Canarinhos,
sabiás,
quero-quero.
Cantem mais,
que eu
Quero-quero.
sábado, 17 de novembro de 2018
sábado, 20 de outubro de 2018
sábado, 29 de setembro de 2018
sábado, 15 de setembro de 2018
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
IRMÃOS.
Personagens:
Irmão;
Irmã;
(A cena se passa em um
quarto alugado de qualquer lugar da cidade de qualquer cidade)
IRMÃ – Irmão? O que
aconteceu com você? Está todo machucado. Bateram-te ou você foi atropelado?
IRMÃO – Onde você guardou aquela
arma que era do papai? (entra direto no quarto e começa a mexer nas gavetas de
um armário)
IRMÃ – Do que você está
falando?
IRMÃO – A arma. A arma que
era de papai. Onde está?
IRMÃ – Por quê? O que
aconteceu com você? Bateram em você?
IRMÃO – Cadê aquela arma?
Cadê?
IRMÃ – Não vou te dizer se
não contar o que aconteceu.
IRMÃO – É melhor você não
ficar sabendo.
IRMÃ – Não irmão. Eu sou sua
irmã e jurei que ia cuidar de você para mamãe.
IRMÃO – Eu não sou mais criança!
Não vou te obedecer mais!
IRMÃ – E daí? Se você não é
mais criança, tudo bem, mas eu jurei para mamãe que iria cuidar de você para
sempre. Sou responsável por você. Diga logo o que aconteceu? Você não estava no
sinaleiro?
IRMÃO – sim.
IRMÃ – te roubaram?
IRMÃO – Cadê aquela arma?
Cadê? Vou te dizer. Aquele
cafajeste do sargento Coelho levou tudo o que consegui hoje.
IRMÃ – Sargento Coelho?
Mas...
IRMÃO – Eu estava lá no
sinaleiro da Guaíra quando a PM parou e não quis saber. Chegaram chutando-me e
me jogaram no carro, largaram-me lá na Estrada do Pico depois de me espancarem
e me roubarem.
IRMÃ – Irmão? Isso tudo que
você está dizendo é verdade?
IRMÃO – Por que você duvida
de mim, irmã?
IRMÃ – O sargento Coelho já
morreu faz cinco anos.
IRMÃO – Você está louca,
irmã?
IRMÃ – Acho que ainda não.
Irmão? Você tem tomado seu remédio?
IRMÃO – Sim! É claro.
IRMÃ – E você já tomou o
remédio hoje?
IRMÃO – Já. Agora: onde está
a arma?
IRMÃ – Não irmão, não.
IRMÃO – Eu vou acabar com
isso agora. Cadê a arma? Irmã? Eu não posso mais passar por esta humilhação. Só
por que somos pobres e negros não podemos mais aceitar isso, irmã. Levar
bordoada e não reagir. Chega. Chega!
IRMÃ – A vida é assim mesmo
irmão.
IRMÃO – Não, irmã, não! Não
podemos ser tratados como cães! Eu não tenho culpa de ter nascido preto e pobre
e por isso não vou aceitar viver assim.
IRMÃ – Não irmão, não. Pela
memória de nossa mãe, não, por favor!
IRMÃO – Cadê a arma?
IRMÃ – Irmão, não lembra
mais o que mamãe nos dizia? Tanto que ela pediu para nos tornarmos pessoas
boas, honestas, nunca roubar, mentir, enganar, mesmo que com isso dependesse a
nossa vida, a nossa fome. Sempre trabalhar, sempre.
IRMÃO – E não é só isso o
que faço na vida, irmã? E você sabe mais do que ninguém, irmã, o quanto eu
tento fazer isso todos os dias de minha vida, mesmo que ninguém me dê um
emprego com carteira assinada por que tomo meus remédios e acham que sou louco.
Eu nunca roubei nada de ninguém, nunca! Mas o que eu recebo em troca? Pancada!
IRMÃ – E você acha que eu
também não levo porrada lá cuidando da Saionara? Tu sabes muito bem que mamãe
levou muita porrada na vida até de nosso pai ela aguentou muita humilhação e
porrada por nós.
IRMÃO – Cadê a arma? Eu vou
matar aquele desgraçado.
IRMÃ – E isso vai te levar
aonde? Ao que? É loucura, irmão. Ai desculpe, não foi isso que eu quis dizer.
IRMÃO – Que sou louco? É
isso que quis dizer? Eu sou louco sim irmã, e eu sei muito bem disso, por isso
tomo remédios para louco. Por isso não consigo emprego. Por isso estou todos os
dias lá no sinaleiro fazendo o que posso fazer: malabarismo com bolas e tochas.
Agora me diga, irmã: o que tem de errado nisso? Estou ganhando a vida da forma
que posso, honestamente, mas todo trabalho decente precisa ser dentro de uma
fábrica para ser considerado honrado? Precisa para ser honesto? E quem diz que
precisa ser assim?
IRMÃ – Não ligue para essas
coisas, irmão.
IRMÃO – Eu ligo sim irmã,
ligo, pois me espancaram por isso. Não sou digno de respeito por que trabalho
em um sinaleiro? Um catador de papel não é digno por que cata papel? Um coletor
de lixo não é digno por que recolhe o resto dos outros? Somos menos dignos que
um soldado que só serve para matar pessoas? Para acabar com sonhos? Para acabar
com a felicidade?
