segunda-feira, 5 de julho de 2021

O PADRE ADOLFO.

 

O PADRE ADOLFO.

 

         Com o fim da missa o padre Adolfo encontra-se sozinho na igreja. Uma grande nave longitudinal estrutura o edifício. Vitrais coloridos enfeitam as grandes janelas laterais. As paredes são como painéis de pinturas com imagens da via Crucis também muito coloridas. Tristes imagens, contudo. A imaginação dos fiéis que ali colocam os pés é lançada a um patamar além da compreensão da materialidade na qual existimos.  Dentro do templo o mundo material tem menos importância do que o espiritual.

         Padre Adolfo não concorda. Sente em seu coração que aqui na Terra é onde se resolvem as coisas e problemas. No mundo material é onde tudo se decide e define. Onde acontecem as ações dos Homens. “Depois daqui o que temos?” interroga-se sempre em suas meditações. Duvidas o sufocam. Perigoso incorrer em pecado contra o Santo Oficio, todavia, não pode evitar. Portanto, aqui é onde devemos agir.

         A Igreja deveria estar ao lado dos mais pobres, como ensinou o nosso senhor Jesus Cristo, insiste padre Adolfo. O que a Igreja tem feito foi apoiar o poder instituído junto às classes dominantes, mantendo os pobres vassalos dessas forças centrífugas e esmagadoras. Para Adolfo, foi vergonhosa a posição escolhida pela alta cúpula sacerdotal por muitos anos.

         Padre Adolfo estudou filosofia, antropologia, arqueologia e está a finalizar psicologia. Isso tem mantido os pés do padre no chão. Acredita piamente nas ações terrenas. Por hora o padre não conheceu ninguém que foi e voltou para confirmar o Paraiso, e também a existência do Inferno.

         Terminada a missa, o jovem pároco prontifica-se a arrumar a igreja. Nessa ação de humildade tenta não levantar suspeitas dos outros sacerdotes. Varre, limpa as mesas do oratório, deixa tudo pronto para a próxima missa. Contudo, um motivo muito mais profundo esconde-se nessa entrega devocional. A fome e a miséria tem um endereço certo nesta cidade antiga. Uma estrada de chão leva a um lugar chamado Aguardente. Imagina você, amigo leitor, o por quê? Ali decidiram montar moradia a miséria, a fome e a violência social junto dos invisíveis e miseráveis da região.

         Com o avanço tecnológico pelo campo, em nome da produtividade, imensas colheitadeiras assaltaram o trabalho de muitos lavradores e pequenos proprietários de terras, de onde tiravam seu sustento. Suor e labor nas mais diversas culturas agrícolas. Esses ficaram a ver navios com o rolo compressor chamado Progresso. Quem, as cidades se dirigiram, encontraram um futuro incerto, quem decidiu ficar tropeçou com seu destino no Aguardente.

         Dirigindo essas palavras bonitas de se ouvirem - Progresso, Agroindústria, agronegócio – governam esse país desde que era colônia de Portugal: os latifundiários. Recebem verbas avultosas, difundem a monocultura e procuram por “verdinhas” no mercado internacional para venderem seus produtos a lucros exorbitantes. A nós, sobram a catástrofe ambiental e a miséria dos que não participam dessa roleta russa gigante e internacional.

         Padre Adolfo vê aí uma inversão perversa dos valores sociais e cristãos difundidos até pela Madre Igreja. Resolveu, então, levantar-se contra essa injustiça e sair à luta. É uma ação não muito normal para um sacerdote de Deus, Esse sabe que o que faz é pelo bem do próximo, e o que faz tinge muitas duvidas em seu coração e mente. O padre espreita a grande e extensa nave da Igreja, não há ninguém. Instantes se passam. Nada. Não ouve passos nem vozes. Retira das doações e dízimos o dinheiro com o qual tem feito diversas ações no Aguardente. Acha que não levantará suspeita, e o que acha está achando errado. Não demora muito a chegada dessas suspeitas.

         Dias atrás, em seu trabalho de limpeza da igreja, em um domingo chuvoso, seus pensamentos em seu Tuta, pescador residente no Aguardente, teve sua canoa quebrada, entra um dos coroinhas que o chama de suas preocupações.

- Padre? O bispo quer lhe falar.

- Sim. Já vou. Muito obrigado.

