A PORTA DE SAÍDA.
Achavam-se
as três mulheres tensas num profundo silêncio dentro daquela casa, apesar do
momento ser decisivo para o destino das três presentes. Sentadas em poltronas
diferentes, duas jovens, Giovana e Diana. Encostada à parede ao lado de uma
grande janela a outra mulher, Mariza. Essa fumava deliciosamente um cigarro
apreciando o espetáculo exibido pelas tardes da Babitonga. Giovana apoiava o
rosto entre as mãos olhando preocupada à amiga Diana.
O vento sul soprava
forte induzindo as cortinas a dançarem sala adentro. A luz da tarde penetrava e
emoldurava o ambiente. As nuvens, cinza arroxeada, as quais surgiam no
horizonte do mar, anunciava a umidade que vinha chegando. Do outro lado da
baía, separada pelo espelho reflexivo das águas ondulantes, as montanhas verdes
dominam o cenário cobertas por nuvens em seus picos. Nuvens pequenas e de
baixas altitudes costumam ser capturadas por essas elevações à tarde, já que o
vento que sopra é uma constante do mar.
Mariza recostada à janela
fuma incessantemente desde que chegou. Expele a fumaça pelas narinas tentando
dissimular seu estado nervoso. Todavia, encobre muito mal o rancor que sente.
Olha a calmante beleza da baía aberta a suas emoções. Brilho e sol. Diana
recostada ao sofá mantém a cabeça baixa, inconsolável, distante, pensamentos
indecifráveis escapam com o vento que sopra. Giovana para consolar a amiga
acaricia a cabeleira negra e cacheada da moça. Para não parecer uma megera,
Mariza tenta expor as jovens a gravidade da situação.
- Diana, é preciso entender a situação em que nós
estamos.
Não esboçando reação
alguma a menina permanece como antes, olhando aparentemente para o nada quando
volta a fungar o nariz, esse vermelho na ponta, e olhos inchados.
- Já pagaram a encomenda e não tem volta. Três
encomendas. Três! - Exclama a mulher recostada a parede.
Diana limpava e fungava o
nariz, mas nada dizia.
- Quer uma água com açúcar, Di? Pergunta Giovana
preocupada com a amiga.
- Quero... – responde entre soluços Diana.
Giovana se dirige a
cozinha. Depois de alguns instantes, Mariza a segue.
- Giovana. Não dê forças a ela. Vocês duas sabem
que é um problema o que aconteceu por aqui – avisa – vocês querem morrer?
Nada responde a moça
enquanto prepara a água com açúcar que prometeu a companheira.
- Está me ouvindo, menina? – Insiste Mariza
agarrando o braço de Giovana. Sua voz tem o tom de ameaças. – Está me ouvindo?
Isso não é brincadeira não. No final até eu vou ter sérios problemas com a irresponsabilidade
das duas.
- Eu sei! – Exclama Giovana, encarando a mulher que
segurava seu braço, o que puxou com força se soltando das mãos de Mariza.
Preocupada olha para a porta que dá à sala. Volta a procurar pelo açúcar nos
armários.
- Vou tentar convencê-la, então vai com calma –
disse Giovana.
- Calma! Calma! – Repete indignada com a situação
Mariza - A coisa está feia pra nós e você sabe muito bem disso, vocês sabem
muito bem disso – pronuncia com intensidade “vocês”.
- Mariza? Dá um tempo dá? Olhe como está a coitada.
- Fala isso para o Jean-Pierre! – Exclama com ardor.
Voltam à sala. Giovana
serve a amiga – tome Di – à voz tem ternura e carinho.
- Brigada – responde num murmúrio Diana.
- Di – recomenda Giovana – não dá para desistir
agora. Já até pagaram pela “encomenda”.
- Diana – quando fala, Mariza tem na voz um tom de
reconciliação e paciência na tentativa de convencer a moça. – são somente esses
três viu? Depois vocês se arrumam com o Jean – Pierre.
Diana seca o nariz que escorre
com os dedos, parece finalmente concordar com as duas que apelam, todavia, uma
força repele a reconciliação e volta aos prantos. As outras duas se olham, sem
saber como convencer a moça da situação urgente em que se encontram Mariza bufa
e deixa escapar dos lábios um “ai meu Deus do céu”, enquanto Giovana permanece
em silêncio, a observar à amiga.
Mariza mais uma vez,
indisposta com a situação, retorna a janela volta a se deslumbrar com a obra de
arte que se abre a sua frente e que a emociona. Aprecia a luz, admira o
horizonte, o mar que balança ao vento, conseguindo sentir-se melhor. Giovana
parece entender as duas, porém, nada diz.
