sexta-feira, 31 de janeiro de 2020


A BATER NA PORTA.
            - Maurício? Maurício? Tu estás aí?
            Bate duas vezes. Aguarda, silenciosa e ansiosa, a espera de algum som de dentro do apartamento quatrocentos e três, qualquer coisa, uma resposta, um sim, um não, um vai embora, porém, nada.
            - Sou eu a Cíntia. Abre a porta Maurício – espera – seu irmão me disse que estavas aqui. Maurício?
            Cíntia veio decidida a resolver sua vida. Espera. Não irá desistir tão fácil.
            - Olha só, a Bruna, nunca gostou de você. Diferente de mim. Maurício?
            Sua voz tem um que de desespero, choro, algo preso em sua garganta.
           - Por que tu me tratas assim Maurício? Porra. Aquela metida não merece você – ali na porta permanece esperançosa. O número quatrocentos três, exposto em uma pequena placa de madeira preso a porta, identifica o apartamento que tanto frequentou no passado. Cíntia trás ao ombro uma bolsa tira colo chilena, que comprou quando visitava o Chile, seus cabelos longos e negros, contrasta com a pele alva, com as sardas e olhos verdes. A maquiagem começa a desmanchar, devido as lágrimas que não mais consegue conter.
            - A Bruna ti odeia Maurício. Ela nunca nem falou com você e lhe xinga o tempo todo. Ela não gosta de você. Não se importe mais com ela Maurício. Eu... eu...
            Nada.
            - Por que você não me responde Maurício? Sei que está aí dentro – aguarda uma resposta.
            Nada. 
         – Maurício? Maurício? Sei que sou gordinha, não faço o tipo de mulher perfeita, mas, Maurício? Quem é que faz? Quando parece perfeita, ou se acha perfeita, não cabe no próprio Ego, e muitas das vezes é mal caráter.
            Bate, Bate, Bate na porta com força e a mão fechada de raiva. Arruma os cabelos jogando-os para trás demonstrando a angústia que sente minando às forças, seca, então, com os dedos, o rosto marcado pelas lágrimas e a maquiagem.
            - Sei que posso ti fazer feliz, Maurício. Você sabe que sempre fui apaixonada por você. – pausa - por favor, Maurício, me dá uma chance. Eu sei o que tu sentes. Eu também sinto isso, você me faz sentir o mesmo. E não me responde.
            Pausa novamente. Enxuga suas lágrimas, arruma os cabelos resistindo a vontade de ir embora, que controlada pelo orgulho e a razão quase a domina. Dá meia volta, perdendo a luta contra o ego, porém, para e resiste. Volta a se postar à frente da porta, outra vez. Tenta em vão controlar seus sentimentos. ao longe recomeça a falar.
            - Porra Maurício. Eu gosto tanto de você cara! Me dá uma chance vai? – nada. Sem resposta.
            - Sabe de uma coisa Maurício? Sabe? Tu és um cara muito cruel, viu? É um tremendo de um filho de uma puta, sabia? Insensível é o que tu és. Um filho da puta que deve se fuder mesmo – pausa, na voz, um engasgo de pranto – babaca, diz, entre soluços – é o que você é viu? Um grande de um babaca. E eu a palhaça. Mas eu mereço mesmo. Sou uma tola.
            As lágrimas que agora surgem são mais fortes, carregam para fora do peito soluços e um choro de dor. A porta fechada é a única resposta que recebe.
            - Maurício, por favor, cara! Maurício? Maurício? Só me diz, sim ou não. Maurício?
            Desiste, enfim. Quando resolve ir embora, angustiada, escuta um arrastar de cadeira, passos, um destrancar de porta que, afinal abre-se.
            - Maurício? Posso entrar? E o sol brilha distante no horizonte.
                                                           FIM.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O MISTÉRIO DA CACHAÇA.


