quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O FAROLEIRO.

 

O FAROLEIRO

 

O vento ruge pela noite encoberta de estrelas. A ilha onde se localiza o farol não fica longe da costa. As luzes da praia piscam com o movimento do mar e do ar carregado de maresia. Distante, sim, o bastante para uma sensação saudosa esmagada pela solidão. O ar corrente, gelado e molhado, varre um pensamento na direção da costa: Ofélia.

O que Ofélia faz por lá? Porque não voltou ou enviou noticias? O vento uivante é tudo o que obtém de resposta. Cobre as orelhas com o grosso casaco azul marinho e cerra mais ainda o gorro branco na cabeça. Enquanto o mar castiga pedras com fortes e explosivas ondas espumantes seu olhar se perde no passado, ao mesmo tempo em que o futuro o assalta com duvidas. São semanas que Ofélia foi visitar a mãe e não mais voltou.

Por quê?

O vento uiva. Grandes navios cruzam o canal entre a ilha e o continente. Rápidas mudanças o esquivam desses pensamentos solitários. A mudança na engenharia e grandeza dos navios o assusta. Na ciência dos aparelhos eletrônicos de comando do farol e do rádio. Contudo, essas distrações se dispersa na lembrança de Ofélia. Por que não voltou Ofélia? Ocorreu um acidente? Por que ninguém veio me avisar?

Os marujos que chegam e saem da ilha o ignoram como se não existisse. O faroleiro, cansado, ficou de fora das mudanças na instrumentação. Sente-se perdido. Entra no prédio, questiona quem ali ocupa o posto de faroleiro, quais ordens receberam, não obteve informações e instruções de como manejar com esses novos instrumentos cheio de luzes coloridas, se retornará a terra firme e quando. Até mesmo sobre Ofélia. Ignoram.

Nos últimos tempos tem evitado a sala do faroleiro. Aborrecido caminha pelas trilhas da ilha encontrando-se, por fim, sempre no pequeno cais de embarque ou desembarque protegido do vento e das ondas. Mesmo Ofélia partiu dali. Quantos antes dela? Quantos depois? Muitas famílias. Os faroleiros moram por meses ou anos com suas famílias nesta ilha do farol. Ofélia partiu sem ele. Brigaram. Desentenderam-se. Ele não foi despedir-se dela. Entretanto, uma carta ela deixou prometendo retornar. O velho faroleiro sentiu um amargo na boca, arrependimento?

Do outro lado, luzes balançam. Piscam. Ondas explodem do lado desprotegido da ilha avisando que o mar, mal-humorado, sofre de uma grande ressaca.

Caminha pelas grandes pedras rumo à casa do faroleiro. Tem a atenção dos cães que ali vivem com os marujos. As pessoas o ignoram. Deixa escapar dos lábios alguns bons dias ou boa noite sem receber retorno, nem olhar se quer. O que por fim mais o machuca é a falta de notícias de Ofélia. Questiona aos que chegam. Nada. Aos que partem pede que a procurem e enviem noticias. Nada. Escreveu cartas e nada.

O vento sopra, as ondas arrebentam contra os costões que rodeiam a olha do farol espumando-se em líquidos paredões brancos. Fecha mais ainda o casaco encolhendo-se dentro de si mesmo. Retorna ao quarto sabendo que nenhum barco, com esse tempo, aportará por ali trazendo sua Ofélia de volta. No centro de comando do farol informa ao marujo que lá se encontra que está se recolhendo aos seus aposentos. Nem uma xícara de café quente lhe é permitido. Ignorado, sai, depois de ler uma notícia em um jornal, interessado mesmo é a data que o chama a atenção. Setembro de 2020. 2020?

Quando chega a seus aposentos confere, após acender a lamparina a óleo, uma folhinha pendurada em sua parede caiada indicando o ano de 1907. Estica-se na cama, vestido em seu pijama, arrastando na mente seus pensamentos para Ofélia. O que estaria a mulher fazendo essa hora na casa de seus pais?



INVERNO/SET/2020.

 

 

 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A ODISSEIA DE ANTÃO.

 

 

A ODISSEIA DE ANTÃO.

O tamanco que calçava deixou pelo caminho, apesar do torturador frio que faz. Achou melhor seguir de pés descalços. Os passos acelerados demonstram o domínio do medo. E quem não estaria àquela hora da noite? Noite de vento, de lua crescente, de brilho pálido, com o sacolejar das folhas que dançam a luz e ao vento.

O caminho, enlameado, parece maior do que das outras vezes que Antão o fez. Talvez por repetir durante o dia, não se importando com os sons e a penumbra da noite. Logo hoje a prima Clara vai ter seu neném? No mesmo dia da filha de dona Laurinda? Ou melhor, na mesma noite?

