quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

 

TIJOLO

 

“Que raiva de meu irmão Bruno”. A jovem levanta-se da cama de seu quarto mais de duas vezes para desligar o vídeo game sem conseguir. Larga-se indecisa no canto. Quando explode algo juvenil e incontrolável que a faz deixar de lado as estratégias racionais pela qual tanto se orgulha e dispara seu esguio corpo direto para a porta do quarto do intragável irmão. Grita com um doce ressentimento, controlando-se como parte da estratégia, agora que dominou a racionalidade outra vez, pedindo desculpas por ter brigado com ele.

— Mano. Por favor. Desculpa aí vai! Abre aqui.

Nada.

“vou enviar uma mensagem pelo celular”.

“— Olha aqui. Você não sabe o que é brincadeira? Desculpa. É que aprender a beijar com um tijolo é muito engraçado. Você tem que admitir.”

Recebeu a mensagem. Anima-se a menina.

Não posso perder para aquelas galinhas da escola — pensa Rafa a menina da história que aqui conto. Vai beijar seu pretendente e será esta tarde. Precisa beijar com experiência e domínio do assunto. Sabe de ouvido próprio o que o povo da escola fala de quem não sabe beijar. Teve uma de suas ideias doidas na noite passada. E pretende por seu astuto plano em movimento.

— Respondeu. Idiota gravou um áudio. Sussurra.

“ — Por que não vai beijar um tijolo?”

— Tu és um filho da puta sabia? Grita irritadíssima do corredor para o quarto do irmão.

Outra mensagem:

“— Vou contar pra mamãe que você xingou ela de puta”.

— Vai tomar no cú. Berra ainda mais alto como se pretendesse derrubar a porta do quarto, paredes, muros de Jericó e Tróia de uma só vez.

Minutos depois Rafa encontra-se dentro do quarto do irmão com uma ideia meio louca, porém, guarda para si, por enquanto.

Bruno e ela aguardam inquieto abrir um tutorial encontrado na internet sobre “como beijar de língua do modo certo”.

— Tá feio esse seu computador, hein Bruno? É capaz de ter um neném seu ainda um dia desses. Troça do irmão.

— Quer sair do meu quarto?

— Você é tão sem graça. Não sabe o que é brincadeira? Vai se fuder.

— Mãe — explode em um sonoro pedido de socorro — a Rafa tá mandando eu me fuder.

— Cala a boca, ô, idiota.

— Feia.

Depois dessa a menina cai de bruços na cama do irmão desmanchando-se entre soluços e devastadoras lágrimas contidas pelo travesseiro com o qual abafa a choradeira.

De longe intervém a voz da mãe.

— Bruno. Não faz sua irmã chorar. Ela é delicada e mulher. Aprenda a respeitar essa condição.

— Viu? Rafa levanta-se imediatamente desafiando o irmão.

— Abriu! Gritou entusiasmado o menino.

Quarenta e cinco minutos depois encerra o vídeo. Concordam que não ajudou mais do que os três tutoriais antes assistidos.

— Vai ter que conseguir um tijolo pra beijar. Cutuca o mano.

— Tive uma ideia.

— Ih. Lá vem! Sabe que vai ter que arrumar meu quarto por três semanas? Foi o combinado. Pode começar agora.

— segunda-feira eu começo.

— Vai me enrolar. Já vi tudo.

— Escuta minha ideia Bruno.

— Mãe. A Rafa prometeu que ia limpar meu quarto se eu a ajudasse a aprender a beijar de língua para beijar os guris da escola.

 O silêncio enche o quarto e a casa.

— Ela já foi trabalhar seu escroto. Posso quebrar sua cara se eu quiser — a menina é faixa azul de Karatê — deita na cama e tapa os olhos com a camiseta — ordena ao irmão.

 Obedece. Sabe que o caldo engrossa quando a irmã altera o tom de voz dessa forma. Deita dócil como um cãozinho, e cobre os olhos com uma camisa que puxaram do guarda roupa.

— O que vai fazer? — embebido de medo protesta.

— Vou treinar em você — responde doce, baixinho, alterando o tom de voz.

— O que? — assustado Bruno levanta o tronco para sentar.

— Deita. — as palavras saem dos lábios quase cerrados de Rafa como uma ordem.

O jovem não consegue reagir impedido pela pressão que a irmã faz no empurrão que dá em seu peito.

O suor surge da raiz de seus cabelos e molha suas têmporas. Tudo escuro. Espera a loucura planejada pela irmã.

— Relaxa — disse ela num sussurro calmante no qual somente as mulheres dominam.

