sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O MISTÉRIO DA CACHAÇA.


O MISTÉRIO DA CACHAÇA.
            É um pequeno bar que tem seu Sérgio. Pequeno mesmo. Bem à frente de seu quintal na divisa do muro com a calçada. Naquele pequeno espaço que construiu cabem ele, seu Sérgio, e muito mal mais alguém, deve ter uns dois metros por um, por ai. No atendimento geralmente ficam seu Sérgio, a esposa, de vez em quando, e algumas vezes, não raras, assume a filha do casal o atendimento, Lais. Então, são nesses dias quando mais aparecem fregueses. A menina, quase moça, está desenvolvendo os adjetivos que a farão mulher. Sua beleza já chama a atenção dos marmanjos que ali passam e ficam para beber. As curvas da moça atraem cada vez mais gente na birosca de seu Sérgio. A menina anda tirando muita gente do sério. Sabida, finge não ver as butucas que pousam em sua beleza. Contudo, até hoje, ninguém ali, apesar de bêbedos, não lhe faltaram com o respeito.
            O bar é minúsculo mesmo, mal permite se movimentarem no reduzido espaço de dentro, difícil fica alcançar as bebidas ou os copos em prateleiras que seu Sérgio mesmo montou. Do balcão para fora à três mesas com dois bancos cumpridos de cada lado. tudo bem rústico. Essas mesmas mesas são protegidas das intempéries por um puxado de telha que seu Sérgio construiu avançando calçada à fora. Cobriu com telhas e sua filha, Lais, foi quem o ajudou.
            Vende basicamente cachaça, licores, cigarros “importados” e alguns salgados caseiros feitos por sua esposa. Contudo, o que mais sai é a caninha. Tem ali em um canto, já minúsculo, uma pequena pia onde lavam os copos e uma prateleira acima onde um rádio anima as horas passadas no bar.
            O problema de seu Sérgio é que o bar não anda muito lucrativo para sustentar mulher e filha. Precisa mudar a estratégia.
            Seu Sérgio trabalha desde os onze anos de idade, quando iniciou com o padrasto, mestre de obras, a profissão de pedreiro, então, seu Sérgio como ajudante. Já aos vinte e um tornou-se mestre de obras, dos bons, sempre trabalhando sozinho. Assim construiu aquela casa. Agora, aos cinqüenta e quatro anos, uma hérnia de disco o impede de trabalhar em sua profissão, por isso decidiu abrir o bar, na tentativa de sustentar a família. mas antes vamos falar mais um pouquinho da vida de seu Sérgio e família.
            Correm alguns boatos de que seu Sérgio não é o pai de Lais, a bela filha. Entretanto, ele é o pai biológico da menina, apesar de sua feiura, de Sérgio, como dizem os amigos e fregueses do bar. Quem realmente não é a mãe biológica da moça é  dona Inácia. Sua mãe, a verdadeira mãe de Lais, era uma prima de Inácia que teve um caso com seu Sérgio antes dos dois se juntarem. A verdadeira mãe de Lais queria “conhecer” um homem e, contrariando as arbitrariedades de seu pai que a mantinha presa em cabresto curto, se entregou a Sérgio, depois de fugir de seu quarto numa noite no meio de uma tempestade. Pulou a janela, de seu quarto e depois o de Sérgio, que morava a meio quarteirão da casa dos pais da moça, enfim, entregando-se ao rapaz. Claro, tinha umas trocas de olhares, de cartas, e essas coisas de antigamente, sinalizando o desejo dos dois e suas intenções.
            Seu Sérgio fez questão até de casar com a moça, Camila, ficando decidido assim, porém, a vida não sorriu para a jovem, que veio a óbito no parto de Lais. Por um tempo seu Sérgio ficou sozinho com a menina. Todavia, como homem não se demora muito em luto, diferente das mulheres, logo, casou com Inácia decidida a sair de casa também. Advertida pelo pai inconsequente de que a mataria ou a venderia a um prostíbulo qualquer se fosse viver com Sérgio, que o homem odiava, cumpriu com a segunda opção, vendendo-a a um dono de bordel na cidade, de onde Sérgio a resgatou, no mesmo dia, após muitas ameaças de facas e armas prontas para ceifar vidas. Nem esquentou no lugar dona Inácia.
            As coisas andam meio difíceis agora, porém, em tudo se dá um jeito. Sérgio andava comprando suas bebidas nos mercados de bairro, pois, as distribuidoras exigiam notas para provar na contabilidade seus fluxos de caixa e para isso é preciso cobrar dos comerciantes. Toda a burocracia que conhecemos, e quanto mais, não enxergam vantagens em vender pequenas quantidades de bebidas, muito menos dar descontos a Seu Sérgio. O que está dificultando seu negócio.