A moça de pé pega o copo e o deixa na mesa ao lado da poltrona, senta
próxima a Diana e a abraça, que deita em seu colo, Giovana faz uns mimos nos
cabelos da amiga.
O silêncio não domina a
sala totalmente, pois o som exterior ocupa seu espaço que o defende, apoiado e
impelido pelo vento invasor, sons como das pequenas ondas que batem contra o
cais, das aves marinhas, cães que ladram ao longe, vozes indecifráveis das ruas
de pedra, e o rugir de automóveis acompanham esse turbilhão de vida até as três
mulheres desamparadas na sala, concentradas em outros problemas mais imediatos.
Giovana murmura uma canção de ninar que aprendeu com a avó. Mariza desperta do
transe contemplativo voltando sua atenção as duas moças sentadas na poltrona.
- Meninas – disse – nós estamos sendo cobradas. Eu
vim da Europa e trouxe um recado bem sério.
- Diana – intervém Giovana – agora não tem volta.
Não tem como sair desse negócio.
- Com vida! – Antecipa-se Mariza.
Diana levanta do colo da
amiga e explode com as duas.
- Vocês sabem o que é ser mãe? Não sabem! Não
sabem!
- Calma Di.
- Fala baixo, guria!
- Que baixo o quê!
- Não grite comigo se não eu ti arrebento! – Mariza
retruca irritada.
As duas se encaram -
insiste Mariza com os avisos.
- Você sabia e foi avisada, prostitutas não se
casam e não podem ter filhos. – grita Mariza – o mesmo vale para sequestradoras
de crianças. Mas vocês saem abrindo as pernas pra qualquer homem que conhecem.
- A buceta
é minha e dou pra quem quiser! Não tenho culpa se você é feia, seca e nenhum
homem lhe quer! – Diana irritada responde aos gritos.
- A vagabunda! Vou quebrar seus dentes agora sua
piranha! – Mariza parte pra cima da moça que a desafiou.
- Parem com isso suas idiotas! – Giovana interfere
apaziguando o clamor que se acende.
- Eu não vou morrer por causa dessa piranha! –
grita Mariza irritada até com Giovana.
- Diana, não dá para desistir assim – disse Giovana
com tranquilidade.
- Giovana – torna Diana com impaciência na voz –
antes eu não sentia a dor da perda de um filho, mas agora que serei mãe... nem
sei o que dizer.
- Ah não Diana. Não vem com essa de peso na
consciência agora.
- Só quem nunca foi mãe pode ser fria como você
Mariza.
- Por isso nunca quis ser mãe. - Responde Mariza. –
Olha você não vai desistir agora, viu? Tirei as duas da prostituição para
ajudar vocês e agora me vem com essa?
- Você? – retruca Diana – foi o Sergião quem me
botou nessa.
- É verdade Mariza. – Giovana intervém, desmentindo
Mariza.
- Sergião respondia a mim aqui no Brasil. - Disse a
mulher de pé com o dedo em riste apontando para as duas que insurgiram contra
ela. Se soubesse – continua inflamada – com quem ele andava já teria
“desligado” vocês três.
- E por que não faz agora sua puta? Faz agora. Hã?
– Diana desafia Mariza abrindo os braços num ar de desafio – me mata logo e
acaba com isso – as três congelam diante do desafio da desafeta, solidificando
a sala onde se encontram. Sem vento, sem som, sem respiração. O tempo para.
- Não me desafie guria... – então Mariza ameaça
entre os dentes – já “desliguei” muita gente por menos.
- Calma Di – disse a amiga segurando-a pelos
braços. Depois fica entre as duas pedindo calma.
- Olha Giovana se eu fosse você também ficaria
preocupada – Mariza dirige seus avisos à outra menina também – você escondeu
isso da gente – aponta pra barriga de Diana – a gravidez dessa galinha e sabe
muito bem que não é aceito isso na organização.
- Eu sei disso Mariza – responde Giovana – não é
preciso me lembrar – torna a amiga com calma na voz cheia de meiguice como uma
mãe faz com os filhos – aconteceu Diana, Tudo bem. Só que não é somente o seu
que está na reta.
- Eu vou fugir – exclama Diana – eu e meu filho,
pronto! Vocês não vão ter culpa disso, podem continuar se quiser, eu não faço mais,
pronto!
- Você ta louca é? – Mariza não se contém mais – tu
sabes o que o Claudio irá fazer quando retornar da Rússia?
- Eu vou fugir até do Claudio.
