quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

 

 

A PORTA DE SAÍDA.

    Achavam-se as três mulheres tensas num profundo silêncio dentro daquela casa, apesar do momento ser decisivo para o destino das três presentes. Sentadas em poltronas diferentes, duas jovens, Giovana e Diana. Encostada à parede ao lado de uma grande janela a outra mulher, Mariza. Essa fumava deliciosamente um cigarro apreciando o espetáculo exibido pelas tardes da Babitonga. Giovana apoiava o rosto entre as mãos olhando preocupada à amiga Diana. 

    O vento sul soprava forte induzindo as cortinas a dançarem sala adentro. A luz da tarde penetrava e emoldurava o ambiente. As nuvens, cinza arroxeada, as quais surgiam no horizonte do mar, anunciava a umidade que vinha chegando. Do outro lado da baía, separada pelo espelho reflexivo das águas ondulantes, as montanhas verdes dominam o cenário cobertas por nuvens em seus picos. Nuvens pequenas e de baixas altitudes costumam ser capturadas por essas elevações à tarde, já que o vento que sopra é uma constante do mar.

    Mariza recostada à janela fuma incessantemente desde que chegou. Expele a fumaça pelas narinas tentando dissimular seu estado nervoso. Todavia, encobre muito mal o rancor que sente. Olha a calmante beleza da baía aberta a suas emoções. Brilho e sol. Diana recostada ao sofá mantém a cabeça baixa, inconsolável, distante, pensamentos indecifráveis escapam com o vento que sopra. Giovana para consolar a amiga acaricia a cabeleira negra e cacheada da moça. Para não parecer uma megera, Mariza tenta expor as jovens a gravidade da situação.

- Diana, é preciso entender a situação em que nós estamos.

         Não esboçando reação alguma a menina permanece como antes, olhando aparentemente para o nada quando volta a fungar o nariz, esse vermelho na ponta, e olhos inchados.

- Já pagaram a encomenda e não tem volta. Três encomendas. Três! - Exclama a mulher recostada a parede.

         Diana limpava e fungava o nariz, mas nada dizia.

- Quer uma água com açúcar, Di? Pergunta Giovana preocupada com a amiga.

- Quero... – responde entre soluços Diana.

         Giovana se dirige a cozinha. Depois de alguns instantes, Mariza a segue.

- Giovana. Não dê forças a ela. Vocês duas sabem que é um problema o que aconteceu por aqui – avisa – vocês querem morrer?

         Nada responde a moça enquanto prepara a água com açúcar que prometeu a companheira.

- Está me ouvindo, menina? – Insiste Mariza agarrando o braço de Giovana. Sua voz tem o tom de ameaças. – Está me ouvindo? Isso não é brincadeira não. No final até eu vou ter sérios problemas com a irresponsabilidade das duas.

- Eu sei! – Exclama Giovana, encarando a mulher que segurava seu braço, o que puxou com força se soltando das mãos de Mariza. Preocupada olha para a porta que dá à sala. Volta a procurar pelo açúcar nos armários.

- Vou tentar convencê-la, então vai com calma – disse Giovana.

- Calma! Calma! – Repete indignada com a situação Mariza - A coisa está feia pra nós e você sabe muito bem disso, vocês sabem muito bem disso – pronuncia com intensidade “vocês”.

- Mariza? Dá um tempo dá? Olhe como está a coitada.

- Fala isso para o Jean-Pierre! – Exclama com ardor.

         Voltam à sala. Giovana serve a amiga – tome Di – à voz tem ternura e carinho.

- Brigada – responde num murmúrio Diana.

- Di – recomenda Giovana – não dá para desistir agora. Já até pagaram pela “encomenda”.

- Diana – quando fala, Mariza tem na voz um tom de reconciliação e paciência na tentativa de convencer a moça. – são somente esses três viu? Depois vocês se arrumam com o Jean – Pierre.

         Diana seca o nariz que escorre com os dedos, parece finalmente concordar com as duas que apelam, todavia, uma força repele a reconciliação e volta aos prantos. As outras duas se olham, sem saber como convencer a moça da situação urgente em que se encontram Mariza bufa e deixa escapar dos lábios um “ai meu Deus do céu”, enquanto Giovana permanece em silêncio, a observar à amiga.