O MISTÉRIO DA CACHAÇA.
            É um pequeno bar que tem seu Sérgio. Pequeno mesmo. Bem à frente de seu quintal na divisa do muro com a calçada. Naquele pequeno espaço que construiu cabem ele, seu Sérgio, e muito mal mais alguém, deve ter uns dois metros por um, por ai. No atendimento geralmente ficam seu Sérgio, a esposa, de vez em quando, e algumas vezes, não raras, assume a filha do casal o atendimento, Lais. Então, são nesses dias quando mais aparecem fregueses. A menina, quase moça, está desenvolvendo os adjetivos que a farão mulher. Sua beleza já chama a atenção dos marmanjos que ali passam e ficam para beber. As curvas da moça atraem cada vez mais gente na birosca de seu Sérgio. A menina anda tirando muita gente do sério. Sabida, finge não ver as butucas que pousam em sua beleza. Contudo, até hoje, ninguém ali, apesar de bêbedos, não lhe faltaram com o respeito.
            O bar é minúsculo mesmo, mal permite se movimentarem no reduzido espaço de dentro, difícil fica alcançar as bebidas ou os copos em prateleiras que seu Sérgio mesmo montou. Do balcão para fora à três mesas com dois bancos cumpridos de cada lado. tudo bem rústico. Essas mesmas mesas são protegidas das intempéries por um puxado de telha que seu Sérgio construiu avançando calçada à fora. Cobriu com telhas e sua filha, Lais, foi quem o ajudou.
            Vende basicamente cachaça, licores, cigarros “importados” e alguns salgados caseiros feitos por sua esposa. Contudo, o que mais sai é a caninha. Tem ali em um canto, já minúsculo, uma pequena pia onde lavam os copos e uma prateleira acima onde um rádio anima as horas passadas no bar.
            O problema de seu Sérgio é que o bar não anda muito lucrativo para sustentar mulher e filha. Precisa mudar a estratégia.
            Seu Sérgio trabalha desde os onze anos de idade, quando iniciou com o padrasto, mestre de obras, a profissão de pedreiro, então, seu Sérgio como ajudante. Já aos vinte e um tornou-se mestre de obras, dos bons, sempre trabalhando sozinho. Assim construiu aquela casa. Agora, aos cinqüenta e quatro anos, uma hérnia de disco o impede de trabalhar em sua profissão, por isso decidiu abrir o bar, na tentativa de sustentar a família. mas antes vamos falar mais um pouquinho da vida de seu Sérgio e família.
            Correm alguns boatos de que seu Sérgio não é o pai de Lais, a bela filha. Entretanto, ele é o pai biológico da menina, apesar de sua feiura, de Sérgio, como dizem os amigos e fregueses do bar. Quem realmente não é a mãe biológica da moça é  dona Inácia. Sua mãe, a verdadeira mãe de Lais, era uma prima de Inácia que teve um caso com seu Sérgio antes dos dois se juntarem. A verdadeira mãe de Lais queria “conhecer” um homem e, contrariando as arbitrariedades de seu pai que a mantinha presa em cabresto curto, se entregou a Sérgio, depois de fugir de seu quarto numa noite no meio de uma tempestade. Pulou a janela, de seu quarto e depois o de Sérgio, que morava a meio quarteirão da casa dos pais da moça, enfim, entregando-se ao rapaz. Claro, tinha umas trocas de olhares, de cartas, e essas coisas de antigamente, sinalizando o desejo dos dois e suas intenções.
            Seu Sérgio fez questão até de casar com a moça, Camila, ficando decidido assim, porém, a vida não sorriu para a jovem, que veio a óbito no parto de Lais. Por um tempo seu Sérgio ficou sozinho com a menina. Todavia, como homem não se demora muito em luto, diferente das mulheres, logo, casou com Inácia decidida a sair de casa também. Advertida pelo pai inconsequente de que a mataria ou a venderia a um prostíbulo qualquer se fosse viver com Sérgio, que o homem odiava, cumpriu com a segunda opção, vendendo-a a um dono de bordel na cidade, de onde Sérgio a resgatou, no mesmo dia, após muitas ameaças de facas e armas prontas para ceifar vidas. Nem esquentou no lugar dona Inácia.
            As coisas andam meio difíceis agora, porém, em tudo se dá um jeito. Sérgio andava comprando suas bebidas nos mercados de bairro, pois, as distribuidoras exigiam notas para provar na contabilidade seus fluxos de caixa e para isso é preciso cobrar dos comerciantes. Toda a burocracia que conhecemos, e quanto mais, não enxergam vantagens em vender pequenas quantidades de bebidas, muito menos dar descontos a Seu Sérgio. O que está dificultando seu negócio.
            Há alguns meses seu Sérgio bolou um plano depois que ouviu uma história engraçada de um freguês. Dizia ele que seu tio conhecia um amigo, que conhecia o irmão de outro amigo que fazia umas loucuras que todos nós ficamos sabendo assim: um que é amigo de outra pessoa, e que é amigo de outro e conhece através de um irmão de um conhecido seu! O protagonista de um acontecimento absurdo ninguém conhece pessoalmente. Essa história tem relação com a solução que seu Sérgio se deparou para “baratear” o seu estoque de bebidas.
Bem, esse sujeito, o tal amigo, solucionou o seu vício no alcoolismo bebendo as caninhas que encontrava nas oferendas para os Orixás das religiões afros. Sem nada dizer aos amigos e parentes servia-os com as bebidas destinadas aos santos. Também bebia é claro, não dá para não acompanhar. Um dia, dizem as más línguas, ninguém sabe a verdade, pois a origem, o verdadeiro acontecimento passou por muitas bocas até alcançar seu Sérgio, que tem, sempre, o pé atrás com essas fofocas de bar. O tal ladrão de caninha, contaram, foi avisado a não furtar mais os despachos, roubar cachaça das entidades,um dos convidados que bebiam juntos as pingas roubadas incorporou uma entidade orixá na sala advertindo-o, na frente de todos, a não repetir mais os furtos. O que aconteceu depois? Ninguém sabe. Muitas vezes inventam coisas...
Voltando a Sérgio, esse então planejou os detalhes. A mulher, estranhou quando ele começou a sair de carro depois de fechar a birosca. Primeiro achou que tinha uma amante, nada disse, ficou por um tempo chateada com a situação, porém, entendeu que não era mais tão atraente para o marido e aceitou resignada. Entretanto, percebeu que Sérgio retornava com o carro cheio de garrafas e bebidas para o bar. Quando começava a faltar nas prateleiras, saía e retornava com o carro e garrafas. Sem coragem de questionar o marido, Inácia levou suas frustrações e curiosidade a filha, indagando-a com suas duvidas.
- Lais?
- Oi mãe.,
- Ôh, minha filha, o que ta acontecendo com o seu pai?
- O que tem o pai?
- Ele anda estranho.
- Como assim?
- Sei lá! Sai de carro depois de fechar a birosca e volta bem tarde.
- Tu estás desconfiada dele? 
-Será que ele tem outra mulher?
- Ora mãe!
- Também acho que não. No começo até que sim... mas vi que não era.
- Então é o que mãe? Pior que isso... dá de ombros a filha do casal.
- Ele volta com o carro cheio de bebidas.
- Ué! Pergunte a ele. Quem sabe não vai buscar em alguma distribuidora?
- Essa hora da noite filha?
- Ué? Da de ombros outra vez.
- Filha? Será que seu pai está comprando bebida roubada?
- Não sei mãe, pergunte a ele. – exclama irritada a menina.
Nada mais diz.
Passam semanas, a pulga atrás da orelha de dona Inácia vem incomodando cada dia mais, resolve então, engolindo seco, tomar coragem e intimar o marido. O lucro aumenta no bar e Sérgio parece mais contente, é a chance de questionar o que está acontecendo. Além da preocupação tem a curiosidade guiando sua vida nesses últimos meses. Confronta o marido.
- Sérgio? O que está acontecendo hem?
- Do que estás falando mulher?
- Não gosto de me intrometer em seus assuntos, mas, já faz tempo que você sai, nas segundas- feira, nas sextas e sábados e retorna com o carro cheio de bebidas.
- E o que tens?
- Onde você anda arrumando essas bebidas Sérgio? Pelo amor de Deus homem! É roubada? Bebida roubada? Por favor, Sérgio. Tu tens família e não pode deixar a gente na mão. Já pensou se você é preso homem? O que vai ser de sua filha? Pensa nisso.
Sérgio nada diz. Faz um movimento quase imperceptível com a cabeça, negativamente.
- Por que você não diz nada Sérgio? É coisa errada? É uma promoção em Supermercado?
Lágrimas derramam dos olhos de Inácia, que emudece.
- Só lhe direi uma coisa, mulher - resolve falar – na verdade três coisinhas visse? Primeiro: nunca comente sua desconfiança na frente dos fregueses; segundo: está sendo mais útil a mim, ou a nós, do que de quem foi tirado; e terceiro: não queira nem saber.

