terça-feira, 26 de julho de 2022

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

     Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e velas, que ele próprio fazia, enquanto sua roça não rendesse frutos - mandioca, cana e banana -  era seu meio de vida. Ah! esqueci de dizer - a cachaça é a mais famosa da cidade, diga-se de passagem. Também plantou repolho para chucrute - "são para a sobrevivência." Velas e sabão para capital.

 Nosso protagonista, como todos os imigrantes, cheios de sonhos e esperança dobrou a perigosa travessia do Atlântico a procura de uma vida melhor sabendo que precisaria de muita força de vontade e perseverança nesta empreitada aventurosa, pois, para ele, do Velho Mundo, o que regia a vida naquele momento era a filosofia do materialismo histórico: construir com as próprias mãos as mudanças de seu tempo e da própria vida. Não esperar cair do céu alguma benção de Deus. Então, deu um passo ambicioso: atravessou o Atlântico. O primeiro da família. O primeiro a ver o mar também. Engenhoso, para uns, louco e sonhador para muitos outros, encarou a mudança, e não é hora de se arrepender dessa audácia.  Não ainda.

            Contudo, algo o aflige. Algo coça em seu corpo, algo faz sua cabeça suar. Pode ser o calor talvez. Este bem melhor que o frio de sua pátria, indiferente às condições de miséria e de fome que provocava entre os homens. O clima daqui incita o crescimento das plantas, com rápidos resultados nos frutos do trabalho duro. A fartura daqui é sem igual. As frutas são as mais diversas: caju, manga, pitanga, jabuticaba, goiaba, butiá, entre outros milhares de milhões. Tudo que é verdura e legumes dá. 

           Wigo contratou negócio com um português vizinho seu chamado Mourinho. Esse homem de fala engraçada, bigode bem aparado com as pontas levantadas, baixinho, pernas curtas e encurvadas, possui um moinho de farinha e um alambique de cachaça. Trocam produtos para poder usar o moinho vez ou outra. O português é casado com uma brasileira cor do melado, cabelos ondulados, negros e longos. Olhos da cor da noite, desconfiados e de pouca fala. Diferente do marido, tem pra lá de um metro e oitenta. Forte. Lavadeira. Gosta de um porre nos finais de tarde, aí, volta e meia, desce o braço no marido português. Sempre desconfiada de traição do coitado com as mulheres da Casa da Dona Mafalda.

Wigo já viu Josefina, a mulher de Mourinho, pegá-lo pelos braços jogá-lo nos ombros e entrarem para casa. Nessa tarde em que foi testemunha da cena atípica do casal, haviam bebido a bicas. Com seus olhos azuis céu que deus lhe deu viu a mulher se despir na frente da porta aberta e gritar com o acossado marido: “como pode olhar para outra vagabunda qualquer na rua tendo 'isso' pegando fogo em casa?”. Enquanto com uma mão escorregando pelo corpo apresentando-o ao pequeno português, a brasileira sacou um cinto de calças de uma gaveta e  desceu uma surra assustadora no marido, gritando: “vai olhar para outra rameira na rua de novo? Vagabundo!”. O açoitado implorava aos berros por perdão e o sarrafo só sessava quando os olhos da mulher brilhavam de satisfação seguindo de um sorriso indecente que deixava Wigo com vergonha de presenciar aquela cena.

Não que Wigo gostasse de ser indiscreto, vigiando a vida alheia, entretanto, um espetáculo daqueles não acontecia todos os dias. Ao menos duas vezes por mês pode-se dizer que sim Pensava o que diria sua velha mãe sobre isso. Josefina não se dava ao luxo de fechar sequer a portas e janelas deitando-se com Mourinho para terminar o que começou. Assim, à tarde e o germânico, testemunhas monótonas, caíam por aquelas paragens.

Na vila e pela região moravam muitos conterrâneos de Wigo. Muitos homens e poucas mulheres. As que por ali viviam eram muitas vezes disputadas a chumbo ou facão para casamento deixando pouca opção para os solitários. Outra situação inusitada para Wigo foi encontrar pessoas negras. Nunca havia visto pessoas tão diferentes. Homens e mulheres. Essas pessoas daqui tão diferentes das de sua distante e rebuliça pátria o perturbou no inicio. Acostumando-se com o tempo. Entendeu que pessoas honestas ou maldosas são de todas as cores e todas as raças.

