quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A praia que frequentávamos.


A PRAIA QUE FREQUENTÁVAMOS...
 Lá estava, enfim, sentada na areia da praia a qual frequentavam juntas, desde que se conheceram, e ali mesmo, naquelas areias, que agora sente roçar em seu corpo, como uma lixa, raspando a barreira que ela própria levantou, para atravancar lembranças de um passado indesejado. Levantar um muro de contenção para certas memórias desagradáveis, foi a alternativa. Parece que falhou. Isso a faz apertar, com muita força à prancha entre os braços e seios, quase esmagando-a, exprimindo assim, lágrimas contidas até ali, não derramadas nesse dia, mas constantes, quase diárias, em outros, que embaçam seus olhos intumescidos.  
A prancha, agora, é sua ancora. Tenta ser forte, não chorar, contudo, e, cada vez mais, a cada dia que passa, fica assustadoramente mais difícil. Seca as lágrimas que escorrem pelo rosto com as costas da mão, em seguida, com o antebraço seca o nariz, úmido, por onde escorre sua aflição. Tranca o choro dentro de um soluço que dói. Tenta em seguida controlar o ódio. Só que o ódio a domina. Fica quase impossível não ser afogada no turbulento ódio pela vida, pelo mundo, pelas pessoas a sua volta.
Ódio. Ódio.
Por que tanto ódio?
Ódio por que a saudade dói. Faz ferver o sangue. Essa ebulição de sentimentos a consome. Nunca mais foi a mesma desde aquela data. A Lei. A maldita Lei! Um pacote de maldades de restrições aos Direitos Humanos, direitos “imorais” diziam seus autores. defensores de uma conservadora ordem dos costumes. Um pacote de Leis chamado de “Lei dos bons costumes”. lei da Intolerância, como a apelidaram os ativistas. um verdadeiro pacote de maldades. Essa lei mudou sua vida. E de milhares de pessoas. Desde então nunca mais pode ser a mesma. Já, há muito, havia perdido o contato com a família. Seu pai nunca a perdoou por suas escolhas, não conseguia entender. Morreu assim. Sua mãe a trata com frieza, seu irmão gêmeo cuspiu em sua cara e a esbofeteou quando apresentou a pessoa com quem escolheu viver e a culpou por ter matado o próprio pai de desgosto. Doeu. Muito. Suas palavras doeram ainda mais que a mão: vagabunda. Foi assim que a chamou.
Seca, com o dorso da mão, as lágrimas que correm pelo rosto redondo de menina, cheio de pintas, que a deixa ainda mais charmosa. Inchados estão seus olhos. A prancha serve de ancora. O mar verde preenche um pequeno vazio do todo deixado pela companheira. Junto com essas torrentes de sentimentos também vem diluído um pedaço de lembranças. Carregada pela correnteza da memória e da angustia, são fortes demais para afogar. Não consegue dissolver no líquido fluido da memória, o amor ou a saudade. Inunda assim seu sangue, que ferve. Ficou quase dez anos sem tocar com os pés a areia da praia. O chamado das ondas foi irresistível. Sufocando-a. A dor é igual na cidade. Todas as noites juntos, lágrimas e soluços a estão destruindo. Remédios não resolveram. Quem sabe voltar ao mesmo lugar que frequentavam juntas... Dói, ainda mais sem seu amor. Dói demais. Mas, muitas vezes, é melhor, o passado enfrentar.
Nunca mais confiou em ninguém. É perigoso. Conversa com as pessoas do trabalho estritamente o necessário. Tenta mascarar com simpatia tratando bem a todos. Só que seu coração calcificou. Ninguém é confiável. Tem quase certeza de quem às entregou para a polícia moral foram suas vizinhas. A Lei dos bons costumes proibiu, quando em vigor, qualquer convivência entre pessoas do mesmo sexo, entre mães solteiras, com filhos e sem. Homens também, ficaram proibidos a partir dos 21 anos a viver sozinhos. Ser solteiro virou um crime. E a obrigação maior do cidadão de bem é denunciar. vizinhos, parentes, amigos, tudo e todos. Podendo, pecar nesse quesito e ser assim enquadrado no Artigo 3º parágrafo Único da “Conivência Imoral para o bem comum e do cidadão de bem e republicano” e, ainda completando com corrupção ativa.
