COM O PANDEIRO NA MÃO.
Com o pandeiro na mão, Flávio, demonstra o que muitos
já sabiam na comunidade: seu enorme talento com instrumentos musicais. O rapaz
distribui sorrisos e simpatias com o pandeiro na mão e a
alegria de seus olhos que brilham. Reconhecido como um dos melhores músicos do morro, tem assim o
ego alimentado. A companhia de uma ótima cerveja gelada, lubrificando lábios e garganta, mulheres bonitas e
churrasquinho, é tudo o espera do mundo.
Têm admiradores, amigos nas
vielas do morro. Contudo, alguns moradores sentem certo desconforto com a
presença do instrumentista, mantendo certa distância do rapaz. Sua presença gera rumores e murmúrios sobre a vida desregrada que
leva, morro acima, morro abaixo. A admiração de alguns vem das esquivadas dos enrosco fugindo com a agilidade de um gato, por essas espertezas e malandragens que
desenvolveu no vai e vem das vielas, é herói dos que o admiram.
Entretanto, sabemos que outros não aceitam assim.
Simples, sorridente, age
com justiça, no caso de opinar ou resolver conflitos de terceiros. Ele mesmo
nunca julga suas próprias ações, prejudicar um inocente ou
se precisa enganar outros vai em frente. Afinal, pensa, preciso garantir minha sobrevivência. A
consciência até pesa, mas, é só encharcar o corpo com uma cerveja bem gelada, anuviar a cabeça e pronto.
Sorrisos. Animada roda de
samba, Flávio domina com maestria o cavaquinho, é mestre, preferindo, entretanto, em
especial nessa tarde de sábado, já avançando à noite, o pandeiro. Condiz mais liberdade de atacar o
prato com nacos de carne do churrasco que passa por ali, acompanhado de linguicinha
e farofa.
Intrometido, sem convite, seguiu, das estreitas ladeiras, um amigo que
encontrou nas escadarias. Cumprimentou-o, então, deveras já dito sobre sua
simpatia, recebendo de volta um “como está?”; rápido, numa tentativa de escape
inusitada, o que Flávio logo percebeu como estratégia de fuga. Desconfiado
esticou a conversa, “e como está a tia?”; Flávio chama a mãe de seus conhecidos
sempre por tia; “vai bem. Falou? Tenho de ir. Foi bom ti ver”; “vai onde?”; “na
casa de um camarada.”; “legal”, responde Flávio depois de correr rápido os
olhos pelas mãos e sacolas levadas pelo ansioso fugitivo. Identificou cervejas, carne, sal
grosso e um reco-reco. Percebendo, o interrogado deixa um ligeiro “vou indo,
valeu?”; Essa deixa não escapou a agilidade surpreendente que Flávio tem para
arrumar desculpas e não deixar caça fugir.
- Agora lembrei – ligeiro – vi você e lembrei.
Tenho que voltar em casa esqueci uns papéis, ainda bem que vi você. Onde estou
com a cabeça? Vou aproveitar e subir junto, posso?
Não espera ser convidado e já gruda. Subiram
quase em silêncio, só os questionamentos de Flávio tentando tirar segredos
escondido pelo visivelmente receoso companheiro de escadarias quebrava o gelo.
O esquecido Flávio juntou-se assim a roda de samba e ao churrasco, mesmo sem ser
convidado. Hoje mata a vontade de cerveja e churrasco. Jardel, sem sorte,
encontrou Flávio pelo caminho, e não passará ileso de um
bom sabão da tia por ter trazido aquele cara de pau até sua casa.
A festa ganhou um ar pesado, denso e sufocante,
mesmo que Flávio não demonstrasse a menor preocupação com isso, distribuindo
sorrisos. Invertido, muitos ali se sentiram ultrajados,
mesmo incomodados com a presença daquele “salafrário e sem vergonha”. Chateados deixaram a festa.
- Olha aí? Viu Jardel? Você não sabe que
esse sem vergonha fez o que não devia com a filha da Neném e do Anselmo?
- Mas tia, ele me seguiu até aqui. Eu disse a ele
que era só pra convidados e seu Anselmo estaria também.
- Eu vou ti matar – responde a tia, rosnando entre
os dentes, descendo o braço no sobrinho, desferindo cascudos na cabeça dele.
E Flávio? Galanteador, dizem as venenosas línguas
da comunidade, é pai de seis crianças no morro, isso aos vinte e um anos.
Bonito ele é, cor de canela, pele que brilha ao sol, quase sempre sem camisa,
cabelo alinhado, dentes fortes, brancos, perfeitos, sorriso desenhado por lábios
grossos libidinosos. Encanta moças, inveja alguns homens e preocupa a
diferentes pais da favela.
Meninas sonham com ele e seu robusto peitoral. Bom
de conversa, tanto quanto de jogo de cintura. Olhos dentro dos olhos de
uma moça que samba sem cansar, sabendo, mesmo assim desejoso, que é noiva de um morador
do morro. Não está nem aí. “deixou filhas e noivas soltas, meu irmão...”.
