sábado, 10 de julho de 2021

SAMBA NO MORRO ou PARA QUEM ENTENDE DE SAMBA.

 

SAMBA NO MORRO ou PARA QUEM ENTENDE DE SAMBA.

        

        Sexta, sábado e domingo. A roda de samba no alto do morro canta as mazelas e conta as malícias do povo contra um sistema de privilégios que empurra a nós, trabalhadores, para a margem da sociedade contemporânea. Quanto mais alto a melanina de sua pele, mais próxima fica a margem social dos esquecidos.

         A roda de samba é aberta a todos. Comida, peixe frito, cerveja, refrigerantes e muita alegria. Um dos puxadores do samba é Munico. Dependendo de quem, e o que vem procurar, a letra cantada por Munico é acompanhada dos demais sambistas num animado coro, entre sorrisos, entendimentos, olhares e recados pré-estabelecido.

         Com a chegada de um homem, de cabelos brancos entre fios pretos, esses o denunciam passar da casa dos quarenta, leva Munico a colar seus olhos no recém-chegado, entendido, aguarda o fim da canção. Os sambistas molham a garganta com cerveja gelada. Então Munico inicia outra música, de arrasto tem a mensagem no entrelinhas.

         - É cocada boa não é/

           Cocada boa.

         Entendido? É por aí que vai a coisa.

         Para se chegar à roda tem de ter alguém autorizado e que o batize, um padrinho, uma madrinha, que vá com a cara do consumidor que ali quer comprar o que vendem no morro. Esse padrinho deve deixar inteirado de como funciona o movimento dentro da roda de samba. A aprovação de quem pode participar parte de todos os músicos da roda de samba. Quando alguém não é de confiança, também é Munico quem dá o lance cantando de acordo, avisando que a barra tá suja e, é preciso segurar até sair os sujeiras.

         - Era caguete sim/

           Era caguete sim/

           Até no velório o defunto apontava pra mim.

         - Se gritar pega ladrão/

           Não fica um meu irmão/

           Se gritar pega ladrão/

           Não fica um.

         E esse:

         - Vou apertar/

           Mas não vou acender agora/

           Vou apertar/

           Se segura malandro/

           Pra fazer a cabeça tem hora.

         Sempre as mensagens sugeridas estão escondidas na música cantada pelo grupo. Um grupo de moças se aproxima da roda. Munco e os outros cantores lançam olhares para as jovens que sambam, bebem cerveja enquanto aguardam as “ordens” de Munico.

         - Dá uma geral/

           Faz um bom defumador/

           Encha a casa de flor/

           Que eu tô voltando.

         Terminada a música, Munico dá um golaço na cerveja de seu copo e seca-o. Alguns instantes silenciam todos, enquanto parece pensar. Meche nas cordas do cavaquinho, acelera as notas que toca e solta à voz.

         - O meu vizinho jogou uma semente em meu quintal/

           E Derrepente brotou/

           Um tremendo matagal/

           O meu vizinho jogou.

         Uma das moças, ruiva, de sardas que cobrem a pele branca de seu rosto escondido entre seus cacheados cabelos, enquanto samba, de copo com cerveja na mão, dirige seus olhos para Munico e sua música que puxa. Faz um sinal com o dedão de entendida, sorrindo, volta a ter com as amigas. Por fim, Munico puxa outro samba com mensagens para os entendidos de seus negócios.

         - Madalena, Madalena/

           Você é meu bem querer/

           Eu vou falar pra todo mundo/

          Vou falar pra todo mundo/

           Que eu só quero é você.

         Todavia, a moça, sabida das regras a adotar, tem de cumprir os passos: deixar findar a canção, sozinha, dirigir-se a casa da tia de Munico chamada Madalena, onde encontrará o que veio buscar. Outro grupo sobe e outro samba é animado na voz de Munico e seus companheiros de roda de samba.

         - Ô, Irene/

           Ô, Irene/

           Vai buscar querosene para acender o fogareiro/

         Então, o negócio está com a cabelereira Irene. Famosa no alto da comunidade. Outro samba insinua que é preciso ir à frutaria do Alvino.

         - Fui no pagode/

           Acabou a comida/

           Acabou a bebida/

           Acabou a canja/

           Sobrou pra mim/

           O bagaço da laranja

         Entendidas ambas as partes, a roda de samba de Munico teve um fim trágico. Com quinze anos de existência certo governador subiu em um helicóptero de onde gravava lives para redes sociais respondendo a seus eleitores, pagando promessas de que estava dando cabo, finalmente, do problema que aflige grande parte da sociedade carioca: o tráfico de drogas controlado pelos favelados dos morros da cidade.