IRMÃ – Somos sim irmão somos
dignos de respeito. Enquanto honrarmos a memória de mamãe, fazendo o mínimo do
que ela nos pediu nunca roubar, não tomar o que não nos pertença e tudo o que
conseguirmos é pelo nosso suor, estará sim irmão, honrando a memória de mamãe e
de tudo por que ela sofreu e passou por nós.
IRMÃO – E o que nós temos?
Um barraco na favela!
IRMÃ – Olha aqui seu
remédio, bebe.
IRMÃO – Não quero essa
porra, eu já bebi.
IRMÃ – Mas eu quero que você
tome. Agora!
IRMÃO – Você não manda em
mim.
IRMÃ – Mando sim, senhor.
Não lembra que mamãe pediu antes de morrer para eu cuidar de você?
IRMÃO – Mamãe já morreu!
Está ouvindo? Já morreu. E todas as
promessas morreram com ela! Enxerga isso! Merda! Cadê aquela arma?
IRMÃ – Aquela arma eu vendi.
Tem anos já. O próprio sargento a vendeu.
IRMÃO – Não fale o nome
daquele desgraçado na minha frente!
IRMÃ – Você está se
confundindo com as coisas irmão.
IRMÃO – Eu devia já ter
feito como nosso primo, entrado para o tráfico.
IRMÃ – E aí? No que deu?
Olha onde ele está hoje. No inferno!
IRMÃO – E nós também não
estamos querida irmã? Tu não achas essa vida um inferno?
IRMÃ – Honestamente é melhor
vivo do que morto!
IRMÃO – E eu cansei de ser o
bonzinho. Cansei! Ninguém é bonzinho como a gente. Ninguém nem liga para a
gente! E aí, por ser bonzinho é que estamos nessa merda. Sendo tratados como
bonzinhos e honestos e vivendo de esmolas nos semáforos da vida e comendo pão
com mortadela por três dias! E tu achas que alguém liga? Cansei!
IRMÃ – Não irmão, não.
IRMÃO – Como dizia nosso
primo no tráfico quem compra é por que quer. Ninguém obriga ao viciado a usar
drogas. Também é um trabalho honesto, apesar de ser ilegal. Só vendem como se
fosse um comércio. O que tem de errado nisso?
IRMÃ – Não irmão, não, por
favor.
IRMÃO – Lembra que ele dizia
que quem subia aqui eram as filhas dos juízes? Filhos de empresários? De
políticos? Até filhos de médicos e advogados? São eles mesmos quem fazem as
leis. Proíbem as vendas, mas usam. Que mundo é esse, irmã? E nós temos que ser
os bonzinhos?
IRMÃ – Não irmão, e no que
deu a vida dele?
IRMÃO – E a nossa vida no
que vai dar?
IRMÃ – Sente aqui irmão.
Pense bem irmão, se acalme. Por favor, isso sente.
IRMÃO – Não dá mais pra
viver assim, vou falar com o nadinho.
IRMÃ – Irmão não, eu não
irei permitir. Você é o último homem de nossa família. É minha ancora. É meu
sustento nessa vida, eu não vou aguentar. Depois que você se enrolou com a irmã
desse marginal você mudou muito irmão. Não me ouve mais.
IRMÃO – Você deve se acertar
com o Márcio, vai cuidar de sua vida com ele, vai ser feliz e me liberte dessa
prisão que é a obediência a mamãe, ao passado que tanto me tortura.
IRMÃ – Não, não, não!
IRMÃO – Me deixe! Larga de
mim! Esqueça-me para sempre!
(levanta e segue em direção
a porta, quando sua irmã levanta também pega uma garrafa e acerta a cabeça do
irmão que cai no chão imóvel)
IRMÃ – Eu não posso permitir
que você saia de minha vida assim. Não vou permitir. Você é meu, só meu. Irmão?
Irmão? Levanta irmão. Por favor, levanta irmão! Não! Eu te amo irmão! Eu te
amo. Por favor, irmão. Não me deixe sozinha. Eu te amo.
FIM. Junho,
2018.
sexta-feira, 1 de junho de 2018
UM COPO DE LEITE E UMA MANGA.
UM
COPO DE LEITE E UMA MANGA.
- E então, eu tomei um copo
de leite e logo depois comi uma imeeennnsa!, de uma manga.
- Até o caroço?
- Até o caroço!
- E então?
- Então o quê?
- Não morreu ainda?
- Até agora não.
- Minha mãe sempre disse que
quem bebe leite e depois come manga morre na hora.
- Meu tio Tião disse uma vez
que conheceu um japonês que morreu depois de tomar um copão de leite e comer manga.
- Aquele seu tio que disse
ter jogado bola com o Pelé? Meu pai falou que ele é o maior mentiroso.
- Não é mentiroso nada!
- Meu pai disse que é
mentiroso sim!
- Não é nada! Eu vou contar
tudo pro meu tio viu? Você vai ver só.
- Eu vou falar tudo para o
papai, e ai ele vai vir aqui e vai confirmar tudo o que falou. Você vai ver. Papai,
papai! Olha aqui a Bruna falando que você não fala a verdade do tio dela! Não é que você disse que o
tio dela é o maior mentiroso?
- Ele nem ouviu.
- Pai! Pai!
- Agora é minha vez de
contar pra vocês o que eu fiz.
- E o meu pai ainda disse
que sua mãe não presta! É falsa e faladeira da vida dos outros.