 Quando sente o calor dos lábios dela próximos ao seu pergunta o que está fazendo. Treme como se estivessem cometendo algo errado as escondidas.

— Cruz Credo! — Grita horrorizada a irmã enquanto levanta-se da cama. — Que bafo Bruno! Você tá podre seu nojento! Bafo podre! Vai escovar os dentes seu porco. Ui! Parece que comeu um urubu morto. Comeu coco!

— Olha quem fala. Deixa o Bronco lamber sua boca sabendo que ele lambe a bunda de outros cachorros — Bronco é o cachorro da família.

A hora se aproxima. Não satisfeita, Rafa procurou a amiga Gabriela, a qual, amigas mais do que se fossem irmãs, treinaram o beijo. As línguas procuraram-se. Intensamente. Estranha experiência. Arrepios. Pode ser que um dia busque essa sensação outras vezes. Agora vai atrás do primo Marko. Seu melhor primo e melhor amigo.

Dormência nos dentes, no céu da boca, nas pernas, nos braços e no corpo inteiro quando a língua de Marko desliza por vinte minutos ao mesmo tempo em que caça sua úmida língua. Sente uma onda de choque percorrer pela coluna. Algo aguilhoa seu cérebro. Algo molha. Os pés, os pelos, os sexos, agitam-se. Os braços tocam-se e mãos... Excitação completa que percorre toda à tarde. Esse tempo que passa pela janela e os observa, sem interferir. Esquecido do lado de fora, o brilho do sol, o canto dos bem-te-vis, o ronco de motores, a aula perdida.

 “Marko tem sabor de hortelã”.

 

 

OUTONO/JUN/2021.

 

 

A PORTA DE SAÍDA.

    Achavam-se as três mulheres tensas num profundo silêncio dentro daquela casa, apesar do momento ser decisivo para o destino das três presentes. Sentadas em poltronas diferentes, duas jovens, Giovana e Diana. Encostada à parede ao lado de uma grande janela a outra mulher, Mariza. Essa fumava deliciosamente um cigarro apreciando o espetáculo exibido pelas tardes da Babitonga. Giovana apoiava o rosto entre as mãos olhando preocupada à amiga Diana. 

    O vento sul soprava forte induzindo as cortinas a dançarem sala adentro. A luz da tarde penetrava e emoldurava o ambiente. As nuvens, cinza arroxeada, as quais surgiam no horizonte do mar, anunciava a umidade que vinha chegando. Do outro lado da baía, separada pelo espelho reflexivo das águas ondulantes, as montanhas verdes dominam o cenário cobertas por nuvens em seus picos. Nuvens pequenas e de baixas altitudes costumam ser capturadas por essas elevações à tarde, já que o vento que sopra é uma constante do mar.

    Mariza recostada à janela fuma incessantemente desde que chegou. Expele a fumaça pelas narinas tentando dissimular seu estado nervoso. Todavia, encobre muito mal o rancor que sente. Olha a calmante beleza da baía aberta a suas emoções. Brilho e sol. Diana recostada ao sofá mantém a cabeça baixa, inconsolável, distante, pensamentos indecifráveis escapam com o vento que sopra. Giovana para consolar a amiga acaricia a cabeleira negra e cacheada da moça. Para não parecer uma megera, Mariza tenta expor as jovens a gravidade da situação.

- Diana, é preciso entender a situação em que nós estamos.

         Não esboçando reação alguma a menina permanece como antes, olhando aparentemente para o nada quando volta a fungar o nariz, esse vermelho na ponta, e olhos inchados.

- Já pagaram a encomenda e não tem volta. Três encomendas. Três! - Exclama a mulher recostada a parede.

         Diana limpava e fungava o nariz, mas nada dizia.

- Quer uma água com açúcar, Di? Pergunta Giovana preocupada com a amiga.

- Quero... – responde entre soluços Diana.

         Giovana se dirige a cozinha. Depois de alguns instantes, Mariza a segue.

- Giovana. Não dê forças a ela. Vocês duas sabem que é um problema o que aconteceu por aqui – avisa – vocês querem morrer?

         Nada responde a moça enquanto prepara a água com açúcar que prometeu a companheira.

- Está me ouvindo, menina? – Insiste Mariza agarrando o braço de Giovana. Sua voz tem o tom de ameaças. – Está me ouvindo? Isso não é brincadeira não. No final até eu vou ter sérios problemas com a irresponsabilidade das duas.

- Eu sei! – Exclama Giovana, encarando a mulher que segurava seu braço, o que puxou com força se soltando das mãos de Mariza. Preocupada olha para a porta que dá à sala. Volta a procurar pelo açúcar nos armários.

