Chegou
o momento de sair de casa. A ratinha Nilzinha cheira o ar encontrando rastros
de comida ou perigo. Cautelosa aguarda. Após instantes precavidos resolve que é
o momento de sair. O caminho que faz é escuro e solitário. Porém, todo cuidado
é pouco. Ruas desertas podem tornar-se o fim num piscar de olhos. Isso
significaria que cinco bocas ficariam desamparadas e não durariam nem mais do
que uma semana.
Silenciosa e ao mesmo tempo veloz dá
inicio as rotas de todas as madrugadas. Caminhos pré-determinados, gravados na
memória. Um mapa mental garante um pouco de segurança, com rotas diferentes
que, às vezes, ajudam a disfarçar seu caminho mais usual. Pode ser que encontre
algo interessante também.
A chuva da noite, pesada, permite
ouvir passos à distância, antes mesmo de visualizar com o que ali pode se deparar.
Passos sobre as poças são melhores identificáveis a distância e enriquece
ruídos.
Nilzinha, a ratinha de nossa
história, como já sabido, tem cinco bocas para alimentar. Precisa defender sua
casa e filhos como pode. Agora, sozinha, sai, deixando sua prole por longo
tempo sem proteção. Tem sempre um nó na garganta esperando pelo pior ao
retornar ao lar. Seu coração sempre dispara ao reencontrar seus rebentos sãos e
salvos, famintos, a sua espera. É muita alegria para se descrever com palavras.
Nilzinha teve muitos companheiros de
pouca ajuda. Tem o mal de sempre escolher os que não prestam. Desaparecem.
Somem. Deixando-a sozinha na criação dos filhotes, como costuma dizer. Igual
sua avó. Igual a sua mãe. Alguns desses desajustados permanecem rondando sua
moradia, se assim podemos chamar, esperam a oportunidade de fazer mal a ela e
seus filhotes. Até agora conseguiu defende-los do pior.
Como já esclarecido anteriormente,
no frio e escuro da madrugada inicia a luta. Toma o rumo mais silencioso. Quer
alcançar a parada de ônibus. No caminho há uma panificadora. Mantém-se pelas
sombras, rasteira. A todo instante, para, cheira o ar, ouve. Há frete a
panificadora, cheiro de pão assando, assanha sua vontade de parar e conseguir
um desjejum para iniciar a labuta que promete. Ali, porém, além de predadores
as espreitas encontram-se ainda os brigões e engraçadinhos do pedaço. Desiste e
segue.
O ponto de ônibus aguça os sentidos
de Nilzinha, a ratinha principal de nossa história. Muito lixo e restos
transbordam pela lixeira. O visual não é lá dos melhores também. O local tem
outros ratos em busca de ganha pão de todos os dias. Seguem todos em todas as
direções. Nilzinha chega ao lugar que tem lutado para por pão na mesa. É uma
luta. Uma parede parece impedi-la de acessar o que há além desse trabalho árduo
e constante, parece, sim, que nunca irá acabar.
Por horas mantém os mesmos
movimentos e constantes esforços. Ritmo frenético divide seus sentidos no
mecânico trabalho e na presença ou ameaça constante de outros ratos. Chega o
momento do retorno. Precisa se alimentar e encontrar com seus filhotes. Devem
estar famintos. A maratona de volta carrega junto o cansaço do dia pesado de
trabalho. Atenção nos cruzamentos onde o perigo persegue a existência nas
cidades. Pelo caminho a fome rouba a sua atenção. Cheiro bom preenche o ar.
Estranho são os ratos mortos pelo caminho. Cheira seus lábios e sente o mesmo
odor que roubou sua cautela. Segue sem mexer em nada.
No caminho há uma feira. Essa tem
fim com a aproximação do fim do dia. Ali, contudo, tem grande quantidade de
alimentos. Sua rota é desenhada encostada ao muro. Encontra legumes. Frutas.
Lixo. Para quem tem menos do que nada é luxo. Garantia de energia para o
corre-corre desesperado do próximo dia.
Seus olhos e instintos perscrutam o
ar. Tem cheiro, tem sons. Outros ratos, cães e gatos. Ameaça. O que Nilzinha
não tem é escolha. Mas, sim, tem astúcia, tem paciência, instinto de seguir no
momento certo, e sente que é agora. Corre, apertada contra o muro. Encolhida.
Tenta não chamar a atenção. Come o que pode. Agora pode voltar ao ninho. Outros
ratos chegam e tem inicio uma briga. Nilzinha deixa tudo para trás. Agora se
concentra nos filhotes. Atravessa avenidas, alamedas, entra por bueiros
perigosos. Chega à parada de ônibus. Tarde da noite. Em suas narinas chegam o
cheiro de gatunos. O perigo ronda sua vida e a de seus filhotes. Precisa
esperar a oportunidade certa. Encolhe-se em um canto escuro. Horas se passam
até que, cansados, os gatunos se dispersam. Vão.
Nilzinha
retorna ao lar na companhia de outras mães que moram próximas a ela. Chega
aliviada ao ver sua ninhada festejar de alegria seu retorno em segurança.
Famintos, derrubam-na a procura de suas mamas. Sugam o que Nilzinha lutou o dia
todo para conquistar. Amanhã tudo se repetirá. Sempre?
PRIMAVERA/DEZ/2020.
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