TÍTULO:
JOANA E CAIO.
PERSONAGENS:
Joana
Caio
(A cena começa com um casal
entrando em casa. A mulher, Joana, entra primeiro, joga a bolsa no chão com desdém, deita em um sofá com um movimento de cansaço. Um homem entra
depois, Caio, esse serve bebida aos dois).
JOANA – Obrigada. Ah! Como é
bom beber para esquecer aquele papo moralista daquela gente medíocre. Sirva-me
mais amor, por favor. Quero diluir aquela conversa chata, irritante e perigosa
no derreter desse gelo e no embriagar desse álcool alucinante. Diluir o
moralismo burguês no sorver do álcool, entorpecente dos deuses, e me fazer esquecer daquela conversa fiada.
CAIO – Você e suas escapadas dramáticas! Sempre poética!
JOANA – Poesia, meu amor,
poesia: o que seria da vida sem o álcool e sem o amor pelas belas palavras?
CAIO – Viva o álcool!
JOANA – Viva a vida! A vida
vivida! E viver a vida não é se esconder atrás dessas máscaras sociais que
usamos todos os dias e o dia todo, é antes de tudo negar essa farsa do correr
atrás de algo inútil e que nos leva somente a desgraça da velhice e depois da
morte. Essa máscara do teatro do absurdo que é a vida e a encenamos todos os dias
como idiotas. Por que não podemos somente amar? Somente viver? Somente brincar e
namorar? Tomar banhos de mar?
CAIO – Viva o álcool!
JOANA – o pior de tudo é
aceitar calado o que dizem esses seus amigos, ouvir o que falam. Eu não engulo
aquelas conversas vazia de roupas caras, cartões de crédito internacionais,
viagens e escolas privadas para os filhos e roupas de grifes que são feitas por chineses
miseravelmente mal pagos e explorados a exaustão! Boçais! É o que são!
CAIO – Viva a vida! Viva o
álcool!
JOANA – Eu sei que você se
diverte com esses seus amigos, mas eu não consigo engolir aquele papo sem
graça, pobre de alegria e muita arrogância. Que mulherzinha chata! Ela olha
para minhas roupas com desdém. Ainda mais quando digo que compro tudo nas lojinhas
do centro.
CAIO – Viva a conversa pobre
de meus amigos! Lembre que também, essas roupas aí, são feitas por chineses ou bolivianos no centro de São Paulo.
JOANA – Você já reparou que
a mulherzinha do seu amigo não comenta e nem olha para as pinturas com nus? Ela
passa sem nem comentar, ainda mais quando são pinturas com negros? Vira a cara.
CAIO – Viva o puritanismo
dos ricos!
JOANA – Será que ela já viu
o marido sem roupa?
CAIO – Olha...
JOANA – Será que eles apagam
as luzes quando transam? Será que ela já pegou no pau duro do marido?
CAIO – Viva a curiosidade de
minha esposa!
JOANA – Minha mãe era assim,
Caio. Não podia aparecer ninguém nu nas novelas ou em filmes que ela já ficava
criticando e obrigava a gente, seus filhos e filhas a mudar de canal.
CAIO – Viva a minha sogra!
Que transformou minha esposa em uma pervertida. Quer mais bebida?
JOANA – Sim, claro, com gelo, por
favor.
(A Joana joga a sandália
longe, e Caio senta mais uma vez no sofá depois de servir a bebida à
mulher).
CAIO – O que seria da
humanidade sem o álcool?
JOANA – A bebida alcoólica
foi e é mais importante do que a religião.
CAIO – Será por isso que
eles são contra os alcoólatras?
JOANA – E contra o sexo?
CAIO – Viva o sexo!
JOANA – Todos nós, TODOS!,
sem exceções, só estamos vivos por causa do sexo. Eu não acredito que alguém
faça sexo sem aproveitar o prazer que ele proporciona. Do sexo sai à vida. O
prazer sexual é um incentivo a procura por ele, esse prazer é um estímulo à
reprodução, quem faria filhos se não houvesse um prêmio? O prazer, o gozo, e o
êxtase do prazer sexual.