- Háh! – debocha Mariza da ingênua menina – pelo
amor de Deus menina! Ele vai enlouquecer. O corno, porque agora é corno também
– aponta pra barriga de Diana – esse filho não é dele moça, tem um ano e meio
que está na Rússia e o coitado só fala em você, sabia? Anda dizendo que vem ti
buscar e levar pra Rússia. O Jean- Pierre tentou convencê-lo a não ter relacionamentos
dentro da organização, ainda mais com uma prostituta. E ele ouviu? Claro que
não! Tu deves ter mel, só pode menina.
- Não vou mais, vou dizer para ele o que aconteceu.
Vou pedir pra ele me perdoar, me esquecer, sei lá. Se ele me ama mesmo irá
entender.
- Ôh sua louca! – Mariza interrompe fazendo gestos
com o dedo indicador nas têmporas girando como se apertasse parafusos soltos. –
se o Claudio souber, e vai ficar sabendo, aí ele vai matar você e se ele não o
fizer, o Jean-Pierre acaba com todos nós, você, Claudio, Giovana, eu e quem se
meter.
- O Claudio vai me entender. Vai ficar tudo bem. Eu
o perdoei pela “paraguaia”, por aquela vagabunda da Suzete loirinha e ficou
tudo bem entre nós.
- Se você não sabe querida ele dorme com muitas
prostitutas mais bonitas que você.
- As prostitutas não têm amor. Ele é homem e não
consegue ficar sem mulher. As prostitutas só servem pra gozar.
- Diana – entra na discussão Giovana – a coisa não
é tão fácil assim como tu estás pensando.
- Giovana – disse calmo o nome da amiga – agora eu
sei o que estou dizendo, antes não, mas agora estou segura de mim. Eu não
sentia esse... esse... sei lá! Esse sentimento de ser mãe. Sabe? Olha! Só de
pensar sinto um aperto na garganta. Arrepia-me todo o corpo. Só quem é mãe, e
eu vou ser, consegue entender esse sentimento dentro de si. Essa relação com um
filho, olha, são nove meses carregando isso dentro de mim. Agora consigo
imaginar o que aquelas mães sentiram. É muito forte a dor só de pensar. Só de imaginar
dói.
O vento que assobia pela
porta do banheiro indica a força de seu soprar, do lado de fora um imenso
sombreiro plantado no quintal da casa dança com o vento e os raios da luz do
sol que driblam as sombras alegram à tarde. Mariza assiste a esse espetáculo
com o sentimento da infância perdida já há tempo. Além, meninos brincam
mergulhando do trapiche, subindo as escadas e, mais uma vez, voam em acrobacias
dignas de malabaristas de circo. Risos chegam aos ouvidos de Mariza. Nada disso
tem na Europa. Gargalhadas dignas da felicidade dos trópicos. O sol parece
tornar tudo mais belo, sua luz reflete o mar, exibido, disputando com as serras
do fundo quem é o mais atraente. Aos olhos surgem pescadores em uma canoa que
lançam com muita destreza suas tarrafas roubando assim a atenção dos olhos
castanhos de Mariza. Realmente, isso só nos trópicos, pensa a mulher. A
majestade misteriosa é a magia desse lugar.
Mariza devaneia com pensamentos contemplativos,
nossa terra é a mais bela de todas que já conheceu. Mágica, luz, verde, mar e o
povo. Em especial esse povo rude e despreocupado com contas bancárias. As
crianças daqui são muito mais felizes. Tem sim, muitas vezes, remorso do que
faz, todavia, é seu ganho, e desse ninguém sai vivo se desistir. Pensava, sim,
até pouco tempo atrás que estava ajudando essas crianças a terem melhores
condições de vida lá no Velho Mundo. Enganou-se. E engana-se ainda. É assim que
se convence. De fome não morrerão, pois as famílias são abastadas para quem
entregam as “encomendas”.
A cada instante o sol aproxima-se das montanhas
emolduradas nos fundo da baia, enfeitando toda a beleza dos trópicos. Um sino
de igreja badala trazendo lembranças de passado um esquecido tornando ainda
mais singular à experiência vivida. Um sorriso cauteloso, espontâneo,
sentimentos tocados, uma melancolia que não sabe por que a sente, mas sente.