- Vou tentar convencê-la, então vai com calma – disse Giovana.

- Calma! Calma! – Repete indignada com a situação Mariza - A coisa está feia pra nós e você sabe muito bem disso, vocês sabem muito bem disso – pronuncia com intensidade “vocês”.

- Mariza? Dá um tempo dá? Olhe como está a coitada.

- Fala isso para o Jean-Pierre! – Exclama com ardor.

         Voltam à sala. Giovana serve a amiga – tome Di – à voz tem ternura e carinho.

- Brigada – responde num murmúrio Diana.

- Di – recomenda Giovana – não dá para desistir agora. Já até pagaram pela “encomenda”.

- Diana – quando fala, Mariza tem na voz um tom de reconciliação e paciência na tentativa de convencer a moça. – são somente esses três viu? Depois vocês se arrumam com o Jean – Pierre.

         Diana seca o nariz que escorre com os dedos, parece finalmente concordar com as duas que apelam, todavia, uma força repele a reconciliação e volta aos prantos. As outras duas se olham, sem saber como convencer a moça da situação urgente em que se encontram Mariza bufa e deixa escapar dos lábios um “ai meu Deus do céu”, enquanto Giovana permanece em silêncio, a observar à amiga.

         Mariza mais uma vez, indisposta com a situação, retorna a janela volta a se deslumbrar com a obra de arte que se abre a sua frente e que a emociona. Aprecia a luz, admira o horizonte, o mar que balança ao vento, conseguindo sentir-se melhor. Giovana parece entender as duas, porém, nada diz.  A moça de pé pega o copo e o deixa na mesa ao lado da poltrona, senta próxima a Diana e a abraça, que deita em seu colo, Giovana faz uns mimos nos cabelos da amiga.

         O silêncio não domina a sala totalmente, pois o som exterior ocupa seu espaço que o defende, apoiado e impelido pelo vento invasor, sons como das pequenas ondas que batem contra o cais, das aves marinhas, cães que ladram ao longe, vozes indecifráveis das ruas de pedra, e o rugir de automóveis acompanham esse turbilhão de vida até as três mulheres desamparadas na sala, concentradas em outros problemas mais imediatos. Giovana murmura uma canção de ninar que aprendeu com a avó. Mariza desperta do transe contemplativo voltando sua atenção as duas moças sentadas na poltrona.

- Meninas – disse – nós estamos sendo cobradas. Eu vim da Europa e trouxe um recado bem sério.

- Diana – intervém Giovana – agora não tem volta. Não tem como sair desse negócio.

- Com vida! – Antecipa-se Mariza.

         Diana levanta do colo da amiga e explode com as duas.

- Vocês sabem o que é ser mãe? Não sabem! Não sabem!

- Calma Di.

- Fala baixo, guria!

- Que baixo o quê! 

- Não grite comigo se não eu ti arrebento! – Mariza retruca irritada.

         As duas se encaram - insiste Mariza com os avisos.

- Você sabia e foi avisada, prostitutas não se casam e não podem ter filhos. – grita Mariza – o mesmo vale para sequestradoras de crianças. Mas vocês saem abrindo as pernas pra qualquer homem que conhecem.

- A buceta é minha e dou pra quem quiser! Não tenho culpa se você é feia, seca e nenhum homem lhe quer! – Diana irritada responde aos gritos.

- A vagabunda! Vou quebrar seus dentes agora sua piranha! – Mariza parte pra cima da moça que a desafiou.

- Parem com isso suas idiotas! – Giovana interfere apaziguando o clamor que se acende.

- Eu não vou morrer por causa dessa piranha! – grita Mariza irritada até com Giovana.

- Diana, não dá para desistir assim – disse Giovana com tranquilidade.

- Giovana – torna Diana com impaciência na voz – antes eu não sentia a dor da perda de um filho, mas agora que serei mãe... nem sei o que dizer.

- Ah não Diana. Não vem com essa de peso na consciência agora.

- Só quem nunca foi mãe pode ser fria como você Mariza.

- Por isso nunca quis ser mãe. - Responde Mariza. – Olha você não vai desistir agora, viu? Tirei as duas da prostituição para ajudar vocês e agora me vem com essa?

- Você? – retruca Diana – foi o Sergião quem me botou nessa.

- É verdade Mariza. – Giovana intervém, desmentindo Mariza.

- Sergião respondia a mim aqui no Brasil. - Disse a mulher de pé com o dedo em riste apontando para as duas que insurgiram contra ela. Se soubesse – continua inflamada – com quem ele andava já teria “desligado” vocês três.