                                               FIM.      





sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O Treinador.





  O TREINADOR
Shandinho enxuga o suor que verte de sua testa com as costas da mão direita. Esqueceu seu lenço no vestiário quando do intervalo do jogo, então, pediu ao assistente que buscasse enquanto pensava numa solução para seu meio de campo.
Entre tantos acontecimentos ruins parecendo persegui-lo nos últimos anos, o assistente, prestativo e preocupado com a posição de risco do time, sua própria e a do técnico, que desde sua chegada ao clube simpatizou com sua franqueza ao falar e por ter lhe dado uma oportunidade, escorregou nas escadas, após levar uma garrafada na cabeça jogada pela torcida enfurecida com a campanha do time no campeonato. A garrafa atingiu em cheio, fazendo-o desequilibrar e pisar em falso num dos degraus da escada de acesso para o vestiário. Está, agora, a caminho do hospital geral. Todo quebrado.
Os últimos anos não foram nada bons para o Juventus da Barra. Desastrosa a campanha neste ano, sem dizer que não há mais série para participar após esta a qual está capengando e descendo pela ladeira. O glorioso Juventus dos anos de 1970 tem como principal rival da cidade o Leste. Hoje, esse adversário encontra-se na série B, e o Juventus, conhecido como o bordô da Barra tem seus dias contados ao rebaixamento da última série de um campeonato nacional que seria a desastrosa série D.
Vexame.  
 desliza com as mãos pelos poucos cabelos que lhe restam como sinal de ansiedade (para não dizer desespero).
Profissão ingrata. Técnico de futebol.
Quando mais jovem jogou muita bola. Pergunta a si mesmo como é que pode um cidadão se dizer jogador de futebol, e não ter a menor intimidade com a pelota? Não sabe chutar de “três dedos”, não tem o domínio da “embaixadinha” e de cada dez pênaltis acerta quatro no máximo. É desesperador o futuro do futebol.
Cansou de gritar. É inútil. “Esses tapados não conseguem guardar posição em campo”, cobre a boca com a mão para não dizer bobagens e o que pensa (conhece muitos técnicos que caíram por menos do que isso), e o que pensa não deixa de ser verdade. Tem um "perna de pau" e esse ainda, é chamado de craque do time!, pelo amor de Deus.
O suor verte da testa em litros, como uma bica. Anda preocupado já há alguns dias. Sua demissão deve estar na mesa do diretor de futebol esperando somente o fim do jogo. Pelo andar da carruagem, deve ser hoje. 
Profissão ingrata.
O primeiro culpado pela campanha ridícula e de sucessivas derrotas sempre é o treinador. Na ciranda do futebol e no dançar das cadeiras o primeiro a cair é o treinador. Com a ponta dos dedos coça a testa pensando no que fazer. A cada erro de passe dos jogadores, e como erram!, o faz perder mais e mais a paciência. E a torcida perde junto. No último jogo Shandinho já saiu do estádio sob vaias furiosas, cuspidas, garrafadas, palavrões do mais baixo calão, direcionados a ele e a sua mãe, que não tem nada a ver com as constantes derrotas. 
Profissão ingrata.
Quando adentrava em campo, como jogador, não que era aquele craque destinado a fazer história nos clubes por qual passou, porém, dedicava-se o máximo. Foi sim, algumas vezes, por vários clubes, campeão nacional, três ao total, duas na série B, estaduais, levou oito, e a mais difícil e suada, exigindo rigor máximo e entrega total: à campanha da Libertadores. Sempre discreto, tinha um papel importantíssimo nos esquemas de jogo que nunca é reconhecido, apesar da posição tática em campo, guardava e muito bem, sem o uso de atos extremos como faltas de hoje, essas chegam a ser verdadeiras agressões. Hoje, esses “tocos” não sabem o que é tática. 
Nunca foi reconhecido por comentaristas de futebol, que tem lá sempre seus favoritos. Nunca foi de pagar almoço pra essa gente interesseira, mesquinha e talvez vem daí essa falta de reconhecimento. Dá de ombros. Poucos o gabavam, em geral os que entendiam a importância tática de sua posição nas partidas. Há muito ego nesse meio, preferindo ficar por trás da cena.
Um dos poucos a elogiar seu futebol, dirigindo-lhe importância tática, trabalhava em um grande jornal desportivo de tiragem nacional dizendo que o seu futebol e a sua força de vontade o tornavam o principal jogador do time em que foi campeão do continente, no esquema tático proposto pelo técnico, o já falecido “Mendoncinha”. O jornalista correu o risco afirmando ainda, que nos últimos trinta anos não houve jogador como ele, e mais, era melhor do que qualquer um naquela posição, na Europa, ou no Brasil. O coitado foi estrangulado, martirizado e crucificado pelos companheiros de profissão após essa polêmica. como havia dito antes: o jornalista trabalhava num grande jornal esportivo.
Nunca conseguiu agradecer esses elogios pessoalmente. Profissão ingrata.