CAIO – Olha...
JOANA – Só se for um
estupro.
CAIO – Viva ao prazer!
JOANA – Acho que a melhor
coisa do sexo é poder se despir sem pudor e gozar.
CAIO – Viva ao pudor!
JOANA – Tirar toda a roupa
(vai se despindo) e rir da vida. Rir das pessoas prisioneiras das grifes! Rir
do gozo! Rir de gozar!
CAIO – Viva as grifes!
JOANA – Eu me sinto livre
quando tiro a roupa. Quando tiro a roupa sinto que sai junto à máscara social da
mentira que tanto nos bloqueia. Os índios devem se sentir assim: livres. Ou
não?
CAIO – olha...
JOANA – Não?
CAIO – Eles vivem sobre
regras rígidas e condutas sociais que a gente nem imagina.
JOANA – Será? Mas, andam nu.
CAIO – Pode crer.
JOANA – Tenho as minhas
duvidas.
CAIO – Olha...
JOANA – Se eu me sinto
livre, sem roupas, acho que também devem se sentir assim.
CAIO – Olha...
JOANA – A verdade é que me
sinto bem assim. À vontade. Aonde vais?
CAIO – Vou pegar o violão.
JOANA – As pessoas precisam
livrar-se das máscaras e viver a vida. Não se preocupar com coisas pequenas e
com o que querem e não tem, não podem possuir então vira uma verdadeira tortura
o não possuir.
CAIO – Senhor piedade, e um
pouco de coragem... (retorna com o violão, de cueca, meias e meio cigarro na
boca).
JOANA – Aqueles seus
amigos...
CAIO – Nossos amigos.
JOANA – Não entendo como
podem ser felizes sendo prisioneiros de todas essas tolices chamadas de
costumes e regras sociais, de ser o mais rico, de ser o mais fotografado para
colunas sociais, de ser tudo, menos livres. (olha para Caio) Tira essas meias. Tá ridículo.
CAIO – Eles se dizem
felizes. (dedilha o violão). E lembre que temos tudo isso aqui (aponta em
redor) por que nossos pais viveram como eles. E trabalharam muito. E exploraram
muitos!
JOANA – Dane-se. Eu não pedi
nada disso. Caiu no meu colo.
CAIO - Então doe aos pobres!
JOANA – E nós já não fazemos
isso quando ajudamos a Maria a construir sua casinha? Quando pagamos um
cursinho para a filha dela estudar para o vestibular? Quando ajudamos os artistas nos sinaleiros?
CAIO – Misericórdia aos
ricos, Senhor! (levanta o copo de bebida para os céus).
JOANA – E se os hindus
tiverem razão quanto aos castigos cármicos que todos nós carregamos ou
acumulamos?
CAIO – É só não sermos
egoístas.
JOANA – E você acha que o
somos, amor?
CAIO – Não tanto quanto “os
meus amigos”.
JOANA – Eu não nego ajuda a
quem pede. No semáforo, nas calçadas e ruas. Nem todos tiveram a mesma sorte
que nós dois na vida. E não me venha com o papo de que estou alimentando o uso
de drogas. Pago almoço, e dou dinheiro a quem quiser. O dinheiro é meu! Não é o mesmo que pagar dízimos?
CAIO – Eu acho que fazemos a
nossa parte.
JOANA – Então tá. Eu estou
me sentindo bem assim. Muito bem. E você?
CAIO – Sim. Ainda mais
quando me classificam como alcoólatra.
JOANA – O álcool é mais
antigo que o moralismo burguês que rege a vida moderna.
CAIO – Misericórdia aos
alcoólatras, senhor!
JOANA – O que seria da
filosofia e do autoconhecimento sem o vinho que regava as ideias dos antigos
pensadores gregos nos seus banquetes?
CAIO – Não haveria o amor de
Sócrates por Alcebíades.
JOANA – Quem será que era a
mulherzinha naquele casal?