Os protestos foram muitos, porém, não geraram os resultados que os “atingidos” pela nova lei esperavam. Reforçou, isso sim, ainda mais o ódio aos “subversivos sociais”, aos contaminadores das boas práticas e condutas. A imagem cultural do país internacionalmente era a da liberdade dos costumes. Carnaval, praia, sol, festas, alegria de viver. Grande engano. O conservadorismo mostrou sua cara. Mostrou a que veio. A violência foi extrema. Ofereceram até dinheiro, prêmio, a quem entregasse os subversivos. Uma verdadeira caça as bruxas. Muitos foram presos acusados e tratados como doentes. Tratados como portadores de doenças sexualmente transmissíveis, hospedeiras, e hospedeiros de um vírus, transmissores de transgressões sociais perigosíssimas para a humanidade. Receberam um tratamento paliativo. Separadas, seu amor não resistiu ao tratamento, não resistiu à distância e a tortura. O tratamento, além de infusão de sangue, além de drogas inibidoras de desejos sexuais, valia-se de estupros constantes de seus corpos por dezenas de diferentes homens. Muitas vezes ao mesmo tempo. Ela sobreviveu a isso, se assim podemos dizer. Sua querida parceira e amiga não. Tentou se matar e não conseguiu. Bebe muito, é a única forma de continuar vegetando.
Os agentes do Novo Moralismo, como ficaram conhecidos os defensores da campanha, perpetrada pelo governo reacionário eleito naquele fatídico ano, enviou, numa tentativa de reacender seus desejos sexuais, muitos parceiros masculinos, homens para ela conhecer. Até transou com alguns desses candidatos a marido num futuro próximo. Bem, transar não parece ser a palavra mais adequada, “entregou-se” sim, para não levantar suspeitas. Depois de beber muito, é claro. Duas garrafas de Uísque. Poderiam até acusá-la de não ter sido curada pelo tratamento, então entrava no jogo. Precisava sim, escolher entre um desses homens e casar como uma mulher heterossexual normal. Para fugir da obrigação pagou uma alta quantia em dinheiro ao pretendente a marido que aceitou sua proposta e finge ser casado com ela. Às vezes se encontram.
O governo, em nome da segurança e da liberdade, instalou câmeras de monitoramento por toda a cidade com a desculpa de vigiar criminosos ou potenciais criminosos. Prevenção foi à palavra. Na frente das casas, ônibus, trens, metrôs, praças publicas. Vigilância. A Nova Moralidade exige isso. Vigilância constante. A religião não bastava mais para vigiar do alto do céu com seu deus onipresente e onipotente a vida das pessoas. Drones fazem isso agora e todos sabem muito bem disso. Para viajar é necessário autorização. Para ir ao campo, autorização. A um rio no verão: autorização. Trocar de trabalho? A mesma coisa; visita médica prévia? Com autorização; dentista, regime alimentar, tudo.
Todas as famílias possuem um integrante da policia moralista. Em geral homens. Filhos, tios, primos, netos e vizinhos. As escolas ensinam a nova ordem moral, as aulas de história explicam os motivos dessas estratégias moralistas como a salvação da espécie e também da ordem político-social e econômica vigentes até então, capitalista, democrática a burguesa.     Conquistada a duras penas e muitos corpos separados das cabeças nas revoluções do século XIX e XX, deu ordem a esse mundo desorganizado, herança medieval européia e das tradições autóctones indígenas. As portas dos quartos não são mais fechados, vigilância. A nova tecnologia, a nanotecnologia, foi abraçada pela Nova ordem moralista como a última esperança de garantir a obediência, isso na visão de seus estrategistas. Nano robôs foram desenvolvidos em forma de insetos que policiam as casas com câmeras instaladas nos seus corpos. Incrível é que todo cidadão tem de ter no mínimo um desses insetos em casa, comprados com dinheiro do suor de seu trabalho. O lucro para as empresas privadas que desenvolveram essas tecnologias são direitos Constitucionais e invioláveis. O Estado não fornece nenhum desses instrumentos de vigilância e controle. Com milhares de horas de publicidade, cartazes, outdoors cuspidos pela mídia de que o melhor é vigiar seu patrimônio ou cuidar de idosos e crianças em casa, deixadas sozinhas, foi a desculpa.
