quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A praia que frequentávamos.


A PRAIA QUE FREQUENTÁVAMOS...
 Lá estava, enfim, sentada na areia da praia a qual frequentavam juntas, desde que se conheceram, e ali mesmo, naquelas areias, que agora sente roçar em seu corpo, como uma lixa, raspando a barreira que ela própria levantou, para atravancar lembranças de um passado indesejado. Levantar um muro de contenção para certas memórias desagradáveis, foi a alternativa. Parece que falhou. Isso a faz apertar, com muita força à prancha entre os braços e seios, quase esmagando-a, exprimindo assim, lágrimas contidas até ali, não derramadas nesse dia, mas constantes, quase diárias, em outros, que embaçam seus olhos intumescidos.  
A prancha, agora, é sua ancora. Tenta ser forte, não chorar, contudo, e, cada vez mais, a cada dia que passa, fica assustadoramente mais difícil. Seca as lágrimas que escorrem pelo rosto com as costas da mão, em seguida, com o antebraço seca o nariz, úmido, por onde escorre sua aflição. Tranca o choro dentro de um soluço que dói. Tenta em seguida controlar o ódio. Só que o ódio a domina. Fica quase impossível não ser afogada no turbulento ódio pela vida, pelo mundo, pelas pessoas a sua volta.
Ódio. Ódio.
Por que tanto ódio?
Ódio por que a saudade dói. Faz ferver o sangue. Essa ebulição de sentimentos a consome. Nunca mais foi a mesma desde aquela data. A Lei. A maldita Lei! Um pacote de maldades de restrições aos Direitos Humanos, direitos “imorais” diziam seus autores. defensores de uma conservadora ordem dos costumes. Um pacote de Leis chamado de “Lei dos bons costumes”. lei da Intolerância, como a apelidaram os ativistas. um verdadeiro pacote de maldades. Essa lei mudou sua vida. E de milhares de pessoas. Desde então nunca mais pode ser a mesma. Já, há muito, havia perdido o contato com a família. Seu pai nunca a perdoou por suas escolhas, não conseguia entender. Morreu assim. Sua mãe a trata com frieza, seu irmão gêmeo cuspiu em sua cara e a esbofeteou quando apresentou a pessoa com quem escolheu viver e a culpou por ter matado o próprio pai de desgosto. Doeu. Muito. Suas palavras doeram ainda mais que a mão: vagabunda. Foi assim que a chamou.
Seca, com o dorso da mão, as lágrimas que correm pelo rosto redondo de menina, cheio de pintas, que a deixa ainda mais charmosa. Inchados estão seus olhos. A prancha serve de ancora. O mar verde preenche um pequeno vazio do todo deixado pela companheira. Junto com essas torrentes de sentimentos também vem diluído um pedaço de lembranças. Carregada pela correnteza da memória e da angustia, são fortes demais para afogar. Não consegue dissolver no líquido fluido da memória, o amor ou a saudade. Inunda assim seu sangue, que ferve. Ficou quase dez anos sem tocar com os pés a areia da praia. O chamado das ondas foi irresistível. Sufocando-a. A dor é igual na cidade. Todas as noites juntos, lágrimas e soluços a estão destruindo. Remédios não resolveram. Quem sabe voltar ao mesmo lugar que frequentavam juntas... Dói, ainda mais sem seu amor. Dói demais. Mas, muitas vezes, é melhor, o passado enfrentar.
Nunca mais confiou em ninguém. É perigoso. Conversa com as pessoas do trabalho estritamente o necessário. Tenta mascarar com simpatia tratando bem a todos. Só que seu coração calcificou. Ninguém é confiável. Tem quase certeza de quem às entregou para a polícia moral foram suas vizinhas. A Lei dos bons costumes proibiu, quando em vigor, qualquer convivência entre pessoas do mesmo sexo, entre mães solteiras, com filhos e sem. Homens também, ficaram proibidos a partir dos 21 anos a viver sozinhos. Ser solteiro virou um crime. E a obrigação maior do cidadão de bem é denunciar. vizinhos, parentes, amigos, tudo e todos. Podendo, pecar nesse quesito e ser assim enquadrado no Artigo 3º parágrafo Único da “Conivência Imoral para o bem comum e do cidadão de bem e republicano” e, ainda completando com corrupção ativa.
Os protestos foram muitos, porém, não geraram os resultados que os “atingidos” pela nova lei esperavam. Reforçou, isso sim, ainda mais o ódio aos “subversivos sociais”, aos contaminadores das boas práticas e condutas. A imagem cultural do país internacionalmente era a da liberdade dos costumes. Carnaval, praia, sol, festas, alegria de viver. Grande engano. O conservadorismo mostrou sua cara. Mostrou a que veio. A violência foi extrema. Ofereceram até dinheiro, prêmio, a quem entregasse os subversivos. Uma verdadeira caça as bruxas. Muitos foram presos acusados e tratados como doentes. Tratados como portadores de doenças sexualmente transmissíveis, hospedeiras, e hospedeiros de um vírus, transmissores de transgressões sociais perigosíssimas para a humanidade. Receberam um tratamento paliativo. Separadas, seu amor não resistiu ao tratamento, não resistiu à distância e a tortura. O tratamento, além de infusão de sangue, além de drogas inibidoras de desejos sexuais, valia-se de estupros constantes de seus corpos por dezenas de diferentes homens. Muitas vezes ao mesmo tempo. Ela sobreviveu a isso, se assim podemos dizer. Sua querida parceira e amiga não. Tentou se matar e não conseguiu. Bebe muito, é a única forma de continuar vegetando.