- Pai, pai! Olha aqui a
Bruna falando mal da mamãe! Eu vou bater nela, essa mentirosa!
- É minha vez de contar a
minha história.
- Vem me bater vem, se você
for homem.
- Só não vou te bater porque
homem não bate em mulher.
- E homem não faz xixi na
cama ou nas calças como você. Minha mãe disse que você parece um mariquinha!
- Não pareço não!
- É sim, é sim! Mariquinha,
mariquinha! O Diego é um mariquinha! Quem faz xixi na cama e brinca de boneca é
mulherzinha. E menino que é mulherzinha é também mariquinha! Mariquinha!
- Não sou mariquinha não!
Você que é uma putinha! Minha mãe falou isso. Só fica no meio dos meninos!
- Mariquinhas, mariquinhas!
- ô...Manhiê! Olha a Bruna
aqui ó! Tá me chamando de mariquinha. Vou bater nela!
- É a minha vez de contar a
minha história. Cala a boca!!!!!!
- NÃO! Eu vou contar
primeiro a minha!
- Não vai não. É minha vez.
- Mas eu disse primeiro.
- EU vou contar primeiro.
- Mariquinha, mariquinha!
- Não sou Não! Mãe, MÃE!
Olha aqui a Bruna não quer parar de me chamar de mariquinha! Manda-a parar!
- Mariquinha, MARIQUINHA!
- Eu não sou não!
- MARIQUINHA, MARIQUINHA!
- ME DEIXE CONTAR A MINHA
HISTÓRIA!!!!!
- CALA A BOCA! EU VOU CONTAR
PRIMEIRO!
- ESCUTEM! CALA A BOCA!
- Ô mãe! Olha a Bruna aqui.
Ela não quer parar de falar mal de mim!
- Mariquinha, mariquinha!
- Não sou não!
- ESCUTEEEEEEEEEMMMMMMM!
- Ô MÃE! Olha a Bruna!
- ESCUTEEEEEEEEEMM!
- É sim a maior marica da
família!
- MÃEEEEEEE, olha a Bruna
aqui, não quer parar!
- ESCUTEM!
- Crianças, crianças, vamos
parar? CHEGA!
- É a Bruna tia, não quer
parar.
- Bruna! É para brincar. Se
não vai todo mundo embora, já, já.
- mariquinha,
mariquinha.
- Mãe e Bruna ainda tá me
chamando de mariquinha.
- É a sua filha Raphaella.
Dá um jeito nela.
- Bruna, chega, por favor?
- Eu não fiz nada, mamãe.
- Vou chamar seu pai, quer
isso? Então para.
- Agora é a minha vez de
contar minha história.
- Eu vou contar o que fiz.
- Era eu quem ia contar.
- Então depois sou eu quem vai
contar.
- Eu tomei um gole na
cachaça do vovô.
- Sério?
- Foi um golão. E nem fiquei
bêbado.
- E seu vô, não viu?
- Ele estava dormindo na
cama ao lado.
- Bêbado?
- Bebaço.
- Meu tio Reginaldo disse
que seu avô é um vadio.
- Não fale assim do meu avô.
- Vadio! Vadio!
- Ô, mãe! Olha aqui a Bruna.
Está falando mal do vovô!
- Bruna! Chega. Vou contar
para seu pai.
- vadio,
vadio, vadio.
- CHEGA BRUNA! Vamos embora.
- Não quero ir!
- Então para!
- Você não manda em mim.
- A é? Então é o que vamos
ver. Vou chamar seu pai agora. Josué! Vem cá cuidar de sua filha.
- Não tenho medo de você sua
feia.
- Josué! Quer por favor, vir
cuidar de sua filha? Ela não quer me obedecer.
- Porra, Bruna! Quer
apanhar? Quer levar umas bordoadas?
- Eu não fiz nada papai.
- Então chega.
- Agora é minha vez.
- Depois sou eu.
- E depois sou eu.
- Eu bebi a água com sabonete
na hora do banho.
- Ai seu burro. Quem nunca bebeu a água com sabonete na hora do banho?
- Mamãe disse que é bom para
limpar o estômago.
- E o coco sai cheiroso.
- Agora sou eu.
- Não, é a minha vez.
- Primeiro sou eu Bruna.
- Sou eu! Sabem o quê...
- É minha vez Bruna.
- Sou eu. Não vou ouvir, não
vou ouvir.
- É minha vez.
- Não vou ouvir, não vou
ouvir, não vou ouvir, lá, lá, lá, lá. Não vou ouvir.
- Tia, olha a Bruna!
- Josué, que saco. Olha sua
filha.
- Que merda Marlene. Ti
vira, eu não fiz essa menina sozinho. Tu és a mãe também.
- Bruna, que caralho!
- Eu não fiz nada papai.
- Então obedeça a sua mãe e
brinque direito.
- Tá bom.
- Eu bebi a água do vaso da
planta da sala da mamãe. E sabem que planta era? “Comigo-ninguém-pode!”
- E passou mal?
- Vomitei o dia todo.
- E eu bebi o azeite da
salada.
- Eca! Que nojo.
- Ui! Que horrível.
- Eca!
- Eca!
- Me deu a maior caganeira.
- Eu bebi a água benta da
igreja.
- Mentira. É mentira sua.
- Cala a boca imbecil.
- Mentira. É pecado mentir.
Você não vai ir pro céu. Ele nem foi na igreja essa semana.
