DE VOLTA A ESCOLA.
VOU ENTRANDO DE
SOLA.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
JORGE
NÃO RESPONDE.
-
Jorge! Sai desse banheiro agora!
Jorge
não responde. Continua sentado na privada com o rosto apoiado nas mãos.
-
Jorge sai dai agora! Sua irmã quer fazer xixi e precisa escovar os dentes para
ir para a aula!
Nada.
Jorge não responde. Sentado na privada lembra o que aprendeu em uma aula de
história sobre a privada. O professor disse que a frase vida privada, essa vida
particular das pessoas, vem das privadas dos banheiros, porque antigamente não
existiam banheiros dentro das casas e mesmo assim eram coletivos, depois da
revolução francesa é que começaram a construir banheiros privados e só os
moradores das casas que possuíam banheiros podiam usar. O banheiro se tornou
privado como a própria casa, os quartos, a cozinha. Às vezes fico pensando, os pensamentos de Jorge vão longe, será mesmo? Eu não acredito muito nisso. Nem acredito naquele
professor.
BUM
BUM BUM.
Sua
mente retorna a problemas mais imediatos. Leva um grande susto com os socos de
sua mãe na porta. BUM,BUM,BUM.
-
Jorge eu vou te matar! Sai dai agora guri! O que deu em você?
Mamãe
não mata ninguém – pensa Jorge – algumas chineladas sim, até dá, mas matar?
-
Jorge sai. Eu vou fazer xixi nas calças – mas Jorge não reponde. Sua irmã,
Brida é mais nova que Jorge, passa o dia inteiro em uma creche, a coitadinha tá apertada para ir no banheiro, ocupado por Jorge.
Mas
Jorge fica lá. Sem responder e sem se mexer. Por que será que o menino Jorge
resolveu se trancar no banheiro? Infelizmente para saber o motivo só quem tiver
tempo e paciência para ler até o final essa história.
-
ai.
- O
que foi Brida?
-
Não aguentei mamãe, desculpa. – a menina começa a chorar – fiz xixi.
- Eu
vou te matar Jorge! Olha o que tu fez? Sua irmã fez xixi nas calças. Sai logo
desse banheiro!
Jorge
não responde.
- Eu
vou lá no quarto e quando voltar quero você fora desse banheiro e pronto
para ir a escola. Vamos meu amor, vamos trocar de roupa rapidinho. Eu não
acredito nisso.
- Desculpe
mamãe, eu não consegui segurar.
- Tudo
bem meu amor. A culpa não é sua é de seu irmão – grita essa última parte – eu
vou te matar quando voltar Jorge. Vem trocar de roupa Brida, vem.
O
que faria um menino de doze anos de idade ficar nesta situação? Será somente
preguiça? Ou alguma coisa o está apavorando? Hoje ele acordou desse jeito.
Quase não levantou da cama esta manhã. Sua mãe precisou berrar várias vezes com
ele para levantar. Nunca aconteceu isso antes.
– e agora entrou nesse banheiro e não saiu mais – pensa a mãe de Jorge –
o que deu nesse menino hoje? – disse mais cedo sua mãe na hora de acordar o
filho.
Mas
Jorge continua lá. Sentado na privada com o queixo entre as mãos. Parece não
pensar em nada, só que não. Sua mente esta longe remoendo algo que o perturba,
algo que o incomoda. Justo ele que é um menino falador, até demais em alguns
momentos, tornando-se inconvenientemente chato. Se mete nas conversas dos
adultos, gosta de ficar até tarde da noite junto dos mais velhos sentindo-se
mais adulto que sua irmã, Brida. – mas é claro que eu sou mais adulto do que a Bri,
eu tenho doze anos ela só quatro, tudo bem que vai fazer cinco, semana que vem,
mas é cinco. Eu tenho 12, não sou mais criança – disse para a mãe um dia desses.
-
Ahhh! Tá bom - Diz sempre sua mãe quando ele a retruca e não quer obedecer as
suas ordens de ir dormir – para a cama, já! – sentenciava sua mãe.
Ficava
morrendo de raiva da mãe por tratá-lo como uma criança. O que Jorge não entende
é que todas as mães tratam seus filhos como eternos bebês. Sempre serão os
filhinhos da mamãe. Só que Jorge ainda não entende isso. Quem sabe um dia irá
entender, um dia quem sabe, mas, não hoje.
Jorge
ficou com muito ciúme quando soube que sua mãe estava grávida de Brida, dizia
que ia matar a irmã, percebeu que não seria mais o bebê da casa. Entretanto
quando Brida nasceu os dois se tornaram bons amigos e Jorge sempre protegeu e
cuidou da irmãzinha. Jorge nunca perguntou a mãe quem era o pai de Brida. Na
realidade ele ainda não pensou nisso, sabe que seu pai mora atualmente em
Brasília. Longe, muito longe. De vez em quando ele os visita. Só o que não
entende é que sua mãe sempre sai de casa quando seu pai vem. Será que brigaram?