Os agentes do Novo Moralismo, como ficaram conhecidos os defensores da campanha, perpetrada pelo governo reacionário eleito naquele fatídico ano, enviou, numa tentativa de reacender seus desejos sexuais, muitos parceiros masculinos, homens para ela conhecer. Até transou com alguns desses candidatos a marido num futuro próximo. Bem, transar não parece ser a palavra mais adequada, “entregou-se” sim, para não levantar suspeitas. Depois de beber muito, é claro. Duas garrafas de Uísque. Poderiam até acusá-la de não ter sido curada pelo tratamento, então entrava no jogo. Precisava sim, escolher entre um desses homens e casar como uma mulher heterossexual normal. Para fugir da obrigação pagou uma alta quantia em dinheiro ao pretendente a marido que aceitou sua proposta e finge ser casado com ela. Às vezes se encontram.
O governo, em nome da segurança e da liberdade, instalou câmeras de monitoramento por toda a cidade com a desculpa de vigiar criminosos ou potenciais criminosos. Prevenção foi à palavra. Na frente das casas, ônibus, trens, metrôs, praças publicas. Vigilância. A Nova Moralidade exige isso. Vigilância constante. A religião não bastava mais para vigiar do alto do céu com seu deus onipresente e onipotente a vida das pessoas. Drones fazem isso agora e todos sabem muito bem disso. Para viajar é necessário autorização. Para ir ao campo, autorização. A um rio no verão: autorização. Trocar de trabalho? A mesma coisa; visita médica prévia? Com autorização; dentista, regime alimentar, tudo.
Todas as famílias possuem um integrante da policia moralista. Em geral homens. Filhos, tios, primos, netos e vizinhos. As escolas ensinam a nova ordem moral, as aulas de história explicam os motivos dessas estratégias moralistas como a salvação da espécie e também da ordem político-social e econômica vigentes até então, capitalista, democrática a burguesa.     Conquistada a duras penas e muitos corpos separados das cabeças nas revoluções do século XIX e XX, deu ordem a esse mundo desorganizado, herança medieval européia e das tradições autóctones indígenas. As portas dos quartos não são mais fechados, vigilância. A nova tecnologia, a nanotecnologia, foi abraçada pela Nova ordem moralista como a última esperança de garantir a obediência, isso na visão de seus estrategistas. Nano robôs foram desenvolvidos em forma de insetos que policiam as casas com câmeras instaladas nos seus corpos. Incrível é que todo cidadão tem de ter no mínimo um desses insetos em casa, comprados com dinheiro do suor de seu trabalho. O lucro para as empresas privadas que desenvolveram essas tecnologias são direitos Constitucionais e invioláveis. O Estado não fornece nenhum desses instrumentos de vigilância e controle. Com milhares de horas de publicidade, cartazes, outdoors cuspidos pela mídia de que o melhor é vigiar seu patrimônio ou cuidar de idosos e crianças em casa, deixadas sozinhas, foi a desculpa.
Não se pode falar no passado fora das salas de aula. O passado é perigoso. Viver é sempre no presente.
“ Quando isso terá fim?”, na areia, seu corpo, dentro de um maiô preto, é tocado pelo vento úmido do mar que a faz sentir-se viva. Ou meia viva. Os homens que por ali passam a olham com desejo. A praia está lotada de gente. Gente feliz. Muitas desses pessoas se perguntam por que aquela moça morena, linda, apesar de já estar na casa dos trinta e poucos anos, está chorando? Ou está sozinha? Seu nariz, bem na ponta fica vermelho e seu rosto molhado pelas lágrimas que escorrem dos olhos verdes onde tenta secar com as mãos está inchado de tanto chorar. 
Um audacioso se aproxima e pergunta se está tudo bem, se está sentindo algo, recebendo uma resposta breve, entre um sorriso amargo e um quê de agradecimento na voz indiferente, tentando ser gentil, dizendo que está tudo bem, é só uma gripe que pegou. Contudo sua voz tremia. Nada ia bem.