Antão, então segue atrás de sua mãe. Parteira e benzedeira famosa na região. Suas irmãs menores ficaram em casa. Estão protegidos por Pretinho e Florbela, os cães da família. Cuidam bem dos donos. Ninguém chega sem os dois darem o alerta.

E o pai? Esse está ao sul. Carreteiro, leva farinha e compra charque. Pelo caminho deixa lã. O marido da prima Clara seguiu em outra direção, rumou ao norte. Época da maçã, pinhão, retorna com o fim da colheita. A prima Clara tem uma filha mais velha do que Antão, dois anos mais velha, contudo, sofre de tísica, Antão, então assumiu a missão de encontrar a mãe. E se vai.

Enrolado num poncho que o acalora do vento frio, talhante como navalha, se comprime como pode. Antão marcha entre as folhas das árvores que assobiam com a respiração do vento. O que mais o assusta são as sombras. Parece camuflar, ao longe, além de vagabundos e vadios, almas penadas e seres de fábulas. O melhor é não olhar muito para frente, concentra-se então em seus passos. Conhece mesmo o caminho. Dedos congelados. Enlameados. O coração bate forte.

Cães ladram ao longe. A lua parece brincar de esconde-esconde, surge, entre as folhas dançantes e consorte do vento, nesse engodo entre o três para assustar o menino. Esconde-se outra vez para aparecer de novo e olhá-lo de um cantinho do céu estrelado. Um rugido. O coaxar de sapos e o chirriar de uma coruja. As goradeiras são perigosas, dizia a avó de Antão. Nos dias de lua cheia, são ainda piores, por enquanto, estamos na crescente. Sorte. Antão impõe velocidade nos passos. Fica sem fôlego com o ar frio que invade seus pulmões. Assusta-se com a coruja: Uuuu! Uuuuu! O jovem, trepidante, grita com o animal agourento.

- Vai agourar o Diabo!

Uuuuu! Uuuuu.

Recebe de resposta.

Após o assombro com a coruja o jovem fica alerta em seus sentidos. Qualquer coisa o assusta ainda mais. Para piorar lembra-se que vai precisar passar na frente do cemitério. Não vou pensar nisso!, não vou pensar nisso! Encolhe-se no poncho. Tanta história ouviu do cemitério. Almas penadas, o velho Chico pistoleiro, o boitatá, o açougueiro Schmidt, a alma penada da jovem Helga. Correntes ouvidas à noite, choro, lamurias, pedidos de ajuda.

Adiante, o cemitério. Antão tapa os ouvidos. Cerra os olhos. Firme na marcha segue em frente. Nada. Nem correntes que rangem, nem mesmo as que trancafiam o portão. Nem lamurias ou choros, sem pedidos de socorro ou chirriar de corujas. Sem almas que o chamam ou o boitatá.

Adiante, Antão continua em sua odisseia. Ao encontro da mãe. O menino, com os pés descalços e caminhar firme, seguem ao encontro da maturidade.

 

                            PRIMAVERA/NOV/2020.

terça-feira, 3 de novembro de 2020

QUINDINS DE DONA NONÓCA.

 

QUINDINS DE DONA NONÓCA.

 

            Dona Nonóca aguarda ansiosa por suas visitas secretas semanais. Calada à um canto da cozinha saboreia aquele momento singular comparado ao duro cotidiano da vida na Colônia. Em uma bandeja dona Nonóca reparte simétricos pedaços iguais e quadrados de um bolo de banana que preparou. Deixa-o esfriar no arejo da brisa da tarde, essa que entra pelas janelas verdes da beira da floresta que circunda a casa.

            Alguns instantes são passados. Curtidos por xícaras de café no momento em que surge uma pequena mão cor de caramelo, ligeira e audaciosa, furtando um pequeno torrão do bolo de dona Nonóca.

            Aperta-se mais ao canto da parede na tentativa de não ser vista pelos ladrõezinhos. Surrupiam um pedaço do doce. Sussurros trocados seguidos de outra mão ligeira de pinturas vermelhas que invadem a janela e arrancam de uma só vez três pedaços do delicioso e cheiroso bolo. Dona Nonóca ouve então risos, murmúrios de crianças ao qual, por fim correm. A doceira rapidamente pendura-se à janela no exame inundado de curiosa vontade de ver os pequeninos depois de visitas constantes por dois meses, alegra-se. Peles morenas, cabelos negros brilhantes, tinturas vermelhas pelos corpos nus, pés descalços, acompanhados de um cão.