Retornando ao seu incomodo, algo o perturbava mesmo. Não conseguia descansar as ideias. Os conhecidos diziam que precisava encontrar uma mulher, casar, juntar os trapos. Pensou em procurar na difamada casa de Dona Mafalda uma garota. Viu homens se perderem e perderem tudo o que tinham ao frequentarem esse famoso bordel. Inclinado a não esperar pela promessa do pastor Kurtz de conseguir a ele uma esposa, resolveu por si mesmo procurar a resposta de suas angústias. "Será que é isto?" Parou de frente ao cabaré de onde risinhos e elogios soprados pelas mulheres de dentro da casa convidava-o a entrar. Indeciso não queria esperar às promessas do pastor Kurtz já sabendo por línguas peçonhentas que o líder religioso tem em sua lista de pretendentes à noivas a mais rabugenta das filhas da Germânia, dos Knut, Sônia, pronta para pescar um marido desesperado. è muito feia a coitada. A Tilápia não seria ele. Ali ficou entre entrar ou não, com um espeto na consciência ao lembrar dos homens destruídos pelos prazeres que por ali encontraram. E tudo o que tinham ganho, gastaram. 

Por minutos ficou em um embaraço diante da porta da casa de Dona Mafalda e suas meninas. Duas das quais, lisonjeiras e simpáticas, borradas de maquiagens e pó de arroz o convidavam a entrar diante da soleira da porta. Com olhos maliciosos, línguas tentadoras, gestos, sorrisos e gracejos provocantes que o atiçavam. Wigo, cá com seus botões quase derrotados, fica indeciso, lutando contra uma frente de batalha interior pesada. Seus desejos carnais lutam contra a moral que recebera da família, da escola e da igreja, “Aquilo não é lugar de um homem de bem”, ouvia a voz da consciência. A voz da natureza também mandava seus recados. A integridade daquelas moças, as histórias que ouvia de roubo, extorsão, e morte entre aquelas paredes, mesmo sendo inverdades contadas por vantagem ou venenosas vozes locais, o ancorava, temia também se perder e perder o controle de suas emoções. Ouvia que desejos são incontroláveis, perigosos, e a paixão por uma mulher o amedrontava.

Exemplos são milhares. Seu Ernestão, vizinho de Kelson, o norueguês, é um desses. Apaixonado por uma rapariga cor da noite deixou mulher e filhas fugindo para o Amazonas com a amante. O próprio Mourinho, seu vizinho português e seu casamento com a brasileirona! Aquilo só pode ser amor. Existem muitos boatos de feitiçaria nestas terras verdes e misteriosas. Imigrantes que resolveram viver entre nativos que andam nus nos sertões mais profundos do país não são exceções. O embate, vencido pela razão o faz recuar seguindo rua adiante. A insegurança de se perder o fez suar frio. Segue, entre satisfação e insatisfação. Segue no fundo do poço.

Wigo enquanto vende seus produtos, velas e sabão, meio distraído, procura por resposta para seu incomodo. Caminha, dá troco errado, vende outra vez fiado para seu Wolfgang que nunca paga o que lhe deve. Está esquisito mesmo.

Próximo ao fim da manhã é hora de retornar para casa. Fazer mais velas e sabão a tarde toda. Compra fumo no armazém, linguiça, pão, decidido que será este o seu almoço. Encontra ao caminho Luciano, com quem troca palavras em português e alemão. Luciano conta que estão montando um grupo musical e o convida. Wigo toca piano e acordeom. Luciano quer aprender e se oferece a pagar pelas aulas. Para Wigo uma oportunidade a mais para ganhar dinheiro. Luciano, apesar de sua origem, participa de um grupo de capoeira e jongo, convida sempre o amigo, como o faz mais uma vez, esse inclina que um dia aceitará o seu convite. Trocam mais algumas palavras e despedem-se com um forte aperto de mãos.