Como podem esses pernas de pau não conseguirem dar um passe de trinta metros? Shandinho não acredita. E ainda ganham o triplo do que recebia em sua época. O pior de tudo é ter de recomeçar em outro lugar. Desempregado não fica, e tem sua aposentadoria como jogador, isso lhe garante, ao menos, os estudos da filha. Faculdade de Educação Física.
Sente a garganta seca. Sua voz rouca já não sai mais de tanto gritar. “Um dia ainda morro de infarto”, pondera, “ou sei lá do que!” Desespera-se. Desiste. Abre os braços. Fica a beira do campo vendo seu time ser implacavelmente bombardeado com chutes impossíveis de defesa. Contudo, o menino Andreas, goleiro, faz milagres com defesas mágicas. O menino é bom, e Shandinho já havia percebido isso logo no primeiro treino que tivera com eles. Nos primeiros treinos a intuição de Shandinho o fez olhar com “outros olhos” para o jovem goleiro. Vindo da base vislumbrou um futuro promissor ao garoto. Convidou até um amigo, caça talentos, a assistir aos treinos. No fim da temporada ele vai embora. Shandinho se sente bem ajudando aos outros. Boa sorte ao rapaz.
         Tirando o menino Andreas e um “meia” experiente, rodado, jogou em diversos clubes, mais experiência que talento, já em fim de carreira. O resto? Põe num saco que são restos. Suas mãos escorregam pelos cabelos molhados de suor, parando na nuca, coça então em sinal de desespero. “É só tirar a bola dali! Não é pedir muito.”
O que mais o incomoda é que o primeiro a ser despedido é o treinador. Passam essas imagens de que o treinador é responsável pelas atitudes certas ou erradas dos jogadores. Parece que fugir para noitada, não vir treinar no dia seguinte e jogar sem preparo físico, sem treino, é culpa do treinador. Não conseguirem guardar posição, ir ao campo adversário, voltar para proteger as costas dos que fazem a primeira linha defensiva, ou atacar a bola ao invés de esperar que ela role sozinha pra dentro do gol. Claro, é sempre culpa do treinador.
O sentimento de incompetência parece criar uma dúvida, será mesmo que é minha a culpa? Não pode ser. É muito fácil o que eles fazem, eu mesmo já fui jogador. É só treino e confiança de que o respectivo atacante vai guardar sua posição, estará na grande área!, então, levante a cabeça e olhe: está lá de costas para a defesa; não ta correndo de costas pra bola, tabela com ele. 
Ah, profissão ingrata.

