TIJOLO
“Que raiva de meu irmão Bruno”. A jovem levanta-se
da cama de seu quarto mais de duas vezes para desligar o vídeo game sem
conseguir. Larga-se indecisa no canto. Quando explode algo juvenil e
incontrolável que a faz deixar de lado as estratégias racionais pela qual tanto
se orgulha e dispara seu esguio corpo direto para a porta do quarto do
intragável irmão. Grita com um doce ressentimento, controlando-se como parte da
estratégia, agora que dominou a racionalidade outra vez, pedindo desculpas por
ter brigado com ele.
— Mano. Por favor. Desculpa aí vai! Abre aqui.
Nada.
“vou enviar uma mensagem pelo celular”.
“—
Olha aqui. Você não sabe o que é brincadeira? Desculpa. É que aprender a beijar
com um tijolo é muito engraçado. Você tem que admitir.”
Recebeu a mensagem. Anima-se a menina.
Não posso perder para aquelas galinhas da escola —
pensa Rafa a menina da história que aqui conto. Vai beijar seu pretendente e será esta tarde. Precisa beijar com experiência e domínio do assunto. Sabe de ouvido
próprio o que o povo da escola fala de quem não sabe beijar. Teve uma de suas
ideias doidas na noite passada. E pretende por seu astuto plano em movimento.
— Respondeu. Idiota gravou um áudio. Sussurra.
“ —
Por que não vai beijar um tijolo?”
— Tu és um filho da puta sabia? Grita irritadíssima
do corredor para o quarto do irmão.
Outra mensagem:
“— Vou
contar pra mamãe que você xingou ela de puta”.
— Vai tomar no cú. Berra ainda mais alto como se
pretendesse derrubar a porta do quarto, paredes, muros de Jericó e Tróia de uma
só vez.
Minutos depois Rafa encontra-se dentro do quarto do
irmão com uma ideia meio louca, porém, guarda para si, por enquanto.
Bruno e ela aguardam inquieto abrir um tutorial
encontrado na internet sobre “como beijar de língua do modo certo”.
— Tá feio esse seu computador, hein Bruno? É capaz
de ter um neném seu ainda um dia desses. Troça do irmão.
— Quer sair do meu quarto?
— Você é tão sem graça. Não sabe o que é
brincadeira? Vai se fuder.
— Mãe — explode em um sonoro pedido de socorro — a
Rafa tá mandando eu me fuder.
— Cala a boca, ô, idiota.
— Feia.
Depois dessa a menina cai de bruços na cama do
irmão desmanchando-se entre soluços e devastadoras lágrimas contidas pelo
travesseiro com o qual abafa a choradeira.
De longe intervém a voz da mãe.
— Bruno. Não faz sua irmã chorar. Ela é delicada e
mulher. Aprenda a respeitar essa condição.
— Viu? Rafa levanta-se imediatamente desafiando o
irmão.
— Abriu! Gritou entusiasmado o menino.
Quarenta e cinco minutos depois encerra o vídeo. Concordam
que não ajudou mais do que os três tutoriais antes assistidos.
— Vai ter que conseguir um tijolo pra beijar. Cutuca
o mano.
— Tive uma ideia.
— Ih. Lá vem! Sabe que vai ter que arrumar meu
quarto por três semanas? Foi o combinado. Pode começar agora.
— segunda-feira eu começo.
— Vai me enrolar. Já vi tudo.
— Escuta minha ideia Bruno.
— Mãe. A Rafa prometeu que ia limpar meu quarto se
eu a ajudasse a aprender a beijar de língua para beijar os guris da escola.
O silêncio enche
o quarto e a casa.
— Ela já foi trabalhar seu escroto. Posso quebrar
sua cara se eu quiser — a menina é faixa azul de Karatê — deita na cama e tapa
os olhos com a camiseta — ordena ao irmão.
Obedece. Sabe
que o caldo engrossa quando a irmã altera o tom de voz dessa forma. Deita dócil
como um cãozinho, e cobre os olhos com uma camisa que puxaram do guarda roupa.
— O que vai fazer? — embebido de medo protesta.
— Vou treinar em você — responde doce, baixinho,
alterando o tom de voz.
— O que? — assustado Bruno levanta o
tronco para sentar.
— Deita. — as palavras saem dos lábios quase
cerrados de Rafa como uma ordem.
O jovem não consegue reagir impedido pela pressão
que a irmã faz no empurrão que dá em seu peito.
O suor surge da raiz de seus cabelos e molha suas têmporas.
Tudo escuro. Espera a loucura planejada pela irmã.
— Relaxa — disse ela num sussurro calmante no qual
somente as mulheres dominam.
Quando sente
o calor dos lábios dela próximos ao seu pergunta o que está fazendo. Treme como
se estivessem cometendo algo errado as escondidas.
— Cruz Credo! — Grita horrorizada a irmã enquanto levanta-se
da cama. — Que bafo Bruno! Você tá podre seu nojento! Bafo podre! Vai escovar
os dentes seu porco. Ui! Parece que comeu um urubu morto. Comeu coco!
— Olha quem fala. Deixa o Bronco lamber sua boca sabendo que ele lambe a bunda de outros cachorros — Bronco é o cachorro da família.
A hora se aproxima. Não satisfeita, Rafa procurou a
amiga Gabriela, a qual, amigas mais do que se fossem irmãs, treinaram o beijo. As
línguas procuraram-se. Intensamente. Estranha experiência. Arrepios. Pode ser
que um dia busque essa sensação outras vezes. Agora vai atrás do primo Marko. Seu
melhor primo e melhor amigo.
Dormência nos dentes, no céu da boca, nas pernas,
nos braços e no corpo inteiro quando a língua de Marko desliza por vinte
minutos ao mesmo tempo em que caça sua úmida língua. Sente uma onda de choque
percorrer pela coluna. Algo aguilhoa seu cérebro. Algo molha. Os pés, os pelos,
os sexos, agitam-se. Os braços tocam-se e mãos... Excitação completa que
percorre toda à tarde. Esse tempo que passa pela janela e os observa, sem
interferir. Esquecido do lado de fora, o brilho do sol, o canto dos bem-te-vis,
o ronco de motores, a aula perdida.
“Marko tem
sabor de hortelã”.
OUTONO/JUN/2021.
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