- Já faz tempo idiota.
- Não vale.
- Fica na sua Bruna. Sapatão.
Minha vó disse que você vai ser sapatão. Só vive no meio dos meninos.
- Tu és quem não vai ir pro
céu, mano. Fica vendo as revistas de mulher pelada do papai escondido quando
ele sai. E ainda fica pelado na frente do computador.
- Cala a boca imbecil.
Fofoqueiro. Foi só uma vez. Meu amigo quem pediu para ver se eu estava falando
a verdade quando disse pra ele que era mais forte do que o Hulk.
- Cala a boca você.
- E eu bebi café sem açúcar!
- ah, nem tem graça isso.
- É mesmo.
- E eu bebi água sanitária
do banheiro. A mamãe ficou doida, disse que eu ia morrer. E estava me queimando
tudo por dentro.
- Sai daí chorão.
- Não sou não.
- É sim um chorão! Chorão,
chorão!
- Ô, mãe. Olha a Bruna de
novo!
- Tá bom. Já parei.
- Aí a mamãe me deu para
beber um litro de leite sem açúcar. Um litro todo.
- Sério? Eca!
- Ui.
- Credo. Coisa horrível.
- Que nojo. Leite sem açúcar
e puro? É pior do que tudo.
- É muito ruim. Éhrgh......!
- Crianças? Crianças? Querem
um pouco de Coca-Cola?
- Sim! Queremos!
- uhu!!
- Sim!
- Sim eu quero!
- Oba! O último a chegar é
mulher do padre!
- mariquinha!
Mariquinha!
FIM.
sábado, 31 de março de 2018
CAFÉ COM PÃO É BOM.
“Café com pão é bom, café
com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom”
Assim é que o trem faz,
diz vovó.
- Eu nunca andei de trem
vovó.
- Eu sei.
Minha vovó disse que já viajou de trem. A muito tempo
atrás. E muitas e muitas vezes. Quando ela era criança, como sou hoje. Ela me disse que o trem era o principal meio de se viajar para longe. De uma cidade a
outra. Disse ela que o trem balançava muito. Tremia todo quando começava a
andar, começa bem devagarinho, mas quando embalava não parava mais, sempre
com a sua trilha sonora que deixava todos os passageiros com muito sono em seu
interior: café com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom, café com
pão é bom.
No meio do caminho, com poucos minutos depois da partida da estação, o vovô da minha
vovó, “seu trisavô”, disse vovó, “já roncava no trem, ó!, fazia tempo”.
- Eu já fiz tantas vezes
essa viagem, minha queridinha, que me canso só de lembrar os caminhos pelos
quais o trem passa – dizia o vovô para minha vovó.
- Como ele se chamava, vovó?
– pergunto pra ela.
- Você já me perguntou isso
umas mil vezes.
- Mas, mas, eu não lembro.
- Waldemar.
- ahhh! É o vovô “demá”. É verdade
agora lembrei. No que ele trabalhava vovó?
- O vovô “Demá” concertava máquinas
de escrever. Depois de ser por muito tempo sapateiro, por uns trinta anos.
- Trinta anos?
- Sim.
- Isso é muito tempo vovó?
- Sim. É muito tempo sim
senhor. Sua irmã Amanda tem 11 anos não tem?
- sim.
- Então, conte mais dez e
depois mais dez. E então, soma que dá trinta anos.
- mas, vovó: somando onze
mais dez mais dez dá trinta e um.
- ahhh. Então tire esse um e
some o restante. E ai dá trinta.
- Tirar o um de onde vovó?
- Tira o um dos onze anos de
sua irmã.
- Tá bom então. Onze menos
um é igual a dez. Então, dez mais dez e mais dez da trinta. Nossa, é muito tempo
mesmo.
- Sim é um tempão mesmo.
- Vovó, o que é uma máquina
de escrever?
- Antes de existirem os
computadores se escrevia em máquinas de escrever. Sabe aquela máquina que tem na
estante do quarto do seu tio Luís? Aquilo é uma máquina de escrever e saiba que aquela
mesma era do seu trisavô Demá.
- Sério, vovó?
- Sim.
- Hum. O tio não deixa a
gente nem olhar pra ela.
- Sim. Para ele aquilo é uma
relíquia.
- O que é uma relíquia vovó?
- Bem, é algo muito valioso,
e geralmente muito antigo.
- muito antigo quer dizer muito velho?
- Muito, muito velho mesmo.
- O vovô Celso então era uma
relíquia? E o vovô Demá também?
- (risos) Por que diz isso?
- Porque mamãe disse que ele
era muito importante para todos da família e importante não é valioso também?
- Sim.
- Então! O vovô era valioso
e muito velho também.
- (risos) Sim. Essas
crianças vêm com cada uma.
- o que você disse vovó?
- Nada querido, nada.
- O vovô andava de trem também,
vovó?
- Sim. Mas ele não gostava.
- Por que não?
- Ele se sentia muito
enjoado com o balanço do trem.
- Verdade?
- Sim.
- E eu vovó? Será que vou
ficar enjoado de andar de trem também? Aliás, o que é ficar enjoado?
- É passar mal, ter dor de
barriga e vontade de vomitar o que comeu e bebeu.
- Ai, vovó, eu tô com medo
de passear de trem.
- Que isso? Cadê aquele
menino corajoso que eu conhecia? Primeiro é preciso ter coragem, não pode ser
assim. A vida exige coragem para vivê-la. E você só vai saber se vai enjoar
quando passear de trem. Tá com medo?