            Ganha presentes também dona Nonóca. Deixam um cesto de vime verde com farinha branca conhecida nessas terras por Tapioca. Esses dias compensam o cansaço da vida dessa mulher nas terras distantes de seu país de origem. O sorriso ilumina o rosto de dona Nonóca ao final, por ver suas visitas secretas.

            - Esses miúdos!

            Semanas depois tudo se sucede. O bolo tem outro sabor. Bolo de milho. Alegrias preenchem o ar abaixo da janela. Murmúrios e sussurros. O cão que acompanha as crianças exige a parte dele com choros e grunhidos. Desta vez deixam, além de plumagens, um pequeno porco do mato.

            - Nonóca? O que é isso agora? Aprendeu a caçar, foi?

            - Por que não?

            - Nonóca? De onde é esse porco? Exige saber o marido.

            - Come.

            Os homens da família, sentados à mesa trocam olhares desconfiados e interrogativos.

            - Comem, insiste dona Nonóca. Não está bom? Estão sem fome? Comem.

            - Nonóca... Adverte seu marido com sublimes ameaças, Joaquim Gusmão.

 

            Na janela, quindins. Aprendeu em Belém. Mãos pintadas com carvão. Risos de crianças. O cão, alerta, rosna diferente, chamando aos naturais da terra. Fogem pela trilha de volta. Dona Nonóca voa até a janela não entendendo o que os espantou. Ao chão, tigelas e cumbucas de cerâmica deixadas às pressas no corre-corre. Palavras em línguas nativas, vozes ansiosas de crianças soltas. Costas pintadas são o que dona Nonóca vê por fim. Então, tiros.

            Tiros, tiros, tiros.

            Então cozinheira sente o mundo girar numa vertigem que quase a joga ao chão. A mesa rústica a socorre, apoia as mãos querendo deduzir o que já sabe o que aconteceu.

            O marido, de bigodes brancos, surge da curva da trilha arrastando, num largo sorriso, a fila de homens armados. Os filhos e o cunhado. Nos lábios esbanjam um orgulho idiota pelo prêmio conquistado depois de cinco dias de tocaia. Arrastados pelos pés, os miúdos e o cão. Largados abaixo da janela como trapos velhos. Horrorizada, dona Nonóca leva a mão aos lábios. Um de seus filhos, altivo e orgulhoso, comemora erguendo a arma e agita na direção da mãe silenciosa na janela.

            - Pegamos.

 

                                   INVERNO/AGO/2020.

           

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 

 

O BOMBARDEIO.

 

         Suas curtas pernas de pequeninos pés são compensadas com a ligeireza dos passos. A angustia trás a urgência de chegar ao centro da cidade. Quando lavava roupas, ouviu a gritaria espalhar-se entre vizinhos e outros moradores. Seu Nhônhô foi quem lhe disse o que ocorria. Estrondos e explosões alcançavam seus ouvidos enquanto caminhava apressada a procura do filho, José.

O sapateiro Téco tenta impedi-la de procurar o filho na região central, frustrou-se na tentativa de convencê-la de que o menino já deveria ter fugido quando começou toda à balburdia de tiros e canhões. A mulher desesperada reagiu com um empurrão no homem e deixando de resposta a seguinte pergunta: então porque ele não veio para casa?

 Maristela perdeu o pai faz cinco dias. Seu Jorjão era quem ganhava boa parte da renda da família vendendo doces nas ruas centrais do Rio de Janeiro. No Campo do Santana, na Rua do Ouvidor, no Paço. Ela, Maristela, única filha mulher de seu Jorjão, o ajudava no preparo dos doces, ao qual, por cinquenta anos o velho vendeu-os pelas ruas da capital federal.

Os outros dois irmãos de Maristela, não aceitaram levar essa vida sofrida e tão humilhante como insinuavam. Silvio, o mais velho, foi embora para o Amazonas a procura de fortunas e garimpo de ouro. Nunca mais tiveram notícias dele. Silvano, o mais moço, procurou o crime como forma de enriquecimento rápido. Qual fim levou? Ninguém sabe. E agora José no meio dessa guerra.

Não pode perdê-lo. Seu coração palpita tão rápido quanto seus passos. O menino assumiu o lugar do avô, já que ela sozinha não conseguiria prover as necessidades da casa. O estrondo dos canhões e explosões faz o mundo tremer.

- Minha Nossa Senhora! Guarde meu filho!

Pessoas aproveitam para saquear mercearias, secos e molhados, farmácias, enquanto outras correm como se o diabo estivesse atrás delas. Pessoas que fogem na direção contrária a sua tentam impedi-la.