         Mariza mais uma vez, indisposta com a situação, retorna a janela volta a se deslumbrar com a obra de arte que se abre a sua frente e que a emociona. Aprecia a luz, admira o horizonte, o mar que balança ao vento, conseguindo sentir-se melhor. Giovana parece entender as duas, porém, nada diz.  A moça de pé pega o copo e o deixa na mesa ao lado da poltrona, senta próxima a Diana e a abraça, que deita em seu colo, Giovana faz uns mimos nos cabelos da amiga.

         O silêncio não domina a sala totalmente, pois o som exterior ocupa seu espaço que o defende, apoiado e impelido pelo vento invasor, sons como das pequenas ondas que batem contra o cais, das aves marinhas, cães que ladram ao longe, vozes indecifráveis das ruas de pedra, e o rugir de automóveis acompanham esse turbilhão de vida até as três mulheres desamparadas na sala, concentradas em outros problemas mais imediatos. Giovana murmura uma canção de ninar que aprendeu com a avó. Mariza desperta do transe contemplativo voltando sua atenção as duas moças sentadas na poltrona.

- Meninas – disse – nós estamos sendo cobradas. Eu vim da Europa e trouxe um recado bem sério.

- Diana – intervém Giovana – agora não tem volta. Não tem como sair desse negócio.

- Com vida! – Antecipa-se Mariza.

         Diana levanta do colo da amiga e explode com as duas.

- Vocês sabem o que é ser mãe? Não sabem! Não sabem!

- Calma Di.

- Fala baixo, guria!

- Que baixo o quê! 

- Não grite comigo se não eu ti arrebento! – Mariza retruca irritada.

         As duas se encaram - insiste Mariza com os avisos.

- Você sabia e foi avisada, prostitutas não se casam e não podem ter filhos. – grita Mariza – o mesmo vale para sequestradoras de crianças. Mas vocês saem abrindo as pernas pra qualquer homem que conhecem.

- A buceta é minha e dou pra quem quiser! Não tenho culpa se você é feia, seca e nenhum homem lhe quer! – Diana irritada responde aos gritos.

- A vagabunda! Vou quebrar seus dentes agora sua piranha! – Mariza parte pra cima da moça que a desafiou.

- Parem com isso suas idiotas! – Giovana interfere apaziguando o clamor que se acende.

- Eu não vou morrer por causa dessa piranha! – grita Mariza irritada até com Giovana.

- Diana, não dá para desistir assim – disse Giovana com tranquilidade.

- Giovana – torna Diana com impaciência na voz – antes eu não sentia a dor da perda de um filho, mas agora que serei mãe... nem sei o que dizer.

- Ah não Diana. Não vem com essa de peso na consciência agora.

- Só quem nunca foi mãe pode ser fria como você Mariza.

- Por isso nunca quis ser mãe. - Responde Mariza. – Olha você não vai desistir agora, viu? Tirei as duas da prostituição para ajudar vocês e agora me vem com essa?

- Você? – retruca Diana – foi o Sergião quem me botou nessa.

- É verdade Mariza. – Giovana intervém, desmentindo Mariza.

- Sergião respondia a mim aqui no Brasil. - Disse a mulher de pé com o dedo em riste apontando para as duas que insurgiram contra ela. Se soubesse – continua inflamada – com quem ele andava já teria “desligado” vocês três.

- E por que não faz agora sua puta? Faz agora. Hã? – Diana desafia Mariza abrindo os braços num ar de desafio – me mata logo e acaba com isso – as três congelam diante do desafio da desafeta, solidificando a sala onde se encontram. Sem vento, sem som, sem respiração. O tempo para.

- Não me desafie guria... – então Mariza ameaça entre os dentes – já “desliguei” muita gente por menos.

- Calma Di – disse a amiga segurando-a pelos braços. Depois fica entre as duas pedindo calma.

- Olha Giovana se eu fosse você também ficaria preocupada – Mariza dirige seus avisos à outra menina também – você escondeu isso da gente – aponta pra barriga de Diana – a gravidez dessa galinha e sabe muito bem que não é aceito isso na organização.

- Eu sei disso Mariza – responde Giovana – não é preciso me lembrar – torna a amiga com calma na voz cheia de meiguice como uma mãe faz com os filhos – aconteceu Diana, Tudo bem. Só que não é somente o seu que está na reta.

- Eu vou fugir – exclama Diana – eu e meu filho, pronto! Vocês não vão ter culpa disso, podem continuar se quiser, eu não faço mais, pronto!

- Você ta louca é? – Mariza não se contém mais – tu sabes o que o Claudio irá fazer quando retornar da Rússia?