            Há alguns meses seu Sérgio bolou um plano depois que ouviu uma história engraçada de um freguês. Dizia ele que seu tio conhecia um amigo, que conhecia o irmão de outro amigo que fazia umas loucuras que todos nós ficamos sabendo assim: um que é amigo de outra pessoa, e que é amigo de outro e conhece através de um irmão de um conhecido seu! O protagonista de um acontecimento absurdo ninguém conhece pessoalmente. Essa história tem relação com a solução que seu Sérgio se deparou para “baratear” o seu estoque de bebidas.
Bem, esse sujeito, o tal amigo, solucionou o seu vício no alcoolismo bebendo as caninhas que encontrava nas oferendas para os Orixás das religiões afros. Sem nada dizer aos amigos e parentes servia-os com as bebidas destinadas aos santos. Também bebia é claro, não dá para não acompanhar. Um dia, dizem as más línguas, ninguém sabe a verdade, pois a origem, o verdadeiro acontecimento passou por muitas bocas até alcançar seu Sérgio, que tem, sempre, o pé atrás com essas fofocas de bar. O tal ladrão de caninha, contaram, foi avisado a não furtar mais os despachos, roubar cachaça das entidades,um dos convidados que bebiam juntos as pingas roubadas incorporou uma entidade orixá na sala advertindo-o, na frente de todos, a não repetir mais os furtos. O que aconteceu depois? Ninguém sabe. Muitas vezes inventam coisas...
Voltando a Sérgio, esse então planejou os detalhes. A mulher, estranhou quando ele começou a sair de carro depois de fechar a birosca. Primeiro achou que tinha uma amante, nada disse, ficou por um tempo chateada com a situação, porém, entendeu que não era mais tão atraente para o marido e aceitou resignada. Entretanto, percebeu que Sérgio retornava com o carro cheio de garrafas e bebidas para o bar. Quando começava a faltar nas prateleiras, saía e retornava com o carro e garrafas. Sem coragem de questionar o marido, Inácia levou suas frustrações e curiosidade a filha, indagando-a com suas duvidas.
- Lais?
- Oi mãe.,
- Ôh, minha filha, o que ta acontecendo com o seu pai?
- O que tem o pai?
- Ele anda estranho.
- Como assim?
- Sei lá! Sai de carro depois de fechar a birosca e volta bem tarde.
- Tu estás desconfiada dele? 
-Será que ele tem outra mulher?
- Ora mãe!
- Também acho que não. No começo até que sim... mas vi que não era.
- Então é o que mãe? Pior que isso... dá de ombros a filha do casal.
- Ele volta com o carro cheio de bebidas.
- Ué! Pergunte a ele. Quem sabe não vai buscar em alguma distribuidora?
- Essa hora da noite filha?
- Ué? Da de ombros outra vez.
- Filha? Será que seu pai está comprando bebida roubada?
- Não sei mãe, pergunte a ele. – exclama irritada a menina.
Nada mais diz.
Passam semanas, a pulga atrás da orelha de dona Inácia vem incomodando cada dia mais, resolve então, engolindo seco, tomar coragem e intimar o marido. O lucro aumenta no bar e Sérgio parece mais contente, é a chance de questionar o que está acontecendo. Além da preocupação tem a curiosidade guiando sua vida nesses últimos meses. Confronta o marido.
- Sérgio? O que está acontecendo hem?
- Do que estás falando mulher?
- Não gosto de me intrometer em seus assuntos, mas, já faz tempo que você sai, nas segundas- feira, nas sextas e sábados e retorna com o carro cheio de bebidas.
- E o que tens?
- Onde você anda arrumando essas bebidas Sérgio? Pelo amor de Deus homem! É roubada? Bebida roubada? Por favor, Sérgio. Tu tens família e não pode deixar a gente na mão. Já pensou se você é preso homem? O que vai ser de sua filha? Pensa nisso.
Sérgio nada diz. Faz um movimento quase imperceptível com a cabeça, negativamente.
- Por que você não diz nada Sérgio? É coisa errada? É uma promoção em Supermercado?
Lágrimas derramam dos olhos de Inácia, que emudece.
- Só lhe direi uma coisa, mulher - resolve falar – na verdade três coisinhas visse? Primeiro: nunca comente sua desconfiança na frente dos fregueses; segundo: está sendo mais útil a mim, ou a nós, do que de quem foi tirado; e terceiro: não queira nem saber.

                                               FIM.      





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