O
FAROLEIRO
O vento ruge pela noite encoberta de estrelas. A
ilha onde se localiza o farol não fica longe da costa. As luzes da praia piscam
com o movimento do mar e do ar carregado de maresia. Distante, sim, o bastante
para uma sensação saudosa esmagada pela solidão. O ar corrente, gelado e
molhado, varre um pensamento na direção da costa: Ofélia.
O que Ofélia faz por lá? Porque não voltou ou enviou noticias? O vento uivante é tudo o que obtém de resposta. Cobre as orelhas com o grosso casaco azul marinho e cerra mais ainda o gorro branco na cabeça. Enquanto o mar castiga pedras com fortes e explosivas ondas espumantes seu olhar se perde no passado, ao mesmo tempo em que o futuro o assalta com duvidas. São semanas que Ofélia foi visitar a mãe e não mais voltou.
Por quê?
O vento uiva. Grandes navios cruzam o canal entre a
ilha e o continente. Rápidas mudanças o esquivam desses pensamentos solitários.
A mudança na engenharia e grandeza dos navios o assusta. Na ciência dos
aparelhos eletrônicos de comando do farol e do rádio. Contudo, essas distrações
se dispersa na lembrança de Ofélia. Por que não voltou Ofélia? Ocorreu um
acidente? Por que ninguém veio me avisar?
Os marujos que chegam e saem da ilha o ignoram como
se não existisse. O faroleiro, cansado, ficou de fora das mudanças na
instrumentação. Sente-se perdido. Entra no prédio, questiona quem ali ocupa o
posto de faroleiro, quais ordens receberam, não obteve informações e instruções
de como manejar com esses novos instrumentos cheio de luzes coloridas, se
retornará a terra firme e quando. Até mesmo sobre Ofélia. Ignoram.
Nos últimos tempos tem evitado a sala do faroleiro.
Aborrecido caminha pelas trilhas da ilha encontrando-se, por fim, sempre no
pequeno cais de embarque ou desembarque protegido do vento e das ondas. Mesmo
Ofélia partiu dali. Quantos antes dela? Quantos depois? Muitas famílias. Os
faroleiros moram por meses ou anos com suas famílias nesta ilha do farol. Ofélia
partiu sem ele. Brigaram. Desentenderam-se. Ele não foi despedir-se dela. Entretanto,
uma carta ela deixou prometendo retornar. O velho faroleiro sentiu um amargo na
boca, arrependimento?
Do outro lado, luzes balançam. Piscam. Ondas explodem
do lado desprotegido da ilha avisando que o mar, mal-humorado, sofre de uma
grande ressaca.
Caminha pelas grandes pedras rumo à casa do
faroleiro. Tem a atenção dos cães que ali vivem com os marujos. As pessoas o
ignoram. Deixa escapar dos lábios alguns bons dias ou boa noite sem receber
retorno, nem olhar se quer. O que por fim mais o machuca é a falta de notícias
de Ofélia. Questiona aos que chegam. Nada. Aos que partem pede que a procurem e
enviem noticias. Nada. Escreveu cartas e nada.
O vento sopra, as ondas arrebentam contra os
costões que rodeiam a olha do farol espumando-se em líquidos paredões brancos. Fecha
mais ainda o casaco encolhendo-se dentro de si mesmo. Retorna ao quarto sabendo
que nenhum barco, com esse tempo, aportará por ali trazendo sua Ofélia de volta.
No centro de comando do farol informa ao marujo que lá se encontra que está se
recolhendo aos seus aposentos. Nem uma xícara de café quente lhe é permitido. Ignorado,
sai, depois de ler uma notícia em um jornal, interessado mesmo é a data que o
chama a atenção. Setembro de 2020. 2020?
Quando chega a seus aposentos confere, após acender
a lamparina a óleo, uma folhinha pendurada em sua parede caiada indicando o ano
de 1907. Estica-se na cama, vestido em seu pijama, arrastando na mente seus pensamentos
para Ofélia. O que estaria a mulher fazendo essa hora na casa de seus pais?
INVERNO/SET/2020.