- Não vai pra lá senhora, disse um homem negro e alto que a segurou pelos braços, os navios da Armada estão atirando contra a cidade.

- Meu filho. Meu filho. Com o que diz o homem ela se esquiva dele e enlouquece de vez.

Gritos. Cheiro de fumaça. Sirenes. Tiros de canhão. Tudo sacude. Maristela tem só um pensamento na mente que escapa de seus lábios grossos: “meu filho, meu filho”; continua, a passos ligeiros, desesperados. Confusão. Estrondos.

Pedidos de socorro. Soluços. Choro.

O medo é palpável. Um guarda tenta impedir sua passagem, ao qual, tudo estremece, abaixo de outro tiro de canhão.

- Senhora, não vá! A Armada se rebelou! Estão atirando dos navios. Querem a queda do Presidente. Sua renúncia.

- Meu filho! Meu filho! Largue-me. Deixe-me passar!

- Como queira.

O guarda não a impede mais. Um estampido distante, anuncia, abafado, Tum!, seguido de um assobio, uma ensurdecedora explosão, sacudindo tudo a volta de Maristela, do chão aos céus. A poeira inunda a pequena alameda, arrastando gritos, transformando de forma dramática a cena que se desenha na cabeça da jovem mulher.

Maristela esquece o dinheiro do aluguel. Seu pai garantia todo sábado esse provento. O filho agora tem de garantir esse dinheiro. A jovem lava roupa para fora, faz algumas faxinas em casas de ricos. Mesmo com todo o esforço nunca é o bastante. Moram ao lado da fome e da miséria. Nada disso importa agora.

Outro abalo antecipado por uma explosão, completado por berreiros desesperados de dor, advertem uma maior urgência na busca pelo menino. Busca pelo Campo do Santana. Esquadrinha por vielas antigas de cheiros insuportáveis de urina, poeira e fumaça. Corre contra o tempo. Tem a sensação de que é a oportunidade essa, sem o ouvir dos tiros. O caos e a balburdia abraçaram o centro do Rio. Pessoas correm sem direção.

Poeira! Percorre por toda a confusão ocasionada pelas disputas políticas. Com seus atentos olhos negros e grandes procura seu rebento. O deus-nos-acuda dominou o mundo. Sirenes causam ainda mais pânico nas pessoas. Ambulâncias não dão conta de atender a todos. Ossos queimados penetram nas narinas de forma repugnante, alimentando ainda mais o horror geral que assola a população do Rio de Janeiro.

Maristela, então, reconhece, entre a poeira suspensa no ar, a figura do filho. Sentado ao meio fio, joga pedras como alheio ao turbulento caos que lhe cerca.

- Filho! Berra Maristela, correndo na direção do menino. Filho! Graças a Deus está tudo bem. – aliviada, porém, urge na mente a certeza de sair dali o quanto antes.

- Vamos pra casa, José!

Agarra na mão do menino e puxa-o com força na direção oposta ao conflito. Sente melados os dedos do garoto. Sem dá importância quer mais é procurar por segurança, isso significa fugir. O menino soluça.

- Vamos, José. Exclama a mulher com firmeza e urgência.

- Mãe.

- Deixe pra lá filho. Precisamos nos afastar daqui.

- Mãe. Eu vendi só oito doces. Desculpe mãe. Eu... Eu como cinco. Na correria um homem bateu em mim e caiu todo o doce no chão.

Maristela, quando em segurança pensa na inocência do menino. Ela sorri de felicidade por ter encontrado seu maior tesouro. Isso é o que importa. Doces e dinheiro dá-se um jeito.

 

                                      OUTONO/MAIO/2020.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

COM O PANDEIRO MA MÃO.

 

COM O PANDEIRO NA MÃO.

        

Com o pandeiro na mão, Flávio, demonstra o que muitos já sabiam na comunidade: seu enorme talento com instrumentos musicais. O rapaz distribui sorrisos e simpatias com o pandeiro na mão e a alegria de seus olhos que brilham. Reconhecido como um dos melhores músicos do morro, tem assim o ego alimentado. A companhia de uma ótima cerveja gelada, lubrificando lábios e garganta, mulheres bonitas e churrasquinho, é tudo o espera do mundo.

         Têm admiradores, amigos nas vielas do morro. Contudo, alguns moradores sentem certo desconforto com a presença do instrumentista, mantendo certa distância do rapaz. Sua presença gera rumores e murmúrios sobre a vida desregrada que leva, morro acima, morro abaixo. A admiração de alguns vem das esquivadas dos enrosco fugindo com a agilidade de um gato, por essas espertezas e malandragens que desenvolveu no vai e vem das vielas, é herói dos que o admiram. Entretanto, sabemos que outros não aceitam assim.