- E por que não faz agora sua puta? Faz agora. Hã? – Diana desafia Mariza abrindo os braços num ar de desafio – me mata logo e acaba com isso – as três congelam diante do desafio da desafeta, solidificando a sala onde se encontram. Sem vento, sem som, sem respiração. O tempo para.

- Não me desafie guria... – então Mariza ameaça entre os dentes – já “desliguei” muita gente por menos.

- Calma Di – disse a amiga segurando-a pelos braços. Depois fica entre as duas pedindo calma.

- Olha Giovana se eu fosse você também ficaria preocupada – Mariza dirige seus avisos à outra menina também – você escondeu isso da gente – aponta pra barriga de Diana – a gravidez dessa galinha e sabe muito bem que não é aceito isso na organização.

- Eu sei disso Mariza – responde Giovana – não é preciso me lembrar – torna a amiga com calma na voz cheia de meiguice como uma mãe faz com os filhos – aconteceu Diana, Tudo bem. Só que não é somente o seu que está na reta.

- Eu vou fugir – exclama Diana – eu e meu filho, pronto! Vocês não vão ter culpa disso, podem continuar se quiser, eu não faço mais, pronto!

- Você ta louca é? – Mariza não se contém mais – tu sabes o que o Claudio irá fazer quando retornar da Rússia?

- Eu vou fugir até do Claudio.

- Háh! – debocha Mariza da ingênua menina – pelo amor de Deus menina! Ele vai enlouquecer. O corno, porque agora é corno também – aponta pra barriga de Diana – esse filho não é dele moça, tem um ano e meio que está na Rússia e o coitado só fala em você, sabia? Anda dizendo que vem ti buscar e levar pra Rússia. O Jean- Pierre tentou convencê-lo a não ter relacionamentos dentro da organização, ainda mais com uma prostituta. E ele ouviu? Claro que não! Tu deves ter mel, só pode menina.

- Não vou mais, vou dizer para ele o que aconteceu. Vou pedir pra ele me perdoar, me esquecer, sei lá. Se ele me ama mesmo irá entender.

- Ôh sua louca! – Mariza interrompe fazendo gestos com o dedo indicador nas têmporas girando como se apertasse parafusos soltos. – se o Claudio souber, e vai ficar sabendo, aí ele vai matar você e se ele não o fizer, o Jean-Pierre acaba com todos nós, você, Claudio, Giovana, eu e quem se meter.

- O Claudio vai me entender. Vai ficar tudo bem. Eu o perdoei pela “paraguaia”, por aquela vagabunda da Suzete loirinha e ficou tudo bem entre nós.

- Se você não sabe querida ele dorme com muitas prostitutas mais bonitas que você.

- As prostitutas não têm amor. Ele é homem e não consegue ficar sem mulher. As prostitutas só servem pra gozar.

- Diana – entra na discussão Giovana – a coisa não é tão fácil assim como tu estás pensando.

- Giovana – disse calmo o nome da amiga – agora eu sei o que estou dizendo, antes não, mas agora estou segura de mim. Eu não sentia esse... esse... sei lá! Esse sentimento de ser mãe. Sabe? Olha! Só de pensar sinto um aperto na garganta. Arrepia-me todo o corpo. Só quem é mãe, e eu vou ser, consegue entender esse sentimento dentro de si. Essa relação com um filho, olha, são nove meses carregando isso dentro de mim. Agora consigo imaginar o que aquelas mães sentiram. É muito forte a dor só de pensar. Só de imaginar dói.

         O vento que assobia pela porta do banheiro indica a força de seu soprar, do lado de fora um imenso sombreiro plantado no quintal da casa dança com o vento e os raios da luz do sol que driblam as sombras alegram à tarde. Mariza assiste a esse espetáculo com o sentimento da infância perdida já há tempo. Além, meninos brincam mergulhando do trapiche, subindo as escadas e, mais uma vez, voam em acrobacias dignas de malabaristas de circo. Risos chegam aos ouvidos de Mariza. Nada disso tem na Europa. Gargalhadas dignas da felicidade dos trópicos. O sol parece tornar tudo mais belo, sua luz reflete o mar, exibido, disputando com as serras do fundo quem é o mais atraente. Aos olhos surgem pescadores em uma canoa que lançam com muita destreza suas tarrafas roubando assim a atenção dos olhos castanhos de Mariza. Realmente, isso só nos trópicos, pensa a mulher. A majestade misteriosa é a magia desse lugar.