 Deprimente. É o terceiro clube que passa neste ano. E ainda estamos em julho!, o time é o mesmo do começo da temporada. Os dirigentes também. Mudaram o técnico para ver se resolvia, nada. Quando pede a compra do passe de determinados jogadores, sempre envia três opções, a mais interessante é sempre a primeira, geralmente o que ocorre é a compra do terceiro, o pior, o mais barato também. 
 Passou por um clube que, por inconveniência e ética profissional não dirá o nome, mas, encurtando a história, foi obrigado a contratar o filho do gandula. Não que o rapaz fosse tão ruim assim, mas era divida de promessa do presidente do clube eleito com o apoio do gandula. Tem dessas coisas no futebol também, o que vocês acham?.
"Jogadores arrogantes são os piores. Fingem simpatia e simplicidade na frente dos microfones e câmeras, porém, a verdade é que não sabem falar mesmo, só falam bobagens. Nos vestiários parecem crianças de tantas brincadeiras infantis que ouço e testemunho."
 Pensa em Beatriz, sua esposa. Tem um coração enorme, e, não fosse ela, não sabe onde estaria hoje. Coração igual ninguém tem. Esse é o segundo casamento de Shandinho. Tem duas filhas com Mariléia, sua primeira esposa. Beatriz o ajudou em tempos difíceis pelo qual passou, sem contrato, e ela mesma é quem pagava a pensão das meninas pra Shandinho. Fez agora não tem jeito. Além de esposa é uma grande amiga.
  E o jogo? Dez minutos com os acréscimos. Profissão ingrata.
 Das arquibancadas brados chamando-o de burro, burro, burro! Isso dói. Pede a deus que acabe logo esse jogo. Seu coração parece ser triturado pela vergonha ao pensar em Beatriz e nas meninas. Volta à atenção para o jogo novamente quando seu centro-avante recebe um passe do goleiro, o menino Andreas, e sozinho dribla, zagueiro, o outro ao tentar acompanhá-lo escorrega e por pouco não atinge suas pernas, agora vai, o goleiro adversário abre os braços e “cresce” na frente do atacante, esse jinga, pra lá e pra cá, dá um drible da vaca no goleiro, que tenta impedir, mas fica pelo caminho, e, então, é só o centro avante e o gol, é entrar com bola e tudo!... Ele decide fazer o pior: chuta a bola com todas as forças que ainda possui no fim do jogo, e, ela, a bola, sobe, sobe, sobe e sobe... Um enorme silêncio toma conta do estádio. Profissão ingrata.
Nos cinco minutos que ainda restavam, o time visitante, o mando de campo era do Bordô da Barra, fez um golaço, digno de um Pelé, Maradona, Ronaldinho, ou Messi. Driblou três, tirou o goleiro da jogada com um giro inteiro no corpo e embaixo das traves de calcanhar definiu a partida. Uma explosão de alegria toma conta do estádio. Gritos, cantos, bandeiras. De outro lado xingos: burro! Burro! Burro!
1 x 0.
Profissão ingrata.
Nos últimos minutos, Shandinho senta no banco dos reservas e abraça o silêncio, calado, sem expressão no rosto. Pensa apenas em Beatriz e nas crianças. Levanta, anda com as mãos nos bolsos, às vezes abaixa a cabeça como se tivesse uma pedra a sua frente e não quer tropeçar. Escuta seu nome gritado pela torcida seguido de burro, burro, burro. A torcida não perdoa.
Shandinho sob vaias e impropérios segue para o vestiário. Uma chuva de vaias. O jogo terminou depois de dez minutos de confusão em campo, pois o centro-avante do time adversário, após fazer o gol da partida, passou provocando a torcida do Juventus com a mão em forma de concha no ouvido, e ainda atirou beijos para os mesmos. Ai mexeu com todos. Profissão das mais ingratas.
Hoje herói, amanhã vilão.
- Oi.
- Oi. Tudo bem?
- Sim. Perdemos.
- É, ouvi no rádio. Vamos superar. Pode fazer um favor pra mim?
- Sim.
- Passa na padaria e compre pão para o café?
- Sim. Só?
- Só.
- Ta, em dez minutos estarei com vocês.
- Ti amo. Beijos.
- Também ti amo. Muito.
Essa é a Beatriz.

                                   FIM.                 Verão/ fevereiro/2019.

domingo, 12 de janeiro de 2020

SEU NÚMERO DE CPF.



                                      
SEU NÚMERO DE CPF
- Seu CPF.
- Pode ser meu nome? Não serve?
- CPF!
- É... 978.465...
- Bem, diz aqui que o senhor não fez os exercícios. Posso saber por quê?
- Esqueci o meu caderno em casa.
- Mas isso é recorrente pelo que posso ver.
- Não.
- Também há um registro de que o senhor, pelo que encontro aqui, de que o senhor utiliza um cartão de passagens que não lhe pertence.