- Eu vou fugir até do Claudio.

- Háh! – debocha Mariza da ingênua menina – pelo amor de Deus menina! Ele vai enlouquecer. O corno, porque agora é corno também – aponta pra barriga de Diana – esse filho não é dele moça, tem um ano e meio que está na Rússia e o coitado só fala em você, sabia? Anda dizendo que vem ti buscar e levar pra Rússia. O Jean- Pierre tentou convencê-lo a não ter relacionamentos dentro da organização, ainda mais com uma prostituta. E ele ouviu? Claro que não! Tu deves ter mel, só pode menina.

- Não vou mais, vou dizer para ele o que aconteceu. Vou pedir pra ele me perdoar, me esquecer, sei lá. Se ele me ama mesmo irá entender.

- Ôh sua louca! – Mariza interrompe fazendo gestos com o dedo indicador nas têmporas girando como se apertasse parafusos soltos. – se o Claudio souber, e vai ficar sabendo, aí ele vai matar você e se ele não o fizer, o Jean-Pierre acaba com todos nós, você, Claudio, Giovana, eu e quem se meter.

- O Claudio vai me entender. Vai ficar tudo bem. Eu o perdoei pela “paraguaia”, por aquela vagabunda da Suzete loirinha e ficou tudo bem entre nós.

- Se você não sabe querida ele dorme com muitas prostitutas mais bonitas que você.

- As prostitutas não têm amor. Ele é homem e não consegue ficar sem mulher. As prostitutas só servem pra gozar.

- Diana – entra na discussão Giovana – a coisa não é tão fácil assim como tu estás pensando.

- Giovana – disse calmo o nome da amiga – agora eu sei o que estou dizendo, antes não, mas agora estou segura de mim. Eu não sentia esse... esse... sei lá! Esse sentimento de ser mãe. Sabe? Olha! Só de pensar sinto um aperto na garganta. Arrepia-me todo o corpo. Só quem é mãe, e eu vou ser, consegue entender esse sentimento dentro de si. Essa relação com um filho, olha, são nove meses carregando isso dentro de mim. Agora consigo imaginar o que aquelas mães sentiram. É muito forte a dor só de pensar. Só de imaginar dói.

         O vento que assobia pela porta do banheiro indica a força de seu soprar, do lado de fora um imenso sombreiro plantado no quintal da casa dança com o vento e os raios da luz do sol que driblam as sombras alegram à tarde. Mariza assiste a esse espetáculo com o sentimento da infância perdida já há tempo. Além, meninos brincam mergulhando do trapiche, subindo as escadas e, mais uma vez, voam em acrobacias dignas de malabaristas de circo. Risos chegam aos ouvidos de Mariza. Nada disso tem na Europa. Gargalhadas dignas da felicidade dos trópicos. O sol parece tornar tudo mais belo, sua luz reflete o mar, exibido, disputando com as serras do fundo quem é o mais atraente. Aos olhos surgem pescadores em uma canoa que lançam com muita destreza suas tarrafas roubando assim a atenção dos olhos castanhos de Mariza. Realmente, isso só nos trópicos, pensa a mulher. A majestade misteriosa é a magia desse lugar.

Mariza devaneia com pensamentos contemplativos, nossa terra é a mais bela de todas que já conheceu. Mágica, luz, verde, mar e o povo. Em especial esse povo rude e despreocupado com contas bancárias. As crianças daqui são muito mais felizes. Tem sim, muitas vezes, remorso do que faz, todavia, é seu ganho, e desse ninguém sai vivo se desistir. Pensava, sim, até pouco tempo atrás que estava ajudando essas crianças a terem melhores condições de vida lá no Velho Mundo. Enganou-se. E engana-se ainda. É assim que se convence. De fome não morrerão, pois as famílias são abastadas para quem entregam as “encomendas”.

A cada instante o sol aproxima-se das montanhas emolduradas nos fundo da baia, enfeitando toda a beleza dos trópicos. Um sino de igreja badala trazendo lembranças de passado um esquecido tornando ainda mais singular à experiência vivida. Um sorriso cauteloso, espontâneo, sentimentos tocados, uma melancolia que não sabe por que a sente, mas sente.