Com seis passos aproximadamente Wigo esquece o amigo sendo inclementemente perseguido pelo seu incomodo e mal estar. Leva a cabeça um chapéu de palha com grandes abas que protegem seu rosto branco de pequenos olhos vivos e azuis do sol dos trópicos. Tira às vezes o chapéu para secar o suor da cabeça e testa que por ali escorre. O luzente corpo celeste a pino força as pessoas a retornarem para casa ou se esconderem quando possível nas sombras refrescantes de árvores e comércios.

Wigo decide seguir para casa quando pelo caminho encontra um grupo de índias vendendo cestos de vime e panelas de cerâmicas. Decide negociar com as mulheres nativas que formam o singular grupo a troca de produtos. Pequeninas, cabelos negros lisos, mais escuros do que uma noite de inverno em sua terra natal sem lua, não esboçam reações a sua chegada. Nenhuma delas o repara. Olhares baixos e indiferentes. O silêncio domina o grupo. Passivas ao principal instrumento para venda comercial, a lábia, as mulheres dispensam sorrisos ou a fala simpática, características exigidas nessa disputada profissão. Wigo, sarcástico, sempre acha engraçado como são desconfiadas. Não que os alemães também não sejam muito diferentes.

Sem disfarçar seu sotaque germânico pergunta o valor dos cestos que vendem as morenas mulheres.

- Quanto?

As índias se olham, trocam palavras em sua língua natural, discutem entre si sem se incomodarem com o homem ali interessado em seus produtos artesanais. Outra vez, Wigo tenta um contato apontando o dedo para o cesto. As mulheres de olhos negros, rostos redondos, lábios grossos não respondem, até que uma das jovens, três são jovens, decide dar um valor ao cesto. Rápida como o vento no alto das montanhas que cercam a região em sua resposta a moça deixa o jovem sem entender nada. Repete então o que entendeu apontando outra vez para o cesto, mais uma pergunta do que afirmação. A jovem assente com a cabeça afirmando sem muito interesse de dialogar com Wigo, e sem dirigir um olhar se quer a ele. Como todo bom alemão tenta negociar com alguma vantagem, ele insiste.

- Esse e esse por dois mil-réis?

A índia é osso duro e firme no preço.

- Não, não. Esse quatro, esse três.

Essa bugre é esperta, pensa Wigo com seus botões. Arrisca, divertindo-se na negociata.

- Esse e essa por cinco?

- Não. Esse quatro, esse três e esse o mesmo. Parece zangada com a insistência do colono, dispõe-se de lado desprezando com o gesto a presença do homem de língua enrolada.

Que bugrezinha danada, resmunga em alemão.

Decide depois de instantes comprar os cestos e uma tigela de cerâmica. Como hoje sente algo diferente de outros dias, ou melhor, diferente de todos os outros dias de sua vida deixa-o inacreditavelmente perplexo com a ação algumas moedas a mais e um pão caseiro para as mulheres. Resolve ser gentil e se despede despejando seu sotaque germânico ao se levantar.

- Obrigado. Tenham um bom dia senhoras.

Levanta o chapéu despedindo-se. As indígenas começam a falar entre elas na língua natural a seu povo. Enquanto Wigo se vai. Caminhando para casa percebe ser seguido quando alcança os limites urbanos que forma a pequena vila colonial. Estaca os passos quando ouve um chamado feminino cheio de quase imperceptível.

- Alemão. Alemão!

Wigo espantado encontra-se sendo seguido pela jovem índia que vendeu a ele o cesto.

- O que quer? Interroga à jovem.

- Vou morar com você. Responde.

- O quê? Não! Não quero.

- Vou morar com você e ser sua mulher.

- Não! Volta. Não quero. Que ideia...

- Ideia de minha família. Decidiram e vim morar com você.

- Não. Irritado, Wigo aperta o passo.

E quanto mais acelera mais espanta-se, pois a índia, mesmo pequenina e de pernas curtas, o perseguia com destreza espantosa.

Meu conhecimento zero da extraordinária língua germânica não me possibilita traduzir as palavras e frases proferidas de Wigo, irritado com a perseguição, explode, grita, até pedras joga na jovem cor de mel o que de nada resolve. Implacavelmente ela insiste na caçada.

- Nein! Nein!