         O que será que quer? Questiona-se.

         Pelos corredores caminha, a pulga atrás da orelha o segue. Entra na sala da administração onde se encontram o bispo, o padre João, uma fiel chamada Utah, conhecida encrenqueira e bisbilhoteira da paróquia, e seu Alberto, contador e auxilia na administração do santo espaço.

         Olhares e silêncio são trocados. O bispo é magro, rosto pequeno, óculos redondos que cobrem negras bolotas parecidas com jabuticabas. Sobrancelhas grossas e negras sobressaem acima das lentes. Sereno, sempre, traduz em palavras pensadas e no tom de voz.

         - Sente-se, padre. Serei breve.

         - Obrigado.

         Padre João, cabelos branco, não muito alto, contudo, ao lado do bispo lembra a um gigante. Olhos vivos, de sotaque mineiro, sabe da distância entre a igreja e os mais pobres, porém, politico, não entra em conflito com a hierarquia existente entre os sacerdotes católicos. Viveu por anos na África, pertence a Opus Dei. Bom músico e jogador de futebol amador de times de várzea. Muito popular entre os fiéis.

         Utah é baixinha, socada, parece não ter pescoço lembrando um Bulldog, sempre de rosto fechado, emburrada, lábios apertados, de mal com a vida mesmo. Seus olhos azuis piscina escondem-se atrás de toda a truculência ostentada pelo seu rosto.

         O contador seria imperceptível se não respirasse. Ou mecanicamente, como uma mania, não parasse de mexer em seus óculos. Chega a irritar. De pouca conversa, tem de si mesmo até a intenção de não chamar a atenção.

         Adolfo aguarda. Expira calma, desconfiando do que vem por ai. Deixa impresso um sorriso maroto escapar de seus lábios reforçando sua personalidade simpática que todos conhecem. Incomoda muita gente da paróquia, sabe disso também. Contradiz com a visão de alguns fieis de como deve ser um padre.

         - Padre Adolfo – desperta o padre de um transe de pensamentos involuntários a suave voz do bispo – seremos breves e poderá retornar ao que estava fazendo. Não se preocupe.

         - Não estou preocupado. Devolve ao bispo a preocupação em palavras serenas.

         - sim, sim, claro. Concorda o bispo.

         O incomodo com meias palavras rusga no rosto da única mulher na sala seu descontentamento. Aperta ainda mais os lábios e enerva as sobrancelhas até quase não se poder ver seus olhos azuis. Aperta a pequena bolsa que leva entre os dedos deixando-os vermelhos. O padre levanta as sobrancelhas de forma que permite entender que está estranhando sua atitude.

         - O senhor sabe que, como todas as igrejas e paróquias dividem seus dízimos com Roma, a nossa também tem essa responsabilidade. Sabe, ou não sabe?

         - Claramente.

         - E o padre também sabe que são avultosas as despesas que temos em nossa paróquia, tanto quanto qualquer outra paróquia. Mesmo o Vaticano.

         - Sim. Só não sei aonde vossa reverência quer chegar.

         Um silêncio esquisito toma a sala. Parece impermeável. Um pigarro coçado pelo bispo denuncia sua situação delicada.

         - Bem. Estamos sentindo uma queda na arrecadação da igreja. Dízimos. Emudece.

         - E? – Padre Adolfo finge não ter entendido aonde quer chegar com aquela conversa o bispo.

         Incomodado, o bispo coça a cabeça, ajeita-se na cadeira e suspira fundo. Retira do bolso da vestimenta religiosa um pequeno lenço com o qual limpa as lentes de seu óculos. Revista contra a luz que entra pela janela na limpeza que fez. Satisfeito volta a falar.

         - Padre Adolfo... Peço-lhe mil perdões. Por essa situação constrangedora. Pode retornar aos seus afazeres.

         O jovem levanta-se. Inclina levemente a cabeça aos presentes em sinal de despedida saindo silencioso e rápido da sala. Os presentes não se olham. O bispo sim encosta-se à grande cadeira a qual senta e outra vez suspira profundamente. Pensa.

         - Padre João? Consiga uma transferência para nosso amigo. No exterior de preferência. Sem alarde. Que não seja agora. Deixe passar três meses.

         - Sim senhor bispo. Farei o necessário.

 

                            VERÃO/JAN/2020.

 

 

 

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