Mariza devaneia com pensamentos contemplativos, nossa terra é a mais bela de todas que já conheceu. Mágica, luz, verde, mar e o povo. Em especial esse povo rude e despreocupado com contas bancárias. As crianças daqui são muito mais felizes. Tem sim, muitas vezes, remorso do que faz, todavia, é seu ganho, e desse ninguém sai vivo se desistir. Pensava, sim, até pouco tempo atrás que estava ajudando essas crianças a terem melhores condições de vida lá no Velho Mundo. Enganou-se. E engana-se ainda. É assim que se convence. De fome não morrerão, pois as famílias são abastadas para quem entregam as “encomendas”.

A cada instante o sol aproxima-se das montanhas emolduradas nos fundo da baia, enfeitando toda a beleza dos trópicos. Um sino de igreja badala trazendo lembranças de passado um esquecido tornando ainda mais singular à experiência vivida. Um sorriso cauteloso, espontâneo, sentimentos tocados, uma melancolia que não sabe por que a sente, mas sente.

Giovana entrega uma xícara de café, “passei agora”, disse, trazendo Mariza de seus pensamentos, respondendo enfim com um “obrigado” automático. O apito de um navio, distante, reforça o sentimento pitoresco do lugar. O café faz Mariza acordar da letargia dos trópicos, termina, enfim, de beber, emergindo do fundo de uma lembrança perdida, a morte de Otávia por envenenamento. Otávia era amante de Rangel, o próprio a envenenou quando ameaçou deixá-lo por outro. A esposa de Rangel ao descobrir sorveu do mesmo líquido, por vergonha e como castigo infligido ao marido, assim ele carregaria toda a culpa pelo resto da existência.

Esse caso impôs aos membros da organização uma norma de vida ou morte, precauções, tanto em relações amorosas entre os membros quanto ao risco de envenenamento por desafetos. Mariza, contudo, não acredita que as duas teriam a pachorra de cometer essa burrice. Ascendeu mais um cigarro, traga-o, e expele a fumaça pelo nariz. Rangel era primo dessa pervertida que está ali dando a maior dor de cabeça a ela.

- E o Rangel? – finge interesse Mariza na vida do rapaz.

- Depois que foi para os Estados Unidos – responde depois de alguns instantes Giovana, quieta que estava – não o vimos mais.

Giovana alcança um cigarro deixado na mesa e oferece a Diana, acenando com uma negativa, pergunta então se não tem um baseado, recebendo não como resposta.

- Tu estás grávida menina. Vais fumar ainda? – irrita-se Mariza.

O apito do navio outra vez adentra o cômodo unido ao cheiro acre de mangue despertando em Mariza suas lembranças e prioridades.

- Irei voltar a Europa semana que vem. Tenho umas meninas prontas para ir aos Estados Unidos. Essas moças vão ficar aqui alguns dias, escondidas, depois partem para o Uruguai, Argentina e Chile. Se quiser Giovana, pode ser você responsável por elas.

- Quanto é que vai rolar? – pergunta a moça com sua voz sedosa de menina.

- Dez mil – a resposta que recebe.

- Pode deixar comigo – encerra a negociata Giovana.

- São maiores de idade. Vão fazer filmes pornôs – disse Mariza – agora vamos combinar sobre as “encomendas” – olha firme para Diana, como se não tivesse outra escolha.

Essa nada diz deitada na poltrona, tem os olhos fechados e o nariz escorre, funga em meio a soluços. Resolvendo sentar penteia os cabelos com as mãos prendendo-os atrás das orelhas.

- Amanhã – disse Mariza – vamos acordar cedo e ir para Itajaí.

- Eu não vou Mariza - Disse Diana.

- Não vou mais discutir com você. Vai nem que seja na porrada!

Diana não responde, fecha a cara e abraça o travesseiro.

- Menina – repreende Mariza – você vai fazer o que eu disser.

- Não vou – responde Diana, afundada no sofá, determinada a não obedecer.

- Olha aqui vagabunda: vou tomar banho e se você continuar com essa cara emburrada e arrogante não me responsabilizo mais por você. Vou ligar para o Jean-Pierre e ele decide seu destino.

Diana insiste dando de ombros abraçada ao travesseiro demonstrando pouco caso para as ameaças de Mariza. Essa sai afinal da janela, entra na cozinha. Escutando da sala, Diana e Giovana, silenciam trocando olhares. Percebem o abrir e fechar da geladeira, seguido do pegar de um copo batendo a porta do armário fechando-o em seguida.

- Posso beber um pouco desse chá? – Mariza pergunta as duas na sala.

- Pode – responde Giovana - Sabia que viria e comprei pra você.