Wigo resolve correr quando se aproxima de sua casa já à frente na esquina. Escancara o portão sobe enrolado com suas compras e vendas as escadas que dão acesso ao imóvel e rápido como um relâmpago bate a porta encerrando-a e tranca-a num som que mais lembra uma trovoada. Fecha as janelas e dos vidros vê a indiazinha invadir seu quintal até sumir do alcance de seus alarmados olhos. Indignado bebe um gole de água da moringa sentindo não ser o bastante para se acalmar toma uma dose da cachaça do alambique do português Mourinho. Lembrando-se dos vizinhos percebe estar sendo observado, logo confirma o que diz seus sentidos e vê Josefina balançando negativamente a cabeça em desaprovação a vida do vizinho que cuida da janela de sua casa. Fecha a abertura com violência depois de gritar ser uma indecência a vida que leva o vizinho. Wigo se irrita. Resolve preparar algo para comer e com o estômago cheio pode pensar numa solução melhor. Tem que fazer velas e sabão para a venda da semana. Isto está resolvido.

Inesperado os sons que ouve na volta de casa. Batidas, passos, contudo decide concentrar sua atenção na comida que prepara. Come. Quando se aprontando então para tirar uma pestana sente o cheiro de fumaça enlouquece. Abre a cortina que havia fechado de uma das janelas, observa com cautela e pelo canto da abertura evitando que a jovenzinha o visse que ela acendeu o fogão a lenha da varanda.

- Mas essa atrevida. Disse fervendo o sangue.

Tenta das janelas avistar a jovem nativa. Sem sucesso em vê-la, cansado, logo se desinteressa pela abusada menina. Deita-se no sofá após beber um pouco da cachaça do vizinho Mourinho que chama logo o sono que o encontra esticado nas portas da casa dos sonhos.

Mais tarde, arrastado de seu sono por um cheiro de milho e ovos que invadem suas narinas levanta-se esperançoso para descobrir-se livre da intrometida nativa, procura-a através dos vidros e janelas, que então cai por terra à alegria e a vê em uma rede, ou melhor, em um de seus lençóis que lavou pela manhã, deitada ali, cuidava de uma panela em plena fervura no fogão a lenha.

Wigo enlouqueceu. Tremia, enfurecido com a audácia da bugrezinha despeitada. Corado decide por fim nessa situação absurda. Quando avança à porta encara num quadro uma foto de seu pai. Paralisado, é alvejado por lembranças e palavras ainda vivas em seus ouvidos postergadas por seus familiares. Vozes austeras, mas de muito ensinamento. Além das vozes de seu falecido pai ouviu seu tio-avô, Guilherme, a avó Rosa, e em especial o avô Friedrich. A respiração acalma, o vermelho vai dando espaço ao branco de seu rosto como sinal de contingenciamento dos nervos. Lembra muito bem das palavras de seus antepassados: “antes de se apressar pense nas oportunidades”.

Agora com a mão no queixo, olhar longe, concentrado em seus pensamentos, decide ser prático, alisando os bigodes, olhos azuis faiscantes que exibem engenhosos cálculos cerebrais. Decide possibilidades futuras de ação. A índia pode vir a ser útil. Cozinhando, lavando, deixando mais tempo livre para Wigo produzir e vender mais velas e sabão. “pode ser uma oportunidade a vinda dessa bugrezinha”, pensa, animando-se.

Decide sair. Veste o chapéu de palha e um paletó. Segue ao rancho onde tem uma carroça, arria o cavalo Hermes e sai sem se dirigir à mulher que agora ocupa sua varanda. A jovem não se dá ao luxo de perguntar, sem deixar a rede, de onde cutuca a lenha com um tição excitando o fogo que cozinha algo. Em cima da chapa do fogão a lenha encontra-se um cachimbo de barro secando.

Wigo dirige-se a casa da família Kndt. Relata a Wagner Kndt os acontecimentos do dia e seus planos futuros. Wagner tem o sarcasmo estampado no rosto redondo, corado, o cheiro e a malícia dos olhos entregam que andou tomando umas cachaças, oferecendo a Wigo que aceita um trago só por educação. O amigo ainda diz que ajuda a clarear as ideias, abrir portas e destravar línguas. Grita a Frida, sua esposa, que traga um pouco daquele aguardente das Minas Gerais, voltando em seguida sua atenção a visita. O sorriso que abre logo é seguido de uma colocação filosófica sem as presilhas soltas pela bebida.