- Como assim?
- Seu CPF não é o 978.465....?
- Isso.
- Então como nega se o cartão de passagens está registrado e pertencente ao CPF 224.478....? A quem então pertence esse cartão?
- É da minha avó.
- Isso é grave. Sabe disso?
- Eu tenho usado para ir comprar os remédios dela.
- E há a necessidade de ir tão longe assim? Está aqui indicado nos registros desse CPF 224.478.... Que existe uma farmácia autorizada com o CNPJ 8.880.... A duas quadras de distância da residência da portadora do CPF anteriormente citado. O que tem a dizer?
Um constrangedor e frio silêncio preenchem a sala.
- Também há a compra de 18 litros de sorvete, onde, que fique registrado, e o senhor saiba que está sendo gravada essa intimação, voltando, onde só há permissão de 6 litros por mês.
- Não, eu não...
- Dez Litros – interrompe com a voz rígida e intimidadora – o que é permitido com o cartão Kompra. Sendo que esses dez litros estão indicando a compra pelo o CPF 978465.... E os outros oito litros descontados do cartão de propriedade do CPF 224.478.... Não possui autorização ou mesmo permissão para adquirir esse tipo de produto por indicação médica, proibindo a ingestão de açúcar. Sua origem, das classes C2 é propícia a diabetes ou mesmo a dependência desse produto. Tanto mais que buscando os CPFs da portadora e do portador número 224.478... e 978.465.... respectivamente indica pela descendência familiar a restrição de ingestão de açucares. Isso incluindo o senhor.
Vai responder o que? Sente somente um forte constrangimento, vergonha, vergonha, vergonha.
Continua então com o inquérito.
- Essa restrição será ampliada a seis meses de multa no cartão kompra. O seu e o da portadora do CPF 224.478.... Sua conduta sugere propensão ao crime e a ilegalidade, onde, por lei a punição é a suspensão do crédito alimentício e no cartão passagem, devendo cumprir com sua obrigação de cidadão de Bem a risca o que determina a lei. Será fornecido ao portador do CPF 978.465.... Um trajeto - definido no momento de seu nascimento e registrado no CPF do mesmo - alternativo. Atente a que esse trajeto leva a seu destino cotidiano: A Instituição de Ensino Popular. Tens algo a contestar portador do CPF 978.465...?
- Dizer o que? Pensa, permanecendo de cabeça baixa entre os ombros encolhidos. Suas mãos denunciam muito nervosismo. Suas pernas seguem as mãos. Sente vergonha.
- Sendo esse silêncio sinal de concordância com as restrições e a aceitação da culpa por parte do portador do CPF 978.465.... Será impresso o roteiro que precisará ser seguido à risca. Esse mesmo trajeto tem câmeras onde será registrada a passagem do senhor. Informando a que horas, em quais dias, e a velocidade da caminhada, podendo a velocidade variar através da quantidade de açucares no sangue a partir de uma verificação através das pupilas dos olhos. Esse registro é fotográfico. Através da leitura da íris dos olhos será feita esse registro. É sua obrigação cumprir com os direitos de cidadão. Portador do CPF 978.465.... deve usufruir de forma responsável com uma conduta digna de sempre fazer o bem pela ordem social, de forma feliz, deve, e com a mais boa vontade estabelecer o bom andamento da paz social, esses são uns dos seus direitos. A sociedade agradece.
- Admito que errei – murmura.
- Sempre que a má conduta lhe invadir o coração portador do CPF 978.465.... peça ajuda aos portadores dos cartões religiosos. Eles irão lhe conduzir ao melhor caminho. Agradando a todos.
- Irei. – A vergonha que o oprime por ter essa má conduta o esmaga parecendo ter toneladas sob o corpo e a consciência. Ficou difícil de respirar, de falar e mesmo de levantar da cadeira.
- Sendo assim portador do CPF 978.465.... há uma última objeção à sua saída desta intimação, o portador do CPF 224.478.... será punida com a restrição de crédito no cartão farmácia tendo limitação de 65% de seus créditos, e que fique aqui registrado que o único culpado é o portador do CPF 978.465.... pela má conduta e ato que fere seus direitos de cidadão e atinge diretamente os cofres do Estado. Dito isso, está dispensado, contudo terá de iniciar imediatamente o que foi determinado. Volte agora mesmo à sala de aula e pense em suas ações anti-sociais. E por fim, faça o seu dever de casa.
Vergonha, vergonha, vergonha. Sai exprimido.

