quarta-feira, 8 de agosto de 2018





IRMÃOS.
Personagens:
Irmão;
Irmã;
(A cena se passa em um quarto alugado de qualquer lugar da cidade de qualquer cidade)
IRMÃ – Irmão? O que aconteceu com você? Está todo machucado. Bateram-te ou você foi atropelado?
IRMÃO – Onde você guardou aquela arma que era do papai? (entra direto no quarto e começa a mexer nas gavetas de um armário)
IRMÃ – Do que você está falando?
IRMÃO – A arma. A arma que era de papai. Onde está?
IRMÃ – Por quê? O que aconteceu com você? Bateram em você?
IRMÃO – Cadê aquela arma? Cadê?
IRMÃ – Não vou te dizer se não contar o que aconteceu.
IRMÃO – É melhor você não ficar sabendo.
IRMÃ – Não irmão. Eu sou sua irmã e jurei que ia cuidar de você para mamãe.
IRMÃO – Eu não sou mais criança! Não vou te obedecer mais!
IRMÃ – E daí? Se você não é mais criança, tudo bem, mas eu jurei para mamãe que iria cuidar de você para sempre. Sou responsável por você. Diga logo o que aconteceu? Você não estava no sinaleiro?
IRMÃO – sim.
IRMÃ – te roubaram?
IRMÃO – Cadê aquela arma? Cadê? Vou te dizer. Aquele cafajeste do sargento Coelho levou tudo o que consegui hoje.
IRMÃ – Sargento Coelho? Mas...
IRMÃO – Eu estava lá no sinaleiro da Guaíra quando a PM parou e não quis saber. Chegaram chutando-me e me jogaram no carro, largaram-me lá na Estrada do Pico depois de me espancarem e me roubarem.
IRMÃ – Irmão? Isso tudo que você está dizendo é verdade?
IRMÃO – Por que você duvida de mim, irmã?
IRMÃ – O sargento Coelho já morreu faz cinco anos.
IRMÃO – Você está louca, irmã?
IRMÃ – Acho que ainda não. Irmão? Você tem tomado seu remédio?
IRMÃO – Sim! É claro.
IRMÃ – E você já tomou o remédio hoje?
IRMÃO – Já. Agora: onde está a arma?
IRMÃ – Não irmão, não.
IRMÃO – Eu vou acabar com isso agora. Cadê a arma? Irmã? Eu não posso mais passar por esta humilhação. Só por que somos pobres e negros não podemos mais aceitar isso, irmã. Levar bordoada e não reagir. Chega. Chega!
IRMÃ – A vida é assim mesmo irmão.
IRMÃO – Não, irmã, não! Não podemos ser tratados como cães! Eu não tenho culpa de ter nascido preto e pobre e por isso não vou aceitar viver assim.
IRMÃ – Não irmão, não. Pela memória de nossa mãe, não, por favor!
IRMÃO – Cadê a arma?
IRMÃ – Irmão, não lembra mais o que mamãe nos dizia? Tanto que ela pediu para nos tornarmos pessoas boas, honestas, nunca roubar, mentir, enganar, mesmo que com isso dependesse a nossa vida, a nossa fome. Sempre trabalhar, sempre.
IRMÃO – E não é só isso o que faço na vida, irmã? E você sabe mais do que ninguém, irmã, o quanto eu tento fazer isso todos os dias de minha vida, mesmo que ninguém me dê um emprego com carteira assinada por que tomo meus remédios e acham que sou louco. Eu nunca roubei nada de ninguém, nunca! Mas o que eu recebo em troca? Pancada!
IRMÃ – E você acha que eu também não levo porrada lá cuidando da Saionara? Tu sabes muito bem que mamãe levou muita porrada na vida até de nosso pai ela aguentou muita humilhação e porrada por nós.
IRMÃO – Cadê a arma? Eu vou matar aquele desgraçado.
IRMÃ – E isso vai te levar aonde? Ao que? É loucura, irmão. Ai desculpe, não foi isso que eu quis dizer.
IRMÃO – Que sou louco? É isso que quis dizer? Eu sou louco sim irmã, e eu sei muito bem disso, por isso tomo remédios para louco. Por isso não consigo emprego. Por isso estou todos os dias lá no sinaleiro fazendo o que posso fazer: malabarismo com bolas e tochas. Agora me diga, irmã: o que tem de errado nisso? Estou ganhando a vida da forma que posso, honestamente, mas todo trabalho decente precisa ser dentro de uma fábrica para ser considerado honrado? Precisa para ser honesto? E quem diz que precisa ser assim?
IRMÃ – Não ligue para essas coisas, irmão.
IRMÃO – Eu ligo sim irmã, ligo, pois me espancaram por isso. Não sou digno de respeito por que trabalho em um sinaleiro? Um catador de papel não é digno por que cata papel? Um coletor de lixo não é digno por que recolhe o resto dos outros? Somos menos dignos que um soldado que só serve para matar pessoas? Para acabar com sonhos? Para acabar com a felicidade?
IRMÃ – Somos sim irmão somos dignos de respeito. Enquanto honrarmos a memória de mamãe, fazendo o mínimo do que ela nos pediu nunca roubar, não tomar o que não nos pertença e tudo o que conseguirmos é pelo nosso suor, estará sim irmão, honrando a memória de mamãe e de tudo por que ela sofreu e passou por nós.
IRMÃO – E o que nós temos? Um barraco na favela!
IRMÃ – Olha aqui seu remédio, bebe.
IRMÃO – Não quero essa porra, eu já bebi.
IRMÃ – Mas eu quero que você tome. Agora!
IRMÃO – