NEGOCIANDO DESTINOS NO CÉU
- Diabo? Diabo?
O susto que leva o senhor das profundezas pela
força das batidas na porta não é um bom sinal do que vem por aí. A entidade,
sentada ao sofá lê, ou lia, calmamente um jornal, pergunta quem é que o chama
mesmo sabendo de quem se trata. Controla-se do sobressalto respirando e pedindo
clemência num surdo murmúrio.
- Quem é?
- Diabo. Papai quer
falar com você.
- Emanoel?
- Papai quer falar
com você.
- O que houve
Emanoel?
Paciente o Diabo atende o irritado homem
barbudo que por pouco não derrubou sua porta. Convida-o a entrar com um sinal
do braço dando passagem e oferece, por cortesia, algo para beber. Emanoel até
aceita se tiver suco de maracujá, já que seus nervos estão a flor da pele. O
Diabo vai a cozinha prepara um suco, tem também um copo de água com açúcar,
serve ao homem com delicadeza que agradece.
- Papai quer falar
com você.
- Não sabe o que
Ele quer Emanoel?
- Não! Responde com
irritação.
- O que aconteceu
que está tão irritado Emanoel? Essas últimas semanas você está bem difícil, hein?
- Se todos sempre
pedissem favores a você, o tempo todo, eu queria ver se não ficaria irritado
como estou! Jesus isso, Jesus aquilo! Agora até o Papai me usa como garoto de
recados! Favores! Favores!
- Sei bem. Sou Eu o
culpado de tudo. “ A culpa é do Diabo”.
- Mas você ainda
pode se vingar torturando quem te incomodar. E eu?
- Depois de tanto
tempo vira rotina. Igual trabalho.
A porta então se
abre dando passagem a uma bela mulher de curvas generosas, longos cabelos
negros bem cuidados e brilhantes, um short jeans da moda, cigarro entre os
dedos, pele vermelha, pequenos cornos saindo do alto da testa onde prende
seus óculos escuros de grandes lentes arredondadas. Encara os dois homens sentados no sofá, sucinta disfarça a surpresa, baixando os olhos para a poltrona desocupada onde deixa cair as bolsas que trás consigo.
- Oi, Emanoel.
Cumprimenta a visita sem calor na voz.
- Oi, responde o
Salvador.
Tinhosa se furta de
cumprimentar o companheiro que percebe a irritação na atitude da mulher.
Segue-a com os olhos até a entrada do quarto, o que escapa de seus pensamentos
a frase “é hoje”.
- Cê vê Diabo. Nem
casar eu posso.
- Admito que isso
seja um castigo cruel. Mas você sabe de sua posição.
- Tem dois mil
anos! São novos Tempos.
- Pergunte ao seu
Pai, Ele tem que dar um jeito.
- A Tinhosa é
sempre assim, brava?
- Quase.
- Eu sei que você é
o Senhor das mentiras.
O Diabo abre os
braços em sinal de incompreensão.
- Papai quer falar
com você. Amolado, Jesus levanta-se sem se despedir e sai furioso, visível nos
passos que o denunciam.
O Diabo dirige-se
ao quarto de casal onde Tinhosa toma banho na suíte de porta aberta.
Aborrecido, briga com a mulher, a qual se limita a admirar da altura de sua
beleza e arrogância, o queixoso.
- Trate-o bem. Só
isso. Ele não pediu para ser quem é. Disse, alvoroçado o Diabo.
Tinhosa lança um
beijo apoiado pela mão para o marido, virando-se e exibindo, de imediato, suas
curvas longamente desenhadas, das costas passando pelos glúteos até os tornozelos
delineados. A risadinha que deixa escapar completa a posse das vontades do homem que ali de pé a mira.
- Droga, mulher!
Você sabe que não resisto aos seus feitiços. Oh, mulher do Diabo!
A gargalhada
emitida por Tinhosa é o ponto final da discussão. O cramunhão se despe, entrando
no banho junto à mulher que lá o espera.
- Tentação!
- Senhor?
- Sente-se.
Por instantes um
obtuso silêncio é mantido enquanto Deus alcança da gaveta de sua escrivaninha
uma caixa a qual abre entre movimentos contidos e monta as peças de um
tabuleiro de xadrez.
- Vamos jogar,
disse afinal.
Cantarola uma música
não identificada pelo Senhor das Profundezas, mantendo os olhos nas mãos
do Pai Eterno, conhecido também por Pai do nazareno.