         Incrível como os mesmos grupos sociais que alimentam esse mercado são os mesmos que exigem pela moralização da sociedade, pedem por segurança, e por justiça.

 

                            PRIMAVERA/NOV/2020.

segunda-feira, 5 de julho de 2021

O PADRE ADOLFO.

 

O PADRE ADOLFO.

 

         Com o fim da missa o padre Adolfo encontra-se sozinho na igreja. Uma grande nave longitudinal estrutura o edifício. Vitrais coloridos enfeitam as grandes janelas laterais. As paredes são como painéis de pinturas com imagens da via Crucis também muito coloridas. Tristes imagens, contudo. A imaginação dos fiéis que ali colocam os pés é lançada a um patamar além da compreensão da materialidade na qual existimos.  Dentro do templo o mundo material tem menos importância do que o espiritual.

         Padre Adolfo não concorda. Sente em seu coração que aqui na Terra é onde se resolvem as coisas e problemas. No mundo material é onde tudo se decide e define. Onde acontecem as ações dos Homens. “Depois daqui o que temos?” interroga-se sempre em suas meditações. Duvidas o sufocam. Perigoso incorrer em pecado contra o Santo Oficio, todavia, não pode evitar. Portanto, aqui é onde devemos agir.

         A Igreja deveria estar ao lado dos mais pobres, como ensinou o nosso senhor Jesus Cristo, insiste padre Adolfo. O que a Igreja tem feito foi apoiar o poder instituído junto às classes dominantes, mantendo os pobres vassalos dessas forças centrífugas e esmagadoras. Para Adolfo, foi vergonhosa a posição escolhida pela alta cúpula sacerdotal por muitos anos.

         Padre Adolfo estudou filosofia, antropologia, arqueologia e está a finalizar psicologia. Isso tem mantido os pés do padre no chão. Acredita piamente nas ações terrenas. Por hora o padre não conheceu ninguém que foi e voltou para confirmar o Paraiso, e também a existência do Inferno.

         Terminada a missa, o jovem pároco prontifica-se a arrumar a igreja. Nessa ação de humildade tenta não levantar suspeitas dos outros sacerdotes. Varre, limpa as mesas do oratório, deixa tudo pronto para a próxima missa. Contudo, um motivo muito mais profundo esconde-se nessa entrega devocional. A fome e a miséria tem um endereço certo nesta cidade antiga. Uma estrada de chão leva a um lugar chamado Aguardente. Imagina você, amigo leitor, o por quê? Ali decidiram montar moradia a miséria, a fome e a violência social junto dos invisíveis e miseráveis da região.

         Com o avanço tecnológico pelo campo, em nome da produtividade, imensas colheitadeiras assaltaram o trabalho de muitos lavradores e pequenos proprietários de terras, de onde tiravam seu sustento. Suor e labor nas mais diversas culturas agrícolas. Esses ficaram a ver navios com o rolo compressor chamado Progresso. Quem, as cidades se dirigiram, encontraram um futuro incerto, quem decidiu ficar tropeçou com seu destino no Aguardente.

         Dirigindo essas palavras bonitas de se ouvirem - Progresso, Agroindústria, agronegócio – governam esse país desde que era colônia de Portugal: os latifundiários. Recebem verbas avultosas, difundem a monocultura e procuram por “verdinhas” no mercado internacional para venderem seus produtos a lucros exorbitantes. A nós, sobram a catástrofe ambiental e a miséria dos que não participam dessa roleta russa gigante e internacional.

         Padre Adolfo vê aí uma inversão perversa dos valores sociais e cristãos difundidos até pela Madre Igreja. Resolveu, então, levantar-se contra essa injustiça e sair à luta. É uma ação não muito normal para um sacerdote de Deus, Esse sabe que o que faz é pelo bem do próximo, e o que faz tinge muitas duvidas em seu coração e mente. O padre espreita a grande e extensa nave da Igreja, não há ninguém. Instantes se passam. Nada. Não ouve passos nem vozes. Retira das doações e dízimos o dinheiro com o qual tem feito diversas ações no Aguardente. Acha que não levantará suspeita, e o que acha está achando errado. Não demora muito a chegada dessas suspeitas.

