sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

O Treinador.





  O TREINADOR
Shandinho enxuga o suor que verte de sua testa com as costas da mão direita. Esqueceu seu lenço no vestiário quando do intervalo do jogo, então, pediu ao assistente que buscasse enquanto pensava numa solução para seu meio de campo.
Entre tantos acontecimentos ruins parecendo persegui-lo nos últimos anos, o assistente, prestativo e preocupado com a posição de risco do time, sua própria e a do técnico, que desde sua chegada ao clube simpatizou com sua franqueza ao falar e por ter lhe dado uma oportunidade, escorregou nas escadas, após levar uma garrafada na cabeça jogada pela torcida enfurecida com a campanha do time no campeonato. A garrafa atingiu em cheio, fazendo-o desequilibrar e pisar em falso num dos degraus da escada de acesso para o vestiário. Está, agora, a caminho do hospital geral. Todo quebrado.
Os últimos anos não foram nada bons para o Juventus da Barra. Desastrosa a campanha neste ano, sem dizer que não há mais série para participar após esta a qual está capengando e descendo pela ladeira. O glorioso Juventus dos anos de 1970 tem como principal rival da cidade o Leste. Hoje, esse adversário encontra-se na série B, e o Juventus, conhecido como o bordô da Barra tem seus dias contados ao rebaixamento da última série de um campeonato nacional que seria a desastrosa série D.
Vexame.  
 desliza com as mãos pelos poucos cabelos que lhe restam como sinal de ansiedade (para não dizer desespero).
Profissão ingrata. Técnico de futebol.
Quando mais jovem jogou muita bola. Pergunta a si mesmo como é que pode um cidadão se dizer jogador de futebol, e não ter a menor intimidade com a pelota? Não sabe chutar de “três dedos”, não tem o domínio da “embaixadinha” e de cada dez pênaltis acerta quatro no máximo. É desesperador o futuro do futebol.
Cansou de gritar. É inútil. “Esses tapados não conseguem guardar posição em campo”, cobre a boca com a mão para não dizer bobagens e o que pensa (conhece muitos técnicos que caíram por menos do que isso), e o que pensa não deixa de ser verdade. Tem um "perna de pau" e esse ainda, é chamado de craque do time!, pelo amor de Deus.
O suor verte da testa em litros, como uma bica. Anda preocupado já há alguns dias. Sua demissão deve estar na mesa do diretor de futebol esperando somente o fim do jogo. Pelo andar da carruagem, deve ser hoje. 
Profissão ingrata.
O primeiro culpado pela campanha ridícula e de sucessivas derrotas sempre é o treinador. Na ciranda do futebol e no dançar das cadeiras o primeiro a cair é o treinador. Com a ponta dos dedos coça a testa pensando no que fazer. A cada erro de passe dos jogadores, e como erram!, o faz perder mais e mais a paciência. E a torcida perde junto. No último jogo Shandinho já saiu do estádio sob vaias furiosas, cuspidas, garrafadas, palavrões do mais baixo calão, direcionados a ele e a sua mãe, que não tem nada a ver com as constantes derrotas. 
Profissão ingrata.
Quando adentrava em campo, como jogador, não que era aquele craque destinado a fazer história nos clubes por qual passou, porém, dedicava-se o máximo. Foi sim, algumas vezes, por vários clubes, campeão nacional, três ao total, duas na série B, estaduais, levou oito, e a mais difícil e suada, exigindo rigor máximo e entrega total: à campanha da Libertadores. Sempre discreto, tinha um papel importantíssimo nos esquemas de jogo que nunca é reconhecido, apesar da posição tática em campo, guardava e muito bem, sem o uso de atos extremos como faltas de hoje, essas chegam a ser verdadeiras agressões. Hoje, esses “tocos” não sabem o que é tática. 
Nunca foi reconhecido por comentaristas de futebol, que tem lá sempre seus favoritos. Nunca foi de pagar almoço pra essa gente interesseira, mesquinha e talvez vem daí essa falta de reconhecimento. Dá de ombros. Poucos o gabavam, em geral os que entendiam a importância tática de sua posição nas partidas. Há muito ego nesse meio, preferindo ficar por trás da cena.
Um dos poucos a elogiar seu futebol, dirigindo-lhe importância tática, trabalhava em um grande jornal desportivo de tiragem nacional dizendo que o seu futebol e a sua força de vontade o tornavam o principal jogador do time em que foi campeão do continente, no esquema tático proposto pelo técnico, o já falecido “Mendoncinha”. O jornalista correu o risco afirmando ainda, que nos últimos trinta anos não houve jogador como ele, e mais, era melhor do que qualquer um naquela posição, na Europa, ou no Brasil. O coitado foi estrangulado, martirizado e crucificado pelos companheiros de profissão após essa polêmica. como havia dito antes: o jornalista trabalhava num grande jornal esportivo.
Nunca conseguiu agradecer esses elogios pessoalmente. Profissão ingrata.

