segunda-feira, 26 de outubro de 2020

 

 

O BOMBARDEIO.

 

         Suas curtas pernas de pequeninos pés são compensadas com a ligeireza dos passos. A angustia trás a urgência de chegar ao centro da cidade. Quando lavava roupas, ouviu a gritaria espalhar-se entre vizinhos e outros moradores. Seu Nhônhô foi quem lhe disse o que ocorria. Estrondos e explosões alcançavam seus ouvidos enquanto caminhava apressada a procura do filho, José.

O sapateiro Téco tenta impedi-la de procurar o filho na região central, frustrou-se na tentativa de convencê-la de que o menino já deveria ter fugido quando começou toda à balburdia de tiros e canhões. A mulher desesperada reagiu com um empurrão no homem e deixando de resposta a seguinte pergunta: então porque ele não veio para casa?

 Maristela perdeu o pai faz cinco dias. Seu Jorjão era quem ganhava boa parte da renda da família vendendo doces nas ruas centrais do Rio de Janeiro. No Campo do Santana, na Rua do Ouvidor, no Paço. Ela, Maristela, única filha mulher de seu Jorjão, o ajudava no preparo dos doces, ao qual, por cinquenta anos o velho vendeu-os pelas ruas da capital federal.

Os outros dois irmãos de Maristela, não aceitaram levar essa vida sofrida e tão humilhante como insinuavam. Silvio, o mais velho, foi embora para o Amazonas a procura de fortunas e garimpo de ouro. Nunca mais tiveram notícias dele. Silvano, o mais moço, procurou o crime como forma de enriquecimento rápido. Qual fim levou? Ninguém sabe. E agora José no meio dessa guerra.

Não pode perdê-lo. Seu coração palpita tão rápido quanto seus passos. O menino assumiu o lugar do avô, já que ela sozinha não conseguiria prover as necessidades da casa. O estrondo dos canhões e explosões faz o mundo tremer.

- Minha Nossa Senhora! Guarde meu filho!

Pessoas aproveitam para saquear mercearias, secos e molhados, farmácias, enquanto outras correm como se o diabo estivesse atrás delas. Pessoas que fogem na direção contrária a sua tentam impedi-la.

- Não vai pra lá senhora, disse um homem negro e alto que a segurou pelos braços, os navios da Armada estão atirando contra a cidade.

- Meu filho. Meu filho. Com o que diz o homem ela se esquiva dele e enlouquece de vez.

Gritos. Cheiro de fumaça. Sirenes. Tiros de canhão. Tudo sacude. Maristela tem só um pensamento na mente que escapa de seus lábios grossos: “meu filho, meu filho”; continua, a passos ligeiros, desesperados. Confusão. Estrondos.

Pedidos de socorro. Soluços. Choro.

O medo é palpável. Um guarda tenta impedir sua passagem, ao qual, tudo estremece, abaixo de outro tiro de canhão.

- Senhora, não vá! A Armada se rebelou! Estão atirando dos navios. Querem a queda do Presidente. Sua renúncia.

- Meu filho! Meu filho! Largue-me. Deixe-me passar!

- Como queira.

O guarda não a impede mais. Um estampido distante, anuncia, abafado, Tum!, seguido de um assobio, uma ensurdecedora explosão, sacudindo tudo a volta de Maristela, do chão aos céus. A poeira inunda a pequena alameda, arrastando gritos, transformando de forma dramática a cena que se desenha na cabeça da jovem mulher.

Maristela esquece o dinheiro do aluguel. Seu pai garantia todo sábado esse provento. O filho agora tem de garantir esse dinheiro. A jovem lava roupa para fora, faz algumas faxinas em casas de ricos. Mesmo com todo o esforço nunca é o bastante. Moram ao lado da fome e da miséria. Nada disso importa agora.

Outro abalo antecipado por uma explosão, completado por berreiros desesperados de dor, advertem uma maior urgência na busca pelo menino. Busca pelo Campo do Santana. Esquadrinha por vielas antigas de cheiros insuportáveis de urina, poeira e fumaça. Corre contra o tempo. Tem a sensação de que é a oportunidade essa, sem o ouvir dos tiros. O caos e a balburdia abraçaram o centro do Rio. Pessoas correm sem direção.

Poeira! Percorre por toda a confusão ocasionada pelas disputas políticas. Com seus atentos olhos negros e grandes procura seu rebento. O deus-nos-acuda dominou o mundo. Sirenes causam ainda mais pânico nas pessoas. Ambulâncias não dão conta de atender a todos. Ossos queimados penetram nas narinas de forma repugnante, alimentando ainda mais o horror geral que assola a população do Rio de Janeiro.

Maristela, então, reconhece, entre a poeira suspensa no ar, a figura do filho. Sentado ao meio fio, joga pedras como alheio ao turbulento caos que lhe cerca.

- Filho! Berra Maristela, correndo na direção do menino. Filho! Graças a Deus está tudo bem. – aliviada, porém, urge na mente a certeza de sair dali o quanto antes.

- Vamos pra casa, José!

Agarra na mão do menino e puxa-o com força na direção oposta ao conflito. Sente melados os dedos do garoto. Sem dá importância quer mais é procurar por segurança, isso significa fugir. O menino soluça.

- Vamos, José. Exclama a mulher com firmeza e urgência.

- Mãe.

- Deixe pra lá filho. Precisamos nos afastar daqui.

- Mãe. Eu vendi só oito doces. Desculpe mãe. Eu... Eu como cinco. Na correria um homem bateu em mim e caiu todo o doce no chão.

Maristela, quando em segurança pensa na inocência do menino. Ela sorri de felicidade por ter encontrado seu maior tesouro. Isso é o que importa. Doces e dinheiro dá-se um jeito.

 

                                      OUTONO/MAIO/2020.

Um comentário:

  1. Perfeito! Muito bem escrito, parabéns. Talvez o seu melhor, na minha humilde opinião...

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UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

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