sábado, 31 de março de 2018




CAFÉ COM PÃO É BOM.
“Café com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom”
               Assim é que o trem faz, diz vovó.
- Eu nunca andei de trem vovó.
- Eu sei.
            Minha vovó disse que já viajou de trem. A muito tempo atrás. E muitas e muitas vezes. Quando ela era criança, como sou hoje. Ela me disse que o trem era o principal meio de se viajar para longe. De uma cidade a outra. Disse ela que o trem balançava muito. Tremia todo quando começava a andar, começa bem devagarinho, mas quando embalava não parava mais, sempre com a sua trilha sonora que deixava todos os passageiros com muito sono em seu interior: café com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom.
            No meio do caminho, com poucos minutos depois da partida da estação, o vovô da minha vovó, “seu trisavô”, disse vovó, “já roncava no trem, ó!, fazia tempo”.
- Eu já fiz tantas vezes essa viagem, minha queridinha, que me canso só de lembrar os caminhos pelos quais o trem passa – dizia o vovô para minha vovó.
- Como ele se chamava, vovó? – pergunto pra ela.
- Você já me perguntou isso umas mil vezes.
- Mas, mas, eu não lembro.
- Waldemar.
- ahhh! É o vovô “demá”. É verdade agora lembrei. No que ele trabalhava vovó?
- O vovô “Demá” concertava máquinas de escrever. Depois de ser por muito tempo sapateiro, por uns trinta anos.
- Trinta anos?
- Sim.
- Isso é muito tempo vovó?
- Sim. É muito tempo sim senhor. Sua irmã Amanda tem 11 anos não tem?
- sim.
- Então, conte mais dez e depois mais dez. E então, soma que dá trinta anos.
- mas, vovó: somando onze mais dez mais dez dá trinta e um.
- ahhh. Então tire esse um e some o restante. E ai dá trinta.
- Tirar o um de onde vovó?
- Tira o um dos onze anos de sua irmã.
- Tá bom então. Onze menos um é igual a dez. Então, dez mais dez e mais dez da trinta. Nossa, é muito tempo mesmo.
- Sim é um tempão mesmo.
- Vovó, o que é uma máquina de escrever?
- Antes de existirem os computadores se escrevia em máquinas de escrever. Sabe aquela máquina que tem na estante do quarto do seu tio Luís? Aquilo é uma máquina de escrever e saiba que aquela mesma era do seu trisavô Demá.
- Sério, vovó?
- Sim.
- Hum. O tio não deixa a gente nem olhar pra ela.
- Sim. Para ele aquilo é uma relíquia.
- O que é uma relíquia vovó?
- Bem, é algo muito valioso, e geralmente muito antigo.
- muito antigo quer dizer muito velho?
- Muito, muito velho mesmo.
- O vovô Celso então era uma relíquia? E o vovô Demá também?
- (risos) Por que diz isso?
- Porque mamãe disse que ele era muito importante para todos da família e importante não é valioso também?
- Sim.
- Então! O vovô era valioso e muito velho também.
- (risos) Sim. Essas crianças vêm com cada uma.
- o que você disse vovó?
- Nada querido, nada.
- O vovô andava de trem também, vovó?
- Sim. Mas ele não gostava.
- Por que não?
- Ele se sentia muito enjoado com o balanço do trem.
- Verdade?
- Sim.
- E eu vovó? Será que vou ficar enjoado de andar de trem também? Aliás, o que é ficar enjoado?
- É passar mal, ter dor de barriga e vontade de vomitar o que comeu e bebeu.
- Ai, vovó, eu tô com medo de passear de trem.
- Que isso? Cadê aquele menino corajoso que eu conhecia? Primeiro é preciso ter coragem, não pode ser assim. A vida exige coragem para vivê-la. E você só vai saber se vai enjoar quando passear de trem. Tá com medo?
- Eu não.
- Então?
- No trem tinha banheiro, vovó?
- Sim, tinha banheiro sim, porém, nem todos tinham ou tem banheiro.
APIIIIIIIITTTOOOOOOOOOOO       APIIIIIIITTTTTTTTTTOOOOOOOOOOOOO
- Escuta vovó. Um apito!
- Sim é o apito do trem. O maquinista toca o apito para avisar que o trem está chegando.
- O maquinista?
-  Sim, é mais ou menos o motorista do trem. É ele quem dirige o trem.
- Vovó ele é bom motorista? Tem carteira pra isso? O pai do Caio disse que é preciso ter carteira para dirigir.
- (risos) sim ele é bom maquinista, assim espero.
- Qual é o nome dele, vovó?
- Olha isso eu não sei. Depois a gente pergunta pra ele. Agora precisamos subir no trem, se não ele vai embora e deixa a gente aqui, a ver navios.
- A ver o trem vovó.
- Isso ai. Vamos. (risos).
            A vovó e eu subimos no trem. Outra vez ele apitou e zarpamos. O balanço era muito divertido e não me deixou enjoado. Nós nos divertimos muito dentro do trem, eu e a vovó. E todos os outros passageiros, acho, por que todos sorriam, e quando estamos sorrindo é por que estamos felizes. Enquanto o trem seguia apitando, balançando nas curvas e fazendo aquele barulho engraçado ao subir aquela serra enorme, passar por túneis, pontes e cachoeiras, a vovó queria que eu visse tudo. Ela me mostrava os lugares onde a gente ia passar lá em cima da serra daqui a uns minutos. Aí me lembrei do que ela falou antes de entrar no trem lá na estação.
- Ei, vovó! – puxei a blusa dela – você disse a verdade lá na estação.
-  Que verdade querido?
- O som que o trem faz enquanto anda.
“Café com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom”.
- Então, viu só? (risos).
AAAAAAAAAAAAAAAPPPIIIIIITTTTTTTTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
AAAAAAAAAAAPPIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIITTTTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.