Não se pode falar no passado fora das salas de aula. O passado é perigoso. Viver é sempre no presente.
“ Quando isso terá fim?”, na areia, seu corpo, dentro de um maiô preto, é tocado pelo vento úmido do mar que a faz sentir-se viva. Ou meia viva. Os homens que por ali passam a olham com desejo. A praia está lotada de gente. Gente feliz. Muitas desses pessoas se perguntam por que aquela moça morena, linda, apesar de já estar na casa dos trinta e poucos anos, está chorando? Ou está sozinha? Seu nariz, bem na ponta fica vermelho e seu rosto molhado pelas lágrimas que escorrem dos olhos verdes onde tenta secar com as mãos está inchado de tanto chorar. 
Um audacioso se aproxima e pergunta se está tudo bem, se está sentindo algo, recebendo uma resposta breve, entre um sorriso amargo e um quê de agradecimento na voz indiferente, tentando ser gentil, dizendo que está tudo bem, é só uma gripe que pegou. Contudo sua voz tremia. Nada ia bem.
A dor da vida sem ela é grande demais para suportar. Maior que suas forças. Dói demais pensar em viver a vida toda assim. Na mentira. Muitas vezes já pensou em se entregar a policia moral, acabar com tudo, porém, o que lhe falta é coragem, não suportaria sentir dor. Já sofre com a dor da perda, imagina dor física? Sabe que em algum momento tudo irá acabar. Estão desenvolvendo um nano chip para inserir em baixo da pele dos subversivos que indicará a quantidade de hormônios e de quais tipos estão sendo produzidos pelos hospedeiros. Se houver excesso de um tipo de hormônio indicando algo fora dos níveis ditos “ padrões normais” e alerte os órgãos governamentais responsáveis pelo policiamento social e da saúde moral será indiciada para prestar contas à sociedade perante um juiz. Uma cirurgia é indicada e realizada. Inserindo uma nano câmera nos olhos do doente, como última alternativa, antes da lobotomia e, é isso o que diz a Lei, “por misericórdia cristã”, filmando todos os movimentos do acusado a partir de sua visão, “cuidando de seus interesses e dos interesses da sociedade higienizadora de todo o mal”. Essa alternativa não sabe se é verdade, ouviu dizer. Eles não seriam capazes de ir tão longe... Se necessário há o registro de um diagnóstico com punições ou medicamentos adequados para a cura. Primeiro o projeto está sendo testado em mendigos, negros e pobres. Aprovado, então, pelos órgãos moralistas seguirá diretamente para decreto presidencial sem precisar de apreciação dos congressistas. A Lei, se aprovada, permitirá a cirurgia nas classes mais abastadas. Alguns desses grupos são protegidos por Lei constitucional e, não podem sofrer restrições às liberdades de classe. Por lei não podem sofrer cirurgias, ou perseguições. Magistrados, militares de alta patente, políticos, religiosos, reconhecidos pela fé legal e institucional do Estado e traficantes. Esses últimos ganharam notoriedade e tutela do Estado a partir do momento em que sua presença se fez maioria entre parlamentares e congressistas.
“Por que me abandonaste assim? Não sei o que vou fazer. Sinto-me tão sozinha.” Tenta encontrar uma resposta entre os soluços e o espumante branco das ondas do mar. Abraça a prancha, é sua ancora. Como se nada mais pudesse abraçar, consolando seu desespero. Está cansada.