Giovana entrega uma xícara de café, “passei agora”,
disse, trazendo Mariza de seus pensamentos, respondendo enfim com um “obrigado”
automático. O apito de um navio, distante, reforça o sentimento pitoresco do
lugar. O café faz Mariza acordar da letargia dos trópicos, termina, enfim, de
beber, emergindo do fundo de uma lembrança perdida, a morte de Otávia por
envenenamento. Otávia era amante de Rangel, o próprio a envenenou quando
ameaçou deixá-lo por outro. A esposa de Rangel ao descobrir sorveu do mesmo
líquido, por vergonha e como castigo infligido ao marido, assim ele carregaria
toda a culpa pelo resto da existência.
Esse caso impôs aos membros da organização uma
norma de vida ou morte, precauções, tanto em relações amorosas entre os membros
quanto ao risco de envenenamento por desafetos. Mariza, contudo, não acredita
que as duas teriam a pachorra de cometer essa burrice. Ascendeu mais um
cigarro, traga-o, e expele a fumaça pelo nariz. Rangel era primo dessa
pervertida que está ali dando a maior dor de cabeça a ela.
- E o Rangel? – finge interesse Mariza na vida do
rapaz.
- Depois que foi para os Estados Unidos – responde
depois de alguns instantes Giovana, quieta que estava – não o vimos mais.
Giovana alcança um cigarro deixado na mesa e
oferece a Diana, acenando com uma negativa, pergunta então se não tem um
baseado, recebendo não como resposta.
- Tu estás grávida menina. Vais fumar ainda? –
irrita-se Mariza.
O apito do navio outra vez adentra o cômodo unido
ao cheiro acre de mangue despertando em Mariza suas lembranças e prioridades.
- Irei voltar a Europa semana que vem. Tenho umas
meninas prontas para ir aos Estados Unidos. Essas moças vão ficar aqui alguns
dias, escondidas, depois partem para o Uruguai, Argentina e Chile. Se quiser
Giovana, pode ser você responsável por elas.
- Quanto é que vai rolar? – pergunta a moça com sua
voz sedosa de menina.
- Dez mil – a resposta que recebe.
- Pode deixar comigo – encerra a negociata Giovana.
- São maiores de idade. Vão fazer filmes pornôs –
disse Mariza – agora vamos combinar sobre as “encomendas” – olha firme para
Diana, como se não tivesse outra escolha.
Essa nada diz deitada na poltrona, tem os olhos
fechados e o nariz escorre, funga em meio a soluços. Resolvendo sentar penteia
os cabelos com as mãos prendendo-os atrás das orelhas.
- Amanhã – disse Mariza – vamos acordar cedo e ir
para Itajaí.
- Eu não vou Mariza - Disse Diana.
- Não vou mais discutir com você. Vai nem que seja
na porrada!
Diana não responde, fecha a cara e abraça o
travesseiro.
- Menina – repreende Mariza – você vai fazer o que
eu disser.
- Não vou – responde Diana, afundada no sofá,
determinada a não obedecer.
- Olha aqui vagabunda: vou tomar banho e se você
continuar com essa cara emburrada e arrogante não me responsabilizo mais por
você. Vou ligar para o Jean-Pierre e ele decide seu destino.
Diana insiste dando de ombros abraçada ao
travesseiro demonstrando pouco caso para as ameaças de Mariza. Essa sai afinal
da janela, entra na cozinha. Escutando da sala, Diana e Giovana, silenciam
trocando olhares. Percebem o abrir e fechar da geladeira, seguido do pegar de
um copo batendo a porta do armário fechando-o em seguida.
- Posso beber um pouco desse chá? – Mariza pergunta
as duas na sala.
- Pode – responde Giovana - Sabia que viria e
comprei pra você.
Em segundos um copo cai se estilhaça pela cozinha,
um engasgo horrível e angustiante escapa da garganta de Mariza, seguido de um
abafado som de um corpo caindo ao chão. Continuam os engasgos desesperados,
grunhidos. As duas moças tensas trocam olhares, por segundos, esses instantes
mais parecem uma eternidade. Giovana se atreve a chamar por Mariza na cozinha.
- Mariza? Mariza?
Olhos nos olhos. Sem piscar. As duas levantam-se da
poltrona no mesmo instante correndo para a cozinha. Então, Giovana vai ao
quarto, enquanto Diana entra na cozinha. Sem perder nem um minuto, Giovana
retorna com duas mochilas e uma mala arrastada de rodinhas, Diana verifica uma
carteira trazida da cozinha encontrando dólares, euros e Reais. Retiram da
bagagem de Mariza documentos e passaportes. Fechando as janelas e cortinas
trancam a porta e num atropelar de pés deixam para trás o insistente apito de
um navio e o sol que segue seu rumo, cada vez mais próximo das distantes
montanhas nos fundos da Baia da Babitonga.
FIM.