                                                            FIM.

sexta-feira, 30 de março de 2018


           
           
           

                                               SOU UM EMPREENDEDOR.
- Muié, Muié!
- O que foi homi? Eu tô na cuzinha, pra que essa gritaria? Tu vai acordá o Fernandinho assim. O qui tu qué?
- Olha.
- Olha o quê homi?
- Tá cega, muié?
- Craro qui não. Eu tô vendo – sofre de catarata e não sabe – prá quê essa cadeira de roda?
- Comprei do Laudo, o vigia lá da igreja. Era prá sê di duação.
- Como assim di duação? E o qui vai fazê cum ela?
- Ai, muié. Pareci qui num intendi. Dei dez pila pra ele pela cadeira.
- Tá doido homi?
- Inventei uma forma de ganhar dinheiro.
- Hã?
- Primeiro pensei em aluga como tão fazendo com os carros nesse tal de ubêr.
- Deus do céu.
- Mas óia. Eu sentu assim, ajeito as pernas assim, cubro com esse cubertô, assim, torço o pé esquerdo, assim, pra fingir que tenho esse probrema, assim, pego esse cartaz, deixo ele assim, e faço essa cara assim.
- Tu tá doido, homi. Sabi qui é isso? É pecado. Enganar os outro é pecado.
- Qui pecadu o quê. Alguém tem di botá comida em casa.
- Qui ideia homi?
- Essa agora qui ti mostrei.
- Tu ficou doido di vez?
- Qui nada. Essa é a mior ideia qui tivi.
- Tu nunca teve a cabeça boa homi.
- Mas nunca fartou comida na mesa dessa casa.
- Craro qui não! Eu nunca deixei.
- Você? Isso me faz rir.
- Sim. E quem seria além de mim? Eu sim! Trabaio qui nem escrava nas casas das madames de domingo até domingo prá botá comida dentro di casa. Ganho uma miséria limpando banheiro, limpando chão e bunda de bebê do fio dos outro pra genti ter o qui cumê.
- Ah! E eu não? Eu não? Óia as minhas mão! Óia! Puru calo!
- Pois é. Mas pur cupa dessas suas ideias doidas só acabei di pagá esse mês o impréstimu que fiz com dona Ketlin pra ocê cumprá aquela máquina di muê cana.
- Eu tentei, muié, tentei, mas não deu certu.
- Craro qui não! Vai vender fiado pra seus amigus e parentes. Tu não sabi qui o povo aqui du morro não paga os fiadu qui fazem? Nunca viu o Zézéu dizer aqueli ditadu: conta veia não si paga i a nova deixa fica véia. Dá nisso! E num precisava vende a troco di nada. Quem si lascô fui eu.
- Ninguém queria compra. E eu queria a bicicleta para afiar a tisora de seu Nilton que ele tava vendendo. E tu já pago mesmo o empréstimo.
- Ah! Mas o dinheiro não saiu de seu suor. Você não deu um centavo do que prometeu, né?
- Não reclame muié. Tu ainda tem um emprego.
- Graças a deus dona Ketlin foi bem paciente comigo.
- Cheia di grana, nem devia cobrar da genti.
- Essa genti, homi rica, conta todos os centavos qui tém. São assim mermo. Por isso qui são rico.
- Cainhas! Bandu di mão di vaca.
- Só não entendi purque ocê vendeu também a bicicreta de afiá tisora. Tu ganhou muito dinheiro cum ela. Até pensei qui ia ficar rico e não ia precisar mais trabaiá nas casas das madame. Si soubesse, eu tinha ficado cum a bicicreta tu nem mi avisô e vendeu.
- O problema era o nervoso qui mi dava nos dente. Uuuuu... Até arrepia di lembrar.
- Mas homi, era coisa de custumi. Eu não acostumei com a limpa a casa da patroa cum luva i máscara?
- Bestera. É diferenti.
- Não é não. Pobre tem di baixa a cabeça e agarrar o qui tem. Manda quem podi e obedeci quem tem juízo.
- Por isso tô inventando essa ideia pra largar mão di trabaiá pros otro. Não pricisa mais baixá a cabeça.
- Tu perdeu o juízo, isso sim.
- Pur que? Não vo robá di ninguém.