                                               FIM.                PRIMAVERA/DEZ/2019.   

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

O CADERNO.


O CADERNO.
- Gildo! Você já viu o caderno de arte do Heitor?
- Oi? Responde Gildo.
- Você já viu o caderno de arte do Heitor?
-  Não. O que tem?
- Astrogildo você sabe que é também responsável pelo Heitor, o nosso filho, não sabe?
Astrogildo está a se arrumar no quarto do casal, uma camiseta social, branca, com as mangas dobradas na altura dos antebraços. Sai do quarto antes que Melissa, sua esposa o procure. Ele sabe que a mulher exagera em tudo. Astrogildo já a conhece há bastante tempo para saber que qualquer coisa a impressiona. Mas também sabe que esse tom de voz de Melissa significa o fim de sua paciência, ainda mais quando diz seu nome por inteiro com um tom de voz carregado de indignação diluído em uma sopa de sarcasmo.
Astrogildo aproxima-se da mulher, não pode se atrasar para o trabalho e se esforça para demonstrar algum interesse. Esse assunto da educação do filho não interessa e ele só importa o pagamento do boleto. O restante é responsabilidade das mulheres. assim foi criado pela família.
Melissa abre o caderno ao lado do marido com uma máscara de indignação que cobre seu rosto.
- O que é isso aqui gildo? – sua indignação é revelada também no tom de voz, irritada.
- Não sei do que você está falando amor.
- Isso aqui gildo, olha! Lê e demonstre um pouco de interesse pelo nosso filho, por favor?
- Ta então. O que é que tem?
- Astrogildo! Melissa o olha seriamente caçando os olhos fugitivos do marido que tentam escapar dos olhos inquisitivos da esposa. Melissa fecha o caderno do filho ilustrando sua indignação pelo ato de descaso do seu esposo. – Você está sendo irresponsável com a educação de NOSSO filho. Descaso com a educação e a criação de nosso filho é, lembre-se: obrigação dos pais, e você já sabe muito bem disso, olha o que aconteceu com seu tio, que infringiu a Lei, não uma, mas três vezes, e foi, além de multado, também preso e forçado a fazer serviços pesados.
- Mas ele, o Oswaldino, - indignado Astrogildo acompanha a esposa no tom de voz irritadiço, meu tio, era um sapateiro. Eu sou um Administrador Sênior.
- Seu filho, Melissa finge não ter ouvido a conversa fiada do marido, abre o caderno e o expõe sob os olhos do esposo. Quase o enfia na cara dele na verdade. Ele não é só meu, continua com o sermão Melissa, que fique muito claro essa informação, é seu também, e nós dois, eu e você, acentua a voz no você, veja bem, somos responsáveis por ele. E você sabe muito bem que VIGIAR os filhos e seus educadores é uma das principais tarefas descritas do artigo da Lei 21002 responsabilizando os irresponsáveis sociais, isso me inclui e inclui você, pela falta de interesse na educação dos filhos, se isso vier a acontecer eu lhe entrego as autoridades e ainda contrato um advogado,pausa, respira e conclui - pode até ser um caso de traição á pátria por falta de vigilância e delação de outros infratores.
- Eu sei Melissa, eu sei. A tal Lei “a pátria a cima de todos e Deus acima da Pátria”.
- Que bom, tu sabes, então, por que não...
- O que tem esse caderno, me deixa ver. - Astrogildo toma das mãos da esposa na tentativa de terminar com a aporrinhação e seu cansativo blá, blá, blá. Ao menos, e ela tem razão nisso, precisa fingir interesse na vida do filho. Troca a máscara ao ler os temas trabalhados nas aulas de Arte.
- Viu o que esse professor anda ensinando ao nosso filho? – Melissa insiste na aspereza contida na voz.
- Ta, não entendi.
- Cores Astrogildo, CORES! – grita com fúria a mulher. - homem burro, suspira.
Astrogildo volta ao texto, às palavras escritas, interpretação de texto e leitura nunca foi seu forte, então soletra as palavras com o movimento silencioso dos lábios, denunciando sua péssima visão, o que indica que precisa de óculos.
- Astrogildo isso não configura crime?
Astrogildo não responde, parece não entender o que leu quando seu filho entra no quarto e desvia sua atenção.
- Meu amor, Melissa se dirige a criança, mamãe e papai estão tendo uma conversa séria. Diga a verdade à mamãe.
O filho a olha meio receoso sem saber o que fazer.
- Heitor, como são as aulas de arte filho? Não precisa ter medo da mamãe.
A criança insegura demonstra medo ao gaguejar as palavras.
- É que... É que... São palavras apertadas.
- Filho, fala pra mamãe sem medo. Se mentir ou chorar, serei obrigada a brigar com você e pegar a varinha da domesticação para ti ensinar a me respeitar e sempre dizer a verdade para a mamãe e o papai.
Heitor olha para o vazio, tentando lembrar-se de algo.
- Heitor, insiste sua mãe, fala pra sua mãe, fala. Eu te amo filho.
- Tu sabes que essa história de amor materno está com os dias contados, não sabe? Astrogildo, ainda irritado pelas cobranças da mulher intervém com uma cutucada no ego feminino de Melissa.
Melissa finge não ouvir o companheiro, dessa vez o ignora. Encara seriamente o filho iniciando uma perseguição com seus olhos grandes e verdes os do filho, azul acinzentado, que, tentam escapar dessa perseguição desleal e implacável da mãe.
- Filho... As palavras quando saem da boca da mulher, imbuído de ameaça, sugere que o tempo do menino lhe contar a verdade está acabando.
- Então ta! Eu te dei uma chance e você não aproveitou. Vamos já para seu quarto e vou te ensinar com a varinha da domesticação a obedecer à mamãe e papai. Vamos já! – Melissa segura o filho pelo braço fino e alvo, quando resolve mais uma vez insistir na fala que fez anteriormente. Se não falar será obrigada a cumprir com as ameaças. O coitadinho gagueja e quase não respira mais.
- É que... É que... O professor pediu para não falar pra ninguém.
- Falar o que filho? Conta. Calmamente a mulher se abaixa, e olha bem nos olhos do menino que foge mais uma vez. Tu deves saber que se não contar pra mamãe e o papai sobre o que é ensinada na escola a gente pode até ir preso e você vai ficar sozinho no mundo, e depois, vão te mandar para um colégio interno, e mais depois vão te dar para outra família e nunca mais vamos nos ver. É isso que você quer é?
O menino ainda reluta, porém, acuado, sob ameaças diversas próximas a serem cumpridas expõe, sem outra opção o que foi combinado entre a classe e o docente de arte.
- É que o professor pediu pra não contar a ninguém o que ensinou a turma. Sufocado com a pressão sofrida deixa escapar tudo de uma única vez.
- Não! Eu sou sua mamãe, não pode mentir pra mim – agita o dedo indicador, em riste, demonstrando que não aceita mentiras nem segredos. A criança coça a cabeça nervosamente.