Flávio mora com a avó. Não sabe dos pais, e não tem
irmãos. Estudos? O ensino Médio por persistência da avó que o venceu pela
aporrinhação, daí por diante toca a vida como dá: foi moto táxi, sem
habilitação fazia corridas dentro da comunidade, entrega de água é gás, no
mesmo mercadinho onde era uma espécie de faz tudo, repõe mercadoria, ajudava no
caixa, na padaria e entregas, nessas idas e vindas pelas vielas conheceu muitas
das namoradas com quem teve diferentes filhos e filhas.
Flávio sabe muito bem onde coloca o nariz, mantendo
distância do tráfico e da ladroagem. Tem noção do perigo, sabe que o
envolvimento com os malucos nunca acaba bem. Ultimamente vem se garantindo no
apoio de músicos famosos ou os que procuram seus espaços pelos bares da cidade,
seu domínio no cavaquinho e no pandeiro desceu o morro e correu até o asfalto. Numa dessas apresentações conheceu e engravidou uma artista famosa das telenovelas. É. Seu mundo é esse.
Como ninguém pode culpá-lo de não gostar do
tedioso, chato e desumano trabalho mecânico, de oito horas diárias, o jovem tem
razão em não aceitar se submeter à tamanha violência física. Convenhamos,
amigos leitores, ele tem razão.
A cerveja gelada seca rápido no copo de Flávio, tão
rápido quanto os molejos da incansável dançarina, seus movimentos luxuriantes
no rebolar e quebrar do samba. É atacada inexoravelmente pelos olhares
maliciosos de Flávio. Há muito andava cuidando da moça, e agora estão próximos.
Sua chance de trocar umas ideias com a morena surgiu hoje.
- Lê, lê, lê, lê – todos cantam num coro uníssono.
- “Vai vadiar, vai vadiar, vai vadiar, vai vadiar”
– outro coro.
- “Sonho meu, sonho meu”... – e outro.
- “Põe meia dúzia de Brahma pra gelar que eu tô voltando” - e outro.
- Flávio! – um grito, seu nome sobrepujou todos
os instrumentos, conversas empolgadas e a cantoria. Assustado olha na direção de
quem o chamou.
- dona Neném! Não, pelo amor de deus! Não faça essa
bobagem! – grita à dona da casa, tia de Jardel, quem organizou a festa e
convidou à vizinha, dona Neném.
Portava uma arma apontada
diretamente para o jovem que destruiu sua vida e desgraçou com a da filha,
quando essa caiu na conversa desse salafrário. Flávio assediou sua única filha, iludindo-a com
promessas de casamento. Quinze anos a moça, apaixonada, acreditou e engravidou.
Depois de descobrir, Flávio pulou fora do barco.
Os olhos expressando um pânico nunca antes tocado em seus nervos dessa forma, respiração tensa, lábios trêmulos, sua reação é correr.
- Vai fugir? – dona Neném dá um tiro de advertência
na frente dos pés de Flávio.
Sua menina, com vergonha e desesperada por ter sido
enganado pelo galanteador desistiu da vida dando um fim na dor pulando da ponte
Rio-Niterói.
- Vai fazer como da outra vez, desgraçado? – disse
dona Neném.
Metade dos convidados fugiu, ficando os mais chegados
à tentativa de impedir o provável final anunciado como um trovão antes da
tempestade.
- Não dona Neném. Não faça isso – implora o tio de
Jardel que caminha em direção de dona Neném, essa atira ao chão avisando para não se
aproximar, demonstra não estar de brincadeira. Ali a coisa é séria.
O silêncio assustador rompe por completo com
qualquer murmúrio ou pedidos de deixa disso. Nada mais escutam, além da
respiração acelerada do algoz e do condenado. O peito de Flávio parece que irá explodir
como se fosse cuspir o coração. Sem mais, tenta correr outra vez, contudo, outro
estampido seco o impede. Uns tampam os ouvidos, outros fecham também os olhos aliando as duas
reações automáticas.
- Tenta de novo. Vai seu desgraçado. Hoje você não
sai vivo daqui.
Flávio levanta as mãos numa reação de rendição. Nada
diz, nada pode dizer.
- dona Neném não faz isso pelo amor de deus. Vai
desgraçar com sua vida – suplica a tia de Jardel – isso não trará sua filha de
volta.
- Eu sei – ríspida dona Neném corta os apelos da
vizinha – só que quando eu acabar com ele irei encontrar minha filhinha ao lado
de Jesus no céu.
- Não Neném não! – implora desesperadamente à amiga. Incontida, derrama lágrimas e soluços, entre os quais, diz, repetidas vezes, não, não e não.
Um chute assusta o marido de dona Neném, que acorda do sono pesado, ao mesmo tempo em que a mulher se debate ao seu lado na cama.
- Neném? Acorda mulher. Teve um pesadelo?
Dona Neném encara o marido, de bagos arregalados,
abraça-o chorosa, intensamente, murmurando a saudade que sente da filha que perdeu.
FIM. VERÃO/MARÇO/2020.