Amarrando a um fio de algodão, o menino desce por entre as frestas do convés do navio um pedaço de laranja. Ao habituar a visão
na insalubre escuridão abaixo, distingue, entre sombras, lamúrias e olhos assustados a
massa de gente aterrorizada. O que sobe é um ar pútrido de nauseante horror.
Por instantes percebe um brilho de esperança e agradecimento nos miúdos olhos
infantis que o encontram. O prisioneiro devora a fruta alçada até seus lábios.
Cuidando para não ser visto, o miúdo de cima deixa um sorriso de presente pela
pequena abertura entre as tábuas do convés.
Há quinze dias
deixaram os Açores com destino a colônia portuguesa no Novo Mundo. Vinte e
cinco dias desde o embarque dos Angolas. Quintino identificou-se com um menino
angola desde que sua curiosidade o levou a olhar entre os vãos do convés. Quer
brincar com outros meninos. Órfão, acompanha dois padres jesuítas aos domínios ultramarinos do Reino. Apesar da pouca idade, o jovem conquistou experiência
circulando pelas Carreiras das Índias. Índia, Angola, Ceuta, Macau. E pela
primeira vez atravessa o Atlântico.
Sua fértil
imaginação flutua entre o que ouviu sobre essas férteis terras. Muito verde,
montanhas, pássaros que falam sendo infinitamente coloridos de nome Papagaios. Também dos perigosos nativos. Os mesmos andam nus, sem vergonha de suas vergonhas! Torna a pensar no menino
preso no obscuro convés. Insiste, o padre Afonso, ser deles mesmos a culpa pelos
pecados praticados, “esses pretos, não aceitam Jesus como o Salvador e a verdadeira
religião, a cristã”. O padre Juarez, por sua vez, defende o contrário. A culpa recai nos negreiros e por consequência nos europeus.
Cristo, como um libertador, com certeza lutaria contra essas condições de miséria
legada ao povo da antiga Líbia. Quintino não tem ainda maturidade para julgar
qual padre tem a razão.
Os padres sabem que
ele anda minimizando o calvário do cativo. “isso”, concordam os dois, “é um sinal
de humanidade e afeto no coração de Quintino”. O jovem leva ao amiguinho,
considera-o assim, alívio. O alívio parece claro, o cativo sorve o pano enxarcado de água como se estivesse perdido em
um deserto. O que trocam, as duas crianças, são olhares.
Sem precisão de palavras. Quintino queria brincar com o miúdo.
Os longos dias
passam arrastados pela força do vento. Uma tempestade surge na vigésima oitava
noite. O vento e o mar confabulam contra a tripulação levando as embarcações a um naufrágio. Escapam, não ilesos, ao surgir de um novo dia. A esquadra da Coroa que deixou os Açores
eram de oito navios ao anoitecer anterior, agora são cinco na nova aurora que surge. Uma missa é oferecida aos mortos.
Quintino reza, sem
saber para quê. Não entende por que sobreviveram enquanto os outros tripulantes
não. Quando tem a primeira chance de acudir ao amigo aprisionado no fundo do
convés leva, furtivo, um pedaço de laranja para ele. Procura, pelos vão das tábuas o pequeno prisioneiro. Sente então um calafrio que percorre seu minguado corpo ao não ver mais o miúdo que procura.
Volta à cabine onde
repousam os padres, logo, esses percebem o motivo de sua tristeza. Juarez afaga
a cabeleira do menino que chora sentado ao vão da porta.
- Só o que podemos
fazer pela sua alma, sugere o sacerdote, é rezar Quintino. Pedir a Deus que o
guarde.
- Mas eu nem sabia
o nome dele padre – diz Quintino entre tenros soluços.
FIM.