CAFÉ COM PÃO É BOM.
“Café com pão é bom, café
com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom”
Assim é que o trem faz,
diz vovó.
- Eu nunca andei de trem
vovó.
- Eu sei.
Minha vovó disse que já viajou de trem. A muito tempo
atrás. E muitas e muitas vezes. Quando ela era criança, como sou hoje. Ela me disse que o trem era o principal meio de se viajar para longe. De uma cidade a
outra. Disse ela que o trem balançava muito. Tremia todo quando começava a
andar, começa bem devagarinho, mas quando embalava não parava mais, sempre
com a sua trilha sonora que deixava todos os passageiros com muito sono em seu
interior: café com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom, café com
pão é bom.
No meio do caminho, com poucos minutos depois da partida da estação, o vovô da minha
vovó, “seu trisavô”, disse vovó, “já roncava no trem, ó!, fazia tempo”.
- Eu já fiz tantas vezes
essa viagem, minha queridinha, que me canso só de lembrar os caminhos pelos
quais o trem passa – dizia o vovô para minha vovó.
- Como ele se chamava, vovó?
– pergunto pra ela.
- Você já me perguntou isso
umas mil vezes.
- Mas, mas, eu não lembro.
- Waldemar.
- ahhh! É o vovô “demá”. É verdade
agora lembrei. No que ele trabalhava vovó?
- O vovô “Demá” concertava máquinas
de escrever. Depois de ser por muito tempo sapateiro, por uns trinta anos.
- Trinta anos?
- Sim.
- Isso é muito tempo vovó?
- Sim. É muito tempo sim
senhor. Sua irmã Amanda tem 11 anos não tem?
- sim.
- Então, conte mais dez e
depois mais dez. E então, soma que dá trinta anos.
- mas, vovó: somando onze
mais dez mais dez dá trinta e um.
- ahhh. Então tire esse um e
some o restante. E ai dá trinta.
- Tirar o um de onde vovó?
- Tira o um dos onze anos de
sua irmã.
- Tá bom então. Onze menos
um é igual a dez. Então, dez mais dez e mais dez da trinta. Nossa, é muito tempo
mesmo.
- Sim é um tempão mesmo.
- Vovó, o que é uma máquina
de escrever?
- Antes de existirem os
computadores se escrevia em máquinas de escrever. Sabe aquela máquina que tem na
estante do quarto do seu tio Luís? Aquilo é uma máquina de escrever e saiba que aquela
mesma era do seu trisavô Demá.
- Sério, vovó?
- Sim.
- Hum. O tio não deixa a
gente nem olhar pra ela.
- Sim. Para ele aquilo é uma
relíquia.
- O que é uma relíquia vovó?
- Bem, é algo muito valioso,
e geralmente muito antigo.
- muito antigo quer dizer muito velho?
- Muito, muito velho mesmo.
- O vovô Celso então era uma
relíquia? E o vovô Demá também?
- (risos) Por que diz isso?
- Porque mamãe disse que ele
era muito importante para todos da família e importante não é valioso também?
- Sim.
- Então! O vovô era valioso
e muito velho também.
- (risos) Sim. Essas
crianças vêm com cada uma.
- o que você disse vovó?
- Nada querido, nada.
- O vovô andava de trem também,
vovó?
- Sim. Mas ele não gostava.
- Por que não?
- Ele se sentia muito
enjoado com o balanço do trem.
- Verdade?
- Sim.
- E eu vovó? Será que vou
ficar enjoado de andar de trem também? Aliás, o que é ficar enjoado?
- É passar mal, ter dor de
barriga e vontade de vomitar o que comeu e bebeu.
- Ai, vovó, eu tô com medo
de passear de trem.
- Que isso? Cadê aquele
menino corajoso que eu conhecia? Primeiro é preciso ter coragem, não pode ser
assim. A vida exige coragem para vivê-la. E você só vai saber se vai enjoar
quando passear de trem. Tá com medo?
- Eu não.
- Então?
- No trem tinha banheiro,
vovó?
- Sim, tinha banheiro sim,
porém, nem todos tinham ou tem banheiro.
APIIIIIIIITTTOOOOOOOOOOO APIIIIIIITTTTTTTTTTOOOOOOOOOOOOO
- Escuta vovó. Um apito!
- Sim é o apito do trem. O maquinista
toca o apito para avisar que o trem está chegando.
- O maquinista?
- Sim, é mais ou menos o motorista do trem. É ele quem dirige o trem.
- Vovó ele é bom motorista?
Tem carteira pra isso? O pai do Caio disse que é preciso ter carteira para
dirigir.
- (risos) sim ele é bom
maquinista, assim espero.
- Qual é o nome dele, vovó?
- Olha isso eu não sei. Depois
a gente pergunta pra ele. Agora precisamos subir no trem, se não ele vai embora
e deixa a gente aqui, a ver navios.
- A ver o trem vovó.
- Isso ai. Vamos. (risos).
A vovó e eu subimos no trem. Outra vez ele apitou e
zarpamos. O balanço era muito divertido e não me deixou enjoado. Nós nos
divertimos muito dentro do trem, eu e a vovó. E todos os outros passageiros,
acho, por que todos sorriam, e quando estamos sorrindo é por que
estamos felizes. Enquanto o trem seguia apitando, balançando nas curvas e fazendo
aquele barulho engraçado ao subir aquela serra enorme, passar por túneis,
pontes e cachoeiras, a vovó queria que eu visse tudo. Ela me
mostrava os lugares onde a gente ia passar lá em cima da serra daqui a uns
minutos. Aí me lembrei do que ela falou antes de entrar no trem lá na estação.
- Ei, vovó! – puxei a blusa
dela – você disse a verdade lá na estação.
- Que verdade querido?
- O som que o trem faz
enquanto anda.
“Café com pão é bom, café
com pão é bom, café com pão é bom, café com pão é bom”.
- Então, viu só? (risos).
AAAAAAAAAAAAAAAPPPIIIIIITTTTTTTTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO
AAAAAAAAAAAPPIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIITTTTOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.
FIM.
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