Em segundos um copo cai se estilhaça pela cozinha, um engasgo horrível e angustiante escapa da garganta de Mariza, seguido de um abafado som de um corpo caindo ao chão. Continuam os engasgos desesperados, grunhidos. As duas moças tensas trocam olhares, por segundos, esses instantes mais parecem uma eternidade. Giovana se atreve a chamar por Mariza na cozinha.

- Mariza? Mariza?

Olhos nos olhos. Sem piscar. As duas levantam-se da poltrona no mesmo instante correndo para a cozinha. Então, Giovana vai ao quarto, enquanto Diana entra na cozinha. Sem perder nem um minuto, Giovana retorna com duas mochilas e uma mala arrastada de rodinhas, Diana verifica uma carteira trazida da cozinha encontrando dólares, euros e Reais. Retiram da bagagem de Mariza documentos e passaportes. Fechando as janelas e cortinas trancam a porta e num atropelar de pés deixam para trás o insistente apito de um navio e o sol que segue seu rumo, cada vez mais próximo das distantes montanhas nos fundos da Baia da Babitonga.

 

 

FIM.

 

UM CIGARRO.

 

Então seu Ataíde procura por um cigarro no bolso. Parado, enquanto espera por uma oportunidade de cruzar a rua, movimentada, relembra, infelizmente, as palavras do médico.

- Esse filho da puta quer é me tirar à última alegria que tenho. Onde está a merda do isqueiro, murmura para si mesmo. Essa agora.

Encontra, afinal, no bolso da camisa azul que veste. Com o cigarro na boca ascende. O vento forte não o deixa atingir esse ato tão importante, para ele, naquele momento, então, com as mãos, forma uma espécie de concha impedindo que o vento apague o fogo. Vira-se de costas para a aragem fria, e, só assim, consegue. “Deve ser praga daquele médico filho da puta”, pensa, e em seguida puxa aquela tragada lá do fundo, a fumaça solta pelo nariz, “agora sim”.  Olha para lá, olha para cá, e inicia a travessia, “que atrevimento daquele doutorzinho”.

Sobe no passeio público do outro lado da via e dá uma nova tragada. Fundo. Sua cabeça alivia. Duas horas de espera no posto de saúde e agora pode fumar seu cigarrinho, companheiro desde os doze anos. Com sessenta e oito é que vai parar? Morrer todos irão um dia mesmo. Ninguém fica pra semente.

Ultimamente sente que suas forças estão se esvaindo. Não consegue levantar pesos como antes, sente muita falta de fôlego. Qualquer caminhada ou subir de escadas o deixa no limite. O doutorzinho diz que é da idade, mas, estaria melhor se eu parasse de fumar. Tudo bem. “Só que meu cigarro eu não deixo. Menti pro médico filho de uma puta que ia largar o cigarro.”

Claro que seu Ataíde não tinha a intenção de cumprir a promessa que fez ao doutor. Esse vício, segundo ele mesmo, é sua única alegria. Devagar vai caminhando curtindo o sol nesta tarde muito fria. Um vento frio. As nuvens flutuam pelo céu azul do sul em velocidades gritantes indicando que o frio continuará por esses dias. As maiores e cinzentas têm mais dificuldade de locomoção pelo céu, entravam ocupando altitudes mais baixas parecem mais fáceis de serem tocadas.

Não diz a ninguém que gosta desses dias de inverno, com sol, com nuvens e com vento. Mesmo que em sua infância a casa de sua família tenha sido destelhada por uma forte ventania, perdendo assim todos os móveis. Isso marcou muito sua época de piá o fazendo sempre relembrar aqueles momentos de medo quando saia para empinar uma pandorga. Entretanto, nunca deixou de soltar uma pipa, “dia de vento, dia de pipa”.

Ao ver aquelas imensas nuvens cruzarem os céus imaginava ser o Super-man voando entre elas. Coisas de piá. Sonhava em poder voar, furando nuvens e atravessando-as. Sim, mas tudo acabou. O sonho - quando a idade bateu em suas costas e o mundo esmagou sua infância para sempre - acabou.

A realidade devorou tudo. Sente pena dos sobrinhos que sonham em um dia serem jogadores de futebol, outro tem a esperança de ser escritor, enquanto seu irmão almeja ser youtubber. É um sonho. Somente um sonho. Quando a realidade bater em suas portas espera que estejam preparados para a queda, pois ninguém estará lá para segurá-los. Esses meninos não têm mais mãe, e só uma mãe é quem tem forças o bastante para abraçá-los. Minha nora partiu antes da hora.

Tosse. Anda com um pigarro chato. Foi o que o levou a procurar um médico, além do saco da mulher. “Eu disse pra Joana, mas essa mulher é teimosa como uma mula”, pensa - “médico pra quê? Sessenta e oito anos muito bem vividos”. E aquele cretino ainda pôs culpa no cigarro.

