quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

VIDA DE RATINHA.

 

 

Chegou o momento de sair de casa. A ratinha Nilzinha cheira o ar encontrando rastros de comida ou perigo. Cautelosa aguarda. Após instantes precavidos resolve que é o momento de sair. O caminho que faz é escuro e solitário. Porém, todo cuidado é pouco. Ruas desertas podem tornar-se o fim num piscar de olhos. Isso significaria que cinco bocas ficariam desamparadas e não durariam nem mais do que uma semana.

            Silenciosa e ao mesmo tempo veloz dá inicio as rotas de todas as madrugadas. Caminhos pré-determinados, gravados na memória. Um mapa mental garante um pouco de segurança, com rotas diferentes que, às vezes, ajudam a disfarçar seu caminho mais usual. Pode ser que encontre algo interessante também.

            A chuva da noite, pesada, permite ouvir passos à distância, antes mesmo de visualizar com o que ali pode se deparar. Passos sobre as poças são melhores identificáveis a distância e enriquece ruídos.

            Nilzinha, a ratinha de nossa história, como já sabido, tem cinco bocas para alimentar. Precisa defender sua casa e filhos como pode. Agora, sozinha, sai, deixando sua prole por longo tempo sem proteção. Tem sempre um nó na garganta esperando pelo pior ao retornar ao lar. Seu coração sempre dispara ao reencontrar seus rebentos sãos e salvos, famintos, a sua espera. É muita alegria para se descrever com palavras.

            Nilzinha teve muitos companheiros de pouca ajuda. Tem o mal de sempre escolher os que não prestam. Desaparecem. Somem. Deixando-a sozinha na criação dos filhotes, como costuma dizer. Igual sua avó. Igual a sua mãe. Alguns desses desajustados permanecem rondando sua moradia, se assim podemos chamar, esperam a oportunidade de fazer mal a ela e seus filhotes. Até agora conseguiu defende-los do pior.

            Como já esclarecido anteriormente, no frio e escuro da madrugada inicia a luta. Toma o rumo mais silencioso. Quer alcançar a parada de ônibus. No caminho há uma panificadora. Mantém-se pelas sombras, rasteira. A todo instante, para, cheira o ar, ouve. Há frete a panificadora, cheiro de pão assando, assanha sua vontade de parar e conseguir um desjejum para iniciar a labuta que promete. Ali, porém, além de predadores as espreitas encontram-se ainda os brigões e engraçadinhos do pedaço. Desiste e segue.

            O ponto de ônibus aguça os sentidos de Nilzinha, a ratinha principal de nossa história. Muito lixo e restos transbordam pela lixeira. O visual não é lá dos melhores também. O local tem outros ratos em busca de ganha pão de todos os dias. Seguem todos em todas as direções. Nilzinha chega ao lugar que tem lutado para por pão na mesa. É uma luta. Uma parede parece impedi-la de acessar o que há além desse trabalho árduo e constante, parece, sim, que nunca irá acabar.

            Por horas mantém os mesmos movimentos e constantes esforços. Ritmo frenético divide seus sentidos no mecânico trabalho e na presença ou ameaça constante de outros ratos. Chega o momento do retorno. Precisa se alimentar e encontrar com seus filhotes. Devem estar famintos. A maratona de volta carrega junto o cansaço do dia pesado de trabalho. Atenção nos cruzamentos onde o perigo persegue a existência nas cidades. Pelo caminho a fome rouba a sua atenção. Cheiro bom preenche o ar. Estranho são os ratos mortos pelo caminho. Cheira seus lábios e sente o mesmo odor que roubou sua cautela. Segue sem mexer em nada.

            No caminho há uma feira. Essa tem fim com a aproximação do fim do dia. Ali, contudo, tem grande quantidade de alimentos. Sua rota é desenhada encostada ao muro. Encontra legumes. Frutas. Lixo. Para quem tem menos do que nada é luxo. Garantia de energia para o corre-corre desesperado do próximo dia.

            Seus olhos e instintos perscrutam o ar. Tem cheiro, tem sons. Outros ratos, cães e gatos. Ameaça. O que Nilzinha não tem é escolha. Mas, sim, tem astúcia, tem paciência, instinto de seguir no momento certo, e sente que é agora. Corre, apertada contra o muro. Encolhida. Tenta não chamar a atenção. Come o que pode. Agora pode voltar ao ninho. Outros ratos chegam e tem inicio uma briga. Nilzinha deixa tudo para trás. Agora se concentra nos filhotes. Atravessa avenidas, alamedas, entra por bueiros perigosos. Chega à parada de ônibus. Tarde da noite. Em suas narinas chegam o cheiro de gatunos. O perigo ronda sua vida e a de seus filhotes. Precisa esperar a oportunidade certa. Encolhe-se em um canto escuro. Horas se passam até que, cansados, os gatunos se dispersam. Vão.

Nilzinha retorna ao lar na companhia de outras mães que moram próximas a ela. Chega aliviada ao ver sua ninhada festejar de alegria seu retorno em segurança. Famintos, derrubam-na a procura de suas mamas. Sugam o que Nilzinha lutou o dia todo para conquistar. Amanhã tudo se repetirá. Sempre?

 

PRIMAVERA/DEZ/2020.

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