O mundo era muito mais colorido antes. As nuvens baixas, velozes, cinzas, em pequenos gomos como algodão, surgem na linha do horizonte onde o mar encontra-se com o céu e ao tocar o litoral ganham um colorido diferente, e, de tão baixas,, parecem fáceis de serem tocadas. Olha ao largo da praia. Pensa em como as pessoas são tão felizes, ao menos na aparência, não importando sua condição. Importa o individual, satisfação pessoal. Egoísmo. Apesar das cores, dos sorrisos, dos gritos, das roupas coloridas, da cor da areia, do verde das ilhas, do barquinho dos pescadores, que tinge o mar de felicidade, que é total, há ainda a tristeza. Que é proibida. é perseguida. tem de ser aniquilada, a qualquer custo. O mundo era mais colorido quando não era translúcido. Tudo e todos. Até ela, translúcida e insensível. Apesar do Poder defender os direitos privados e individuais, o que é a regra, é não esconder nada. Transparência.
Lembra-se do ano em que tudo mudou. Foi depois daquela foto do imenso buraco negro há milhões de anos luz da Terra. Surgiu então um boato de que não era tão longe assim e de que tudo terminaria em poucas décadas. Ou que viram algo ameaçador. Boatos e mais boatos surgiram. A população exigia saber. Foi o estopim para a radicalização. As pessoas se desesperaram, as instituições governamentais perderam o controle das massas. As elites pediam por intervenção e ordem. As pessoas sempre pedem por um intenso controle de suas vidas. Quando pedem por leis, pedem por restrições de liberdade. Em poucos anos o controle sobre o corpo e a vontade foi elevada até o limite e o policiamento aumentou. Tudo precisa de autorização. E o amor? O amor... Também.
Tudo era vigiado.
Tudo!
Ficou muito difícil...
Muito.
O homem que lhe dirigiu a palavra conversa agora com o guarda vidas da praia apontando para ela. Preocupação? Se você é testemunha de algo que não entende ou está fora dos padrões normais da felicidade total, como ver uma bela moça, surfista, em uma bela tarde de verão chorando e não informar as autoridades competentes pode ser julgado e condenado juntamente com a própria moça que está desrespeitando as leis e quebrando as regras tão caras a sociedade do prazer e felicidade total dos heterossexuais. Sua culpa é tão grande quanto à dela. O bom cidadão, o cidadão de bem tem a obrigação de colaborar com o bom andamento social a caminho da felicidade plena, isso inclui policiar os vizinhos ou comunicar a situação da moça chorosa e solitária na areia da praia.
- o melhor é ir embora, pensa. Evitar o confronto. Ela é muito fraca para a dor. Não suporta nem imaginar a dor da tortura. Sabe qual é o destino dos subversivos. Chorar é perigoso. O gostar de alguém foi suprimido. Gostar de alguém?
- lá vem o guarda vidas, saco, pensa indignada.
- Ei moça! Espere aí moça! Moça!
Corre. E as lágrimas surgem, outra vez, inundando seus olhos.

                                                                       OUTONO/MAIO/2019.

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

UM JARRO DE FLOR
UMA MANHÃ SEM COR
UMA FALTA DE DOR
DOR E AMOR

QUERO VIDA


E VIDA É
  COR.

terça-feira, 4 de junho de 2019


TÍTULO: JOANA E CAIO.
PERSONAGENS:
Joana
Caio

(A cena começa com um casal entrando em casa. A mulher, Joana, entra primeiro, joga a bolsa  no chão com desdém, deita em um sofá com um movimento de cansaço. Um homem entra depois, Caio, esse serve bebida aos dois).
JOANA – Obrigada. Ah! Como é bom beber para esquecer aquele papo moralista daquela gente medíocre. Sirva-me mais amor, por favor. Quero diluir aquela conversa chata, irritante e perigosa no derreter desse gelo e no embriagar desse álcool alucinante. Diluir o moralismo burguês no sorver do álcool, entorpecente dos deuses, e me fazer esquecer daquela conversa fiada.