- Mas vai minti. Vai imaginá os outro. E isto é pecado.
- Pecado... si preciso pecar para colocar o arroz e feijão na mesa todo dia, Deus qui mi perdoe. Ele intendi a vida di pobri. Ele também foi.
- Homi, homi. Não diz bobagem. Ele ta orvindu.
- Ta bom, ta bom. Agora mi deixe pensar num planu. Preciso pensar comu vou fazê isso e ondi.
- Olha aqui! Nem pense em metê o Fernando nessa sua idéia di doido.
- Nem pensei nisso. Queru qui o Fernando istudi. Não queru qui passi pelo qui eu passei.
- Qui nós passamu, nós passamu. Sofremu muito pur não saber iscreve, lê e faze conta. O Fernandinho vai se diverti. Vai istudá pra sê dotô igual os fio da Ketlin. Fala nisto veio otro recado da iscola. Otra reunião cum us pai.
- Di novu?
- Todo bimestri tem dissu.
- Enxem o saco também.
- Pois então, dona Ketlin sempre vai na escola dos fio. Ela diz qui é importante isso. Eu disse pra ela qui não intendo nada do que dizem lá. Ela falô qui é pra pedir para explicar quando a genti não intendi du qui tão falando. Falei pra ela qui tenhu vergonha di dizer qui não entendi no meio di toda aquela genti. Ela pergunto pur quê?
- E tu o qui diz?
- Qui num gosto di parece burra.
- E ela?
- Começo a ri. E disse qui não podi, é o futuro do Fernandinho. Eu fiquei quieta.
- Tu vai ir dessa vêz, muié. Não possu perde meu novo negócio.
- Seu o quê?
- Meu negócio! Sou um empreendedô.
- Num acredito nu qui tô ovindo! E outra cosa seu malandru: a urtima reunião quem foi fui eu. Essa é você.
- Mas você é a mãe.
- E você é o pai. Tem obrigação também.
- Mas dessa vez não dá! Vai você! Preciso me concentrar. Eu não tenho saco pra aquele lenga-lenga. Tenho cosas mais importantes pra fazê.
- Tu não tem juízo, homi? Não é mió eu pidi pra Dona Jane arrumá uma vaga pra ocê lá no restaurante dela? Di garçon, di copero, na cozinha, sei lá. Ganhar dinheiro honesto? Cartera assinada?
- I quem ti falô qui pedi esmola é desonestidade?
- Tu ta ovindo o qui tu ta falandu?
- Mi dexa em paz, muié.
- Crê em Deus pai nosso.
- Olha, dispôs eu mi acerto cum Ele. Vô lá no Diocrécio. Vou vê se ele mi leva num lugar pra fica amanhã di manhã. Já vorto.
                                                                 II
- Ô Diocrécio. Tão ti chamando. Ele já vem.
- Brigadão, Janine.
- hum.
- Entra ai homi. Como você tá, véio? Anda sumido, vamos, entre, o que ti traz aqui? O que é isso aí, véio?
- Uma cadeira de rodas.
- (risos) eu vi que é uma cadeira de rodas. Mas o que tu tá fazendo com isso? Tá com problema?
- A Janine não gosta de mim mesmo, não é?
- Nem dá bola, meu.
- Eu fico meio chateado de vir aqui.
- Não dá bola, ela é assim mesmo. E aí, o que tu vais fazer com essa cadeira de rodas então?
- Tá acabando a obra e eu tô invistindo num negócio novo.
- (risos) tu és um figuraça mesmo. Um negócio novo?
- Olha só. Sento, ponho o pé aqui, o outro aqui, o coberto aqui, torço o pé aqui, e a tigela aqui, e a placa aqui.
- (risos) eu não acredito nisso. Só você mesmo para ter uma ideia dessas. Tu é doido. Que figura.
- O que tu acha?
- Acho que tu és doido. Pelo que entendi vai pedir esmola?
- Mas acha que dá certo?
- Tem de tentar. Só assim vai saber.
- Pode me deixar de manhã cedo lá na estação central antes de ir trabaiá?
- (risos) claro que posso sim. É caminho. Mas eu saio bem cedo.
- tudo bem. Fique tranquilo. Ti devo uma Diocrécio. Até amanhã então valeu.
- (risos)
- Eu não acredito em você Diocrécio.
- ahhh. Janine. Relaxa.
Janine acende um cigarro. E fuma.