- Estas são terras de loucos. E nós alemães estamos entrando na brincadeira. Mas gosto daqui. Verde, clima bom e boa cachaça. Não tenha medo de brincar também.

Nesse instante aproxima-se Frida com pequenos copos de vidro e uma garrafa, com o famoso líquido branco dentro. Servindo-os tem o cenho serrado em reprovação. Wagner retruca com palavras em alemão prussiano. A mulher rechonchuda, loira, olhos azuis fortes, não deixa barato respondendo num tom de indignação, reprovação e discórdia a altura das palavras do marido. Wagner a segura pelas saias, puxa-a para seu colo sentando-a, cheira suas tranças, sorri para Wigo, inconsequente, enfia uma das mãos entre as pernas da mulher que não revida, e sim, cai numa gargalhada desabrochada e insinuante.

- Você, amigo Wigo, precisa de uma alemã assanhada como a minha. Essas índias tomam banho a toda hora e tiram do corpo o cheiro de mulher.

Wigo está vermelho.

- Vai mulher. Pegue uns vestidos das meninas e da sua irmã também que nosso amigo Wigo tem uma nova namorada. Ela não pode ficar andando por aí como veio ao mundo que nem eu resisto.

- Obrigado Wagner – disse Wigo ao amigo.

- Então toma mais um gole comigo.

Servido os copos, vira de uma vez na boca a bebida, estralando a língua seguindo com um tapa nas nádegas da mulher após empurrá-la de seu colo e essa solta um grito de dor cheio de meiguice, onde escapa um doeu.

- Sabe Wigo – recomeça ao mesmo tempo em que serve outra dose de cachaça nos copos – bebe, bebe. Como ia dizendo: melhor uma mulher que mulher alguma.

- O pastor ia me apresentar uma moça de família.

- Eu sei, eu sei. Mas aquela não ti serve. Digo, pois, sou teu amigo. Não lava, não faz pão, nunca conheceu homem e tem vinte e cinco anos! Dizem que quando vê uma moça bonita logo cola os olhos nela quase enlouquecendo as famílias da jovem. Esquisita, não?

Wagner ri descontroladamente, chegando a engasgar por falta de ar assustando o amigo que o visita. Contudo, com um aceno de mão indica estar bem, em meio a tosses roucas e incontidas. Acalma-se. Wigo não consegue se segurar e explode em gargalhadas sinceras e temperadas pela cachaça que já o deixam de língua solta.

- Esquisita, ora vejam!

Horas depois retorna. Após deixar no rancho a carroça tratar do cavalo Hermes subir os degraus de sua varanda com os vestidos nas mãos e jogá-los em cima da índia que continua deitada na rede que esticou fumando seu cachimbo, autoritário Wigo disse.

- Veste.

Entra em casa. Perdeu à tarde preciosa com Wagner e amaldiçoa-se pela bebedeira àquela hora do dia. Recolhe com dificuldade suas ferramentas, tropicando segue ao rancho. Antes, olha a mulher, deitada, pitando o cachimbo, olhando para ontem sem preocupação com a vida. Vê os vestidos ainda no chão e resmunga palavras soltas e tortas em sua língua natal, irritado com o pouco caso que a indiazinha deu aos seus presentes.

Assustado acorda abaixo de vassouradas e safanões de sua inquilina que resmunga palavras cheias de sotaque e cólera. Wigo percebe ser noite sentindo uma forte dor de cabeça, muito pior do que a surra que leva. Parece ressaca.

- Vai dormir em casa. Vai! Está fedendo! Bebeu cachaça e fica fedendo.

- Pare sua doida. Pare!

Wigo ergue os braços na tentativa de se defender das vassouradas.

- Sua doida. Me respeite!

- Cici! Sou Cici, não doida. Cici.

A vizinhança, sorrateira, observa a cena de trás das cortinas das janelas, ou da rua mesmo. Estupefatas!

- Alemão bebeu e não me deu nem um pouco. Vai dormir na casa não com os bichos.

- Sua doida! Que é isso?

- Para você aprender a lembrar de Cici. Fiz até cachimbo pra o alemão. Olha: toma. Pra você. Cici quem fez. Lembre então de Cici quando tiver coisa boa.