- O Senhor sabe –
quebra o silêncio o Satanás – que Emanoel está passando
por problemas.
- Sei. O Criador
precipita-se dominador e concordante. Depois de dois mil anos Ele ainda não se acostumou. Vai superar.
- E o que o Senhor
quer comigo?
- Bem – antes de
falar o Criador estuda o movimento da peça feita pelo demônio. Satanás não
entende porque esse Barbudo perde tempo ainda jogando se tudo Ele sabe. - Conhece os
filhos do Zé Pedro? Nininha, Pedrinho, Agnaldo e Aélison?
Aélison? Pensa o
Diabo, quem foi o cão que batizou o menino com esse nome dos infernos?
Com um leve acenar
de cabeça, afirmativo, o Demônio conclui a resposta.
- Quero saber por
que prejudica tanto aquela gente?
- Não estou
entendendo, Senhor. Poderia ser mais... Claro?
- Eles culpam a
Você por todos os males que os afligem.
- Desculpa, mas,
eles ainda nem caíram em meu colo, se assim posso dizer, Senhor.
- Você sabe
Mefistófeles, que todos os problemas da Humanidade recaem sobre você.
- Eu não tenho
poder sobre o mundo dos homens – rápido defende-se da acusação – se o castigo
os leva ao meu reino, aí então, e juro que sigo todas as regras, é por culpa
deles próprios, Senhor. Livre Arbítrio.
- Preciso culpar
alguém Mefistófeles!
- Ah. Claro.
Sarcástico o Senhor das Trevas aceita a vontade de Deus – estou às ordens.
- Pense como um
castigo a você. Essa família está com muitas dificuldades na mortal vida que levam.
- Só essa família,
Senhor?
- O que Eu quero –
não dá caso ao sarcasmo do Diabo e continua com seu plano – é que os meninos
sejam exemplos para os outros milhões de viventes com dificuldades no mundo
mundano. Quero ajudar um pouco a eles.
O que passa pela
mente do Diabo é um só me faltava essa.
- E onde entro
nisso, Senhor?
- Preciso que se
encarregue de botar pedras no caminho deles. Com brandura.
- Senhor? Se não
sabe eu não tenho influência nenhuma na vida dos mortais.
- Eu sei Diabo!
Irrita-se. Quero acreditar que ainda mando e sou obedecido, homem. Você é o
único que ainda me ouve.
- Senhor, perdão.
- Nós dois sabemos
que isso não diminuirá o número de condenados ao inferno.
- Cada dia diminui
mais Senhor.
- Mefistófeles! Não
mintas, por favor.
O chifrudo,
envergonhado diante de Deus enterra a cabeça entre os ombros.
- Então, espero que
resolva para mim esse problema – disse docemente Deus.
- Vou fazer o
melhor ao meu alcance.
- Agora – encerrando
o assunto, Deus retoma sua posição de Senhor – termine de jogar.
Mefistófeles
movimenta uma peça, sem esperança no resultado, pois, eles já sabem qual o
final do jogo.
- Você é
previsível, disse o Criador.
- Então Senhor, o
Diabo aproveita a deixa para fazer uma proposta. Se eu resolver o que tu me
pedes posso exigir uma contra partida?
- Diga. Deus disse
após instantes de pensamentos desconfiados.
- Jogar, uma vez,
uma partida destituída da visão do futuro?
- E abrir mão de
vencer você?
Irritado o demônio
encolhe-se num abraço com o silêncio. Até o fim da previsível partida.
Resultado mais do que esperado.
- Xeque-mate. Disse
do alto de sua arrogância expressa nas gargalhadas pachorrentas.
Ao sair do salão
divino o demônio tem planos articulados para o pedido do Todo Poderoso. Emanoel
vem em sua direção resmungando sozinho, esbarra com ele como se não existisse e
continua com a marcha impaciente nos passos de chinelos gastos. Distante
dirige-se ao perguntar se já falou com o Pai. Complicados esses homens de Luzes, pensa o demônio.
Em casa o demônio
margeia a vida dos mortais legado aos seus cuidados. Algumas pedras são
colocadas pelo caminho dificultando a passagem e escolhas da vida. Tinhosa,
curiosa, aproxima-se procurando saber o que seu companheiro tanto faz nesse
longo tempo que passa no computador do escritório. Ele sai, volta, fuma, respira, e volta, interessado mais nesse trabalho do que na tortura dos condenados por esses
últimos tempos. Roça suas belas pernas no corpo do Diabo. Esse não se importuna
com essa tentação. Mantém atenção na tarefa que lhe foi destinado.