         Dias atrás, em seu trabalho de limpeza da igreja, em um domingo chuvoso, seus pensamentos em seu Tuta, pescador residente no Aguardente, teve sua canoa quebrada, entra um dos coroinhas que o chama de suas preocupações.

- Padre? O bispo quer lhe falar.

- Sim. Já vou. Muito obrigado.

         O que será que quer? Questiona-se.

         Pelos corredores caminha, a pulga atrás da orelha o segue. Entra na sala da administração onde se encontram o bispo, o padre João, uma fiel chamada Utah, conhecida encrenqueira e bisbilhoteira da paróquia, e seu Alberto, contador e auxilia na administração do santo espaço.

         Olhares e silêncio são trocados. O bispo é magro, rosto pequeno, óculos redondos que cobrem negras bolotas parecidas com jabuticabas. Sobrancelhas grossas e negras sobressaem acima das lentes. Sereno, sempre, traduz em palavras pensadas e no tom de voz.

         - Sente-se, padre. Serei breve.

         - Obrigado.

         Padre João, cabelos branco, não muito alto, contudo, ao lado do bispo lembra a um gigante. Olhos vivos, de sotaque mineiro, sabe da distância entre a igreja e os mais pobres, porém, politico, não entra em conflito com a hierarquia existente entre os sacerdotes católicos. Viveu por anos na África, pertence a Opus Dei. Bom músico e jogador de futebol amador de times de várzea. Muito popular entre os fiéis.

         Utah é baixinha, socada, parece não ter pescoço lembrando um Bulldog, sempre de rosto fechado, emburrada, lábios apertados, de mal com a vida mesmo. Seus olhos azuis piscina escondem-se atrás de toda a truculência ostentada pelo seu rosto.

         O contador seria imperceptível se não respirasse. Ou mecanicamente, como uma mania, não parasse de mexer em seus óculos. Chega a irritar. De pouca conversa, tem de si mesmo até a intenção de não chamar a atenção.

         Adolfo aguarda. Expira calma, desconfiando do que vem por ai. Deixa impresso um sorriso maroto escapar de seus lábios reforçando sua personalidade simpática que todos conhecem. Incomoda muita gente da paróquia, sabe disso também. Contradiz com a visão de alguns fieis de como deve ser um padre.

         - Padre Adolfo – desperta o padre de um transe de pensamentos involuntários a suave voz do bispo – seremos breves e poderá retornar ao que estava fazendo. Não se preocupe.

         - Não estou preocupado. Devolve ao bispo a preocupação em palavras serenas.

         - sim, sim, claro. Concorda o bispo.

         O incomodo com meias palavras rusga no rosto da única mulher na sala seu descontentamento. Aperta ainda mais os lábios e enerva as sobrancelhas até quase não se poder ver seus olhos azuis. Aperta a pequena bolsa que leva entre os dedos deixando-os vermelhos. O padre levanta as sobrancelhas de forma que permite entender que está estranhando sua atitude.

         - O senhor sabe que, como todas as igrejas e paróquias dividem seus dízimos com Roma, a nossa também tem essa responsabilidade. Sabe, ou não sabe?

         - Claramente.

         - E o padre também sabe que são avultosas as despesas que temos em nossa paróquia, tanto quanto qualquer outra paróquia. Mesmo o Vaticano.

         - Sim. Só não sei aonde vossa reverência quer chegar.

         Um silêncio esquisito toma a sala. Parece impermeável. Um pigarro coçado pelo bispo denuncia sua situação delicada.

         - Bem. Estamos sentindo uma queda na arrecadação da igreja. Dízimos. Emudece.

         - E? – Padre Adolfo finge não ter entendido aonde quer chegar com aquela conversa o bispo.

         Incomodado, o bispo coça a cabeça, ajeita-se na cadeira e suspira fundo. Retira do bolso da vestimenta religiosa um pequeno lenço com o qual limpa as lentes de seu óculos. Revista contra a luz que entra pela janela na limpeza que fez. Satisfeito volta a falar.

         - Padre Adolfo... Peço-lhe mil perdões. Por essa situação constrangedora. Pode retornar aos seus afazeres.

         O jovem levanta-se. Inclina levemente a cabeça aos presentes em sinal de despedida saindo silencioso e rápido da sala. Os presentes não se olham. O bispo sim encosta-se à grande cadeira a qual senta e outra vez suspira profundamente. Pensa.