A jovem entrega o cachimbo a Wigo com fumo pronto para queimar. Espantado Wigo ora olha para Cici, ora olha para o cachimbo em mãos trocando arduamente de atenção. Antes de empurrá-lo para dentro, irritada, entrega-o uma tigela de cerâmica com espigas de milho cozidas o que o surpreende ainda mais.

Os dias passam e os projetos de Wigo encaminham-se sem maiores percalços. Mais velas, mais sabão e mais lucro. As roupas para Cici que o jovem conseguiu com o amigo Kndt ela rasgou assim que vestiu e se sentiu estrangulada, vestindo assim a parte de baixo, as vezes como saia, enrolava no corpo, porém, não uma única vez deixava os seios a mostra. Depois da visita de suas parentas, Cici aceitou vestir roupas de mulheres brancas.

Sob olhares indignados ou divertidos, dos moradores da vila, Wigo e Cici frequentavam bailes, feiras livres e mesmo as missas católicas dos domingos, o que não os impediam, esses olhares antipáticos, incrédulos e reprovadores, de participarem dos cultos luteranos. A vizinha brasileira esposa do português Mourinho sempre expressava sua reprovação com acenos negativos de cabeça diante da janela de sua casa com a vida do vizinho alemão e a índia. Resmungava sempre a mesma coisa: onde esse mundo vai parar.

As brigas continuavam. Wigo não conseguia mais chegar perto de seu fogão. Cici sentava vassourada nas costas largas do alemão, como ela insistia em chamá-lo. Os familiares de Cici visitavam-na de tempos em tempos. Não falavam com Wigo. Era como se ele não existisse. Conversavam na língua natural delas. Cici ainda enchia de presentes aquelas mulheres o que deixava Wigo enlouquecido e explodia com a índia quando iam embora. Muitos de seus conhecidos diziam a ele para não enfrenta-las, pois, corriam rumores de surras lendárias que muitos índios apanhavam das mulheres confrontadas nas tribos perdidas dos sertões brasileiros. Histórias de afogamentos, linchamentos e homens transformados em verdadeiros eunucos, ou, ao menos os que sobreviviam a essas mutilações selvagens.

- Selvagens. Palavras constantes no meio dessas histórias. Wigo comparava-as as atitudes dos europeus civilizados. Basta observar como os brancos tratam os africanos, escravizados como bichos; ou as populações nativas das Américas que resistem até hoje a dominação do homem branco, europeu civilizador.

As brigas entre os dois prosseguiam. Por anos mesmo. Até depois do encontro que tiveram no rio que circunda as terras de Wigo. Ao chegar para o banho semanal com sua toalha jogada ao ombro e sabão em pedra na mão, o jovem encontra Cici, nua - não que nunca a havia visto assim, por diversas vezes nesses quinze meses juntos ela arrancava as roupas do corpo e fugia para o mato. Wigo, sem saber por que ia atrás da mulher saia à caça da guarani, com seus cães. Encontrava-a sobre árvores, pedras ou cavernas pelas matas. Então laçava a mulher e conduzia-a de volta a casa. As primeiras vezes Wigo desfazia o laço e Cici dava no pé; lá ia ele, o atrapalhado outra vez atrás da índia. Logo consciente Wigo aprendeu: deixava a jovem amarrada por horas até ela dormir. Quando acordava, era outra pessoa. – então, nua, lambida pelo sol parecia diferente. Seus negros e brilhosos cabelos refletiam uma luz mágica. A felicidade e alegria de Cici ao ver o alemão chegar para o banho semanal o transformou.

Wigo, de queixo caído, estático, com um rubro que tomou conta de seu rosto. Cici, diferente sorriu seus alvos dentes com a beleza dos lábios convidativos e excitantes, cheia de lassidão. Insinua com os dedos um movimento convidativo para o alemão que não tem tempo para pensar e muito menos para resistir à vontade que dominam os dois há tempos. Naquele instante mágico, a tentação dos belos corpos, no rio atemporal. Amaram-se nas pedras, sob a vigília do sol por horas ou dentro da água corrente e congelante pela tarde afora.