         Simples, sorridente, age com justiça, no caso de opinar ou resolver conflitos de terceiros. Ele mesmo nunca julga suas próprias ações, prejudicar um inocente ou se precisa enganar outros vai em frente. Afinal, pensa, preciso garantir minha sobrevivência. A consciência até pesa, mas, é só encharcar o corpo com uma cerveja bem gelada, anuviar a cabeça e pronto.

         Sorrisos. Animada roda de samba, Flávio domina com maestria o cavaquinho, é mestre, preferindo, entretanto, em especial nessa tarde de sábado, já avançando à noite, o pandeiro. Condiz mais liberdade de atacar o prato com nacos de carne do churrasco que passa por ali, acompanhado de linguicinha e farofa.

 Intrometido, sem convite, seguiu, das estreitas ladeiras, um amigo que encontrou nas escadarias. Cumprimentou-o, então, deveras já dito sobre sua simpatia, recebendo de volta um “como está?”; rápido, numa tentativa de escape inusitada, o que Flávio logo percebeu como estratégia de fuga. Desconfiado esticou a conversa, “e como está a tia?”; Flávio chama a mãe de seus conhecidos sempre por tia; “vai bem. Falou? Tenho de ir. Foi bom ti ver”; “vai onde?”; “na casa de um camarada.”; “legal”, responde Flávio depois de correr rápido os olhos pelas mãos e sacolas levadas pelo ansioso fugitivo. Identificou cervejas, carne, sal grosso e um reco-reco. Percebendo, o interrogado deixa um ligeiro “vou indo, valeu?”; Essa deixa não escapou a agilidade surpreendente que Flávio tem para arrumar desculpas e não deixar caça fugir.

- Agora lembrei – ligeiro – vi você e lembrei. Tenho que voltar em casa esqueci uns papéis, ainda bem que vi você. Onde estou com a cabeça? Vou aproveitar e subir junto, posso?

Não espera ser convidado e já gruda. Subiram quase em silêncio, só os questionamentos de Flávio tentando tirar segredos escondido pelo visivelmente receoso companheiro de escadarias quebrava o gelo. O esquecido Flávio juntou-se assim a roda de samba e ao churrasco, mesmo sem ser convidado. Hoje mata a vontade de cerveja e churrasco. Jardel, sem sorte, encontrou Flávio pelo caminho, e não passará ileso de um bom sabão da tia por ter trazido aquele cara de pau até sua casa.

A festa ganhou um ar pesado, denso e sufocante, mesmo que Flávio não demonstrasse a menor preocupação com isso, distribuindo sorrisos. Invertido, muitos ali se sentiram ultrajados, mesmo incomodados com a presença daquele “salafrário e sem vergonha”. Chateados deixaram a festa.

- Olha aí? Viu Jardel? Você não sabe que esse sem vergonha fez o que não devia com a filha da Neném e do Anselmo?

- Mas tia, ele me seguiu até aqui. Eu disse a ele que era só pra convidados e seu Anselmo estaria também.

- Eu vou ti matar – responde a tia, rosnando entre os dentes, descendo o braço no sobrinho, desferindo cascudos na cabeça dele.

E Flávio? Galanteador, dizem as venenosas línguas da comunidade, é pai de seis crianças no morro, isso aos vinte e um anos. Bonito ele é, cor de canela, pele que brilha ao sol, quase sempre sem camisa, cabelo alinhado, dentes fortes, brancos, perfeitos, sorriso desenhado por lábios grossos libidinosos. Encanta moças, inveja alguns homens e preocupa a diferentes pais da favela.

Meninas sonham com ele e seu robusto peitoral. Bom de conversa, tanto quanto de jogo de cintura. Olhos dentro dos olhos de uma moça que samba sem cansar, sabendo, mesmo assim desejoso, que é noiva de um morador do morro. Não está nem aí. “deixou filhas e noivas soltas, meu irmão...”.

Flávio mora com a avó. Não sabe dos pais, e não tem irmãos. Estudos? O ensino Médio por persistência da avó que o venceu pela aporrinhação, daí por diante toca a vida como dá: foi moto táxi, sem habilitação fazia corridas dentro da comunidade, entrega de água é gás, no mesmo mercadinho onde era uma espécie de faz tudo, repõe mercadoria, ajudava no caixa, na padaria e entregas, nessas idas e vindas pelas vielas conheceu muitas das namoradas com quem teve diferentes filhos e filhas.