         - Padre João? Consiga uma transferência para nosso amigo. No exterior de preferência. Sem alarde. Que não seja agora. Deixe passar três meses.

         - Sim senhor bispo. Farei o necessário.

 

                            VERÃO/JAN/2020.

 

 

 

NEGOCIANDO DESTINOS NO CÉU

 

NEGOCIANDO DESTINOS NO CÉU

 

         - Diabo? Diabo?

  O susto que leva o senhor das profundezas pela força das batidas na porta não é um bom sinal do que vem por aí. A entidade, sentada ao sofá lê, ou lia, calmamente um jornal, pergunta quem é que o chama mesmo sabendo de quem se trata. Controla-se do sobressalto respirando e pedindo clemência num surdo murmúrio.

- Quem é?

- Diabo. Papai quer falar com você.

- Emanoel?

- Papai quer falar com você.

- O que houve Emanoel?

  Paciente o Diabo atende o irritado homem barbudo que por pouco não derrubou sua porta. Convida-o a entrar com um sinal do braço dando passagem e oferece, por cortesia, algo para beber. Emanoel até aceita se tiver suco de maracujá, já que seus nervos estão a flor da pele. O Diabo vai a cozinha prepara um suco, tem também um copo de água com açúcar, serve ao homem com delicadeza que agradece.

- Papai quer falar com você.

- Não sabe o que Ele quer Emanoel?

- Não! Responde com irritação.

- O que aconteceu que está tão irritado Emanoel? Essas últimas semanas você está bem difícil, hein?

- Se todos sempre pedissem favores a você, o tempo todo, eu queria ver se não ficaria irritado como estou! Jesus isso, Jesus aquilo! Agora até o Papai me usa como garoto de recados! Favores! Favores!

- Sei bem. Sou Eu o culpado de tudo. “ A culpa é do Diabo”.

- Mas você ainda pode se vingar torturando quem te incomodar. E eu?

- Depois de tanto tempo vira rotina. Igual trabalho.

A porta então se abre dando passagem a uma bela mulher de curvas generosas, longos cabelos negros bem cuidados e brilhantes, um short jeans da moda, cigarro entre os dedos, pele vermelha, pequenos cornos saindo do alto da testa onde prende seus óculos escuros de grandes lentes arredondadas. Encara os dois homens sentados no sofá, sucinta disfarça a surpresa, baixando os olhos para a poltrona desocupada onde deixa cair as bolsas que trás consigo.

- Oi, Emanoel. Cumprimenta a visita sem calor na voz.

- Oi, responde o Salvador.

Tinhosa se furta de cumprimentar o companheiro que percebe a irritação na atitude da mulher. Segue-a com os olhos até a entrada do quarto, o que escapa de seus pensamentos a frase “é hoje”.

- Cê vê Diabo. Nem casar eu posso.

- Admito que isso seja um castigo cruel. Mas você sabe de sua posição.

- Tem dois mil anos! São novos Tempos.

- Pergunte ao seu Pai, Ele tem que dar um jeito.

- A Tinhosa é sempre assim, brava?

- Quase.

- Eu sei que você é o Senhor das mentiras.

O Diabo abre os braços em sinal de incompreensão.

- Papai quer falar com você. Amolado, Jesus levanta-se sem se despedir e sai furioso, visível nos passos que o denunciam.

O Diabo dirige-se ao quarto de casal onde Tinhosa toma banho na suíte de porta aberta. Aborrecido, briga com a mulher, a qual se limita a admirar da altura de sua beleza e arrogância, o queixoso.

- Trate-o bem. Só isso. Ele não pediu para ser quem é. Disse, alvoroçado o Diabo.

Tinhosa lança um beijo apoiado pela mão para o marido, virando-se e exibindo, de imediato, suas curvas longamente desenhadas, das costas passando pelos glúteos até os tornozelos delineados. A risadinha que deixa escapar completa a posse das vontades do homem que ali de pé a mira.

- Droga, mulher! Você sabe que não resisto aos seus feitiços. Oh, mulher do Diabo!

A gargalhada emitida por Tinhosa é o ponto final da discussão. O cramunhão se despe, entrando no banho junto à mulher que lá o espera.

- Tentação!

 

- Senhor?

- Sente-se.

Por instantes um obtuso silêncio é mantido enquanto Deus alcança da gaveta de sua escrivaninha uma caixa a qual abre entre movimentos contidos e monta as peças de um tabuleiro de xadrez.