III
- Muié! Muié!
- Que gritaria é essa homi? Já chegou, homi doido?
- Olha aqui, olha! Tu não riu de mim? Tá vendo? 125 real no primeiro dia. Sem calos, sem se matar no pesado, sem suá, bom, na vedade suei e muito, pru que tava muito calor.
- tu vai se arrepender, homi. escrevi o que tô ti dizendo.
- Qui foi muié?
- Deus tá vendo suas ações.
- diz então pra ele consegui um emprego bão pra mim ganhar muito dinheiro sem sofre. Bão, dizem qui ele vê tudo e sabi qui é sufrida a vida, ele mesmo passou por isso, então vai intendê.
- Não abusa homi.
- Pára muié. Ele vai me perdoá. Eu sei. Com esse dinheiro dá pra compra um pedaço di custela e quimá uma carne pra nós. Como o seu Wingando faz. Um churrasco bem gaúcho.
- Já vai gastá cum besteira? Óia, seu Tião ti procuro hoje. Veio a tarde aqui. Pregunto porque tu não foi mais trabaiá. Queria sabe di ocê e eu farlei qui tu tava doente. Qui foi no P.A. i qui tá assim a semana toda.
- E ele?
- Farlô pra ocê procura por ele dispois qui meiorasse.
- Eu quero qui ele me pague o qui derve. Já tá no final da obra i ainda ele não me pago a primeira parte da empreitada qui foi cumbinada. Fio de uma cadela!, tá mi enrolando.
- Cobra dele, ora!
- I tu acha qui não fiz isso ainda?
- Cobra di novo.
- Ele sempre arruma uma discurpa. Vou toma um banho e dispois resorvo.
- Use a água do balde. Não tem água da rua. Se quiser água quente tem di isquentá.
- Sério? Outra vez sem água?
- E desde quandu não farta água aqui na nossa casa? Aqui na comunidade farta todo santo dia e tu sabi.
- Qui droga. Num dianta vortá em arguém aqui da comunidade, por que dispois di eleito ó: o desgraçadu somi da favela. Como fez o Marcelinho bicheiro, ou o pastor Adilson. Cadê eles? Dispois qui viraram vereado, tchau e benção. Sumiram.