- Eu não.
- Então?
- No trem tinha banheiro,
vovó?
- Sim, tinha banheiro sim,
porém, nem todos tinham ou tem banheiro.
APIIIIIIIITTTOOOOOOOOOOO APIIIIIIITTTTTTTTTTOOOOOOOOOOOOO
- Escuta vovó. Um apito!
- Sim é o apito do trem. O maquinista
toca o apito para avisar que o trem está chegando.
- O maquinista?
- Sim, é mais ou menos o motorista do trem. É ele quem dirige o trem.
- Vovó ele é bom motorista?
Tem carteira pra isso? O pai do Caio disse que é preciso ter carteira para
dirigir.
- (risos) sim ele é bom
maquinista, assim espero.
- Qual é o nome dele, vovó?
- Olha isso eu não sei. Depois
a gente pergunta pra ele. Agora precisamos subir no trem, se não ele vai embora
e deixa a gente aqui, a ver navios.
- A ver o trem vovó.
- Isso ai. Vamos. (risos).
A vovó e eu subimos no trem. Outra vez ele apitou e
zarpamos. O balanço era muito divertido e não me deixou enjoado. Nós nos
divertimos muito dentro do trem, eu e a vovó. E todos os outros passageiros,
acho, por que todos sorriam, e quando estamos sorrindo é por que
estamos felizes. Enquanto o trem seguia apitando, balançando nas curvas e fazendo
aquele barulho engraçado ao subir aquela serra enorme, passar por túneis,
pontes e cachoeiras, a vovó queria que eu visse tudo. Ela me
mostrava os lugares onde a gente ia passar lá em cima da serra daqui a uns
minutos. Aí me lembrei do que ela falou antes de entrar no trem lá na estação.
- Ei, vovó! – puxei a blusa
dela – você disse a verdade lá na estação.
- Que verdade querido?
- O som que o trem faz
enquanto anda.
“Café com pão é bom, café
com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom”.
- Então, viu só? (risos).
AAAAAAAAAAAAAAAPPPIIIIIITTTTTTTTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
AAAAAAAAAAAPPIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIITTTTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.
FIM.
sexta-feira, 30 de março de 2018
SOU UM EMPREENDEDOR.
- Muié, Muié!
- O que foi homi? Eu tô na
cuzinha, pra que essa gritaria? Tu vai acordá o Fernandinho assim. O qui tu
qué?
- Olha.
- Olha o quê homi?
- Tá cega, muié?
- Craro qui não. Eu tô vendo
– sofre de catarata e não sabe – prá quê essa cadeira de roda?
- Comprei do Laudo, o vigia
lá da igreja. Era prá sê di duação.
- Como assim di duação? E o
qui vai fazê cum ela?
- Ai, muié. Pareci qui num
intendi. Dei dez pila pra ele pela cadeira.
- Tá doido homi?
- Inventei uma forma de
ganhar dinheiro.
- Hã?
- Primeiro pensei em aluga
como tão fazendo com os carros nesse tal de ubêr.
- Deus do céu.
- Mas óia. Eu sentu assim,
ajeito as pernas assim, cubro com esse cubertô, assim, torço o pé esquerdo,
assim, pra fingir que tenho esse probrema, assim, pego esse cartaz, deixo ele
assim, e faço essa cara assim.
- Tu tá doido, homi. Sabi
qui é isso? É pecado. Enganar os outro é pecado.
- Qui pecadu o quê. Alguém
tem di botá comida em casa.
- Qui ideia homi?
- Essa agora qui ti mostrei.
- Tu ficou doido di vez?
- Qui nada. Essa é a mior
ideia qui tivi.
- Tu nunca teve a cabeça boa
homi.
- Mas nunca fartou comida na
mesa dessa casa.
- Craro qui não! Eu nunca
deixei.
- Você? Isso me faz rir.
- Sim. E quem seria além de
mim? Eu sim! Trabaio qui nem escrava nas casas das madames de domingo até
domingo prá botá comida dentro di casa. Ganho uma miséria limpando banheiro,
limpando chão e bunda de bebê do fio dos outro pra genti ter o qui cumê.
- Ah! E eu não? Eu não? Óia
as minhas mão! Óia! Puru calo!
- Pois é. Mas pur cupa
dessas suas ideias doidas só acabei di pagá esse mês o impréstimu que fiz com
dona Ketlin pra ocê cumprá aquela máquina di muê cana.
- Eu tentei, muié, tentei,
mas não deu certu.
- Craro qui não! Vai vender
fiado pra seus amigus e parentes. Tu não sabi qui o povo aqui du morro não paga
os fiadu qui fazem? Nunca viu o Zézéu dizer aqueli ditadu: conta veia não si
paga i a nova deixa fica véia. Dá nisso! E num precisava vende a troco di nada.
Quem si lascô fui eu.
- Ninguém queria compra. E
eu queria a bicicleta para afiar a tisora de seu Nilton que ele tava vendendo.
E tu já pago mesmo o empréstimo.
- Ah! Mas o dinheiro não
saiu de seu suor. Você não deu um centavo do que prometeu, né?
- Não reclame muié. Tu ainda
tem um emprego.
- Graças a deus dona Ketlin
foi bem paciente comigo.
- Cheia di grana, nem devia
cobrar da genti.