Como podem esses pernas de pau não conseguirem dar um passe de trinta metros? Shandinho não acredita. E ainda ganham o triplo do que recebia em sua época. O pior de tudo é ter de recomeçar em outro lugar. Desempregado não fica, e tem sua aposentadoria como jogador, isso lhe garante, ao menos, os estudos da filha. Faculdade de Educação Física.
Sente a garganta seca. Sua voz rouca já não sai mais de tanto gritar. “Um dia ainda morro de infarto”, pondera, “ou sei lá do que!” Desespera-se. Desiste. Abre os braços. Fica a beira do campo vendo seu time ser implacavelmente bombardeado com chutes impossíveis de defesa. Contudo, o menino Andreas, goleiro, faz milagres com defesas mágicas. O menino é bom, e Shandinho já havia percebido isso logo no primeiro treino que tivera com eles. Nos primeiros treinos a intuição de Shandinho o fez olhar com “outros olhos” para o jovem goleiro. Vindo da base vislumbrou um futuro promissor ao garoto. Convidou até um amigo, caça talentos, a assistir aos treinos. No fim da temporada ele vai embora. Shandinho se sente bem ajudando aos outros. Boa sorte ao rapaz.
         Tirando o menino Andreas e um “meia” experiente, rodado, jogou em diversos clubes, mais experiência que talento, já em fim de carreira. O resto? Põe num saco que são restos. Suas mãos escorregam pelos cabelos molhados de suor, parando na nuca, coça então em sinal de desespero. “É só tirar a bola dali! Não é pedir muito.”
O que mais o incomoda é que o primeiro a ser despedido é o treinador. Passam essas imagens de que o treinador é responsável pelas atitudes certas ou erradas dos jogadores. Parece que fugir para noitada, não vir treinar no dia seguinte e jogar sem preparo físico, sem treino, é culpa do treinador. Não conseguirem guardar posição, ir ao campo adversário, voltar para proteger as costas dos que fazem a primeira linha defensiva, ou atacar a bola ao invés de esperar que ela role sozinha pra dentro do gol. Claro, é sempre culpa do treinador.
O sentimento de incompetência parece criar uma dúvida, será mesmo que é minha a culpa? Não pode ser. É muito fácil o que eles fazem, eu mesmo já fui jogador. É só treino e confiança de que o respectivo atacante vai guardar sua posição, estará na grande área!, então, levante a cabeça e olhe: está lá de costas para a defesa; não ta correndo de costas pra bola, tabela com ele. 
Ah, profissão ingrata.