CAIO – Acho eu que era o Sócrates.
Ele era muito feio, segundo os relatos antigos ou, as más línguas, então seria
mais fácil pegar ele por trás para não o ver fazendo cara de dor. imagina?
JOANA – Você me acha feia?
CAIO – Não tão feia quanto o
Sócrates.
JOANA – Por isso gosta
quando eu te dou de quatro?
CAIO – Não. EU gosto de
pegar você de quatro.
JOANA – Ufa! Ainda bem.
Pensei que era feia como o Sócrates. Enche mais um pouco meu copo, amor, e põe
gelo.
CAIO – Eu gosto de você.
JOANA – Ainda bem. É bom
ouvir isso. Não sou uma pessoa tão fácil de conviver. Respeito seus amigos por
causa de você.
CAIO – Aleluia! Ouviu Deus?
Joana é uma boa pessoa.
JOANA – Você já transou com
outro homem como os antigos? Como Sócrates e o Alcebíades?
CAIO – Não falo de minhas
intimidades do passado, contudo, não.
JOANA – Sou a sua mulher!
Precisamos ser sinceros e verdadeiros um com o outro. Você já teve um falo
penetrando você? Como acontece comigo? Não pode mentir. Deus vê tudo e ouve
tudo e castiga também.
CAIO – (dedilhando o violão)
“Deus está atrás do armário, o diabo está em cima da cama. O que há de errado
com o meu coração?”
JOANA – Todo estudioso sabe
que regras e moralismos são invenções sociais de dominação. São mutáveis, o que
quer dizer que um dia mudam. Estão aí para serem quebradas.
CAIO – É que o namoro dos
dois era diferente.
JOANA – Não é o que parece
lá no Banquete de Platão.
CAIO – Não tenho atração por
outro homem.
JOANA – Nem vestido de
mulher?
CAIO – Não.
JOANA – E se eu aparecer
vestido com um terno masculino com um falo de borracha e pedir para te
penetrar?
CAIO – Só se eu estiver
muito, mais muito bêbado.
JOANA – E se eu te negar
amor, só deixando quando eu te penetrar com meu falo de borracha?
CAIO – Aí eu não vou ter
muita escolha.
JOANA – mmmm.
CAIO – Alcebíades, acho eu,
era a mulherzinha do casal.
JOANA – Só por que era o
mais jovem e bonitão?
CAIO – Talvez.
JOANA – Queria ver um desses
machões, esses coxinhas, intolerantes e bolsonaristas, dizer isso na cara dele,
que eram umas bichas e mereciam uma surra. Um herói grego e campeão olímpico!
CAIO – Seria interessante.
JOANA – Acho que esses
machões são todos gays, e ficam bem chateados de não ter um “pau duro”
penetrando eles por trás, para matar a “coceirinha” que sentem. Só o que falta
a eles é coragem de assumir e saírem do armário.
CAIO – Viva ao amor! Viva ao deus Príapo! Viva a coceirinha!
JOANA – Seus amigos
precisavam de muito álcool na vida deles.
CAIO – Eles iam se matar.
JOANA – Por quê? O que quer
dizer com isso amor?
CAIO – Por que não sabem
beber. (Dedilhando) “Eu bebo sim e vou vivendo tem gente que não bebe e está
morrendo”.
JOANA – É melhor não beber
mais. Daqui a pouco vou ter de te penetrar com a garrafa.
CAIO – E daí? O prazer vai
ser meu, ou a dor. Vai me negar isso?
JOANA – Viu? Eu sei que você
não é gay, mas não me negaria esse prazer de te penetrar. Acho que falta gelo
aqui no meu copo.
CAIO – Vou ligar para meus
amigos e dizer a eles que não sou mais amigo deles, que são uns ridículos e não
merecem mais a minha amizade.
JOANA – Não! Está louco? Ao
menos eles merecem a sua compaixão.
CAIO – Misericórdia Deus!
Misericórdia com um ateu! Terei compaixão com eles, senhor! Eles não sabem o
que fazem!