- Essa genti, homi rica,
conta todos os centavos qui tém. São assim mermo. Por isso qui são rico.
- Cainhas! Bandu di mão di
vaca.
- Só não entendi purque ocê
vendeu também a bicicreta de afiá tisora. Tu ganhou muito dinheiro cum ela. Até
pensei qui ia ficar rico e não ia precisar mais trabaiá nas casas das madame.
Si soubesse, eu tinha ficado cum a bicicreta tu nem mi avisô e vendeu.
- O problema era o nervoso
qui mi dava nos dente. Uuuuu... Até arrepia di lembrar.
- Mas homi, era coisa de
custumi. Eu não acostumei com a limpa a casa da patroa cum luva i máscara?
- Bestera. É diferenti.
- Não é não. Pobre tem di
baixa a cabeça e agarrar o qui tem. Manda quem podi e obedeci quem tem juízo.
- Por isso tô inventando
essa ideia pra largar mão di trabaiá pros otro. Não pricisa mais baixá a
cabeça.
- Tu perdeu o juízo, isso
sim.
- Pur que? Não vo robá di
ninguém.
- Mas vai minti. Vai imaginá
os outro. E isto é pecado.
- Pecado... si preciso pecar
para colocar o arroz e feijão na mesa todo dia, Deus qui mi perdoe. Ele intendi
a vida di pobri. Ele também foi.
- Homi, homi. Não diz
bobagem. Ele ta orvindu.
- Ta bom, ta bom. Agora mi
deixe pensar num planu. Preciso pensar comu vou fazê isso e ondi.
- Olha aqui! Nem pense em
metê o Fernando nessa sua idéia di doido.
- Nem pensei nisso. Queru
qui o Fernando istudi. Não queru qui passi pelo qui eu passei.
- Qui nós passamu, nós
passamu. Sofremu muito pur não saber iscreve, lê e faze conta. O Fernandinho
vai se diverti. Vai istudá pra sê dotô igual os fio da Ketlin. Fala nisto veio
otro recado da iscola. Otra reunião cum us pai.
- Di novu?
- Todo bimestri tem dissu.
- Enxem o saco também.
- Pois então, dona Ketlin
sempre vai na escola dos fio. Ela diz qui é importante isso. Eu disse pra ela
qui não intendo nada do que dizem lá. Ela falô qui é pra pedir para explicar
quando a genti não intendi du qui tão falando. Falei pra ela qui tenhu vergonha
di dizer qui não entendi no meio di toda aquela genti. Ela pergunto pur quê?
- E tu o qui diz?
- Qui num gosto di parece
burra.
- E ela?
- Começo a ri. E disse qui
não podi, é o futuro do Fernandinho. Eu fiquei quieta.
- Tu vai ir dessa vêz, muié.
Não possu perde meu novo negócio.
- Seu o quê?
- Meu negócio! Sou um
empreendedô.
- Num acredito nu qui tô
ovindo! E outra cosa seu malandru: a urtima reunião quem foi fui eu. Essa é
você.
- Mas você é a mãe.
- E você é o pai. Tem
obrigação também.
- Mas dessa vez não dá! Vai
você! Preciso me concentrar. Eu não tenho saco pra aquele lenga-lenga. Tenho
cosas mais importantes pra fazê.
- Tu não tem juízo, homi?
Não é mió eu pidi pra Dona Jane arrumá uma vaga pra ocê lá no restaurante dela?
Di garçon, di copero, na cozinha, sei lá. Ganhar dinheiro honesto? Cartera
assinada?
- I quem ti falô qui pedi
esmola é desonestidade?
- Tu ta ovindo o qui tu ta
falandu?
- Mi dexa em paz, muié.
- Crê em Deus pai nosso.
- Olha, dispôs eu mi acerto
cum Ele. Vô lá no Diocrécio. Vou vê se ele mi leva num lugar pra fica amanhã di
manhã. Já vorto.
II
- Ô Diocrécio. Tão ti
chamando. Ele já vem.
- Brigadão, Janine.
- hum.
- Entra ai homi. Como você
tá, véio? Anda sumido, vamos, entre, o que ti traz aqui? O que é isso aí, véio?
- Uma cadeira de rodas.
- (risos) eu vi que é uma
cadeira de rodas. Mas o que tu tá fazendo com isso? Tá com problema?
- A Janine não gosta de mim
mesmo, não é?
- Nem dá bola, meu.
- Eu fico meio chateado de
vir aqui.
- Não dá bola, ela é assim
mesmo. E aí, o que tu vais fazer com essa cadeira de rodas então?
- Tá acabando a obra e eu tô
invistindo num negócio novo.
- (risos) tu és um figuraça
mesmo. Um negócio novo?
- Olha só. Sento, ponho o pé
aqui, o outro aqui, o coberto aqui, torço o pé aqui, e a tigela aqui, e a placa
aqui.
- (risos) eu não acredito
nisso. Só você mesmo para ter uma ideia dessas. Tu é doido. Que figura.
- O que tu acha?
- Acho que tu és doido. Pelo
que entendi vai pedir esmola?
- Mas acha que dá certo?
- Tem de tentar. Só assim
vai saber.
- Pode me deixar de manhã
cedo lá na estação central antes de ir trabaiá?
- (risos) claro que posso
sim. É caminho. Mas eu saio bem cedo.
- tudo bem. Fique tranquilo.
Ti devo uma Diocrécio. Até amanhã então valeu.