CAIO – Você e suas escapadas dramáticas! Sempre poética!
JOANA – Poesia, meu amor, poesia: o que seria da vida sem o álcool e sem o amor pelas belas palavras?
CAIO – Viva o álcool!
JOANA – Viva a vida! A vida vivida! E viver a vida não é se esconder atrás dessas máscaras sociais que usamos todos os dias e o dia todo, é antes de tudo negar essa farsa do correr atrás de algo inútil e que nos leva somente a desgraça da velhice e depois da morte. Essa máscara do teatro do absurdo que é a vida e a encenamos todos os dias como idiotas. Por que não podemos somente amar? Somente viver? Somente brincar e namorar? Tomar banhos de mar?
CAIO – Viva o álcool!
JOANA – o pior de tudo é aceitar calado o que dizem esses seus amigos, ouvir o que falam. Eu não engulo aquelas conversas vazia de roupas caras, cartões de crédito internacionais, viagens e escolas privadas para os filhos e roupas de grifes que são feitas por chineses miseravelmente mal pagos e explorados a exaustão! Boçais! É o que são!
CAIO – Viva a vida! Viva o álcool!
JOANA – Eu sei que você se diverte com esses seus amigos, mas eu não consigo engolir aquele papo sem graça, pobre de alegria e muita arrogância. Que mulherzinha chata! Ela olha para minhas roupas com desdém. Ainda mais quando digo que compro tudo nas lojinhas do centro.
CAIO – Viva a conversa pobre de meus amigos! Lembre que também, essas roupas aí, são feitas por chineses ou bolivianos no centro de São Paulo.
JOANA – Você já reparou que a mulherzinha do seu amigo não comenta e nem olha para as pinturas com nus? Ela passa sem nem comentar, ainda mais quando são pinturas com negros? Vira a cara.
CAIO – Viva o puritanismo dos ricos!
JOANA – Será que ela já viu o marido sem roupa?
CAIO – Olha...
JOANA – Será que eles apagam as luzes quando transam? Será que ela já pegou no pau duro do marido?
CAIO – Viva a curiosidade de minha esposa!
JOANA – Minha mãe era assim, Caio. Não podia aparecer ninguém nu nas novelas ou em filmes que ela já ficava criticando e obrigava a gente, seus filhos e filhas a mudar de canal.
CAIO – Viva a minha sogra! Que transformou minha esposa em uma pervertida. Quer mais bebida?
JOANA – Sim, claro, com gelo, por favor.
(A Joana joga a sandália longe, e Caio senta mais uma vez no sofá depois de servir a bebida à mulher).
CAIO – O que seria da humanidade sem o álcool?
JOANA – A bebida alcoólica foi e é mais importante do que a religião.
CAIO – Será por isso que eles são contra os alcoólatras?
JOANA – E contra o sexo?
CAIO – Viva o sexo!
JOANA – Todos nós, TODOS!, sem exceções, só estamos vivos por causa do sexo. Eu não acredito que alguém faça sexo sem aproveitar o prazer que ele proporciona. Do sexo sai à vida. O prazer sexual é um incentivo a procura por ele, esse prazer é um estímulo à reprodução, quem faria filhos se não houvesse um prêmio? O prazer, o gozo, e o êxtase do prazer sexual.
CAIO – Olha...
JOANA – Só se for um estupro.
CAIO – Viva ao prazer!
JOANA – Acho que a melhor coisa do sexo é poder se despir sem pudor e gozar.
CAIO – Viva ao pudor!
JOANA – Tirar toda a roupa (vai se despindo) e rir da vida. Rir das pessoas prisioneiras das grifes! Rir do gozo! Rir de gozar!
CAIO – Viva as grifes!
JOANA – Eu me sinto livre quando tiro a roupa. Quando tiro a roupa sinto que sai junto à máscara social da mentira que tanto nos bloqueia. Os índios devem se sentir assim: livres. Ou não?