Cici e Wigo tiveram quatro filhas. Tornaram-se as jovens mais bonitas e cobiçadas da Vila dona Francisca. Leopoldina, nome em homenagem a imperatriz, Marcela, Tipí e a única com a cor e cabelos iguais aos da mãe de nome Iamã. Suas irmãs puxaram ao pai, clara e loiras, olhos claros como caramelos. Grandes bolas ilegíveis. Muitos jovens perdem a cabeça e o juízo por elas. Verdadeiras batalhas foram logradas pelo coração das meninas. Surgiram ódios e rivalidades que ganharam gerações entre famílias por causa desse amor disputados a ponta de facas e pólvoras.

Nossos amigos caminhavam pela vida sem muitas mudanças. Wigo engenhoso de muitos inventos sempre em sintonia com as novidades tecnológicas que assombravam o mundo e com suas maravilhas que transformaram a sociedade assinou revistas científicas, comprava livros, trocava cartas com diversas personalidades de sua época. Discutiu evolução da vida com Charles Darwin, eletricidade com Edson, sonhou uma sociedade igualitária com Karl Marx e depois bem mais tarde com Rosa Luxemburgo de quem era admirador.

Escreveu artigos em jornais europeus debatendo as teorias freudianas. Inventou um mecanismo de cordas e engrenagens para facilitar o movimento do moinho que comprou de seu vizinho o português Mourinho. Esse ficou doido depois que a esposa morreu de uma doença desconhecida. Começou a beber aos baldes entrando num ritmo sem volta. Então Wigo comprou o engenho do português que sem mais razão de viver sem sua Joséfa afogou-se em um tonel de aguardente.

Wigo ensinou as filhas a ler e escrever, em alemão e português. Marcela e Tipí aprenderam Latim, francês e inglês tornando-se ótimas professoras e tradutoras. Leopoldina e Iamã tornaram-se com o tempo mais parecidas com a mãe. Cici passava muito tempo na rede fumando cachimbo e observando o vai e vem da natureza.

Marcela acompanhava o pai nas novidades científicas. Wigo inventou um pequeno motor movido a óleo para seu barco e a filha metia o bedelho nas invenções do pai, até desenvolveram, com a força do vento ao soprar alguns moinhos energia elétrica para iluminar sua casa e ofereceu a Vila Dona Francisca essa novidade moderna só vista na Europa e poucas outras cidades mundo afora. Trocando cartas com gênios da tecnologia foi capaz de alcançar essa invenção que mudará o século a vir. Contudo foi negada a instalação pelas ruas públicas.

Wigo amava as filhas e também a mulher, mesmo não demostrando com palavras e sim com atitudes que o tomavam de assalto como em dias em que a mãe das meninas embrenhava-se nas matas rumando a suas antigas terras seguida por Leopoldina e Iamã. Wigo tornava-se mais taciturno não falava muito e cuidava por mais tempo do portão e por mais tardes solitárias. Marcela nada dizia tratava o pai com mais carinho. Sabendo o que sentia e pensava.

Quando retornavam das longas viagens a alegria brilhava de volta nos olhos de Wigo. E outra vez a vida. Ouviam ao longe dentro da mata a conversa das mulheres. Por dias falavam na língua nativa da mãe o que irritava um pouco Wigo. Com paciência ele fingia ignorar. Sabia em seu intimo que logo voltariam a falar nas línguas a ele familiares. Cici não. Sempre em guarani ou uma mistura de português com a língua nativa. A Língua Geral. Continuava dando vassouradas em Wigo quando lhe convinha e nesses momentos gritava irritada com ele em português recheado de seu sotaque natural, quando logo se acalmava retomava a seus secretos pensamentos no balanço da rede.

Uma vez Cici sumiu sertão adentro com as filhas. Wigo teve uma coceira pelo corpo. Estranhou. Ao retornarem meses depois só Iamã acompanhava a mãe. Mais tarde sem motivo aparente Iamã informou ao pai que Leopoldina, ele já desconfiava de algo, precisava confirmar suas suspeitas, ficou na tribo, casou e estava grávida. A coceira aumentou em Wigo sem sossego. A saudade também o castigou sem sossego. Decidido um dia armou-se com o rifle de caça fabricado por ele mesmo, alguns pertences e alimentos. Vestiu as bruacas nas costas de Benéu, sua mula mais forte, e sumiu mata adentro, arrastando Marcela e Iamã com ele.

