A ODISSEIA DE ANTÃO.
O tamanco que calçava deixou pelo caminho, apesar
do torturador frio que faz. Achou melhor seguir de pés descalços. Os passos
acelerados demonstram o domínio do medo. E quem não estaria àquela hora da
noite? Noite de vento, de lua crescente, de brilho pálido, com o sacolejar das
folhas que dançam a luz e ao vento.
O caminho, enlameado, parece maior do que das
outras vezes que Antão o fez. Talvez por repetir durante o dia, não se
importando com os sons e a penumbra da noite. Logo hoje a prima Clara vai ter
seu neném? No mesmo dia da filha de dona Laurinda? Ou melhor, na mesma noite?
Antão, então segue atrás de sua mãe. Parteira e
benzedeira famosa na região. Suas irmãs menores ficaram em casa. Estão protegidos
por Pretinho e Florbela, os cães da família. Cuidam bem dos donos. Ninguém chega
sem os dois darem o alerta.
E o pai? Esse está ao sul. Carreteiro, leva farinha
e compra charque. Pelo caminho deixa lã. O marido da prima Clara seguiu em
outra direção, rumou ao norte. Época da maçã, pinhão, retorna com o fim da
colheita. A prima Clara tem uma filha mais velha do que Antão, dois anos mais
velha, contudo, sofre de tísica, Antão, então assumiu a missão de encontrar a
mãe. E se vai.
Enrolado num poncho que o acalora do vento frio, talhante
como navalha, se comprime como pode. Antão marcha entre as folhas das árvores
que assobiam com a respiração do vento. O que mais o assusta são as sombras. Parece
camuflar, ao longe, além de vagabundos e vadios, almas penadas e seres de
fábulas. O melhor é não olhar muito para frente, concentra-se então em seus passos.
Conhece mesmo o caminho. Dedos congelados. Enlameados. O coração bate forte.
Cães ladram ao longe. A lua parece brincar de
esconde-esconde, surge, entre as folhas dançantes e consorte do vento, nesse engodo
entre o três para assustar o menino. Esconde-se outra vez para aparecer de novo
e olhá-lo de um cantinho do céu estrelado. Um rugido. O coaxar de sapos e o
chirriar de uma coruja. As goradeiras são perigosas, dizia a avó de Antão. Nos dias
de lua cheia, são ainda piores, por enquanto, estamos na crescente. Sorte. Antão
impõe velocidade nos passos. Fica sem fôlego com o ar frio que invade seus
pulmões. Assusta-se com a coruja: Uuuu! Uuuuu! O jovem, trepidante, grita com o
animal agourento.
- Vai agourar o Diabo!
Uuuuu! Uuuuu.
Recebe de resposta.
Após o assombro com a coruja o jovem fica alerta em
seus sentidos. Qualquer coisa o assusta ainda mais. Para piorar lembra-se que
vai precisar passar na frente do cemitério. Não vou pensar nisso!, não vou
pensar nisso! Encolhe-se no poncho. Tanta história ouviu do cemitério. Almas penadas,
o velho Chico pistoleiro, o boitatá, o açougueiro Schmidt, a alma penada da
jovem Helga. Correntes ouvidas à noite, choro, lamurias, pedidos de ajuda.
Adiante, o cemitério. Antão tapa os ouvidos. Cerra os
olhos. Firme na marcha segue em frente. Nada. Nem correntes que rangem, nem
mesmo as que trancafiam o portão. Nem lamurias ou choros, sem pedidos de socorro
ou chirriar de corujas. Sem almas que o chamam ou o boitatá.
Adiante, Antão continua em sua odisseia. Ao encontro
da mãe. O menino, com os pés descalços e caminhar firme, seguem ao encontro da
maturidade.
PRIMAVERA/NOV/2020.