CAIO – olha...
JOANA – Não?
CAIO – Eles vivem sobre regras rígidas e condutas sociais que a gente nem imagina.
JOANA – Será? Mas, andam nu.
CAIO – Pode crer.
JOANA – Tenho as minhas duvidas.
CAIO – Olha...
JOANA – Se eu me sinto livre, sem roupas, acho que também devem se sentir assim.
CAIO – Olha...
JOANA – A verdade é que me sinto bem assim. À vontade. Aonde vais?
CAIO – Vou pegar o violão.
JOANA – As pessoas precisam livrar-se das máscaras e viver a vida. Não se preocupar com coisas pequenas e com o que querem e não tem, não podem possuir então vira uma verdadeira tortura o não possuir.
CAIO – Senhor piedade, e um pouco de coragem... (retorna com o violão, de cueca, meias e meio cigarro na boca).
JOANA – Aqueles seus amigos...
CAIO – Nossos amigos.
JOANA – Não entendo como podem ser felizes sendo prisioneiros de todas essas tolices chamadas de costumes e regras sociais, de ser o mais rico, de ser o mais fotografado para colunas sociais, de ser tudo, menos livres. (olha para Caio) Tira essas meias. Tá ridículo.
CAIO – Eles se dizem felizes. (dedilha o violão). E lembre que temos tudo isso aqui (aponta em redor) por que nossos pais viveram como eles. E trabalharam muito. E exploraram muitos!
JOANA – Dane-se. Eu não pedi nada disso. Caiu no meu colo.
CAIO - Então doe aos pobres!
JOANA – E nós já não fazemos isso quando ajudamos a Maria a construir sua casinha? Quando pagamos um cursinho para a filha dela estudar para o vestibular? Quando ajudamos os artistas nos sinaleiros?
CAIO – Misericórdia aos ricos, Senhor! (levanta o copo de bebida para os céus).
JOANA – E se os hindus tiverem razão quanto aos castigos cármicos que todos nós carregamos ou acumulamos?
CAIO – É só não sermos egoístas.
JOANA – E você acha que o somos, amor?
CAIO – Não tanto quanto “os meus amigos”.
JOANA – Eu não nego ajuda a quem pede. No semáforo, nas calçadas e ruas. Nem todos tiveram a mesma sorte que nós dois na vida. E não me venha com o papo de que estou alimentando o uso de drogas. Pago almoço, e dou dinheiro a quem quiser. O dinheiro é meu! Não é o mesmo que pagar dízimos? 
CAIO – Eu acho que fazemos a nossa parte.
JOANA – Então tá. Eu estou me sentindo bem assim. Muito bem. E você?
CAIO – Sim. Ainda mais quando me classificam como alcoólatra.
JOANA – O álcool é mais antigo que o moralismo burguês que rege a vida moderna.
CAIO – Misericórdia aos alcoólatras, senhor!
JOANA – O que seria da filosofia e do autoconhecimento sem o vinho que regava as ideias dos antigos pensadores gregos nos seus banquetes?
CAIO – Não haveria o amor de Sócrates por Alcebíades.
JOANA – Quem será que era a mulherzinha naquele casal?
CAIO – Acho eu que era o Sócrates. Ele era muito feio, segundo os relatos antigos ou, as más línguas, então seria mais fácil pegar ele por trás para não o ver fazendo cara de dor. imagina?
JOANA – Você me acha feia?
CAIO – Não tão feia quanto o Sócrates.
JOANA – Por isso gosta quando eu te dou de quatro?
CAIO – Não. EU gosto de pegar você de quatro.
JOANA – Ufa! Ainda bem. Pensei que era feia como o Sócrates. Enche mais um pouco meu copo, amor, e põe gelo.
CAIO – Eu gosto de você.
JOANA – Ainda bem. É bom ouvir isso. Não sou uma pessoa tão fácil de conviver. Respeito seus amigos por causa de você.