E Cici? Observou tudo em silêncio e descaso. Ao perder de vista Wigo e as filhas deitou em sua rede pendurada no mesmo local do primeiro dia em que pôs os pés no sitio de Wigo. Continuamente observando o vai e vem da natureza.

Três meses depois surgem na clareira onde finda a trilha que lava a mata Wigo e suas três filhas, Marcela, Iamã e Leopoldina contrariada e com um bebê de colo. Seguia o grupo Benéu e três cães já batizados: Tupã, Leão e Hércules.

Iamã retornou prometida a um jovem da tribo. Resolveu de imediato quebrar o silêncio e disse a mãe o que ficou resolvido entre as partes envolvidas, entre o pai e o cacique. Elas podem retornar e visitar os maridos, porém, o acordo só permite a ida definitiva quando Cici e Wigo deixarem este mundo. A jovem esclareceu a mãe que este ponto foi sugerido pelo próprio cacique por ordem de Tupã. Cici pareceu dar pouco caso para a situação mudando a posição na rede virando as costas para a filha. Sem palavras ou suspiros. O que dizer se o próprio Tupã ordenou?

Tipi foi para a corte estudar. Formou-se enfermeira, entrou para o movimento sufragista, anarquista e abolicionista. Escrevia a família enviando as novidades. Enviou uma foto sua usando calças! Comprou as encomendas pedidas por seu pai em outras cartas entre diferentes instrumentos musicais. Tipi trazia remédios e outros produtos quando visitava a família e a cidade. Recebia encomendas e com muito grado retornava com os pedidos. Deu de presente ao pai uma máquina de escrever e Wigo desmontou e a remontou todinha para aprender seu funcionamento e quais mecanismos compunham o aparelho. Com a filha Marcela tornaram-se os mais famosos e melhores consertadores de máquinas de escrever da província. Não pararam por aí. Rádios e instrumentos musicais entraram oficina de consertos de pai e filha.

Toda essa capacidade de Marcela afastava os pretendentes a casamento, pois, os rapazes a achavam inteligente demais e livre demais para eles.

Numa dessas voltas à casa do pai Tipi trouxe uma máquina de fotografia, a última novidade do mercado! Contudo sentiu que o homem estava triste com a partida da mulher e filhas para a tribo e estavam longe a longos meses. Na primeira oportunidade de reunião familiar bateu uma foto. A primeira de vinte e cinco que registraram. Servem hoje como documentos históricos da paisagem e da vila onde viviam.

Wigo montou com as filhas que ficaram com eles uma banda de música. Ficaram famosos nos bailes de toda a região. Cici sem nada dizer como era de seu costume fabricou uma flauta de bambu e entrou para o grupo participando dos ensaios e apresentações musicais. Tocavam sem discussões. As escolhas musicais eram feitas pela filha Iamã, sem bate boca ou rejeições.

Enfim, tudo na natureza tem um vai e volta. Wigo com seus oitenta e nove anos, no leito de morte, pede a filha Marcela que cuide dos animais das irmãs e de sua mãe. Disse que as amava muito, até mais do que a si próprio. Às dezessete horas e vinte minutos do dia 13 de junho de 192... E tal fechou definitivamente os olhos para deixar esse mundo que tanto amou.

Cici não entrou em casa como era de seu costume. Mantinha-se, por todo o mês em que Wigo permaneceu doente e na cama, em sua rede mais distante do que nunca em seus pensamentos. Nem no cachimbo tocou. Não escapando nenhuma palavra de seus lábios desde então. Não interrogava as filhas e netos sobre as condições do enfermo e não derramou uma gota de lágrima se quer no fatídico dia 13 em que Wigo nos deixou.

Mais três dias se passam e ela continua postada na rede, serena, longe. A noite chegou fria e sem vento. Ao amanhecer o vento se fortalece e a tudo leva. Entretanto, a rede amanhece não só vazia por que ali ficou a flauta. Roupas largadas na direção da mata como se fossem jogadas e no inicio da trilha, o cachimbo entre os pertences e pegadas segue mata fechada adentro num silencioso adeus.

 

                                               FIM.

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UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...