viu? Mas tem medo
de fazer exame de próstata.
PEDRO
ERNESTO
Nunca. Não deixo e não faço
esse exame nunca. Aqui ninguém toca!
ANTONIETA
Viu? Tem medo de se
descobrir Pedro Ernesto?
BALCONISTA
Foi bem isso que meu quarto
marido disse. Mas era um disfarce. Ele era chegado. Pena que tinha um “negócio”
desse tamanho. Quando fez esse exame do toque com o médico saiu de vez do armário. O
pior é que foi o melhor marido que tive: lavava, passava, cozinhava e era um pé
de mesa daqueles, entende?
ANTONIETA
Xííí! Guarde isso como
segredo, moça. Assim você aguça a curiosidade das outras mulheres. E tem
aquelas, como sua amiga que não aguentam a curiosidade e abrem as pernas para conferirem se é verdade mesmo o que você diz. E
homem é tudo cachorro, você sabe bem.
PEDRO
ERNESTO
Nojentas.
ANTONIETA
O que é Pedro? Infelizmente estou presa a você pelo nosso lindo filho. É um teatro que devemos
encenar todos os dias de nossas vidas, sabe moça?. Tudo pela mamãe e por papai. Engraçado
não? Casei com Pedro por obrigação, para não “sujar” o nome de mamãe e papai,
por status e imagem. Fui trocada por um nome de família. Não posso sair dessa farça sem
envergonhar minha família. Mas você lindinha é em muitos sentidos mais livre do que
eu. Troca de marido quando quiser, mesmo que fique mal falada. Meu nome é uma
prisão. Só me garante bons clientes.
PEDRO
ERNESTO
Acabou? Vamos?
ANTONIETA
Além do mais minha vingança
está na defesa das trabalhadoras injustiçadas e assediadas pelos patrões
inescrupulosos. E fazem parte da sociedade machista e dominadora, que me tornou
prisioneira do casamento. Tchau moça, juízo. Estão aqui os telefones de meus
amigos advogados. Vamos logo Pedro Ernesto.
PEDRO
ERNESTO
Vamos. Você me deve
explicações. Se papai e mamãe souber disso já viu! Eles vão enfartar.
ANTONIETA
Mas eles sabem disso meu
amor.
PEDRO
ERNESTO
Mas eu não sabia. Isso é o
que me importa. Você me deve explicações.
ANTONIETA
Beijos moça. Obrigada.
BALCONISTA
Tchau, obrigada. Eu ligo...
FIM.
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