LÁ NA VILA NOVA - Moto
táxi Vá em Frente, boa noite.
-
Quero fazer uma corrida.
-
Sim senhor. Para onde?
-
Olha... eu estou no Iririu, próximo ao terminal de ônibus, sabe onde fica?
-
Sim, sei sim. Passo aí já. Para onde quer ir?
-
Estou com uma calça azul Jeans e camiseta verde.
-
Tudo bem, senhor. Espere na frente do terminal que já passo aí.
-
Você tem troco para cinquenta?
-
Sim eu levo o troco.
-
Tem roupa pra chuva?
-
Sim, mas parece que não irá chover essa noite, moço.
-
Aqui não, mas para onde vamos sempre cai uma garoa a noite.
-
Tá meu senhor, para onde será a corrida?
-
Olha...
-
Estou escutando. – já irritada responde com ironia.
-
Eu vou, bem é... nós vamos, melhor dizendo, não é trote moça, até parece, mas
não é trote.
-
Tudo bem, moço. Diga onde.
-
Não é piada moça, eu moro na Vila, sabe?
-
Sei.
-
Eu, não pense que é trote.
-
A atendente nada diz, espera o cliente responder. Paciência tem limites.
-
Sabes onde fica o “Dedo grosso”?
-
Ham? -
Sabia que iria estranhar.
-
Olha aqui moço...
-Não
moça, não é trote e nem pegadinha.
-
Olha aqui seu filho de uma puta, eu estou trabalhando viu? Vou falar pro meu
namorado e ele vai agora mesmo ti quebrar na porrada.
-
Desculpe moça, não é piada não. É sério.
-
Você vai ver o que é sério! Quando ele arrebentar a sua cara.
-
Não moça desculpe mesmo, não é brincadeira não. O Dedo Grosso fica no Vila Nova
próximo ao Buraco Quente.
-
Filho de uma puta. Não tem o que fazer? Pois eu tenho.
Desliga
o telefone.
-
Moto táxi Flash. Boa noite.
-
Com quem falô?
-
Anderson.
-
Olha só Anderson, não pense que é trote ou uma brincadeira de mau gosto.
-
Tudo bem.
-
Meu nome é Ulisses e preciso ir pra casa.
-
É por isso que temos um moto táxi.
-
Eu...
-
Onde o senhor está?
-
Aqui em frente ao terminal do Iririu.
-
E vai para onde?
-
Não é sacanagem e nem trote... o lugar é uma estrada no Vila Nova.
-
Fica tranqüilo. Para onde o senhor vai?
-
Para a Estrada do Dedo Grosso.
-
Ei, tu achas que eu estou aqui brincando? Seu vagabundo. Não tem o que fazer?
-
Eu disse moço para não ficar bravo.
-
Eu vou arrebentar a sua cara, seu cuzão! Seu merda! Eu estou trabalhando seu
pau no cú!
-
Senhor, por favor, desculpe. Não é por mal. É o nome do lugar.
Desligou.
-
Boa noite.
-
Boa noite.
-
Preciso fazer uma corrida.
-
É por isso que estou aqui.
-
Olha, sei que pode parecer esquisito, mas preciso que o senhor acredite em mim.
-
Diga.
-
Já ouviu, ou fez uma corrida para a Estrada do Dedo Grosso na Vila Nova?
-
Olhe aqui, seu filho de uma puta! Diz onde estás que vou aí ti arrebentar.
Corno.
-
Desculpe moço, não estou brincando, desculpe. É mesmo o nome da estrada.
-
É o nome te tua mãe!
-
Não. Ela mora no Buraco Quente que fica lá perto.
Desligou.
O
que vou fazer? Pensa Ulisses.
.
-Oi
boa noite moço.
-
Moça. Boa noite. Sandra.
-
Oi Sandra. Tudo bem?
Do
outro lado da linha a pessoa não responde.
-
preciso ir pra casa, mas estou com um problema.
Silêncio.
-
Moro em um lugar que tem um nome, como posso dizer?
Desligou.
Que
droga. Não tem mais ônibus a essa hora. Táxi vai ficar caro. E Uber não vai querer ir também. O que
faço? Vou encontrar um moto táxi pessoalmente e conversar cara a cara.
Caminha
até encontrar um moto táxi.
-
Boa noite, moço.
-
Boa noite.
-
Preciso ir pra casa.
-
É só dizer onde que ti levo lá.
-
Sabe onde fica a Estrada do Dedo Grosso? É lá na Vila Nova.
-
Ah, é você quem está passando trote por aí seu filho de uma puta?
O
motoqueiro avança contra Ulisses desferindo socos e ponta pés, que se defende
como pode.
-
Ei, Nilton, Adilsom, Pé, vem cá! – grita o motoqueiro chamando os outros que se
encontram dentro da loja. Esse é o lazarento que está passando trote por aí.
-
Vamos quebrar esse viado, filhodeumaputa. Vai ver agora o que é bom pra tosse.
A
coisa engrossa, os agressores e o agredido vão parar no meio da rua trocando
socos, chutes, e defesas. Quase são atropelados. Buzinas aumentam a tensão e a
gritaria. Chega então, a polícia, que por ali passava. A sirene aparta a luta,
os transeuntes que pararam para ver e os automóveis que buzinavam. Agindo
rápido os brigadianos separam os contendores e mandam os curiosos irem pra
casa. A coisa acalma um pouco.
-
Esse filho da puta aí fica passando trote pra nós que estamos trampando.
-
Aí, cidadão. Vou facilitar as coisas para o senhor: vai pra casa antes que o
enquadre em uma dúzia de crimes. – sugere um 2º tenente.
-
Desculpe seu sargento.
-
2º Tenente. – exclama irritado o policia.
-
É que moro na Vila Nova. Na verdade na Estrada do Dedo Grosso.
-
Onde? – um dos militares não entende.
-
Ei. Você... é... O senhor... não tem uma irmã que mora por lá? No Buraco
Quente? É perto do Dedo...
Não
termina a frase leva um tabefe no pé da orelha e cai sentado. Só o que
consegue ver são estrelinhas.
-
Vão já daqui! Acabou a brincadeira! Berra 2º Tenente para curiosos e os
motoqueiros. Saem todos. Uns indignados outros comentando a violência e outros
achando que o rapaz mereceu.
Os
policiais levam para a viatura onde desmaiou. Voltam à
ronda.
Depois
de uns minutos o segundo tenente indica a direção ao cabo Valfredo que deve levá-los
a Vila Nova. O cabo, curioso, sem ironias com o superior, pergunta ao tenente
se existe mesmo esse lugar. Na qual o tenente confirma sacudindo a cabeça
afirmativamente.
-
Tem. Criei-me nesse lugar. Minha esposa é do Buraco Quente e minha irmã ainda
mora lá na Estrada do Dedo Grosso.
A
viagem segue num silêncio cauteloso.
-
E agora para onde?
-
Segue até o final e vire à esquerda.
Enfim, param por ordem do Tenente.
-
É aqui. Tem uma estrada de chão a uns dois quilômetros pra lá. Ou ele anda ou
pede carona.
Deixam
Ulisses na calçada encostado a um muro. Minutos depois o tenente
confessa aos outros soldados dentro da viatura.
-
Só bati naquele idiota por que o irmão dele estudou comigo e roubava minhas
canetas. – silencia. E ainda – retoma – comeu e engravidou minha irmã. O babaca
não assumiu. Isso foi há muito tempo quando morávamos no Buraco Quente.
FIM