quinta-feira, 12 de novembro de 2020

A ODISSEIA DE ANTÃO.

 

 

A ODISSEIA DE ANTÃO.

O tamanco que calçava deixou pelo caminho, apesar do torturador frio que faz. Achou melhor seguir de pés descalços. Os passos acelerados demonstram o domínio do medo. E quem não estaria àquela hora da noite? Noite de vento, de lua crescente, de brilho pálido, com o sacolejar das folhas que dançam a luz e ao vento.

O caminho, enlameado, parece maior do que das outras vezes que Antão o fez. Talvez por repetir durante o dia, não se importando com os sons e a penumbra da noite. Logo hoje a prima Clara vai ter seu neném? No mesmo dia da filha de dona Laurinda? Ou melhor, na mesma noite?

Antão, então segue atrás de sua mãe. Parteira e benzedeira famosa na região. Suas irmãs menores ficaram em casa. Estão protegidos por Pretinho e Florbela, os cães da família. Cuidam bem dos donos. Ninguém chega sem os dois darem o alerta.

E o pai? Esse está ao sul. Carreteiro, leva farinha e compra charque. Pelo caminho deixa lã. O marido da prima Clara seguiu em outra direção, rumou ao norte. Época da maçã, pinhão, retorna com o fim da colheita. A prima Clara tem uma filha mais velha do que Antão, dois anos mais velha, contudo, sofre de tísica, Antão, então assumiu a missão de encontrar a mãe. E se vai.

Enrolado num poncho que o acalora do vento frio, talhante como navalha, se comprime como pode. Antão marcha entre as folhas das árvores que assobiam com a respiração do vento. O que mais o assusta são as sombras. Parece camuflar, ao longe, além de vagabundos e vadios, almas penadas e seres de fábulas. O melhor é não olhar muito para frente, concentra-se então em seus passos. Conhece mesmo o caminho. Dedos congelados. Enlameados. O coração bate forte.

Cães ladram ao longe. A lua parece brincar de esconde-esconde, surge, entre as folhas dançantes e consorte do vento, nesse engodo entre o três para assustar o menino. Esconde-se outra vez para aparecer de novo e olhá-lo de um cantinho do céu estrelado. Um rugido. O coaxar de sapos e o chirriar de uma coruja. As goradeiras são perigosas, dizia a avó de Antão. Nos dias de lua cheia, são ainda piores, por enquanto, estamos na crescente. Sorte. Antão impõe velocidade nos passos. Fica sem fôlego com o ar frio que invade seus pulmões. Assusta-se com a coruja: Uuuu! Uuuuu! O jovem, trepidante, grita com o animal agourento.

- Vai agourar o Diabo!

Uuuuu! Uuuuu.

Recebe de resposta.

Após o assombro com a coruja o jovem fica alerta em seus sentidos. Qualquer coisa o assusta ainda mais. Para piorar lembra-se que vai precisar passar na frente do cemitério. Não vou pensar nisso!, não vou pensar nisso! Encolhe-se no poncho. Tanta história ouviu do cemitério. Almas penadas, o velho Chico pistoleiro, o boitatá, o açougueiro Schmidt, a alma penada da jovem Helga. Correntes ouvidas à noite, choro, lamurias, pedidos de ajuda.

Adiante, o cemitério. Antão tapa os ouvidos. Cerra os olhos. Firme na marcha segue em frente. Nada. Nem correntes que rangem, nem mesmo as que trancafiam o portão. Nem lamurias ou choros, sem pedidos de socorro ou chirriar de corujas. Sem almas que o chamam ou o boitatá.

Adiante, Antão continua em sua odisseia. Ao encontro da mãe. O menino, com os pés descalços e caminhar firme, seguem ao encontro da maturidade.

 

                            PRIMAVERA/NOV/2020.

2 comentários:

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...