UM CIGARRO.
Então seu Ataíde procura por um cigarro no bolso.
Parado, enquanto espera por uma oportunidade de cruzar a rua, movimentada,
relembra, infelizmente, as palavras do médico.
- Esse filho da puta quer é me tirar à última
alegria que tenho. Onde está a merda do isqueiro, murmura para si mesmo. Essa
agora.
Encontra, afinal, no bolso da camisa azul que
veste. Com o cigarro na boca ascende. O vento forte não o deixa atingir esse
ato tão importante, para ele, naquele momento, então, com as mãos, forma uma
espécie de concha impedindo que o vento apague o fogo. Vira-se de costas para a
aragem fria, e, só assim, consegue. “Deve ser praga daquele médico filho da
puta”, pensa, e em seguida puxa aquela tragada lá do fundo, a fumaça solta pelo
nariz, “agora sim”. Olha para lá, olha
para cá, e inicia a travessia, “que atrevimento daquele doutorzinho”.
Sobe no passeio público do outro lado da via e dá
uma nova tragada. Fundo. Sua cabeça alivia. Duas horas de espera no posto de
saúde e agora pode fumar seu cigarrinho, companheiro desde os doze anos. Com
sessenta e oito é que vai parar? Morrer todos irão um dia mesmo. Ninguém fica
pra semente.
Ultimamente sente que suas forças estão se
esvaindo. Não consegue levantar pesos como antes, sente muita falta de fôlego.
Qualquer caminhada ou subir de escadas o deixa no limite. O doutorzinho diz que
é da idade, mas, estaria melhor se eu parasse de fumar. Tudo bem. “Só que meu
cigarro eu não deixo. Menti pro médico filho de uma puta que ia largar o
cigarro.”
Claro que seu Ataíde não tinha a intenção de
cumprir a promessa que fez ao doutor. Esse vício, segundo ele mesmo, é sua
única alegria. Devagar vai caminhando curtindo o sol nesta tarde muito fria. Um
vento frio. As nuvens flutuam pelo céu azul do sul em velocidades gritantes
indicando que o frio continuará por esses dias. As maiores e cinzentas têm mais
dificuldade de locomoção pelo céu, entravam ocupando altitudes mais baixas
parecem mais fáceis de serem tocadas.
Não diz a ninguém que gosta desses dias de inverno,
com sol, com nuvens e com vento. Mesmo que em sua infância a casa de sua
família tenha sido destelhada por uma forte ventania, perdendo assim todos os
móveis. Isso marcou muito sua época de piá o fazendo sempre relembrar aqueles
momentos de medo quando saia para empinar uma pandorga. Entretanto, nunca
deixou de soltar uma pipa, “dia de vento, dia de pipa”.
Ao ver aquelas imensas nuvens cruzarem os céus
imaginava ser o Super-man voando
entre elas. Coisas de piá. Sonhava em poder voar, furando nuvens e
atravessando-as. Sim, mas tudo acabou. O sonho - quando a idade bateu em suas
costas e o mundo esmagou sua infância para sempre - acabou.
A realidade devorou tudo. Sente pena dos sobrinhos
que sonham em um dia serem jogadores de futebol, outro tem a esperança de ser
escritor, enquanto seu irmão almeja ser youtubber.
É um sonho. Somente um sonho. Quando a realidade bater em suas portas espera
que estejam preparados para a queda, pois ninguém estará lá para segurá-los.
Esses meninos não têm mais mãe, e só uma mãe é quem tem forças o bastante para
abraçá-los. Minha nora partiu antes da hora.
Tosse. Anda com um pigarro chato. Foi o que o levou
a procurar um médico, além do saco da mulher. “Eu disse pra Joana, mas essa
mulher é teimosa como uma mula”, pensa - “médico pra quê? Sessenta e oito anos
muito bem vividos”. E aquele cretino ainda pôs culpa no cigarro.