Flávio sabe muito bem onde coloca o nariz, mantendo distância do tráfico e da ladroagem. Tem noção do perigo, sabe que o envolvimento com os malucos nunca acaba bem. Ultimamente vem se garantindo no apoio de músicos famosos ou os que procuram seus espaços pelos bares da cidade, seu domínio no cavaquinho e no pandeiro desceu o morro e correu até o asfalto. Numa dessas apresentações  conheceu e engravidou uma artista famosa das telenovelas. É. Seu mundo é esse.

Como ninguém pode culpá-lo de não gostar do tedioso, chato e desumano trabalho mecânico, de oito horas diárias, o jovem tem razão em não aceitar se submeter à tamanha violência física. Convenhamos, amigos leitores, ele tem razão.    

A cerveja gelada seca rápido no copo de Flávio, tão rápido quanto os molejos da incansável dançarina, seus movimentos luxuriantes no rebolar e quebrar do samba. É atacada inexoravelmente pelos olhares maliciosos de Flávio. Há muito andava cuidando da moça, e agora estão próximos. Sua chance de trocar umas ideias com a morena surgiu hoje.

- Lê, lê, lê, lê – todos cantam num coro uníssono.

- “Vai vadiar, vai vadiar, vai vadiar, vai vadiar” – outro coro.

- “Sonho meu, sonho meu”... – e outro.

- “Põe meia dúzia de Brahma pra gelar que eu tô voltando” - e outro.

- Flávio! – um grito, seu nome sobrepujou todos os instrumentos, conversas empolgadas e a cantoria. Assustado olha na direção de quem o chamou.

- dona Neném! Não, pelo amor de deus! Não faça essa bobagem! – grita à dona da casa, tia de Jardel, quem organizou a festa e convidou à vizinha, dona Neném. 

 Portava uma arma apontada diretamente para o jovem que destruiu sua vida e desgraçou com a da filha, quando essa caiu na conversa desse salafrário. Flávio assediou sua única filha, iludindo-a com promessas de casamento. Quinze anos a moça, apaixonada, acreditou e engravidou. Depois de descobrir, Flávio pulou fora do barco.

Os olhos expressando um pânico nunca antes tocado em seus nervos dessa forma, respiração tensa, lábios trêmulos, sua reação é correr.

- Vai fugir? – dona Neném dá um tiro de advertência na frente dos pés de Flávio.

Sua menina, com vergonha e desesperada por ter sido enganado pelo galanteador desistiu da vida dando um fim na dor pulando da ponte Rio-Niterói.

- Vai fazer como da outra vez, desgraçado? – disse dona Neném.

Metade dos convidados fugiu, ficando os mais chegados à tentativa de impedir o provável final anunciado como um trovão antes da tempestade.

- Não dona Neném. Não faça isso – implora o tio de Jardel que caminha em direção de dona Neném, essa atira ao chão avisando para não se aproximar, demonstra não estar de brincadeira. Ali a coisa é séria.

O silêncio assustador rompe por completo com qualquer murmúrio ou pedidos de deixa disso. Nada mais escutam, além da respiração acelerada do algoz e do condenado. O peito de Flávio parece que irá explodir como se fosse cuspir o coração. Sem mais, tenta correr outra vez, contudo, outro estampido seco o impede. Uns tampam os ouvidos, outros fecham também os olhos aliando as duas reações automáticas. 

- Tenta de novo. Vai seu desgraçado. Hoje você não sai vivo daqui.

Flávio levanta as mãos numa reação de rendição. Nada diz, nada pode dizer.

- dona Neném não faz isso pelo amor de deus. Vai desgraçar com sua vida – suplica a tia de Jardel – isso não trará sua filha de volta.

- Eu sei – ríspida dona Neném corta os apelos da vizinha – só que quando eu acabar com ele irei encontrar minha filhinha ao lado de Jesus no céu.

- Não Neném não! – implora desesperadamente à amiga. Incontida, derrama lágrimas e soluços, entre os quais, diz, repetidas vezes, não, não e não.

Um chute assusta o marido de dona Neném, que acorda do sono pesado, ao mesmo tempo em que a mulher se debate ao seu lado na cama.

- Neném? Acorda mulher. Teve um pesadelo?

Dona Neném encara o marido, de bagos arregalados, abraça-o chorosa, intensamente, murmurando a saudade que sente da filha que perdeu.

 

 

                                      FIM. VERÃO/MARÇO/2020.

DO QUE ESTÃO FALANDO POR AÍ. OU: E O QUE VOCÊ DISSE?

 

DO QUE ESTÃO FALANDO POR AÍ. OU: E O QUE VOCÊ DISSE?