                                                           IV

- Ô seu Tião. Tudo bom? Pricisu farla com o senhor.
- Tudo bom, Homi.
- Vim dizê pru senho que não vô mais trabaiá na obra com o senho.
- Ganhou na loteria Homi?
- Não, ainda não. Quem mi dera. Até seria bom sabe? O que vim dizer pru sinhô é qui pricisu recebe minha parte nu serviçu qui fiz de empreitada.
- Parte du quê?
- Dá qui trabaiei na obra e o sinhô ainda num mi pargo.
- Você vai me disculpá, mas vai ter de esperar a obra acaba pra receber. E tem di termina nosso acordo pra recebe, sua parte qui começou e não quer continuar. Se não acabar a obra não tem dinheiro.
- Mais a minha parte eu fiz.
- E essa qui começo? Tem di terminar.
- Tô vendu qui vo leva um canu...
- O que você tá dizendo? Tá me chamando de ladrão?
- Eu ainda não disse isso. O senhor é quem tá dizendo.
- Tu tá me acusando de trapaceiro, seu moleque?
- E não é mermo? Tô sim.
- Seu moleque! Vagabundo! Vem aqui me desaforar no meu trabalho!
- Eu só vim cobrá o qui é meu pur direito, mas já vi qui não vou reccebê.
- Seu vagabundo!
- Ladrão! ladrão! Gato!
- Fala isso aqui na minha cara seu filho di uma puta! Vagabundo! Safado! Sem vergonha!
- Ahhh... Filho da puta não! Minha mãezinha não! Ladrão! Ladrão e safado! Não põe a mão no meio não que a coisa engrossa! Velho safado!
- Calma, calma. Não vão brigar.
- Calma seu Tião!
- Vamos conversar Homi. Separa aqui pessoal.
- Não vão brigar.
- Eu vou sim, ele chingô minha mãe!
- Larga essa pá, homi!
- Puta é sua muié, seu Tião! E a filha também qui todo mundo aqui da obra comeu! Corno! Corno manso! Filho da puta é você.
- Ahhh não. Minha mãe não!
- Seu Tião, calma! Não perde a cabeça! Segura eles! Separa!
- Calma gente.
- Seu Tião não.
- Ele tá armado.
- Segura ele. Não deixe.
- Segura você.
- Seu Tião, não.
- Não faz besteira, homem.
- Me soltem porra! Me solta! Vou matar esse filho de uma égua agora! Vou mostrar pra ele quem é corno manso!
- Seu Tão não!
- Calma, pelo amor de Deus!
- Me solta, merda. Eu vou matar esse vagabundo e quem tentar me impedir!
- Não!
POW           POW          POW!
- Eu vou te matar, seu filho da puta! Vou te mostrar! Me larga! Corre pra casa que eu sei onde tu mora e vou lá te matar, seu vagabundo! Mal agradecido!
- Calma seu Tião!
- Deixe disso homem!
- Calma porra nenhuma!
- Deixa disso seu Tião. Não vai fazer bobagem homem.
- Calma.
- Esfria a cabeça, homem.
                                               
                                                            V
- E aí, ele pago?
- Não. Quase me matou.
- O que tu tá dizendo, homi?
- Ele meteu bala em mim.
- O que?
- É. Tava armado, o corno. I quase me mato. Chamou mamãe di puta e eu fiquei uma fera. Falei mal dele também e fui pra cima dele. Mas foi discurpa pra não mi pagar.
- Deus do céu, homi.
- E ainda disse qui vai vir aqui mi mata.
- Deus do céu. Jesus nos proteja!
- Vou dá parti dele. Fazê um B.O.
- Misericórdia, Jesus. Nos proteja.
- Tranca tudo muié. Não atendi ninguém.
- Jesus Cristo nos guarde.
- Tranca logo tudo muié. Tô saindo.
- Cuidado, homi. Vá com Deus. Misericórdia, Jesus. Nos proteja de todo mal. O homi é muito bom, não faz por mal...
                                                            VI