- Vamos jogar, disse afinal.

Cantarola uma música não identificada pelo Senhor das Profundezas, mantendo os olhos nas mãos do Pai Eterno, conhecido também por Pai do nazareno.

- O Senhor sabe – quebra o silêncio o Satanás – que Emanoel está passando por problemas.

- Sei. O Criador precipita-se dominador e concordante. Depois de dois mil anos Ele ainda não se acostumou. Vai superar.

- E o que o Senhor quer comigo?

- Bem – antes de falar o Criador estuda o movimento da peça feita pelo demônio. Satanás não entende porque esse Barbudo perde tempo ainda jogando se tudo Ele sabe. - Conhece os filhos do Zé Pedro? Nininha, Pedrinho, Agnaldo e Aélison?

Aélison? Pensa o Diabo, quem foi o cão que batizou o menino com esse nome dos infernos?

Com um leve acenar de cabeça, afirmativo, o Demônio conclui a resposta.

- Quero saber por que prejudica tanto aquela gente?

- Não estou entendendo, Senhor. Poderia ser mais... Claro?

- Eles culpam a Você por todos os males que os afligem.

- Desculpa, mas, eles ainda nem caíram em meu colo, se assim posso dizer, Senhor.

- Você sabe Mefistófeles, que todos os problemas da Humanidade recaem sobre você.

- Eu não tenho poder sobre o mundo dos homens – rápido defende-se da acusação – se o castigo os leva ao meu reino, aí então, e juro que sigo todas as regras, é por culpa deles próprios, Senhor. Livre Arbítrio.

- Preciso culpar alguém Mefistófeles!

- Ah. Claro. Sarcástico o Senhor das Trevas aceita a vontade de Deus – estou às ordens.

- Pense como um castigo a você. Essa família está com muitas dificuldades na mortal vida que levam.

- Só essa família, Senhor?

- O que Eu quero – não dá caso ao sarcasmo do Diabo e continua com seu plano – é que os meninos sejam exemplos para os outros milhões de viventes com dificuldades no mundo mundano. Quero ajudar um pouco a eles.

O que passa pela mente do Diabo é um só me faltava essa.

- E onde entro nisso, Senhor?

- Preciso que se encarregue de botar pedras no caminho deles. Com brandura.

- Senhor? Se não sabe eu não tenho influência nenhuma na vida dos mortais.

- Eu sei Diabo! Irrita-se. Quero acreditar que ainda mando e sou obedecido, homem. Você é o único que ainda me ouve.

- Senhor, perdão.

- Nós dois sabemos que isso não diminuirá o número de condenados ao inferno.

- Cada dia diminui mais Senhor.

- Mefistófeles! Não mintas, por favor.

O chifrudo, envergonhado diante de Deus enterra a cabeça entre os ombros.

- Então, espero que resolva para mim esse problema – disse docemente Deus.

- Vou fazer o melhor ao meu alcance.

- Agora – encerrando o assunto, Deus retoma sua posição de Senhor – termine de jogar.

Mefistófeles movimenta uma peça, sem esperança no resultado, pois, eles já sabem qual o final do jogo.

- Você é previsível, disse o Criador.

- Então Senhor, o Diabo aproveita a deixa para fazer uma proposta. Se eu resolver o que tu me pedes posso exigir uma contra partida?

- Diga. Deus disse após instantes de pensamentos desconfiados.

- Jogar, uma vez, uma partida destituída da visão do futuro?

- E abrir mão de vencer você?

Irritado o demônio encolhe-se num abraço com o silêncio. Até o fim da previsível partida. Resultado mais do que esperado.

- Xeque-mate. Disse do alto de sua arrogância expressa nas gargalhadas pachorrentas.

Ao sair do salão divino o demônio tem planos articulados para o pedido do Todo Poderoso. Emanoel vem em sua direção resmungando sozinho, esbarra com ele como se não existisse e continua com a marcha impaciente nos passos de chinelos gastos. Distante dirige-se ao perguntar se já falou com o Pai. Complicados esses homens de Luzes, pensa o demônio.