 

- E o que você disse então?

- Do que?

- Do que estão falando por aí.

- Falando por aí sobre o que? Não estou entendendo.

- Sobre nós – aponta com o dedo indicador para si mesmo e para o outro que embaralha as cartas que jogam.

- Ah. Não disse nada.

- Naldo! Quem cala consente!

- Fiz uma cara de quem não gostou das insinuações e pronto!

         O silêncio se sobrepõe na sala. Os dois jogam desde as dez da noite. Essa sexta-feira vai longe. Ao menos, uma vez por semana se encontram para conversar, jogar carteado e beber. A noite quente recebe uma providencial brisa refrescante, essa invade o apartamento sem pedir licença. Os sons exteriores nunca param, mesmo na madrugada, anunciam, assim, que a cidade está viva. Distribuídas às cartas tem inicio as estratégias.

- humm. Humm – cantarola uma música Márcio – vamos ver. E você o que pensa disso?

         Concentrado no jogo, Naldo não responde.

- Peraí. Peraí. Peraí.

         O jogo continua. Compram cartas, jogam e depois compram outra vez. Os olhares não se encontram. Naldo está super concentrado, enquanto Márcio tem outras coisas em mente, jogando mecanicamente. Nesse apartamento moram Márcio e sua única filha, Laura Maria. Separado a seis anos da esposa, Márcio não casou mais e a filha preferiu morar com ele após inumeráveis discussões com a mãe, pois os parentes maternos, intrometidos, reprovavam as visitas frequentes que a moça fazia ao pai. Muitos homens visitavam também o ap. de Márcio, o que julgavam inadequado a presença de uma menina de quinze anos naquele ambiente sem pudor e desmoralizado.

- O que você acha disso Naldo?

- Disso o que?

- Do que falam de nós dois.

- O que temos nós dois?

- O povo não anda falando de nós? – Naldo acena com um movimento afirmativo de cabeça – Então – insiste Márcio – o que você acha?

- Acha o que porra? – irrita-se Naldo.

- De nós dois – disse Márcio irritado usando de ironia ao mesmo tempo.

         Naldo nada diz. Concentrado no jogo.

- Não dizem que estamos namorando?

- Quem disse isso? Naldo de cenho franzido, espantado, olha para o amigo a sua frente.

- Você – insiste verbalizando a impaciência – você disse que estão dizendo por aí coisas entre nós dois – usa o dedo indicador, apontando para si mesmo e para o amigo.

- Ah, é.

- Então?

- Então o que?

- Então! Eu e você estamos – suspende a fala por instantes esperando a atenção de Naldo – estamos namorando?

    O outro não responde. Seguem jogando. 

    Márcio tem um sorriso nos lábios que não consegue dominar apesar do esforço que faz. Naldo por sua vez mantém o cenho cerrado sufocado pela concentração no jogo. Horas passam. Madrugada de Sábado: uma, uma e meia, duas, três. O rádio quase inaudível dilui a música que reprime o suposto silêncio da madrugada e da sala, pois a cidade não dorme. Com xícaras de café e vodca Naldo permanece acordado. Márcio serve-se de vinho.

- Como estão suas aulas? – Márcio quebra o gelo entre os dois.

- Quase terminando – responde automaticamente ao colega.

- Estão mesmo ou será outra que não vai terminar? – provoca o parceiro das madrugadas infinitas.

- Como assim? – disse Naldo.

- Naldo. Sua fama é a de começar algo e não terminar. Ou desistir e recomeçar.

- Ah. Nem sou assim.

- Ah, digo eu. Tá bom! Sua carteira de motorista levou oito anos para sair do Detran.

- Tive problemas.

- Problemas? Problemas Naldo?

- É. Problemas.

- Você cria seus problemas

- Nem vem. Nem é assim.

- Naldo? Passar a mão, na bunda da instrutora, não é criar seus próprios problemas?

         Naldo então nada diz. Com o fim do jogo recolhe as cartas e embaralha outra vez mais. Distribui. Segue o jogo.

         A música no rádio dispersa a monotonia da madrugada. Naldo canta, em sussurros, ao mesmo tempo em que movimenta no ritmo a cabeça que balança.

- ta viejo, hem Naldo? – Brinca Márcio em espanhol.

                Naldo não cai na provocação, segue concentrado no jogo e sussurrando a música. Até o fim.

- Há quanto tempo não ouvia essa música – disse Naldo a si mesmo.

- Velho! – dispara irônico Márcio.

- Meu pai é quem amava essa cantora.

- Quem?

- Quem o que?

- Quem é essa cantora? – perde a paciência Márcio, entre olhos arregalados e dentes cerrados.