- Ôooo. Muié. Ondi qui tu tá?
- Ué? Já chergô? Qui orvi?
- Bateu a fiscalização e tirou todu mundu da praça.
- verdade?
- Tô dizendo.
- E tu como fez pra sair sem ser discubertu?
- (risos) os fiscais até mi ajudaram a subir no ônibus.
- E ainda ganhou algum dinheiro hoje?
- Duzentos e vinte pila.
- Olha. Mas, foi mais do que os dias que ocê ficou lá o dia inteiro.
- Sim. Foi mesmo. É fim de mês, muié. O povo tem uns trocadinhos a mais no bolso.
- E por que ocê tá assim meio triste?
- T não sabi o que aconteceu.
- O que aconteceu? Fala homi. Disimbucha logo.
O busão onde estava foi assaltado.
- Jesus.
- Ele mesmo.
- Hã? Do qui tu tá falandu homi?
- Foi Jesus Cristo quem assaltou o ônibus.
- Qui é isso homi? Perdeu o juízo e o respeito também?
- Ao menos era disfarçado de Jesus o malandro qui assaltou o ônibus.
- Não diz isso homi.
- É sério muié.
- Para cum isso, homi. Tu perdeu totalmente o juízo, foi? Eu falei que mentir não era uma boa coisa.
- Não muié. Eu tô falando sério. O ladrão estava vestido com uma fantasia igual a de Jesus. Cabelos e barba igual as da imagem. Só qui cum um revolver. Roubou todo mundo di dentro do ônibus, até o cobrador. Eu fiquei quietinho no meu canto fingindo ser um aleijado pobre coitado esperando que ele tivesse um pouco de pena, ou não me visse, mas qui nada. Levô tudo. Passou até a mão na bunda di uma moça bonita que tava impe nu ônibus quando a revistou. Mi subiu um sangue na hora. Mas o ladrão tava armado e com os óio arregalados e vermeio. Tava doido da droga. Só pode, cheirado. Alguns passageiros se revoltaram, mas o Jesus ladrão infiô o canu da arma no nariz di um homi e só disse uma palavra: Amém.
- Jesus Cristo, ondi vamo para?
- Muié, o homi mijo nas calça, coitado, e repetiu o que o ladrão disfarçado de Jesus falo: Amém. O homi tremia que parecia tá em uma geladeira. Aí o Jesus disfarçado levantava as mãos e falava sério sem rir, Amém, levantando os braços, com os olhos vermeio da droga e estralados dizendo Amém e fazendo sinal pra todos repetirem, Amém. Apontava a arma para os passageiros e dizia: Amém. Claro que todos repetiam. Amém, Amém. Até eu fiquei cum medo e repetia. Quando o ônibus parou o ladrão desceu do buzão como um raio e subiu numa moto que seguia o ônibus e sumiram podando o transito. (risos) agora eu tô me sentindo um troxa. (risos).
- Eu num credito em você.
- Eu juro que é verdade, muié.
- E agora? Num é mió arranjar um emprego bom, de carteira assinada? Vi trabaiá di copeiro lá na cozinha da patroa tem uma vaga no restaurante.
- Eu? Muié, tu inda não intendeu, não é? Agora sou um impreendedo! Monto negócio. Agora negociei a cadeira de rodas por um ponto lá na Rio Branco de flanelinha. Um ponto muito bom disse o “Mordaça”, ele tava precisando de uma cadeira pro subrinho que sofreu um acidente de moto, sabe aquele que leva o jogo do bicho de moto táxi? Então tá quebrado! Mas, antes que ocê pergunti eu já fiz rolo, não, rolo é coisa de pobre, eu negociei o ponto com o “Cabrito”. Ele vai ser flanelinha.
- Misericórdia, homi. Tu vai se metê com o “Cabritu”? Ele num tava presu? Já saiu?
- Sim. Diz qui qué vive na honestidade agora. Aí negociei um aluguel com ele pelo ponto di flanelinha.
- Meu Deus, homi. Toma jeito. Pega lá nu serviço da dona Ketlin, di carteira assinada e tudo.
- Não muié. Já ti disse que agora sou um impreendedo. Um homi di negócio. Vô toma banho.
- Não tem água.
- Aí não. Di novu?
                                                          
