O TREINADOR
Shandinho
enxuga o suor que verte de sua testa com as costas da mão direita. Esqueceu seu
lenço no vestiário quando do intervalo do jogo, então, pediu ao assistente que buscasse enquanto pensava numa solução para seu meio de campo.
Entre
tantos acontecimentos ruins parecendo persegui-lo nos últimos anos, o
assistente, prestativo e preocupado com a posição de risco do time, sua própria
e a do técnico, que desde sua chegada ao clube simpatizou com sua franqueza ao
falar e por ter lhe dado uma oportunidade, escorregou nas escadas, após levar uma garrafada na cabeça jogada pela torcida enfurecida com a campanha do time no campeonato. A garrafa atingiu em cheio, fazendo-o desequilibrar e pisar em falso
num dos degraus da escada de acesso para o vestiário. Está, agora, a caminho do hospital geral. Todo quebrado.
Os
últimos anos não foram nada bons para o Juventus da Barra. Desastrosa a
campanha neste ano, sem dizer que não há mais série para participar após esta a
qual está capengando e descendo pela ladeira. O glorioso Juventus dos anos de
1970 tem como principal rival da cidade o Leste. Hoje, esse adversário
encontra-se na série B, e o Juventus, conhecido como o bordô da Barra tem seus
dias contados ao rebaixamento da última série de um campeonato nacional que
seria a desastrosa série D.
Vexame.
desliza com as mãos pelos poucos cabelos que lhe restam como sinal de ansiedade (para não
dizer desespero).
Profissão
ingrata. Técnico de futebol.
Quando
mais jovem jogou muita bola. Pergunta a si mesmo como é que pode um cidadão se dizer jogador de futebol, e não ter a menor intimidade com a pelota? Não
sabe chutar de “três dedos”, não tem o domínio da “embaixadinha” e de cada dez
pênaltis acerta quatro no máximo. É desesperador o futuro do futebol.
Cansou
de gritar. É inútil. “Esses tapados não conseguem guardar posição em campo”,
cobre a boca com a mão para não dizer bobagens e o que pensa (conhece muitos
técnicos que caíram por menos do que isso), e o que pensa não deixa de ser verdade. Tem um "perna de pau" e esse ainda, é chamado de craque do time!, pelo amor de
Deus.
O
suor verte da testa em litros, como uma bica. Anda preocupado já há alguns
dias. Sua demissão deve estar na mesa do diretor de futebol esperando somente o
fim do jogo. Pelo andar da carruagem, deve ser hoje.
Profissão ingrata.
Profissão ingrata.
O
primeiro culpado pela campanha ridícula e de sucessivas derrotas sempre é o
treinador. Na ciranda do futebol e no dançar das cadeiras o primeiro a cair é o
treinador. Com a ponta dos dedos coça a testa pensando no que fazer. A cada
erro de passe dos jogadores, e como erram!, o faz perder mais e mais a
paciência. E a torcida perde junto. No último jogo Shandinho já saiu do estádio
sob vaias furiosas, cuspidas, garrafadas, palavrões do mais baixo calão,
direcionados a ele e a sua mãe, que não tem nada a ver com as constantes
derrotas.
Profissão ingrata.
Profissão ingrata.
Quando
adentrava em campo, como jogador, não que era aquele craque destinado a fazer história nos clubes por qual passou, porém, dedicava-se o máximo.
Foi sim, algumas vezes, por vários clubes, campeão nacional, três ao total, duas
na série B, estaduais, levou oito, e a mais difícil e suada, exigindo rigor
máximo e entrega total: à campanha da Libertadores.
Sempre discreto, tinha um papel importantíssimo nos esquemas de jogo que nunca é reconhecido, apesar
da posição tática em campo, guardava e muito bem, sem o uso de atos extremos
como faltas de hoje, essas chegam a ser verdadeiras agressões. Hoje, esses “tocos”
não sabem o que é tática.
Nunca foi reconhecido por comentaristas de futebol, que tem lá sempre seus favoritos. Nunca foi de pagar almoço pra essa gente interesseira, mesquinha e talvez vem daí essa falta de reconhecimento. Dá de ombros. Poucos o gabavam, em geral os que entendiam a importância tática de sua posição nas partidas. Há muito ego nesse meio, preferindo ficar por trás da cena.