- (risos)
- Eu não acredito em você
Diocrécio.
- ahhh. Janine. Relaxa.
Janine acende um cigarro. E
fuma.
III
- Muié! Muié!
- Que gritaria é essa homi?
Já chegou, homi doido?
- Olha aqui, olha! Tu não
riu de mim? Tá vendo? 125 real no primeiro dia. Sem calos, sem se matar no
pesado, sem suá, bom, na vedade suei e muito, pru que tava muito calor.
- tu vai se arrepender,
homi. escrevi o que tô ti dizendo.
- Qui foi muié?
- Deus tá vendo suas ações.
- diz então pra ele consegui
um emprego bão pra mim ganhar muito dinheiro sem sofre. Bão, dizem qui ele vê
tudo e sabi qui é sufrida a vida, ele mesmo passou por isso, então vai intendê.
- Não abusa homi.
- Pára muié. Ele vai me
perdoá. Eu sei. Com esse dinheiro dá pra compra um pedaço di custela e quimá
uma carne pra nós. Como o seu Wingando faz. Um churrasco bem gaúcho.
- Já vai gastá cum besteira?
Óia, seu Tião ti procuro hoje. Veio a tarde aqui. Pregunto porque tu não foi
mais trabaiá. Queria sabe di ocê e eu farlei qui tu tava doente. Qui foi no
P.A. i qui tá assim a semana toda.
- E ele?
- Farlô pra ocê procura por
ele dispois qui meiorasse.
- Eu quero qui ele me pague
o qui derve. Já tá no final da obra i ainda ele não me pago a primeira parte da
empreitada qui foi cumbinada. Fio de uma cadela!, tá mi enrolando.
- Cobra dele, ora!
- I tu acha qui não fiz isso
ainda?
- Cobra di novo.
- Ele sempre arruma uma
discurpa. Vou toma um banho e dispois resorvo.
- Use a água do balde. Não
tem água da rua. Se quiser água quente tem di isquentá.
- Sério? Outra vez sem água?
- E desde quandu não farta
água aqui na nossa casa? Aqui na comunidade farta todo santo dia e tu sabi.
- Qui droga. Num dianta
vortá em arguém aqui da comunidade, por que dispois di eleito ó: o desgraçadu
somi da favela. Como fez o Marcelinho bicheiro, ou o pastor Adilson. Cadê eles?
Dispois qui viraram vereado, tchau e benção. Sumiram.
IV
- Ô seu Tião. Tudo bom?
Pricisu farla com o senhor.
- Tudo bom, Homi.
- Vim dizê pru senho que não
vô mais trabaiá na obra com o senho.
- Ganhou na loteria Homi?
- Não, ainda não. Quem mi
dera. Até seria bom sabe? O que vim dizer pru sinhô é qui pricisu recebe minha
parte nu serviçu qui fiz de empreitada.
- Parte du quê?
- Dá qui trabaiei na obra e
o sinhô ainda num mi pargo.
- Você vai me disculpá, mas
vai ter de esperar a obra acaba pra receber. E tem di termina nosso acordo pra
recebe, sua parte qui começou e não quer continuar. Se não acabar a obra não
tem dinheiro.
- Mais a minha parte eu fiz.
- E essa qui começo? Tem di
terminar.
- Tô vendu qui vo leva um
canu...
- O que você tá dizendo? Tá
me chamando de ladrão?
- Eu ainda não disse isso. O
senhor é quem tá dizendo.
- Tu tá me acusando de
trapaceiro, seu moleque?
- E não é mermo? Tô sim.
- Seu moleque! Vagabundo! Vem
aqui me desaforar no meu trabalho!
- Eu só vim cobrá o qui é
meu pur direito, mas já vi qui não vou reccebê.
- Seu vagabundo!
- Ladrão! ladrão! Gato!
- Fala isso aqui na minha
cara seu filho di uma puta! Vagabundo! Safado! Sem vergonha!
- Ahhh... Filho da puta não!
Minha mãezinha não! Ladrão! Ladrão e safado! Não põe a mão no meio não que a
coisa engrossa! Velho safado!
- Calma, calma. Não vão
brigar.
- Calma seu Tião!
- Vamos conversar Homi.
Separa aqui pessoal.
- Não vão brigar.
- Eu vou sim, ele chingô
minha mãe!
- Larga essa pá, homi!
- Puta é sua muié, seu Tião!
E a filha também qui todo mundo aqui da obra comeu! Corno! Corno manso! Filho da
puta é você.
- Ahhh não. Minha mãe não!
- Seu Tião, calma! Não perde
a cabeça! Segura eles! Separa!
- Calma gente.
- Seu Tião não.
- Ele tá armado.
- Segura ele. Não deixe.
- Segura você.
- Seu Tião, não.
- Não faz besteira, homem.
- Me soltem porra! Me solta!
Vou matar esse filho de uma égua agora! Vou mostrar pra ele quem é corno manso!
- Seu Tão não!
- Calma, pelo amor de Deus!
- Me solta, merda. Eu vou
matar esse vagabundo e quem tentar me impedir!
- Não!
POW POW POW!
- Eu vou te matar, seu filho
da puta! Vou te mostrar! Me larga! Corre pra casa que eu sei onde tu mora e vou
lá te matar, seu vagabundo! Mal agradecido!
- Calma seu Tião!
- Deixe disso homem!
- Calma porra nenhuma!
