sexta-feira, 31 de janeiro de 2020


A BATER NA PORTA.
            - Maurício? Maurício? Tu estás aí?
            Bate duas vezes. Aguarda, silenciosa e ansiosa, a espera de algum som de dentro do apartamento quatrocentos e três, qualquer coisa, uma resposta, um sim, um não, um vai embora, porém, nada.
            - Sou eu a Cíntia. Abre a porta Maurício – espera – seu irmão me disse que estavas aqui. Maurício?
            Cíntia veio decidida a resolver sua vida. Espera. Não irá desistir tão fácil.
            - Olha só, a Bruna, nunca gostou de você. Diferente de mim. Maurício?
            Sua voz tem um que de desespero, choro, algo preso em sua garganta.
           - Por que tu me tratas assim Maurício? Porra. Aquela metida não merece você – ali na porta permanece esperançosa. O número quatrocentos três, exposto em uma pequena placa de madeira preso a porta, identifica o apartamento que tanto frequentou no passado. Cíntia trás ao ombro uma bolsa tira colo chilena, que comprou quando visitava o Chile, seus cabelos longos e negros, contrasta com a pele alva, com as sardas e olhos verdes. A maquiagem começa a desmanchar, devido as lágrimas que não mais consegue conter.
            - A Bruna ti odeia Maurício. Ela nunca nem falou com você e lhe xinga o tempo todo. Ela não gosta de você. Não se importe mais com ela Maurício. Eu... eu...
            Nada.
            - Por que você não me responde Maurício? Sei que está aí dentro – aguarda uma resposta.
            Nada. 
         – Maurício? Maurício? Sei que sou gordinha, não faço o tipo de mulher perfeita, mas, Maurício? Quem é que faz? Quando parece perfeita, ou se acha perfeita, não cabe no próprio Ego, e muitas das vezes é mal caráter.
            Bate, Bate, Bate na porta com força e a mão fechada de raiva. Arruma os cabelos jogando-os para trás demonstrando a angústia que sente minando às forças, seca, então, com os dedos, o rosto marcado pelas lágrimas e a maquiagem.
            - Sei que posso ti fazer feliz, Maurício. Você sabe que sempre fui apaixonada por você. – pausa - por favor, Maurício, me dá uma chance. Eu sei o que tu sentes. Eu também sinto isso, você me faz sentir o mesmo. E não me responde.
            Pausa novamente. Enxuga suas lágrimas, arruma os cabelos resistindo a vontade de ir embora, que controlada pelo orgulho e a razão quase a domina. Dá meia volta, perdendo a luta contra o ego, porém, para e resiste. Volta a se postar à frente da porta, outra vez. Tenta em vão controlar seus sentimentos. ao longe recomeça a falar.
            - Porra Maurício. Eu gosto tanto de você cara! Me dá uma chance vai? – nada. Sem resposta.
            - Sabe de uma coisa Maurício? Sabe? Tu és um cara muito cruel, viu? É um tremendo de um filho de uma puta, sabia? Insensível é o que tu és. Um filho da puta que deve se fuder mesmo – pausa, na voz, um engasgo de pranto – babaca, diz, entre soluços – é o que você é viu? Um grande de um babaca. E eu a palhaça. Mas eu mereço mesmo. Sou uma tola.
            As lágrimas que agora surgem são mais fortes, carregam para fora do peito soluços e um choro de dor. A porta fechada é a única resposta que recebe.
            - Maurício, por favor, cara! Maurício? Maurício? Só me diz, sim ou não. Maurício?
            Desiste, enfim. Quando resolve ir embora, angustiada, escuta um arrastar de cadeira, passos, um destrancar de porta que, afinal abre-se.
            - Maurício? Posso entrar? E o sol brilha distante no horizonte.
                                                           FIM.

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