                                                            FIM.

quinta-feira, 29 de março de 2018


CABEÇA, O MENINO QUE FOGE DA LUA.
Cabeça é um menino esperto, tanto, mais tanto, que ganhou o apelido de cabeça.
Cabeça sai na rua só depois da aula,
Para ver o mar,
Para ver o dia acabar.
Depois de muito, muito, brincar,
Lembrava: “já é hora de voltar.”
- Mamãe vai começar a se preocupar.
            Com sua irmã e irmãos mais velhos,
            Maria e Hélcio,
            É o inverso.
            Diz sua mãe: “confiança, eu tenho, preocupação também, sim senhor, mas não em excesso”.
- Um dia vai ser a minha vez.
            “Um dia”, responde mamãe,
            “Por enquanto,
            Sou eu quem mando”.
            Cabeça correu pra casa,
            Com pressa,
            Nem viu quando passou
            Pela praça.
            Passou pela escola,
            Passou pela padaria,
            Esqueceu com o amigo a sua bola.
            E não ouviu o grito da tia.
            Cabeça estranhou a lua,
            Nunca a havia reparado.
            Onde ele ia, lá estava ela,
            Parecia que o seguia.
            Desde a casa de Toninho
e por todo o caminho.
            “A lua será que está me seguindo?”
            Atrás de um poste parou,
            Esperou, esperou...
            Com o olho esquerdo,
            Bem devagar, olhou.
            “droga, tá lá a lua”, pensou,
            “vou fugir pela outra rua”.
            Correu, correu, correu. Sem olhar para trás.
            Quando parou,
            Escondido por uma lixeira
            Sentou,
            E pensou:
            “olho ou não olho?”
            “olho ou não olho?”
            “olho ou não olho?”
            Decidido, olhou.
            “tá lá!”
            Parada no mesmo lugar.
            “será que está me seguindo?”
            Voltou indo.
            Rapidinho,
            A cada passinho
            Sem olhar para o lado,
            ou cima, ou atrás,
            Só pro chão.
            Curioso, Cabeça não aguenta, não.
            Tá lá a lua abelhuda.
            “Tá me cuidando”,
            Pensa,
            “vou correndo, vou voando”.
            Cabeça dispara,
            Imagina ele em uma velocidade rara.
            A lua é muito rápida,
            “Não consigo despistar,
            Vou correr até ela cansar”
            Cabeça corre,
            Corre muito.
            Mas mesmo assim
            A lua está, enfim,
            A lhe pisar os calcanhares.
            Cabeça para e grita com a lua:
- Me deixe em paz! Fique na sua.
            A lua nada diz.
            Fica parada.
            Como se não fosse com ela,
            “que descarada!”
            Cabeça volta a andar,
            Olha para o lado
            E a lua tá lá.
            Seguindo-o a cada passo.
            Quando cabeça chega em casa
            Sua mãe está na porta
            A o mirar
            Com a vista torta.
            A lua para,
            Na frente da casa.
            “Cabeça onde estava?”
            “Mãe, a lua tá me seguindo.”
            “Fala pra ela ir logo saindo.”
            “Eu mandei ela te seguir.”
            “verdade?”
            “Claro. Como onde você está eu saberei?”
            Cabeça entra em casa,
            E da janela
            Olha pra ela,
            Lá no alto,
            De cima de seu salto.
            Mamãe a lua agradece,
            Mas de lá a lua não desce.
            “Só amanhã de manhã”, diz mamãe.
            Cabeça não entende
            Como mamãe convence
            “A lua a não me perder.”
            "Mamãe sabe sim,
            O que sempre dizer.”


                                                            FIM.
           
           
           

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...