- Maria Bethânia.

- Nem sei quem é.

- Tu estás brincando né?

- Não – responde sinceramente Márcio – desculpe a minha ignorância, vovô.

    Naldo não responde. Dá-se ao luxo, isso sim, de esboçar com um movimento sarcástico da cabeça indicando negação, como reprovação pela falta de cultura do amigo. É gozação. Márcio de sua parte abre os olhos dissipando sua impaciência com Naldo, terminando enfim, com um rosto coberto por uma máscara de ironia. Sacode também a cabeça provocando o amigo.

- ai, ai – disse demonstrando cansaço com um bocejo. E seguem o jogando.

- Quer vinho?

- Não.

- Tem café ainda?

- Sim.

-Cansou?

- Não.

Seguem jogando.

- Você ainda não me respondeu – insiste outra vez Márcio.

- Não respondi o que? Não estou entendendo.

- Terra chamando Naldo.

- Por que você não é mais direto? – irritado disse Naldo.

Márcio o olha sem demonstrar a impaciência que sente. Respirando profundamente demonstra sua frustração. Volta a distrair-se com as cartas que tem em mãos.

- O cantor que mais gosto é do Gil.

- Velho.

Canta então Naldo: “Ainda me lembro/da gente sentado ali/amigos presos/amigos sumindo assim”.

- Estou ti falando que você está velho.

- A vida passa para todos.

- Shi! Fala baixo. A Laura está dormindo.

- Hum? Dormindo?

- É. Amanhã ela vai fazer o Enem.

- Amanhã ou hoje?

- Ah. Você entendeu né? Mas quem é que falou da gente?

- Falou o que?

- Quem falou que estamos namorando?

- Quem que falou isso?

- Naldo, tu és burro também ou só se faz? Estou me irritando já com essa história.

- Que história?

- Deixe! Esquece.

- Que nós estamos tendo um caso?

- Deixe. Esquece. E jogue logo. Saco.

- Um monte de gente.

Márcio não responde mais, finge se divertir escolhendo as cartas que vai jogar. Por alguns minutos Naldo parece distraído também com a estratégia que vai lançar mão. Por fim retoma o assunto.

- O Júnior, o Lázaro, o Gabriel. A Amélia, irmã do Otávio e do Junior é quem me contou.

- Eu já não ti disse pra esquecer esse assunto? – irritado com Naldo Márcio engrossa a falta de paciência que antes dispensava ao amigo.

Naldo não se importa. Continua.

- Eu nem to ai.

A curiosidade é natural às pessoas, impositiva e muito mais forte que qualquer irritação ou indignação. O próprio Márcio se surpreende com sua pergunta involuntária.

- E você?

- Não dou importância ao o que aqueles idiotas dizem.

- E a Amélia?

- O que tem? – Naldo disse com visível aceleração do coração.

- Tu gostavas dela não?

- Já passou.

- Esse seu “já passou” não me convenceu.

Naldo não responde.

- Ela gostava de judiar de você.

- São águas passadas.

- Ah. Águas passadas. Esse – aponta Márcio com o dedo indicador primeiro o olho direito e depois o esquerdo – é irmão deste.

- Posso admitir que ainda – disse Naldo – sinto um frio na barriga quando a vejo – completando instantes depois com muito esforço – mas passou.

- Tu comes até coco de galinha por causa daquela bruaca – insinua Márcio sem olhar para o amigo com os olhos presos nas cartas que tem em mãos – bruaca e loira.

Naldo deixa escapar um grande bocejo longamente prolongado e no fim disse “que sono”.

- Também são quase quatro horas da manhã.

- Posso dormir no sofá? – pergunta Naldo entre outro prolongado bocejo já a esticar dos braços e do corpo na poltrona abraçando ao mesmo tempo uma almofada.

- Pode – disse Márcio – ia ti convidar pra dormir comigo na minha cama, mas já que não estamos namorando, pode dormir no sofá sim.

- Obrigado – Naldo agradece entre outro bocejo e o fechar dos olhos já deitado – se poder fechar a janela fico ti devendo uma, Márcio.

- Só – avisa Márcio no momento em que encosta os vidros da janela e fecha a cortina, seguindo ao corredor que leva ao quarto – não durma pelado – quando alcança o interruptor das luzes da sala – A Laura pode acordar de madrugada ou na manhã e sofrer um susto com um homem nu dormindo no meu sofá – apaga a luz – ou eu mesmo não resistir e vir te agarrar.

- Vai catar coquinho! Boa noite – responde Naldo.

- Boa noite, Bobão.

 

                                                FIM.

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...