CAIO – Aleluia! Ouviu Deus? Joana é uma boa pessoa.
JOANA – Você já transou com outro homem como os antigos? Como Sócrates e o Alcebíades?
CAIO – Não falo de minhas intimidades do passado, contudo, não.
JOANA – Sou a sua mulher! Precisamos ser sinceros e verdadeiros um com o outro. Você já teve um falo penetrando você? Como acontece comigo? Não pode mentir. Deus vê tudo e ouve tudo e castiga também.
CAIO – (dedilhando o violão) “Deus está atrás do armário, o diabo está em cima da cama. O que há de errado com o meu coração?”
JOANA – Todo estudioso sabe que regras e moralismos são invenções sociais de dominação. São mutáveis, o que quer dizer que um dia mudam. Estão aí para serem quebradas.
CAIO – É que o namoro dos dois era diferente.
JOANA – Não é o que parece lá no Banquete de Platão.
CAIO – Não tenho atração por outro homem.
JOANA – Nem vestido de mulher?
CAIO – Não.
JOANA – E se eu aparecer vestido com um terno masculino com um falo de borracha e pedir para te penetrar?
CAIO – Só se eu estiver muito, mais muito bêbado.
JOANA – E se eu te negar amor, só deixando quando eu te penetrar com meu falo de borracha?
CAIO – Aí eu não vou ter muita escolha.
JOANA – mmmm.
CAIO – Alcebíades, acho eu, era a mulherzinha do casal.
JOANA – Só por que era o mais jovem e bonitão?
CAIO – Talvez.
JOANA – Queria ver um desses machões, esses coxinhas, intolerantes e bolsonaristas, dizer isso na cara dele, que eram umas bichas e mereciam uma surra. Um herói grego e campeão olímpico!
CAIO – Seria interessante.
JOANA – Acho que esses machões são todos gays, e ficam bem chateados de não ter um “pau duro” penetrando eles por trás, para matar a “coceirinha” que sentem. Só o que falta a eles é coragem de assumir e saírem do armário.
CAIO – Viva ao amor! Viva ao deus Príapo! Viva a coceirinha!
JOANA – Seus amigos precisavam de muito álcool na vida deles.
CAIO – Eles iam se matar.
JOANA – Por quê? O que quer dizer com isso amor?
CAIO – Por que não sabem beber. (Dedilhando) “Eu bebo sim e vou vivendo tem gente que não bebe e está morrendo”.
JOANA – É melhor não beber mais. Daqui a pouco vou ter de te penetrar com a garrafa.
CAIO – E daí? O prazer vai ser meu, ou a dor. Vai me negar isso?
JOANA – Viu? Eu sei que você não é gay, mas não me negaria esse prazer de te penetrar. Acho que falta gelo aqui no meu copo.
CAIO – Vou ligar para meus amigos e dizer a eles que não sou mais amigo deles, que são uns ridículos e não merecem mais a minha amizade.
JOANA – Não! Está louco? Ao menos eles merecem a sua compaixão.
CAIO – Misericórdia Deus! Misericórdia com um ateu! Terei compaixão com eles, senhor! Eles não sabem o que fazem!
JOANA – O que o álcool não faz.
CAIO – Ou a falta dele.
JOANA – Por isso os antigos gregos bebiam, especialmente quando iam filosofar? Sábios gregos.
CAIO – Eu devo, é bem da verdade, a esses meus amigos, muitos favores. Felizmente quando mais precisei, eles me apoiaram, e muito, quando papai morreu.
JOANA – Claro! Queriam até que você fosse ao A.A. para parar de beber. Que ridículo.
CAIO – Eu fingia que estava frequentando, sabia?
JOANA – Sério amor?
CAIO – Sim, sério. Quando descobriram me internaram.
JOANA – Tadinhos... Você nunca me disse isso.
CAIO – Tu nunca me perguntaste amor.
JOANA – Verdade. Como eles foram capazes de fazer isso com você? Que amigos, hein?