O frio atravessa o casaco. Joana tinha dito para vestir um mais grosso. “Veste um de lã, homem teimoso”. Seu Ataíde gosta de sentir o vento. Recusou o blusão. Até o doutorzinho o aconselhou a se agasalhar melhor, “vai à merda”, pensou no consultório. Contudo, nunca dizemos, ou quase nunca o que pensamos. Então disse ao “merdinha” do doutorzinho, sem uma gota de sinceridade, que tomaria mais cuidado.

As ruas por onde caminhas estão quase desertas, a não ser por ele mesmo, um menino ao longe pedalando em uma bicicleta, e uma moça, também caminhando que chama muito a sua atenção. Moça bonita, de cochas grossas que são desenhadas pela calça jeans que veste. Do outro lado da rua, em cima das calçadas carros estacionados impedem a passagem dos pedestres, forçando-os a descer à rua para continuar seu trajeto, seja lá qual for. Seu Ataíde acha um absurdo essa situação, já que também foi forçado a atravessar a avenida antes do sinaleiro e da faixa de pedestres pelo ímpeto dos donos dos carros utilizarem as calçadas como suas garagens.

Um cachorro o cerca no caminho, late, incomodado com sua aproximação. Bate o pé esquerdo no chão com força enxotando o cão. Todas as vezes que passa por li esse cão o estranha. Parece até perseguição!, o que o faz lembrar de sua mulher e daquele doutorzinho mequetrefe com quem acabou de consultar. “ora vejam só?” – disse para si mesmo, “minha única alegria”. A bebida se livrou já tem anos. Alcoolismo por trinta e cinco anos, e parou!, do cigarro a hora que quiser também dá um basta. Mas o cigarro não, esse eles não tiram de mim.

Tosse.

Falta de ar e Tosse.

Tosse. Seca.

- Vou ascender outro cigarro, acho que é isso. Além de tudo ajuda a pensar. Areja a cabeça.

Tinha somente três cigarros no maço que leva e agora só um lhe resta. “Vou ter de comprar mais”. Esconde do vento o cigarro e o isqueiro com o qual tenta ascender o fogo, fazendo uma concha com as mãos. Consegue e traga com as forças do pulmão, segura e expele pelas narinas a fumaça como um vulcão. Chegando próximo de casa interrompe a caminhada para terminar o cigarro. Não quer que Joana veja. Ela também já fumou muito. Depois de anos abandonou “o diabo do vício”, como gosta de dizer. Diz que sente o cheiro longe, e começa com toda aquela ladainha. Ao lembrar-se da mulher, Joana, lembra-se também de Carol. Uma amiguinha. Ele a visita, de vez em quando. Já que Joana não lhe dá mais chance faz visitas periódicas à moça Carol. Descobriu ela nos classificados. Compra muitos presentes pra menina e ela não faz muitas perguntas. O melhor, é que gosta de fumar com ele também. Até maconha já o ofereceu, ele provou, mas não aprovou. Não sabe por que fez aquilo. Dá de ombros.

- Preciso lhe fazer uma visitinha qualquer hora dessas, murmura.

Então, com o cigarro no fim, pode ir para casa. Joga no chão a bituca, ainda em brasa, e pisa em cima, esmagando com um movimento do pé. Volta-se ao portão e vê, quando passa um carro em velocidade lançando de dentro uma latinha de cerveja no meio da rua, o que o irrita demais.

- “esses jovens porcos de hoje”, disse, “depois não sabem o porquê das enchentes”.

Joana aparece na janela, procurando ver quem vem entrando. “47 anos assim”, pensa seu Ataíde, “e como era bonita essa mulher quando nos casamos”, dá uma pausa para fechar o portão, “até mais do que a Carol”.

Tosse. Muito, seca e doida.

Tosse.

“De novo essa maldita tosse.”

 

                                     

 

FIM.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

VIDA DE RATINHA.

 

 

Chegou o momento de sair de casa. A ratinha Nilzinha cheira o ar encontrando rastros de comida ou perigo. Cautelosa aguarda. Após instantes precavidos resolve que é o momento de sair. O caminho que faz é escuro e solitário. Porém, todo cuidado é pouco. Ruas desertas podem tornar-se o fim num piscar de olhos. Isso significaria que cinco bocas ficariam desamparadas e não durariam nem mais do que uma semana.

