TRILHOS.
O milho espalha-se pelos
trilhos. Espalha-se na mesma proporção da miséria as margens das linhas
metálicas paralelas. Ali, como as linhas de ferro, riqueza e miséria andam
próximas. A miséria parece misturada ao sangue. Por toda a vida catei milho pelos trilhos após o
trem passar pelo Itaum de frente ao barraco que chamamos casa. Ali a vida
passa com o trem. Esse mesmo trem levou Cícero. O diabo em pessoa. Foi meu homem, Cícero. Deitado
nesse caixão de madeira serrada e pregada por meu cunhado com tábuas perfuradas
por velhos pregos e cupins que lembram maçãs bichadas, é o melhor que pude dar a ele.
Melhor ele não merecia.
Foi um peso do tamanho do mundo em minhas costas esse homem. Meu pesadelo. Esse
pesadelo que durou toda a minha vida. Cumprido pesadelo que se encerrou ontem.
Encerrou ontem, quando Neocide o achou na beira do trilho. Onde tudo começou
para mim e para Cícero, e assim terminou.
Hoje posso falar. O céu
azul e o sol brilham na minha vida. Há quanto tempo não via o mundo assim? Quando me entendi como gente já vivia no trilho. Na miséria. A
primeira lembrança que tenho de Cícero foi nesses trilhos. Roubou meu saco de
milho. De poucas palavras o demônio quando soltava o verbo parecia um trovão.
Alto, cabelo pixaim, olhos redondos, vazios como os
de uma estátua, como de um cego, sem futuro, quase esverdeados, pele vermelhada de
sol e cachaça sempre encharcando seu suor e bafo. Tomou meu milho com violência.
Marquei-o, com muito ódio. Quando o via longe, fervia meu sangue.
Tudo piorou quando meus velhos pais morreram no
incêndio do barraco nosso as margens do trilho. Não tinham para onde ir. Nem eu
nem meu irmão. Eu tinha dezesseis anos, mais um mês faria dezessete. Meu irmão
doze. O trilho foi o que nos sobrou. Por uma semana estivemos com a irmã de
Cícero. Daí ela nos arrastou para a casa do demônio e me deu a ele como mulher.
Ele me violentou. Todas as noites de minha vida. Se posso assim chamar: vida. Uma
menina de 1,65 e um homem de 1,88.
Sujo, unhas, pés, saco. Feito de rocha. Fedido.
Suor e bafo. Nunca foi de falar o cão e não gostava de ouvir. Gritava enormes
nomes feios, do alto de sua forte goela. Me bateu quando atrevi a lhe
responder. Bofetadas. Aprendi a aguentar as porradas e continuava enfrentando o covarde.
Para esse demônio me aceitar minha cunhada deu a
ele os sapatos que eram de papai. Aquele mesmo que eu havia achado a beira do
trilho, todo destruído, gasto. Consertei em um sapateiro, dei a papai de
presente de aniversário. Agora tem fim nos pés desse imundo do Cícero.
As nossas vidas ficam as margens do trilho. Dizem
que ele vai acabar. Vai mudar para outro lugar. Enquanto não mudam colho milho.
Minhas costas endurecidas, meus cabelos brancos, meus dias, passo meus dias nos
trilhos. Cato miséria, cato milho. Cícero, esse ao menos, me deixou em paz. Vai
fazer companhia ao capeta. Lá vem o trem...
OUTONO/JUN/2021.