O frio atravessa o casaco. Joana tinha dito para
vestir um mais grosso. “Veste um de lã, homem teimoso”. Seu Ataíde gosta de
sentir o vento. Recusou o blusão. Até o doutorzinho o aconselhou a se agasalhar
melhor, “vai à merda”, pensou no consultório. Contudo, nunca dizemos, ou quase
nunca o que pensamos. Então disse ao “merdinha” do doutorzinho, sem uma gota de
sinceridade, que tomaria mais cuidado.
As ruas por onde caminhas estão quase desertas, a
não ser por ele mesmo, um menino ao longe pedalando em uma bicicleta, e uma
moça, também caminhando que chama muito a sua atenção. Moça bonita, de cochas
grossas que são desenhadas pela calça jeans
que veste. Do outro lado da rua, em cima das calçadas carros estacionados impedem
a passagem dos pedestres, forçando-os a descer à rua para continuar seu
trajeto, seja lá qual for. Seu Ataíde acha um absurdo essa situação, já que
também foi forçado a atravessar a avenida antes do sinaleiro e da faixa de
pedestres pelo ímpeto dos donos dos carros utilizarem as calçadas como suas
garagens.
Um cachorro o cerca no caminho, late, incomodado
com sua aproximação. Bate o pé esquerdo no chão com força enxotando o cão.
Todas as vezes que passa por li esse cão o estranha. Parece até perseguição!, o
que o faz lembrar de sua mulher e daquele doutorzinho mequetrefe com quem
acabou de consultar. “ora vejam só?” – disse para si mesmo, “minha única
alegria”. A bebida se livrou já tem anos. Alcoolismo por trinta e cinco anos, e
parou!, do cigarro a hora que quiser também dá um basta. Mas o cigarro não,
esse eles não tiram de mim.
Tosse.
Falta de ar e Tosse.
Tosse. Seca.
- Vou ascender outro cigarro, acho que é isso. Além
de tudo ajuda a pensar. Areja a cabeça.
Tinha somente três cigarros no maço que leva e
agora só um lhe resta. “Vou ter de comprar mais”. Esconde do vento o cigarro e
o isqueiro com o qual tenta ascender o fogo, fazendo uma concha com as mãos.
Consegue e traga com as forças do pulmão, segura e expele pelas narinas a
fumaça como um vulcão. Chegando próximo de casa interrompe a caminhada para
terminar o cigarro. Não quer que Joana veja. Ela também já fumou muito. Depois
de anos abandonou “o diabo do vício”, como gosta de dizer. Diz que sente o
cheiro longe, e começa com toda aquela ladainha. Ao lembrar-se da mulher,
Joana, lembra-se também de Carol. Uma amiguinha. Ele a visita, de vez em
quando. Já que Joana não lhe dá mais chance faz visitas periódicas à moça
Carol. Descobriu ela nos classificados. Compra muitos presentes pra menina e ela
não faz muitas perguntas. O melhor, é que gosta de fumar com ele também. Até
maconha já o ofereceu, ele provou, mas não aprovou. Não sabe por que fez
aquilo. Dá de ombros.
- Preciso lhe fazer uma visitinha qualquer hora
dessas, murmura.
Então, com o cigarro no fim, pode ir para casa.
Joga no chão a bituca, ainda em brasa, e pisa em cima, esmagando com um
movimento do pé. Volta-se ao portão e vê, quando passa um carro em velocidade
lançando de dentro uma latinha de cerveja no meio da rua, o que o irrita demais.
- “esses jovens porcos de hoje”, disse, “depois não
sabem o porquê das enchentes”.
Joana aparece na janela, procurando ver quem vem
entrando. “47 anos assim”, pensa seu Ataíde, “e como era bonita essa mulher
quando nos casamos”, dá uma pausa para fechar o portão, “até mais do que a
Carol”.
Tosse. Muito, seca e doida.
Tosse.
“De novo essa maldita tosse.”
FIM.
Nenhum comentário:
Postar um comentário