            Silenciosa e ao mesmo tempo veloz dá inicio as rotas de todas as madrugadas. Caminhos pré-determinados, gravados na memória. Um mapa mental garante um pouco de segurança, com rotas diferentes que, às vezes, ajudam a disfarçar seu caminho mais usual. Pode ser que encontre algo interessante também.

            A chuva da noite, pesada, permite ouvir passos à distância, antes mesmo de visualizar com o que ali pode se deparar. Passos sobre as poças são melhores identificáveis a distância e enriquece ruídos.

            Nilzinha, a ratinha de nossa história, como já sabido, tem cinco bocas para alimentar. Precisa defender sua casa e filhos como pode. Agora, sozinha, sai, deixando sua prole por longo tempo sem proteção. Tem sempre um nó na garganta esperando pelo pior ao retornar ao lar. Seu coração sempre dispara ao reencontrar seus rebentos sãos e salvos, famintos, a sua espera. É muita alegria para se descrever com palavras.

            Nilzinha teve muitos companheiros de pouca ajuda. Tem o mal de sempre escolher os que não prestam. Desaparecem. Somem. Deixando-a sozinha na criação dos filhotes, como costuma dizer. Igual sua avó. Igual a sua mãe. Alguns desses desajustados permanecem rondando sua moradia, se assim podemos chamar, esperam a oportunidade de fazer mal a ela e seus filhotes. Até agora conseguiu defende-los do pior.

            Como já esclarecido anteriormente, no frio e escuro da madrugada inicia a luta. Toma o rumo mais silencioso. Quer alcançar a parada de ônibus. No caminho há uma panificadora. Mantém-se pelas sombras, rasteira. A todo instante, para, cheira o ar, ouve. Há frete a panificadora, cheiro de pão assando, assanha sua vontade de parar e conseguir um desjejum para iniciar a labuta que promete. Ali, porém, além de predadores as espreitas encontram-se ainda os brigões e engraçadinhos do pedaço. Desiste e segue.

            O ponto de ônibus aguça os sentidos de Nilzinha, a ratinha principal de nossa história. Muito lixo e restos transbordam pela lixeira. O visual não é lá dos melhores também. O local tem outros ratos em busca de ganha pão de todos os dias. Seguem todos em todas as direções. Nilzinha chega ao lugar que tem lutado para por pão na mesa. É uma luta. Uma parede parece impedi-la de acessar o que há além desse trabalho árduo e constante, parece, sim, que nunca irá acabar.

            Por horas mantém os mesmos movimentos e constantes esforços. Ritmo frenético divide seus sentidos no mecânico trabalho e na presença ou ameaça constante de outros ratos. Chega o momento do retorno. Precisa se alimentar e encontrar com seus filhotes. Devem estar famintos. A maratona de volta carrega junto o cansaço do dia pesado de trabalho. Atenção nos cruzamentos onde o perigo persegue a existência nas cidades. Pelo caminho a fome rouba a sua atenção. Cheiro bom preenche o ar. Estranho são os ratos mortos pelo caminho. Cheira seus lábios e sente o mesmo odor que roubou sua cautela. Segue sem mexer em nada.

            No caminho há uma feira. Essa tem fim com a aproximação do fim do dia. Ali, contudo, tem grande quantidade de alimentos. Sua rota é desenhada encostada ao muro. Encontra legumes. Frutas. Lixo. Para quem tem menos do que nada é luxo. Garantia de energia para o corre-corre desesperado do próximo dia.

            Seus olhos e instintos perscrutam o ar. Tem cheiro, tem sons. Outros ratos, cães e gatos. Ameaça. O que Nilzinha não tem é escolha. Mas, sim, tem astúcia, tem paciência, instinto de seguir no momento certo, e sente que é agora. Corre, apertada contra o muro. Encolhida. Tenta não chamar a atenção. Come o que pode. Agora pode voltar ao ninho. Outros ratos chegam e tem inicio uma briga. Nilzinha deixa tudo para trás. Agora se concentra nos filhotes. Atravessa avenidas, alamedas, entra por bueiros perigosos. Chega à parada de ônibus. Tarde da noite. Em suas narinas chegam o cheiro de gatunos. O perigo ronda sua vida e a de seus filhotes. Precisa esperar a oportunidade certa. Encolhe-se em um canto escuro. Horas se passam até que, cansados, os gatunos se dispersam. Vão.

Nilzinha retorna ao lar na companhia de outras mães que moram próximas a ela. Chega aliviada ao ver sua ninhada festejar de alegria seu retorno em segurança. Famintos, derrubam-na a procura de suas mamas. Sugam o que Nilzinha lutou o dia todo para conquistar. Amanhã tudo se repetirá. Sempre?

 

PRIMAVERA/DEZ/2020.

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...