 Deprimente. É o terceiro clube que passa neste ano. E ainda estamos em julho!, o time é o mesmo do começo da temporada. Os dirigentes também. Mudaram o técnico para ver se resolvia, nada. Quando pede a compra do passe de determinados jogadores, sempre envia três opções, a mais interessante é sempre a primeira, geralmente o que ocorre é a compra do terceiro, o pior, o mais barato também. 
 Passou por um clube que, por inconveniência e ética profissional não dirá o nome, mas, encurtando a história, foi obrigado a contratar o filho do gandula. Não que o rapaz fosse tão ruim assim, mas era divida de promessa do presidente do clube eleito com o apoio do gandula. Tem dessas coisas no futebol também, o que vocês acham?.
"Jogadores arrogantes são os piores. Fingem simpatia e simplicidade na frente dos microfones e câmeras, porém, a verdade é que não sabem falar mesmo, só falam bobagens. Nos vestiários parecem crianças de tantas brincadeiras infantis que ouço e testemunho."
 Pensa em Beatriz, sua esposa. Tem um coração enorme, e, não fosse ela, não sabe onde estaria hoje. Coração igual ninguém tem. Esse é o segundo casamento de Shandinho. Tem duas filhas com Mariléia, sua primeira esposa. Beatriz o ajudou em tempos difíceis pelo qual passou, sem contrato, e ela mesma é quem pagava a pensão das meninas pra Shandinho. Fez agora não tem jeito. Além de esposa é uma grande amiga.
  E o jogo? Dez minutos com os acréscimos. Profissão ingrata.
 Das arquibancadas brados chamando-o de burro, burro, burro! Isso dói. Pede a deus que acabe logo esse jogo. Seu coração parece ser triturado pela vergonha ao pensar em Beatriz e nas meninas. Volta à atenção para o jogo novamente quando seu centro-avante recebe um passe do goleiro, o menino Andreas, e sozinho dribla, zagueiro, o outro ao tentar acompanhá-lo escorrega e por pouco não atinge suas pernas, agora vai, o goleiro adversário abre os braços e “cresce” na frente do atacante, esse jinga, pra lá e pra cá, dá um drible da vaca no goleiro, que tenta impedir, mas fica pelo caminho, e, então, é só o centro avante e o gol, é entrar com bola e tudo!... Ele decide fazer o pior: chuta a bola com todas as forças que ainda possui no fim do jogo, e, ela, a bola, sobe, sobe, sobe e sobe... Um enorme silêncio toma conta do estádio. Profissão ingrata.
Nos cinco minutos que ainda restavam, o time visitante, o mando de campo era do Bordô da Barra, fez um golaço, digno de um Pelé, Maradona, Ronaldinho, ou Messi. Driblou três, tirou o goleiro da jogada com um giro inteiro no corpo e embaixo das traves de calcanhar definiu a partida. Uma explosão de alegria toma conta do estádio. Gritos, cantos, bandeiras. De outro lado xingos: burro! Burro! Burro!
1 x 0.
Profissão ingrata.
Nos últimos minutos, Shandinho senta no banco dos reservas e abraça o silêncio, calado, sem expressão no rosto. Pensa apenas em Beatriz e nas crianças. Levanta, anda com as mãos nos bolsos, às vezes abaixa a cabeça como se tivesse uma pedra a sua frente e não quer tropeçar. Escuta seu nome gritado pela torcida seguido de burro, burro, burro. A torcida não perdoa.
Shandinho sob vaias e impropérios segue para o vestiário. Uma chuva de vaias. O jogo terminou depois de dez minutos de confusão em campo, pois o centro-avante do time adversário, após fazer o gol da partida, passou provocando a torcida do Juventus com a mão em forma de concha no ouvido, e ainda atirou beijos para os mesmos. Ai mexeu com todos. Profissão das mais ingratas.
Hoje herói, amanhã vilão.
- Oi.
- Oi. Tudo bem?
- Sim. Perdemos.
- É, ouvi no rádio. Vamos superar. Pode fazer um favor pra mim?
- Sim.
- Passa na padaria e compre pão para o café?
- Sim. Só?
- Só.
- Ta, em dez minutos estarei com vocês.
- Ti amo. Beijos.
- Também ti amo. Muito.
Essa é a Beatriz.

                                   FIM.                 Verão/ fevereiro/2019.

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