- Heitor!  - prossegue a mãe – não coce a cabeça assim. Você não tem piolho! E nem chore, por favor. Você já é um homenzinho e homem não chora.
- Você já viu o papai chorar meu herói grego? – comenta Astrogildo.
- Viu papai não chora. Completa Melissa com um tom de voz aveludada, sem deixar de ser afirmativa deixando a criança sem alternativa. – Heitor? Você quer que eu force a você dizer?
Heitor então se desmancha em lágrimas. A mãe o segura pelo braço outra vez, aperta, firmemente, deixando a marca de suas unhas no menino. E áspera, pela irritação que só aumenta explode na voz entre os dentes.
- Ei! Eu nem bati em você ainda. – nova ameaça faz a criança soluçar de medo, tentando engolir o choro.
- Esses desenhos aqui são proibidos. Astrogildo parece agora entender a preocupação da mãe. Que o olha insinuando um “agora tu entendeu seu idiota?”
- Ele mostrou na aula fotos de muitos arco-íris, muito colorido, também... Também... É... Ensinou sobre cores - Heitor vai enumerando com os dedos, como se estivesse contando - ensinou também as cores...  Cores primárias; e que a Terra é redonda também - Melissa espantada, melhor, aterrorizada, arregala os olhos com a mão enfrente da boca (segurando o que não quer falar!) exprime o sentimento de não acreditar no o que está ouvindo.
- Minha nossa senhora. – exclama Melissa.
- Vou ligar para essa escola já! – indignado Astrogildo resolve tomar uma atitude. Enquanto termina de se arrumar demonstrando na velocidade de seus atos e na testa franzida o limite de suas paciência e resignação. 
Enquanto isso Melissa continua a folhear o caderno do filho. Sentada no chão seu rosto expressa os absurdos que encontra.
- Olha isso aqui gildo. – Melissa levanta-se chorando de indignação, frustração e desespero pela forma a qual está sendo educado seu filho. Sente impotência perante este acontecimento. Continua. – são cores primárias, secundárias e terciárias. É preciso fazer alguma coisa. Seu choro é reflexo de sua falta de responsabilidade com seu filho nesses últimos meses. Sente a culpa pesar-lhe pela ingerência de seu ato. – A culpa é nossa gildo, nossa. Murmura para o esposo. Esse choro é de vergonha. Vergonha por faltar com a responsabilidade que é um direito de todo o cidadão.
- O planeta Terra pintado de azul. Olha a outra folha. Vira a página do caderno bem devagar enquanto as lágrimas escorrem por seu delicado rosto – olha.
- Minha mãe da madrugada. Astrogildo exclama como se fosse algo violento.
Melissa horrorizada olha nos olhos do esposo, dos seus correm lágrimas.
– Foi nossa culpa gildo. Arruma o cabelo, limpa as lágrimas do rosto com as mãos parecendo ter se transformado em outra pessoa, liga logo gildo, liga. Rápido homem.
- vou contratar um advogado pra processar esse filho da puta e a escola, a se vou!
- liga e denuncie esse subversivo aliciador de crianças. Tem o 917 para fazer a denuncia. Podemos até receber uma recompensa patriótica. Será que ele não sabe da Lei dos costumes?
- Não sei – disse Astrogildo – Mas vou desmascarar este filho da puta corruptor de menores. Calça os sapatos, quando se levanta para procurar as chaves do carro e sua bolsa ainda disse – esse deve ser até “veado”, pra falar de arco-íris. A Lei Anti Homofobia prevê punição contra essas imundícies.
- Entrega-o lá no partido amor. A escola também. Quem sabe você não ganha status lá e é promovido? – Melissa tem muita ternura na voz agora o trata com amor. Sabe que isso pode ser sua ascensão social? – e chora.
- Já pensei nisso. Responde a ela Astrogildo.
- Olha isso amor, olha. Parece carregar de doçura sua voz.
- Tem mais?
- Veja querido.
Astrogildo olha. Balbucia a leitura soletrando.
- Olha que filho da puta!
- Que audácia. Isso é um ato de traição. Ao pronunciar essas palavras Melissa se vira e empurra o filho para fora do quarto, como se fosse um cão, com desdém. Vai filho vai!
- Por essa eu não esperava. Enquanto Astrogildo exclama com indignação o que lê, Melissa se despe, deixando seu vestido cair no chão, agora nua olha sensualmente para o marido, depois caminha até um guarda- roupas e se enrola em uma toalha para ir ao banho.
- Se você denunciar esse depravado, Melissa pronuncia docemente e cheio de malicia no pé do ouvido de Astrogildo – vou te dar um presente quando voltar à noite. Mostra seus dentes alvos e olhos encantados.
Astrogildo parece indiferente, enquanto percorre com seus olhos fugindo da mulher ao caderno do filho. Não sente mais nada pela esposa já há muito. Só indiferença.
- Ouça só uma coisa dessas, Melissa – prossegue Astrogildo com o caderno na mão – escute, é o que está escrito aqui que vou ler pra você: “Nem sempre a bandeira do Brasil foi tão cinza e triste. Apesar do apoio das classes dirigentes nas antigas cores, e pelo uso indiscriminado dos dois lados da população, pobres e ricos, capitalistas e socialistas, foi determinada a mudança de cores para a bandeira Nacional: branco e preto. Sendo, mesmo assim, negado por boa parte da população demonstrando, através de protestos de rua a indignação.
A bandeira Nacional era muito mais bonita do que a de hoje, triste e sem vida, pois, as fascinantes cores vivas, que a alegravam, o verde, o amarelo, o azul e o branco serviam somente para lembrar ao povo, as minorias, as classes trabalhadoras e subalternas que a vida foi e deve ser mais democrática, tanto quanto e como foram às diferentes cores que já a ilustrou.
O verde das florestas, que já não existe; o amarelo do sol, ou o ouro que custou tantas vidas; o azul do céu límpido, do mar ou das Araras por qual ficaram conhecidos o país; e por fim o branco espumoso do mar, as nuvens, a pomba da paz, e, como alegam as classes dominantes, a pureza de cor da pele, alva, da higienização social. Hoje a bandeira é um horror”.
- Nossa! Como é que você conseguiu ler isso tudo, amor? – saída do banho, enrosca-se na cintura do marido, esfregando seus seios e cochas nele, provocando-o.
- Não sei, acho que é raiva. Estou até com dor de cabeça depois dessa. Disse Astrogildo. Desvencilhando-se da mulher, que faz cara de não entender por que não aceita mais seus apelos. Caminha até a porta, e ao sair decide falar uma última coisa – Vou ao trabalho e pelo caminho faço o que tenho de fazer, é direito nosso denunciar esse subversivo. Não podemos ser tolerantes com essa corja.
Melissa agora só, e o filho a esperar por ela na cozinha se resigna e parece abatida pela rejeição de seu marido os seus encantos e pedidos.
FIM.                           Primavera/Nov./2019.

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...