– pensa, - uma hora dessas pergunto a mamãe – mas no fim sempre esquece.
Agora
pensa em Brida. Tem o cabelo da mamãe – para ele os olhos são de seu pai.
Apesar de seu pai nunca perguntar sobre sua irmã. Brida é muito inteligente. Já
sabe ler, escrever e está aprendendo a jogar xadrez com o vovô. Jorge não gosta
de xadrez. Prefere videogames, pois
acha muito melhor. Se mamãe deixasse jogaria a noite toda só que nessas horas
ela é muito chata, sempre com a história de ir dormir.
- Está
na hora de ir dormir – diz todas as vezes sua mãe.
Sempre
com esse papo de que criança tem de ir deitar cedo, amanhã tem aula. O que será
que ficam fazendo, ela e seus amigos adultos quando a gente vai dormir? Pensa. Sua mãe nunca diz. Papai
diz que ficam bebendo e fazendo coisas erradas de adultos, sempre bravo. – uma hora dessas pergunto a mamãe.
Entretanto sempre esquece. Por hora está com outras preocupações mais urgentes.
Não sabe o que fazer.
BUM,
BUM, BUM, BUM!
Que
susto.
-
Jorge! Quer sair agora dai! Não estou para brincadeiras, sai já desse maldito
banheiro! Que merda Jorge! – grita.
Ouve
os passos rápidos e pesados de sua mãe se afastando no corredor. Mamãe está
brava mesma. Porém, ele continua na mesma posição de antes, imóvel, imagina que
é um daqueles bonecos de cera que viu uma vez na televisão. Lembra-se que ficam
em um museu, em outro pais. Outro pensamento que invade sua mente é aquela
brincadeira de estátua. Jorge odeia essa brincadeira. Ele é falador demais para
ficar parado como uma estátua, por isso não gosta, sempre perde.
Só
que hoje seria um ótimo dia para Jorge brincar de estátua. Ele está paralisado
com um desânimo que nunca sentiu antes na vida. – que droga – pensa Jorge – vou
ter de sair uma hora daqui, queria mesmo era ficar para sempre, mas, aí não
poderia mais jogar videogame.
Como
seria a vida morando dentro de um banheiro? Sem nunca sair? Fica imaginando.
Empinar pipa, como os outros garotos ele não gosta mesmo. Videogame ainda dá
tem tomadas no banheiro. Ali pega o sinal de internet e para dormir é só ter uma colchonete. Mas e quando alguém
quiser usar o banheiro? Mamãe leva horas no banho. Já disse para ela que a água
potável está acabando, é o que dizem na escola, que é preciso economizar água, desligar o chuveiro, fechar as torneiras, utilizar a água da
maquina de lavar roupas para limpar o chão, mas mamãe nem responde. Ou pede
desculpas e sempre se esquece disso. Da próxima vez irá se lembrar.
BUM,
BUM, BUM, BUM!
-filho?
O que está acontecendo meu amor? Fala pra mamãe. Eu te amo, meu filho, não vou
bater em você, eu juro. Está tudo bem com você meu anjo? Fala alguma coisa, por
favor. Estou ficando preocupada com você.
Jorge
permanece da mesma forma que antes. Imóvel e em silêncio.
-
alguém quer bater em você na escola meu filho? São problemas com os amiguinhos?
Se precisar eu vou lá à escola resolver isso com você. Vamos conversar com a
diretora. Jorge? Jorge? Fala comigo filho, por favor.
-
mamãe – Brida chama lá da sala. Jorge escuta os passos de sua mãe afastando-se.
E a voz dela.
- o
que foi amorzinha? – Jorge escuta.
Jorge
lá parado, sentado e desanimado permanece por alguns instantes. Enfim toma uma
decisão, está na hora. Com atitude levanta da privada, levanta as calças que
estavam arriadas e dirige-se a porta, quando lembra que ainda não escovou os
dentes. Volta até a pia e pega a escova, o creme dental e escova. Lava a boca e
lava as mãos. Volta-se para a porta, respira fundo e então destranca a chave e
a abre.
-
Jorge! – sua mãe grita e vem correndo ver o filho. Abraça o menino com muita
força – meu bebezinho. O que houve com você? O que tá acontecendo meu amor? – a
mulher chora. Jorge odeia quando ela o chama de bebezinho. Indignado ele mantém
o silêncio e fica de cabeça abaixada.
-
Jorge, sua irmã já esta pronta para ir para a creche. Diz para mamãe filho, por
que isso? Por que se trancou no banheiro? – os dois se olham. A espera de uma
resposta sua mãe abre um sorriso e enxuga as lágrimas dos olhos. Tenta assim
acalmar Jorge. O menino está calmo, e afinal fala.
- Mãe...
Eu juro que estudei a semana toda para a prova de biologia, mas não consigo
lembrar nada. Vou tirar um zero.
- Ai,
Jorge! Meu filho! Meu amor!
A
mãe abraça o menino com muita força.
- Meu
amor.
FIM.
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