“ONDE
VOCÊ FOI VALDOVINO?”
AUTOR: André Rosa. Dezembro/2016.
Personagens:
Valdovino, marido.
Lucélia, esposa.
Engrácia, secretária.
CENA
[Uma mulher sentada em um
sofá com uma toalha de banho na cabeça, com um controle remoto de televisão na
mão. Trocando os canais de t.v. com sinais de tédio. Entra um homem na sala com
um celular na mão, sem dar atenção para a mulher sentada no sofá fecha a porta
por onde entrou. Permanece em silêncio digitando. A mulher fica olhando para o
homem que continua digitando no celular. Indignada a mulher quebra o silêncio].
LUCÉLIA – Onde você foi?
(O
homem continua digitando no celular).
- Valdovino? Onde você foi...?
(O homem de pé, no mesmo
lugar de costas para a mulher sentada no sofá faz um sinal com a mão direita,
indicando para a mulher esperar e continua em silêncio digitando no celular).
- Oswaldo Valdovino Perneta
de Andrade? Onde você foi? Está me ouvindo? Eu mereço.
(pergunta a mulher sentada
no sofá, agora sem olhar para a tv, mas com o controle remoto ainda na mão).
VALDOVINO- Oi, só um
instante.
(Responde o homem ainda em
pé sem tirar a atenção do celular).
LUCÉLIA – Valdovino...?
(Em tom de sarcasmo a mulher
chama o homem que ainda se acha em pé).
VALDOVINO – Eu... fui... na
padaria, amor.
(responde
o homem, mas sem tirar os olhos do celular).
LUCÉLIA- Na padaria, amor?
(Intima
a mulher).
VALDOVINO – Sim. Não tinha
que comprar pão? Então eu fui lá enquanto você estava
no
banho.
(Responde o homem ainda sem
olhar para a mulher e com toda a atenção voltada para o celular).
LUCÉLIA – Tem 45 minutos,
não, 48 minutos que eu entrei para o banheiro, fiquei relaxando na banheira,
ESPERANDO VOCÊ, Valdovino! (Em tom alto de intimidação) Tomei meu banho e estou
sentada aqui faz uns 10 ou 12 minutos. Sendo que a padaria é aqui do lado,
menos que cinco minutinhos você vai e volta, não dá 30 passos até a padaria...
Valdovino, você está me escutando?
VALDOVINO – hmm? Sim! Só um
pouco, já te atendo.
(O
homem continua no celular).
LUCÉLIA – Valdovino!!! [Berra
a mulher]. Seu cachorro ordinário!!!
VALDOVINO – O que?
(Responde o Homem, agora
olhando para a esposa no sofá e guardando o celular no bolso da bermuda).
LUCÉLIA - Eu não acredito
Valdovino!!!
(Com um olhar arregalado a
mulher intimida o homem, agora parado sem reação).
- Eu não acredito
Valdovino!!! Onde você foi?
(A mulher joga o controle
remoto da televisão no homem que tenta se proteger).
VALDOVINO – Esta louca
Lucélia? Quer me machucar? Vai quebrar tudo.
LUCÉLIA – Valdovino, eu não
acredito seu monstro! Seu merda! Você não pode ter ido só ali à padaria.
VALDOVINO – O que foi
Lucélia? Eu só fui ali à... Padaria!
LUCÉLIA – Quase uma hora,
Valdovino? Não... Eu não acredito Valdovino!!! Sempre se aproveitando para dar
uma escapadinha. É só eu virar as costas! Pensa que não sei que passa a noite
toda fora, Valdovino?
(começa
a chorar).
- Eu sei bem o que você foi fazer sem mim,
Valdovino! Seu cretino! Falso! Mentiroso! Você foi caçar POKEMON GO, sem mim,
não é Valdovino?
VALDOVINO – Quem? Eu? Não...
Lucélia!?!?! Quando eu passei a noite fora?
LUCÉLIA – Foi seu cachorro!
Eu sei!
VALDOVINO – Eu fui à
padaria...
LUCÉLIA – Eu sei que você
foi caçar POKEMON.
VALDOVINO – Não! Você acha
que eu faria isto com você Lucélia?
(O homem vai chegando ao
lado da esposa, senta no sofá e a abraça).
LUCÉLIA – Não minta para
mim, Valdovino! Você foi caçar pokemon! Acha que eu não conheço você? Sei
quando você está mentindo para mim. Diz a verdade! Por que ia chegar com celular o na mão?
(A mulher empurra o homem e
se levanta, mas fica em pé ao seu lado de costas para ele, mas não se afasta).
VALDOVINO – Lucélia.
LUCÉLIA – Diz a verdade
Valdovino!!!
VALDOVINO – É sério,
Lucélia! Não sei como você pode me acusar dessas coisas! Eu vou sair por aí
como um guri atrás dessas bobagens, especialmente sem você? Sei que gosta de
sair.
(O homem puxa a mulher de
volta para o seu lado. Ela tenta sentar em seu colo, ele devagar a empurra para
o sofá. Ela estranha e faz uma careta de assustada com a atitude).
LUCÉLIA – Valdovino é sério
mesmo?
(mulher franze a testa. O
homem concorda com o movimento da cabeça indicando sim).
- Olha aqui Valdovino... Eu
te perdoo por não transar comigo desde o dia 21 de setembro. Sabe quanto tempo
dá isto? Quatro meses sem sexo, Valdovino! Tu sabes como eu me sinto? Estou subindo
pelas paredes Valdovino! Eu preciso tanto, Valdovino.