- Sabe que estou
sentindo sua falta, Diabo? Sugere ao pé do ouvido da entidade com melodiosa voz
tentadora.
O Diabo murmura
palavras sem significado. Tinhosa afasta as mãos do amante sentando em seu
colo. O Diabo continua com a atenção na árdua tarefa depositada a ele pelo
Senhor de todas as coisas. A fogosa carinha o companheiro enquanto lê o que ele
escreveu. Curiosa questiona o porquê daquilo.
- Não sei Tinhosa.
Pergunte a Ele.
- Me arrepio toda
só de pensar em ir aquele Salão. Tinhosa lê em voz alta o escrito. “Pés
descalços no frio do inverno; dezoito quilômetros diários para ir até o
colégio? Inicia a falar com sete? Nininha abusada pelo tio dos doze até os
vinte e um?” coitadinha homem! “Pedrinho casou com uma herdeira de fazenda e
fortunas?” Você tá mudado Homem!
Com o passar dos
tempos às coisas vão acontecendo na vida dos jovens. Esses ascendem à vida
adulta com muitas dificuldades. Passam pela fome, vivem na rua ao mudarem para
a cidade grande, brigam, choram, sofrem. Contudo, é encaixado pelo caminho o
destino virtuoso programado para eles.
Pedrinho tornou-se
fazendeiro. Aguinaldo escritor de sucesso, cartunista famoso nos meios, superou
sua dificuldade de falar através de seu talento com as Letras e a arte do
desenho. Ajudou muitos jovens a encontrarem uma oportunidade como a dele.
Todavia, a pedra que encontram no caminho precisa ser ultrapassada. O demônio
não facilitou a vida desses mortais. Aguinaldo esconde um segredo com o qual
precisa lutar por toda a vida: sente uma vontade insana invadir seu corpo
precisando com todas as forças controlar-se a aproximação de meninos e meninas
em suas aulas de desenho. Sequentemente sofre depressão e já diversas vezes
cogitou arriscar-se ao suicídio.
Pedrinho não
compreende seu ranço pelas pessoas. Homens e mulheres. Isso acentua sua
indiferença ao descaso com que trata as pessoas a sua volta.
Aélison tornou-se
professor universitário. Medicina, Direito e Antropologia. Alcoólatra. Diversas
vezes largado na sarjeta sempre socorrido por seus estudantes. Não casou. Caso
teve mais jovem, com uma professora não correspondida. Tem nas bebidas sua
muleta.
E Nininha?
Perseguida pelos pesadelos passados, tanto quanto pelos homens enfeitiçados por
sua beleza, inteligência e talento para transformar em ouro os negócios aos
quais toca, tem as mesmas dificuldades dos irmãos com acréscimo por ser mulher
no mundo machista. Dominadores, os homens tentam impor suas vontades sobre
Nininha, o que faz o Diabo injetar muita rebeldia no sangue da mulher,
percepção do mundo e da vida. Desejo de liberdade e vontade férrea. Nininha é
cantora de sucesso, escritora, artista, ativista e feminista. Isso deixa o
Criador cismado. Cobra, então, um relatório do demônio.
- Você quer me
irritar, Diabo?
Nada responde
Mefistófeles.
- Mulheres criam
mais turbulências do que deveriam. Inteligentes, belas, fervem o sangue e o
coração dos mortais. Guerras são iniciadas por causa delas. Tróia, Diabo, Tróia!
- Por que as criou
então, Senhor?
Deus alcança da
gaveta o tabuleiro de xadrez, arruma as peças, movimenta um peão. Demonstra,
irritação em sua divina voz.
- Jogue, manda.
Tenta controlar-se, pois Ele é Deus.
- Não sei ainda por
que jogo com você – disse o Diabo sendo sarcástico. Refaz a pergunta na
tentativa de dilatar o mau humor de Deus.
- Por que as criou
Senhor?
Suspira forte e
Deus cruza os braços atento a partida recostando-se ao trono coçando a enorme
barba que cultiva há milênios.
- Que encrenca
meteu a gente, Senhor. Escravos dos seres mais belos e inteligentes da
Existência.
- Só jogue. Deus encerra, com uma ordem, a conversa.
FIM.