JOANA – O que o álcool não
faz.
CAIO – Ou a falta dele.
JOANA – Por isso os antigos
gregos bebiam, especialmente quando iam filosofar? Sábios gregos.
CAIO – Eu devo, é bem da
verdade, a esses meus amigos, muitos favores. Felizmente quando mais precisei,
eles me apoiaram, e muito, quando papai morreu.
JOANA – Claro! Queriam até
que você fosse ao A.A. para parar de beber. Que ridículo.
CAIO – Eu fingia que estava
frequentando, sabia?
JOANA – Sério amor?
CAIO – Sim, sério. Quando
descobriram me internaram.
JOANA – Tadinhos... Você
nunca me disse isso.
CAIO – Tu nunca me
perguntaste amor.
JOANA – Verdade. Como eles
foram capazes de fazer isso com você? Que amigos, hein?
CAIO – Eles pagaram tudo do
próprio bolso.
JOANA – Como as pessoas
podem ser tão cruéis assim? Bom, menos mal, antes eles do que eu ao pagar a conta.
CAIO – Levaram-me a força
até lá.
JOANA – Misericórdia!
CAIO – Misericórdia! (grita
com as mãos para os céus).
JOANA – E você amor?
CAIO – Quer mais? Gelo?
JOANA – Por favor.
CAIO – Sai de lá pela porta
da frente.
JOANA – Amor? Sério? (senta
no colo do marido). Por isso que te amo. (beija-o na boca).
CAIO – Assim eles impõem a
ordem burguesa na mesa de todos. Suas visões de mundo e de como a vida deve
ser. Como conseguiram sorrateiramente transformar o mundo impondo seus ideais.
JOANA – No tal do não-dito,
como você diz?
CAIO – Por ai.
Regulamentando sem doer muito.
JOANA – Mas a polícia bate
para criar ordem.
CAIO – Bate no “povo”, é
outro caso. Uma enorme massa sem rosto, sem vontade, sem voz, só com lombos e
costas! E braços.
JOANA – Entendo. Sem
vontade. Sem conversa.
CAIO – Você vê o caso dos
militares? Na ditadura, por exemplo, bateram nas pessoas erradas. Repressão
precisa ser sútil, em especial com as classes médias. Se a repressão fosse direcionada
somente ao “povo”, não vou dizer que não foi, foi e muito forte, mas
ideologicamente não parecia ser, mas se fosse só com o Zé povinho, as classes
médias não estariam preocupadas. O Zé povinho está aí, na ideologia das elites
e classes dominantes, para servir-lhes. Trabalhar para fazer a riqueza dos outros. O salário de miséria já os satisfazem. O lugar deles é esse na pirâmide social: cada qual no seu
lugar.
JOANA – E seus amigos? Onde
se encaixam?
CAIO – Eles acham que não
tem culpa, fingem serem inocentes, parecidos conosco, sem culpa no cartório.
JOANA – Mas eu me preocupo
com os outros. Ainda mais com os pobres.
CAIO – Você acha? E o que
fazemos para ajudar?
JOANA – Bem...
CAIO – Então tá retira o que
disse. Ouviu essa, deus? Retire o que disse de minha mulher.
JOANA – Eu gosto quando você
diz isso: “minha mulher”.
CAIO – “Minha mulher”.
JOANA – Já está bêbado,
amor?
CAIO – Claro que não! Falta
muito ainda.
JOANA – Que droga!
CAIO – Quer me furar?
JOANA – Quero te usar.
CAIO – Não sou um objeto seu
para ser usado e depois jogado fora.
JOANA – Não irei te jogar
fora, só vou te usar e depois deixar de lado para quando tiver vontade de novo.
CAIO – ah, bom! Se for assim
eu aceito. Entretanto, ainda não estou tão bêbado.
JOANA – Uma viva a Sócrates
e todos os filósofos gregos!
CAIO – Viva ao Baco
Dionísio! O mais importante dos deuses!
(Fecham-se as
cortinas)
FIM.