quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

 

UM CIGARRO.

 

Então seu Ataíde procura por um cigarro no bolso. Parado, enquanto espera por uma oportunidade de cruzar a rua, movimentada, relembra, infelizmente, as palavras do médico.

- Esse filho da puta quer é me tirar à última alegria que tenho. Onde está a merda do isqueiro, murmura para si mesmo. Essa agora.

Encontra, afinal, no bolso da camisa azul que veste. Com o cigarro na boca ascende. O vento forte não o deixa atingir esse ato tão importante, para ele, naquele momento, então, com as mãos, forma uma espécie de concha impedindo que o vento apague o fogo. Vira-se de costas para a aragem fria, e, só assim, consegue. “Deve ser praga daquele médico filho da puta”, pensa, e em seguida puxa aquela tragada lá do fundo, a fumaça solta pelo nariz, “agora sim”.  Olha para lá, olha para cá, e inicia a travessia, “que atrevimento daquele doutorzinho”.

Sobe no passeio público do outro lado da via e dá uma nova tragada. Fundo. Sua cabeça alivia. Duas horas de espera no posto de saúde e agora pode fumar seu cigarrinho, companheiro desde os doze anos. Com sessenta e oito é que vai parar? Morrer todos irão um dia mesmo. Ninguém fica pra semente.

Ultimamente sente que suas forças estão se esvaindo. Não consegue levantar pesos como antes, sente muita falta de fôlego. Qualquer caminhada ou subir de escadas o deixa no limite. O doutorzinho diz que é da idade, mas, estaria melhor se eu parasse de fumar. Tudo bem. “Só que meu cigarro eu não deixo. Menti pro médico filho de uma puta que ia largar o cigarro.”

Claro que seu Ataíde não tinha a intenção de cumprir a promessa que fez ao doutor. Esse vício, segundo ele mesmo, é sua única alegria. Devagar vai caminhando curtindo o sol nesta tarde muito fria. Um vento frio. As nuvens flutuam pelo céu azul do sul em velocidades gritantes indicando que o frio continuará por esses dias. As maiores e cinzentas têm mais dificuldade de locomoção pelo céu, entravam ocupando altitudes mais baixas parecem mais fáceis de serem tocadas.

Não diz a ninguém que gosta desses dias de inverno, com sol, com nuvens e com vento. Mesmo que em sua infância a casa de sua família tenha sido destelhada por uma forte ventania, perdendo assim todos os móveis. Isso marcou muito sua época de piá o fazendo sempre relembrar aqueles momentos de medo quando saia para empinar uma pandorga. Entretanto, nunca deixou de soltar uma pipa, “dia de vento, dia de pipa”.

Ao ver aquelas imensas nuvens cruzarem os céus imaginava ser o Super-man voando entre elas. Coisas de piá. Sonhava em poder voar, furando nuvens e atravessando-as. Sim, mas tudo acabou. O sonho - quando a idade bateu em suas costas e o mundo esmagou sua infância para sempre - acabou.

A realidade devorou tudo. Sente pena dos sobrinhos que sonham em um dia serem jogadores de futebol, outro tem a esperança de ser escritor, enquanto seu irmão almeja ser youtubber. É um sonho. Somente um sonho. Quando a realidade bater em suas portas espera que estejam preparados para a queda, pois ninguém estará lá para segurá-los. Esses meninos não têm mais mãe, e só uma mãe é quem tem forças o bastante para abraçá-los. Minha nora partiu antes da hora.

Tosse. Anda com um pigarro chato. Foi o que o levou a procurar um médico, além do saco da mulher. “Eu disse pra Joana, mas essa mulher é teimosa como uma mula”, pensa - “médico pra quê? Sessenta e oito anos muito bem vividos”. E aquele cretino ainda pôs culpa no cigarro.

O frio atravessa o casaco. Joana tinha dito para vestir um mais grosso. “Veste um de lã, homem teimoso”. Seu Ataíde gosta de sentir o vento. Recusou o blusão. Até o doutorzinho o aconselhou a se agasalhar melhor, “vai à merda”, pensou no consultório. Contudo, nunca dizemos, ou quase nunca o que pensamos. Então disse ao “merdinha” do doutorzinho, sem uma gota de sinceridade, que tomaria mais cuidado.

As ruas por onde caminhas estão quase desertas, a não ser por ele mesmo, um menino ao longe pedalando em uma bicicleta, e uma moça, também caminhando que chama muito a sua atenção. Moça bonita, de cochas grossas que são desenhadas pela calça jeans que veste. Do outro lado da rua, em cima das calçadas carros estacionados impedem a passagem dos pedestres, forçando-os a descer à rua para continuar seu trajeto, seja lá qual for. Seu Ataíde acha um absurdo essa situação, já que também foi forçado a atravessar a avenida antes do sinaleiro e da faixa de pedestres pelo ímpeto dos donos dos carros utilizarem as calçadas como suas garagens.

Um cachorro o cerca no caminho, late, incomodado com sua aproximação. Bate o pé esquerdo no chão com força enxotando o cão. Todas as vezes que passa por li esse cão o estranha. Parece até perseguição!, o que o faz lembrar de sua mulher e daquele doutorzinho mequetrefe com quem acabou de consultar. “ora vejam só?” – disse para si mesmo, “minha única alegria”. A bebida se livrou já tem anos. Alcoolismo por trinta e cinco anos, e parou!, do cigarro a hora que quiser também dá um basta. Mas o cigarro não, esse eles não tiram de mim.

Tosse.

Falta de ar e Tosse.

Tosse. Seca.

- Vou ascender outro cigarro, acho que é isso. Além de tudo ajuda a pensar. Areja a cabeça.

Tinha somente três cigarros no maço que leva e agora só um lhe resta. “Vou ter de comprar mais”. Esconde do vento o cigarro e o isqueiro com o qual tenta ascender o fogo, fazendo uma concha com as mãos. Consegue e traga com as forças do pulmão, segura e expele pelas narinas a fumaça como um vulcão. Chegando próximo de casa interrompe a caminhada para terminar o cigarro. Não quer que Joana veja. Ela também já fumou muito. Depois de anos abandonou “o diabo do vício”, como gosta de dizer. Diz que sente o cheiro longe, e começa com toda aquela ladainha. Ao lembrar-se da mulher, Joana, lembra-se também de Carol. Uma amiguinha. Ele a visita, de vez em quando. Já que Joana não lhe dá mais chance faz visitas periódicas à moça Carol. Descobriu ela nos classificados. Compra muitos presentes pra menina e ela não faz muitas perguntas. O melhor, é que gosta de fumar com ele também. Até maconha já o ofereceu, ele provou, mas não aprovou. Não sabe por que fez aquilo. Dá de ombros.

- Preciso lhe fazer uma visitinha qualquer hora dessas, murmura.

Então, com o cigarro no fim, pode ir para casa. Joga no chão a bituca, ainda em brasa, e pisa em cima, esmagando com um movimento do pé. Volta-se ao portão e vê, quando passa um carro em velocidade lançando de dentro uma latinha de cerveja no meio da rua, o que o irrita demais.

- “esses jovens porcos de hoje”, disse, “depois não sabem o porquê das enchentes”.

Joana aparece na janela, procurando ver quem vem entrando. “47 anos assim”, pensa seu Ataíde, “e como era bonita essa mulher quando nos casamos”, dá uma pausa para fechar o portão, “até mais do que a Carol”.

Tosse. Muito, seca e doida.

Tosse.

“De novo essa maldita tosse.”

 

                                     

 

FIM.

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