Nunca foi reconhecido por comentaristas de futebol, que tem lá sempre seus favoritos. Nunca foi de pagar almoço pra essa gente interesseira, mesquinha e talvez vem daí essa falta de reconhecimento. Dá de ombros. Poucos o gabavam, em geral os que entendiam a importância tática de sua posição nas partidas. Há muito ego nesse meio, preferindo ficar por trás da cena.
Um
dos poucos a elogiar seu futebol, dirigindo-lhe importância tática, trabalhava
em um grande jornal desportivo de tiragem nacional dizendo que o seu futebol e a sua força de vontade o tornavam o principal jogador do time em que foi campeão do
continente, no esquema tático proposto pelo técnico, o já falecido
“Mendoncinha”. O jornalista correu o risco afirmando ainda, que nos últimos trinta anos
não houve jogador como ele, e mais, era melhor do que qualquer um naquela posição, na Europa, ou no Brasil. O coitado foi
estrangulado, martirizado e crucificado pelos companheiros de profissão após
essa polêmica. como havia dito antes: o jornalista trabalhava num grande jornal esportivo.
Nunca
conseguiu agradecer esses elogios pessoalmente. Profissão ingrata.
Como podem esses pernas de pau não conseguirem dar um passe de trinta metros? Shandinho não acredita. E ainda ganham o triplo do que recebia em sua época. O pior de tudo é ter de recomeçar em outro lugar. Desempregado não fica, e tem sua aposentadoria como jogador, isso lhe garante, ao menos, os estudos da filha. Faculdade de Educação Física.
Sente
a garganta seca. Sua voz rouca já não sai mais de tanto gritar. “Um dia ainda
morro de infarto”, pondera, “ou sei lá do que!” Desespera-se. Desiste. Abre os braços. Fica a
beira do campo vendo seu time ser implacavelmente bombardeado com chutes
impossíveis de defesa. Contudo, o menino Andreas, goleiro, faz milagres com
defesas mágicas. O menino é bom, e Shandinho já havia percebido isso logo no
primeiro treino que tivera com eles. Nos primeiros treinos a intuição de
Shandinho o fez olhar com “outros olhos” para o jovem goleiro. Vindo da base vislumbrou um futuro promissor ao garoto. Convidou até um
amigo, caça talentos, a assistir aos treinos. No fim da temporada ele vai
embora. Shandinho se sente bem ajudando aos outros. Boa sorte ao rapaz.
Tirando o menino
Andreas e um “meia” experiente, rodado, jogou em diversos clubes, mais experiência que
talento, já em fim de carreira. O resto?
Põe num saco que são restos. Suas mãos escorregam pelos cabelos molhados de
suor, parando na nuca, coça então em sinal de desespero. “É só tirar a bola dali!
Não é pedir muito.”
O
que mais o incomoda é que o primeiro a ser despedido é o treinador. Passam essas imagens de que o treinador é responsável pelas atitudes certas ou erradas dos
jogadores. Parece que fugir para noitada, não vir treinar no dia seguinte e jogar sem
preparo físico, sem treino, é culpa do treinador. Não conseguirem guardar
posição, ir ao campo adversário, voltar para proteger as costas dos que fazem a
primeira linha defensiva, ou atacar a bola ao invés de esperar que ela role sozinha
pra dentro do gol. Claro, é sempre culpa do treinador.
O
sentimento de incompetência parece criar uma dúvida, será mesmo que é minha a
culpa? Não pode ser. É muito fácil o que eles fazem, eu mesmo já fui jogador. É
só treino e confiança de que o respectivo atacante vai guardar sua posição,
estará na grande área!, então, levante a cabeça e olhe: está lá de costas para a
defesa; não ta correndo de costas pra bola, tabela com ele.
Ah, profissão ingrata.
Ah, profissão ingrata.
Deprimente. É o terceiro clube que passa neste ano. E ainda estamos em julho!, o time é o mesmo do começo da temporada. Os dirigentes também. Mudaram o técnico para ver se resolvia, nada. Quando pede a compra do passe de determinados jogadores, sempre envia três opções, a mais interessante é sempre a primeira, geralmente o que ocorre é a compra do terceiro, o pior, o mais barato também.