CAIO – Eles pagaram tudo do próprio bolso.
JOANA – Como as pessoas podem ser tão cruéis assim? Bom, menos mal, antes eles do que eu ao pagar a conta.
CAIO – Levaram-me a força até lá.
JOANA – Misericórdia!
CAIO – Misericórdia! (grita com as mãos para os céus).
JOANA – E você amor?
CAIO – Quer mais? Gelo?
JOANA – Por favor.
CAIO – Sai de lá pela porta da frente.
JOANA – Amor? Sério? (senta no colo do marido). Por isso que te amo. (beija-o na boca).
CAIO – Assim eles impõem a ordem burguesa na mesa de todos. Suas visões de mundo e de como a vida deve ser. Como conseguiram sorrateiramente transformar o mundo impondo seus ideais.
JOANA – No tal do não-dito, como você diz?
CAIO – Por ai. Regulamentando sem doer muito.
JOANA – Mas a polícia bate para criar ordem.
CAIO – Bate no “povo”, é outro caso. Uma enorme massa sem rosto, sem vontade, sem voz, só com lombos e costas! E braços.
JOANA – Entendo. Sem vontade. Sem conversa.
CAIO – Você vê o caso dos militares? Na ditadura, por exemplo, bateram nas pessoas erradas. Repressão precisa ser sútil, em especial com as classes médias. Se a repressão fosse direcionada somente ao “povo”, não vou dizer que não foi, foi e muito forte, mas ideologicamente não parecia ser, mas se fosse só com o Zé povinho, as classes médias não estariam preocupadas. O Zé povinho está aí, na ideologia das elites e classes dominantes, para servir-lhes. Trabalhar para fazer a riqueza dos outros. O salário de miséria já os satisfazem. O lugar deles é esse na pirâmide social: cada qual no seu lugar.
JOANA – E seus amigos? Onde se encaixam?
CAIO – Eles acham que não tem culpa, fingem serem inocentes, parecidos conosco, sem culpa no cartório.
JOANA – Mas eu me preocupo com os outros. Ainda mais com os pobres.
CAIO – Você acha? E o que fazemos para ajudar?
JOANA – Bem...
CAIO – Então tá retira o que disse. Ouviu essa, deus? Retire o que disse de minha mulher.
JOANA – Eu gosto quando você diz isso: “minha mulher”.
CAIO – “Minha mulher”.
JOANA – Já está bêbado, amor?
CAIO – Claro que não! Falta muito ainda.
JOANA – Que droga!
CAIO – Quer me furar?
JOANA – Quero te usar.
CAIO – Não sou um objeto seu para ser usado e depois jogado fora.
JOANA – Não irei te jogar fora, só vou te usar e depois deixar de lado para quando tiver vontade de novo.
CAIO – ah, bom! Se for assim eu aceito. Entretanto, ainda não estou tão bêbado.
JOANA – Uma viva a Sócrates e todos os filósofos gregos!
CAIO – Viva ao Baco Dionísio! O mais importante dos deuses!
                                               (Fecham-se as cortinas)

                                                                       FIM.




















terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O QUE EU QUERO
É QUEBRAR MEU VÍNCULO
COM O MEU IDIOMA
QUERO É MAIS
É ASSOBIAR
E CHUPAR CANA
QUERO É MASCAR
GOMA
NÃO PROFETIZAR
O QUE EU QUERO
É FALAR UMA LÍNGUA
ESQUECIDA,
DESTRUÍDA
PARA QUE NENHUM DE VOCÊS
ME ENTENDAM.
FUI AO ENCONTRO
DA MEMÓRIA
LÁ ONDE ELA MORA.
LÁ 
ONDE O LEMBRAR
 MOLHA.
LÁ,
LÁ NO FUNDO
LEMBREI DE ESQUECER
O QUE LÁ
 FUI FAZER
ONDE MORA

A MEMÓRIA.

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...