quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O FAROLEIRO.

 

O FAROLEIRO

 

O vento ruge pela noite encoberta de estrelas. A ilha onde se localiza o farol não fica longe da costa. As luzes da praia piscam com o movimento do mar e do ar carregado de maresia. Distante, sim, o bastante para uma sensação saudosa esmagada pela solidão. O ar corrente, gelado e molhado, varre um pensamento na direção da costa: Ofélia.

O que Ofélia faz por lá? Porque não voltou ou enviou noticias? O vento uivante é tudo o que obtém de resposta. Cobre as orelhas com o grosso casaco azul marinho e cerra mais ainda o gorro branco na cabeça. Enquanto o mar castiga pedras com fortes e explosivas ondas espumantes seu olhar se perde no passado, ao mesmo tempo em que o futuro o assalta com duvidas. São semanas que Ofélia foi visitar a mãe e não mais voltou.

Por quê?

O vento uiva. Grandes navios cruzam o canal entre a ilha e o continente. Rápidas mudanças o esquivam desses pensamentos solitários. A mudança na engenharia e grandeza dos navios o assusta. Na ciência dos aparelhos eletrônicos de comando do farol e do rádio. Contudo, essas distrações se dispersa na lembrança de Ofélia. Por que não voltou Ofélia? Ocorreu um acidente? Por que ninguém veio me avisar?

Os marujos que chegam e saem da ilha o ignoram como se não existisse. O faroleiro, cansado, ficou de fora das mudanças na instrumentação. Sente-se perdido. Entra no prédio, questiona quem ali ocupa o posto de faroleiro, quais ordens receberam, não obteve informações e instruções de como manejar com esses novos instrumentos cheio de luzes coloridas, se retornará a terra firme e quando. Até mesmo sobre Ofélia. Ignoram.

Nos últimos tempos tem evitado a sala do faroleiro. Aborrecido caminha pelas trilhas da ilha encontrando-se, por fim, sempre no pequeno cais de embarque ou desembarque protegido do vento e das ondas. Mesmo Ofélia partiu dali. Quantos antes dela? Quantos depois? Muitas famílias. Os faroleiros moram por meses ou anos com suas famílias nesta ilha do farol. Ofélia partiu sem ele. Brigaram. Desentenderam-se. Ele não foi despedir-se dela. Entretanto, uma carta ela deixou prometendo retornar. O velho faroleiro sentiu um amargo na boca, arrependimento?

Do outro lado, luzes balançam. Piscam. Ondas explodem do lado desprotegido da ilha avisando que o mar, mal-humorado, sofre de uma grande ressaca.

Caminha pelas grandes pedras rumo à casa do faroleiro. Tem a atenção dos cães que ali vivem com os marujos. As pessoas o ignoram. Deixa escapar dos lábios alguns bons dias ou boa noite sem receber retorno, nem olhar se quer. O que por fim mais o machuca é a falta de notícias de Ofélia. Questiona aos que chegam. Nada. Aos que partem pede que a procurem e enviem noticias. Nada. Escreveu cartas e nada.

O vento sopra, as ondas arrebentam contra os costões que rodeiam a olha do farol espumando-se em líquidos paredões brancos. Fecha mais ainda o casaco encolhendo-se dentro de si mesmo. Retorna ao quarto sabendo que nenhum barco, com esse tempo, aportará por ali trazendo sua Ofélia de volta. No centro de comando do farol informa ao marujo que lá se encontra que está se recolhendo aos seus aposentos. Nem uma xícara de café quente lhe é permitido. Ignorado, sai, depois de ler uma notícia em um jornal, interessado mesmo é a data que o chama a atenção. Setembro de 2020. 2020?

Quando chega a seus aposentos confere, após acender a lamparina a óleo, uma folhinha pendurada em sua parede caiada indicando o ano de 1907. Estica-se na cama, vestido em seu pijama, arrastando na mente seus pensamentos para Ofélia. O que estaria a mulher fazendo essa hora na casa de seus pais?



INVERNO/SET/2020.

 

 

 

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...