- Deixa disso seu Tião. Não vai
fazer bobagem homem.
- Calma.
- Esfria a cabeça, homem.
V
- E aí, ele pago?
- Não. Quase me matou.
- O que tu tá dizendo, homi?
- Ele meteu bala em mim.
- O que?
- É. Tava armado, o corno. I
quase me mato. Chamou mamãe di puta e eu fiquei uma fera. Falei mal dele também
e fui pra cima dele. Mas foi discurpa pra não mi pagar.
- Deus do céu, homi.
- E ainda disse qui vai vir
aqui mi mata.
- Deus do céu. Jesus nos
proteja!
- Vou dá parti dele. Fazê um
B.O.
- Misericórdia, Jesus. Nos proteja.
- Tranca tudo muié. Não atendi
ninguém.
- Jesus Cristo nos guarde.
- Tranca logo tudo muié. Tô saindo.
- Cuidado, homi. Vá com
Deus. Misericórdia, Jesus. Nos proteja de todo mal. O homi é muito bom, não faz
por mal...
VI
- Ôooo. Muié. Ondi qui tu tá?
- Ué? Já chergô? Qui orvi?
- Bateu a fiscalização e tirou
todu mundu da praça.
- verdade?
- Tô dizendo.
- E tu como fez pra sair sem
ser discubertu?
- (risos) os fiscais até mi
ajudaram a subir no ônibus.
- E ainda ganhou algum
dinheiro hoje?
- Duzentos e vinte pila.
- Olha. Mas, foi mais do que
os dias que ocê ficou lá o dia inteiro.
- Sim. Foi mesmo. É fim de mês,
muié. O povo tem uns trocadinhos a mais no bolso.
- E por que ocê tá assim
meio triste?
- T não sabi o que
aconteceu.
- O que aconteceu? Fala homi.
Disimbucha logo.
O busão onde estava foi
assaltado.
- Jesus.
- Ele mesmo.
- Hã? Do qui tu tá falandu
homi?
- Foi Jesus Cristo quem
assaltou o ônibus.
- Qui é isso homi? Perdeu o juízo
e o respeito também?
- Ao menos era disfarçado de
Jesus o malandro qui assaltou o ônibus.
- Não diz isso homi.
- É sério muié.
- Para cum isso, homi. Tu perdeu
totalmente o juízo, foi? Eu falei que mentir não era uma boa coisa.
- Não muié. Eu tô falando sério.
O ladrão estava vestido com uma fantasia igual a de Jesus. Cabelos e barba
igual as da imagem. Só qui cum um revolver. Roubou todo mundo di dentro do ônibus,
até o cobrador. Eu fiquei quietinho no meu canto fingindo ser um aleijado pobre
coitado esperando que ele tivesse um pouco de pena, ou não me visse, mas qui
nada. Levô tudo. Passou até a mão na bunda di uma moça bonita que tava impe nu ônibus
quando a revistou. Mi subiu um sangue na hora. Mas o ladrão tava armado e com
os óio arregalados e vermeio. Tava doido da droga. Só pode, cheirado. Alguns passageiros
se revoltaram, mas o Jesus ladrão infiô o canu da arma no nariz di um homi e só
disse uma palavra: Amém.
- Jesus Cristo, ondi vamo
para?
- Muié, o homi mijo nas calça,
coitado, e repetiu o que o ladrão disfarçado de Jesus falo: Amém. O homi tremia
que parecia tá em uma geladeira. Aí o Jesus disfarçado levantava as mãos e
falava sério sem rir, Amém, levantando os braços, com os olhos vermeio da droga
e estralados dizendo Amém e fazendo sinal pra todos repetirem, Amém. Apontava a
arma para os passageiros e dizia: Amém. Claro que todos repetiam. Amém, Amém. Até
eu fiquei cum medo e repetia. Quando o ônibus parou o ladrão desceu do buzão
como um raio e subiu numa moto que seguia o ônibus e sumiram podando o
transito. (risos) agora eu tô me sentindo um troxa. (risos).
- Eu num credito em você.
- Eu juro que é verdade, muié.
- E agora? Num é mió arranjar
um emprego bom, de carteira assinada? Vi trabaiá di copeiro lá na cozinha da
patroa tem uma vaga no restaurante.
- Eu? Muié, tu inda não
intendeu, não é? Agora sou um impreendedo! Monto negócio. Agora negociei a
cadeira de rodas por um ponto lá na Rio Branco de flanelinha. Um ponto muito
bom disse o “Mordaça”, ele tava precisando de uma cadeira pro subrinho que
sofreu um acidente de moto, sabe aquele que leva o jogo do bicho de moto táxi? Então
tá quebrado! Mas, antes que ocê pergunti eu já fiz rolo, não, rolo é coisa de
pobre, eu negociei o ponto com o “Cabrito”. Ele vai ser flanelinha.
- Misericórdia, homi. Tu vai
se metê com o “Cabritu”? Ele num tava presu? Já saiu?
- Sim. Diz qui qué vive na
honestidade agora. Aí negociei um aluguel com ele pelo ponto di flanelinha.
- Meu Deus, homi. Toma jeito.
Pega lá nu serviço da dona Ketlin, di carteira assinada e tudo.
- Não muié. Já ti disse que
agora sou um impreendedo. Um homi di negócio. Vô toma banho.
- Não tem água.
- Aí não. Di novu?
FIM.
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-
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