Giovana entrega uma xícara de café, “passei agora”, disse, trazendo Mariza de seus pensamentos, respondendo enfim com um “obrigado” automático. O apito de um navio, distante, reforça o sentimento pitoresco do lugar. O café faz Mariza acordar da letargia dos trópicos, termina, enfim, de beber, emergindo do fundo de uma lembrança perdida, a morte de Otávia por envenenamento. Otávia era amante de Rangel, o próprio a envenenou quando ameaçou deixá-lo por outro. A esposa de Rangel ao descobrir sorveu do mesmo líquido, por vergonha e como castigo infligido ao marido, assim ele carregaria toda a culpa pelo resto da existência.

Esse caso impôs aos membros da organização uma norma de vida ou morte, precauções, tanto em relações amorosas entre os membros quanto ao risco de envenenamento por desafetos. Mariza, contudo, não acredita que as duas teriam a pachorra de cometer essa burrice. Ascendeu mais um cigarro, traga-o, e expele a fumaça pelo nariz. Rangel era primo dessa pervertida que está ali dando a maior dor de cabeça a ela.

- E o Rangel? – finge interesse Mariza na vida do rapaz.

- Depois que foi para os Estados Unidos – responde depois de alguns instantes Giovana, quieta que estava – não o vimos mais.

Giovana alcança um cigarro deixado na mesa e oferece a Diana, acenando com uma negativa, pergunta então se não tem um baseado, recebendo não como resposta.

- Tu estás grávida menina. Vais fumar ainda? – irrita-se Mariza.

O apito do navio outra vez adentra o cômodo unido ao cheiro acre de mangue despertando em Mariza suas lembranças e prioridades.

- Irei voltar a Europa semana que vem. Tenho umas meninas prontas para ir aos Estados Unidos. Essas moças vão ficar aqui alguns dias, escondidas, depois partem para o Uruguai, Argentina e Chile. Se quiser Giovana, pode ser você responsável por elas.

- Quanto é que vai rolar? – pergunta a moça com sua voz sedosa de menina.

- Dez mil – a resposta que recebe.

- Pode deixar comigo – encerra a negociata Giovana.

- São maiores de idade. Vão fazer filmes pornôs – disse Mariza – agora vamos combinar sobre as “encomendas” – olha firme para Diana, como se não tivesse outra escolha.

Essa nada diz deitada na poltrona, tem os olhos fechados e o nariz escorre, funga em meio a soluços. Resolvendo sentar penteia os cabelos com as mãos prendendo-os atrás das orelhas.

- Amanhã – disse Mariza – vamos acordar cedo e ir para Itajaí.

- Eu não vou Mariza - Disse Diana.

- Não vou mais discutir com você. Vai nem que seja na porrada!

Diana não responde, fecha a cara e abraça o travesseiro.

- Menina – repreende Mariza – você vai fazer o que eu disser.

- Não vou – responde Diana, afundada no sofá, determinada a não obedecer.

- Olha aqui vagabunda: vou tomar banho e se você continuar com essa cara emburrada e arrogante não me responsabilizo mais por você. Vou ligar para o Jean-Pierre e ele decide seu destino.

Diana insiste dando de ombros abraçada ao travesseiro demonstrando pouco caso para as ameaças de Mariza. Essa sai afinal da janela, entra na cozinha. Escutando da sala, Diana e Giovana, silenciam trocando olhares. Percebem o abrir e fechar da geladeira, seguido do pegar de um copo batendo a porta do armário fechando-o em seguida.

- Posso beber um pouco desse chá? – Mariza pergunta as duas na sala.

- Pode – responde Giovana - Sabia que viria e comprei pra você.

Em segundos um copo cai se estilhaça pela cozinha, um engasgo horrível e angustiante escapa da garganta de Mariza, seguido de um abafado som de um corpo caindo ao chão. Continuam os engasgos desesperados, grunhidos. As duas moças tensas trocam olhares, por segundos, esses instantes mais parecem uma eternidade. Giovana se atreve a chamar por Mariza na cozinha.

- Mariza? Mariza?

Olhos nos olhos. Sem piscar. As duas levantam-se da poltrona no mesmo instante correndo para a cozinha. Então, Giovana vai ao quarto, enquanto Diana entra na cozinha. Sem perder nem um minuto, Giovana retorna com duas mochilas e uma mala arrastada de rodinhas, Diana verifica uma carteira trazida da cozinha encontrando dólares, euros e Reais. Retiram da bagagem de Mariza documentos e passaportes. Fechando as janelas e cortinas trancam a porta e num atropelar de pés deixam para trás o insistente apito de um navio e o sol que segue seu rumo, cada vez mais próximo das distantes montanhas nos fundos da Baia da Babitonga.

 

 

FIM.

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UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...