Em casa o demônio margeia a vida dos mortais legado aos seus cuidados. Algumas pedras são colocadas pelo caminho dificultando a passagem e escolhas da vida. Tinhosa, curiosa, aproxima-se procurando saber o que seu companheiro tanto faz nesse longo tempo que passa no computador do escritório. Ele sai, volta, fuma, respira, e volta, interessado mais nesse trabalho do que na tortura dos condenados por esses últimos tempos. Roça suas belas pernas no corpo do Diabo. Esse não se importuna com essa tentação. Mantém atenção na tarefa que lhe foi destinado.

- Sabe que estou sentindo sua falta, Diabo? Sugere ao pé do ouvido da entidade com melodiosa voz tentadora.

O Diabo murmura palavras sem significado. Tinhosa afasta as mãos do amante sentando em seu colo. O Diabo continua com a atenção na árdua tarefa depositada a ele pelo Senhor de todas as coisas. A fogosa carinha o companheiro enquanto lê o que ele escreveu. Curiosa questiona o porquê daquilo.

- Não sei Tinhosa. Pergunte a Ele.

- Me arrepio toda só de pensar em ir aquele Salão. Tinhosa lê em voz alta o escrito. “Pés descalços no frio do inverno; dezoito quilômetros diários para ir até o colégio? Inicia a falar com sete? Nininha abusada pelo tio dos doze até os vinte e um?” coitadinha homem! “Pedrinho casou com uma herdeira de fazenda e fortunas?” Você tá mudado Homem!

 

Com o passar dos tempos às coisas vão acontecendo na vida dos jovens. Esses ascendem à vida adulta com muitas dificuldades. Passam pela fome, vivem na rua ao mudarem para a cidade grande, brigam, choram, sofrem. Contudo, é encaixado pelo caminho o destino virtuoso programado para eles.

Pedrinho tornou-se fazendeiro. Aguinaldo escritor de sucesso, cartunista famoso nos meios, superou sua dificuldade de falar através de seu talento com as Letras e a arte do desenho. Ajudou muitos jovens a encontrarem uma oportunidade como a dele. Todavia, a pedra que encontram no caminho precisa ser ultrapassada. O demônio não facilitou a vida desses mortais. Aguinaldo esconde um segredo com o qual precisa lutar por toda a vida: sente uma vontade insana invadir seu corpo precisando com todas as forças controlar-se a aproximação de meninos e meninas em suas aulas de desenho. Sequentemente sofre depressão e já diversas vezes cogitou arriscar-se ao suicídio.

Pedrinho não compreende seu ranço pelas pessoas. Homens e mulheres. Isso acentua sua indiferença ao descaso com que trata as pessoas a sua volta.

Aélison tornou-se professor universitário. Medicina, Direito e Antropologia. Alcoólatra. Diversas vezes largado na sarjeta sempre socorrido por seus estudantes. Não casou. Caso teve mais jovem, com uma professora não correspondida. Tem nas bebidas sua muleta.

E Nininha? Perseguida pelos pesadelos passados, tanto quanto pelos homens enfeitiçados por sua beleza, inteligência e talento para transformar em ouro os negócios aos quais toca, tem as mesmas dificuldades dos irmãos com acréscimo por ser mulher no mundo machista. Dominadores, os homens tentam impor suas vontades sobre Nininha, o que faz o Diabo injetar muita rebeldia no sangue da mulher, percepção do mundo e da vida. Desejo de liberdade e vontade férrea. Nininha é cantora de sucesso, escritora, artista, ativista e feminista. Isso deixa o Criador cismado. Cobra, então, um relatório do demônio.

- Você quer me irritar, Diabo?

Nada responde Mefistófeles.

- Mulheres criam mais turbulências do que deveriam. Inteligentes, belas, fervem o sangue e o coração dos mortais. Guerras são iniciadas por causa delas. Tróia, Diabo, Tróia!

- Por que as criou então, Senhor?

Deus alcança da gaveta o tabuleiro de xadrez, arruma as peças, movimenta um peão. Demonstra, irritação em sua divina voz.

- Jogue, manda. Tenta controlar-se, pois Ele é Deus.

- Não sei ainda por que jogo com você – disse o Diabo sendo sarcástico. Refaz a pergunta na tentativa de dilatar o mau humor de Deus.

- Por que as criou Senhor?

Suspira forte e Deus cruza os braços atento a partida recostando-se ao trono coçando a enorme barba que cultiva há milênios.

- Que encrenca meteu a gente, Senhor. Escravos dos seres mais belos e inteligentes da Existência.

- Só jogue. Deus encerra, com uma ordem, a conversa.

 

                              FIM.

 

 

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...