A dor da vida sem ela é grande demais para suportar. Maior que suas forças. Dói demais pensar em viver a vida toda assim. Na mentira. Muitas vezes já pensou em se entregar a policia moral, acabar com tudo, porém, o que lhe falta é coragem, não suportaria sentir dor. Já sofre com a dor da perda, imagina dor física? Sabe que em algum momento tudo irá acabar. Estão desenvolvendo um nano chip para inserir em baixo da pele dos subversivos que indicará a quantidade de hormônios e de quais tipos estão sendo produzidos pelos hospedeiros. Se houver excesso de um tipo de hormônio indicando algo fora dos níveis ditos “ padrões normais” e alerte os órgãos governamentais responsáveis pelo policiamento social e da saúde moral será indiciada para prestar contas à sociedade perante um juiz. Uma cirurgia é indicada e realizada. Inserindo uma nano câmera nos olhos do doente, como última alternativa, antes da lobotomia e, é isso o que diz a Lei, “por misericórdia cristã”, filmando todos os movimentos do acusado a partir de sua visão, “cuidando de seus interesses e dos interesses da sociedade higienizadora de todo o mal”. Essa alternativa não sabe se é verdade, ouviu dizer. Eles não seriam capazes de ir tão longe... Se necessário há o registro de um diagnóstico com punições ou medicamentos adequados para a cura. Primeiro o projeto está sendo testado em mendigos, negros e pobres. Aprovado, então, pelos órgãos moralistas seguirá diretamente para decreto presidencial sem precisar de apreciação dos congressistas. A Lei, se aprovada, permitirá a cirurgia nas classes mais abastadas. Alguns desses grupos são protegidos por Lei constitucional e, não podem sofrer restrições às liberdades de classe. Por lei não podem sofrer cirurgias, ou perseguições. Magistrados, militares de alta patente, políticos, religiosos, reconhecidos pela fé legal e institucional do Estado e traficantes. Esses últimos ganharam notoriedade e tutela do Estado a partir do momento em que sua presença se fez maioria entre parlamentares e congressistas.
“Por que me abandonaste assim? Não sei o que vou fazer. Sinto-me tão sozinha.” Tenta encontrar uma resposta entre os soluços e o espumante branco das ondas do mar. Abraça a prancha, é sua ancora. Como se nada mais pudesse abraçar, consolando seu desespero. Está cansada.
O mundo era muito mais colorido antes. As nuvens baixas, velozes, cinzas, em pequenos gomos como algodão, surgem na linha do horizonte onde o mar encontra-se com o céu e ao tocar o litoral ganham um colorido diferente, e, de tão baixas,, parecem fáceis de serem tocadas. Olha ao largo da praia. Pensa em como as pessoas são tão felizes, ao menos na aparência, não importando sua condição. Importa o individual, satisfação pessoal. Egoísmo. Apesar das cores, dos sorrisos, dos gritos, das roupas coloridas, da cor da areia, do verde das ilhas, do barquinho dos pescadores, que tinge o mar de felicidade, que é total, há ainda a tristeza. Que é proibida. é perseguida. tem de ser aniquilada, a qualquer custo. O mundo era mais colorido quando não era translúcido. Tudo e todos. Até ela, translúcida e insensível. Apesar do Poder defender os direitos privados e individuais, o que é a regra, é não esconder nada. Transparência.
Lembra-se do ano em que tudo mudou. Foi depois daquela foto do imenso buraco negro há milhões de anos luz da Terra. Surgiu então um boato de que não era tão longe assim e de que tudo terminaria em poucas décadas. Ou que viram algo ameaçador. Boatos e mais boatos surgiram. A população exigia saber. Foi o estopim para a radicalização. As pessoas se desesperaram, as instituições governamentais perderam o controle das massas. As elites pediam por intervenção e ordem. As pessoas sempre pedem por um intenso controle de suas vidas. Quando pedem por leis, pedem por restrições de liberdade. Em poucos anos o controle sobre o corpo e a vontade foi elevada até o limite e o policiamento aumentou. Tudo precisa de autorização. E o amor? O amor... Também.
Tudo era vigiado.
Tudo!
Ficou muito difícil...
Muito.
O homem que lhe dirigiu a palavra conversa agora com o guarda vidas da praia apontando para ela. Preocupação? Se você é testemunha de algo que não entende ou está fora dos padrões normais da felicidade total, como ver uma bela moça, surfista, em uma bela tarde de verão chorando e não informar as autoridades competentes pode ser julgado e condenado juntamente com a própria moça que está desrespeitando as leis e quebrando as regras tão caras a sociedade do prazer e felicidade total dos heterossexuais. Sua culpa é tão grande quanto à dela. O bom cidadão, o cidadão de bem tem a obrigação de colaborar com o bom andamento social a caminho da felicidade plena, isso inclui policiar os vizinhos ou comunicar a situação da moça chorosa e solitária na areia da praia.
- o melhor é ir embora, pensa. Evitar o confronto. Ela é muito fraca para a dor. Não suporta nem imaginar a dor da tortura. Sabe qual é o destino dos subversivos. Chorar é perigoso. O gostar de alguém foi suprimido. Gostar de alguém?
- lá vem o guarda vidas, saco, pensa indignada.
- Ei moça! Espere aí moça! Moça!
Corre. E as lágrimas surgem, outra vez, inundando seus olhos.

                                                                       OUTONO/MAIO/2019.

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...