(Neste momento ela tenta
subir de novo no colo do marido. Ela veste um roupão de banho e ainda está com
a toalha na cabeça, investe contra o homem, segurando o seu rosto tenta
beija-lo).
VALDOVINO – Lucé... lia... Agora
não!
(O
homem fala entre os beijos).
LUCÉLIA – Por que não
Valdovino? Faz tanto tempo que você não me “come”...
(Diz
a mulher, baixinho em tom de tristeza, abrindo seu roupão).
VALDOVINO – Agora não
Lucélia!
(Responde o homem se
afastando e levantando do sofá. A mulher começa a chorar de novo).
- Lucélia! Para que chorar
sem motivo? Só não “tô” afim agora.
LUCÉLIA – Tu não gosta mais
de mim!? Bem que a Engrácia me avisou.
VALDOVINO – Que isto amor,
eu te amo! Tu sabes...
LUCÉLIA – Então “transa”
comigo! AGORA!
VALDOVINO – Mas Lucélia,
pelos meus cálculos você está naqueles dias!
LUCÉLIA – Sim e daí?
VALDOVINO – E nossos planos?
Projetos? Filhos só daqui a dois anos!
LUCÉLIA – Mas Valdovino... Para
que tu achas que existe anticoncepcional? E preservativo? Mas por você, apesar
de não querer um filho e eu querer, e apesar de engordar, dizem, eu tomo as
pílulas para não engravidar. Ou você acha que eu finjo para você que tomo?
Dá-me esse controle.
(Os dois ficam se olhando, a
mulher limpa as lágrimas do rosto e encara o marido. Por alguns instantes ficam
em silêncio. Ela volta para o sofá onde assistia à televisão ligando outra vez,
trocando os canais seguidamente com o tédio estampado no rosto. Valdovino
quebra o silêncio).
VALDOVINO - Tem falado com a
Engrácia?
LUCÉLIA – Eu não. Ela não é
sua secretária? Você não a vê todos os dias?
VALDOVINO – Não. Ela mudou
de repartição.
LUCÉLIA – hum?
VALDOVINO - É. O povo lá do
trabalho começou com fofoquinhas...
LUCÉLIA – Como assim?
VALDOVINO – Essas coisas de
trabalho. Como ela é minha secretária, era minha secretária... E... Começaram
com conversa fiada. Você sabe as normas lá do escritório: nada de relações
amorosas. Claro que eu e ela não temos nada entre nós. (Pigarro limpando a
garganta) É tudo muito profissional. Tu conheces a Engrácia melhor do que eu,
Lucélia. Essas coisas de gente que não cuida da própria vida. Ficam de fofoca.
LUCÉLIA – Hmm. Sei!
(desconfiada)
- Mas Valdovino...diz a
verdade para mim!
(Silêncio
entre os dois)
VALDOVINO – Que verdade
Lucélia? Eu já não te disse que não tenho nada com a...
(outro
silêncio com troca de olhares)
LUCÉLIA – Você foi caçar
POKEMON não foi?
(o
homem demora a responder).
VALDOVINO – Não Lucélia! Eu
não fui caçar POKEMON! Eu fui à padaria comprar pão! Satisfeita? EU FUI À
PADARIA. Quantas vezes vou precisar repetir isso? Que não fui caçar POKEMON!!
LUCÉLIA – Tudo bem,
Valdovino. E cadê o pão que você foi comprar?
VALDOVINO – Estava fechada a
padaria.
LUCÉLIA – Sério Valdovino? É
por isso que eu não acredito em você, meu amor.
VALDOVINO – Tudo bem
Lucélia. Acredite no que quiser. Mas... Já
que tocou mais uma vez nesse assunto: quer ir caçar alguns POKEMONS lá no
centro? Na praça central. Disseram que está cheio de gente. Vamos? Tem de ser
agora.
(os olhos de Lucélia brilham
e seu rosto se ilumina com um enorme sorriso de alegria).
LUCÉLIA – Quero ir sim! É
claro que sim! Vamos!
(corre
beija o marido na boca e se dirige ao quarto de onde grita).
- Vou me arrumar.
(na sala o homem fica em
silêncio por uns instantes. Olha de lado para o quarto, pega o celular do bolso
afasta-se para um canto da sala e faz uma ligação. Protege a voz com a mão em
forma de concha e fala baixo no celular)
VALDOVINO – Engrácia? Sou
eu. É. Hoje melou. A louca não tomou os remédios para dormir. Deu o maior bafão
aqui quando cheguei... sim... mas...ela não desconfia de nada. Não dá Engrácia!
Mas... como eu vou deixar ela se tudo o que tenho foi comprado por ela e pelo
pai dela? Engrácia? Pega leve! Eu não
sou frouxo... bem, se você está na praça... sim... tá cheio de gente? Legal! Eu
sei que prometi para você. Ei, eu estou indo ai com a doida... sim, oras! O que
eu ia fazer? Para acalmar ela só assim! Isso! Você vai ter de sair dai. O que?
O que? Tá bom. Mas faz isso por mim... Beijos!
(a
mulher retorna do quarto já com bolsa e celular na mão).
LUCÉLIA – Com quem estava
falando?
VALDOVINO – Com o...
Josênio. O alarme do escritório disparou.
LUCÉLIA – Sei...
[desconfiada]
- E...?
VALDOVINO – Ele já resolveu.
LUCÉLIA – Que bom. Vamos ou
não?
VALDOVINO – Claro. “Vambora!”
POKEMON GO!
(Os
dois saem do apartamento dando risada).
FIM.