Passou por um clube que, por inconveniência e ética profissional não dirá o nome, mas, encurtando a história, foi obrigado a contratar o filho do gandula. Não que o rapaz fosse tão ruim assim, mas era divida de promessa do presidente do clube eleito com o apoio do gandula. Tem dessas coisas no futebol também, o que vocês acham?.
"Jogadores
arrogantes são os piores. Fingem simpatia e simplicidade na frente dos
microfones e câmeras, porém, a verdade é que não sabem falar
mesmo, só falam bobagens. Nos vestiários parecem crianças de tantas brincadeiras
infantis que ouço e testemunho."
Pensa
em Beatriz, sua esposa. Tem um coração enorme, e, não fosse ela, não sabe onde
estaria hoje. Coração igual ninguém tem. Esse é o segundo casamento de
Shandinho. Tem duas filhas com Mariléia, sua primeira esposa. Beatriz o ajudou
em tempos difíceis pelo qual passou, sem contrato, e ela mesma é quem pagava a
pensão das meninas pra Shandinho. Fez agora não tem jeito. Além de esposa é uma
grande amiga.
E o
jogo? Dez minutos com os acréscimos. Profissão ingrata.
Das arquibancadas brados chamando-o de burro,
burro, burro! Isso dói. Pede a deus que acabe logo esse jogo. Seu coração
parece ser triturado pela vergonha ao pensar em Beatriz e nas meninas. Volta à
atenção para o jogo novamente quando seu centro-avante recebe um passe do
goleiro, o menino Andreas, e sozinho dribla, zagueiro, o outro ao tentar
acompanhá-lo escorrega e por pouco não atinge suas pernas, agora vai, o goleiro
adversário abre os braços e “cresce” na frente do atacante, esse jinga, pra lá
e pra cá, dá um drible da vaca no goleiro, que tenta impedir, mas fica pelo
caminho, e, então, é só o centro avante e o gol, é entrar com bola e tudo!... Ele
decide fazer o pior: chuta a bola com todas as forças que ainda possui no fim
do jogo, e, ela, a bola, sobe, sobe, sobe e sobe... Um enorme silêncio toma
conta do estádio. Profissão ingrata.
Nos cinco
minutos que ainda restavam, o time visitante, o mando de campo era do Bordô da
Barra, fez um golaço, digno de um Pelé, Maradona, Ronaldinho, ou Messi. Driblou
três, tirou o goleiro da jogada com um giro inteiro no corpo e embaixo das
traves de calcanhar definiu a partida. Uma explosão de alegria toma conta do
estádio. Gritos, cantos, bandeiras. De outro lado xingos: burro! Burro! Burro!
1 x
0.
Profissão
ingrata.
Nos
últimos minutos, Shandinho senta no banco dos reservas e abraça o silêncio, calado,
sem expressão no rosto. Pensa apenas em Beatriz e nas crianças. Levanta, anda
com as mãos nos bolsos, às vezes abaixa a cabeça como se tivesse uma pedra a
sua frente e não quer tropeçar. Escuta seu nome gritado pela torcida seguido de
burro, burro, burro. A torcida não perdoa.
Shandinho
sob vaias e impropérios segue para o vestiário. Uma chuva de vaias. O jogo
terminou depois de dez minutos de confusão em campo, pois o centro-avante do
time adversário, após fazer o gol da partida, passou provocando a torcida do
Juventus com a mão em forma de concha no ouvido, e ainda atirou beijos para os
mesmos. Ai mexeu com todos. Profissão das mais ingratas.
Hoje
herói, amanhã vilão.
-
Oi.
-
Oi. Tudo bem?
-
Sim. Perdemos.
- É,
ouvi no rádio. Vamos superar. Pode fazer um favor pra mim?
-
Sim.
-
Passa na padaria e compre pão para o café?
-
Sim. Só?
-
Só.
-
Ta, em dez minutos estarei com vocês.
- Ti
amo. Beijos.
-
Também ti amo. Muito.
Essa
é a Beatriz.
FIM. Verão/ fevereiro/2019.
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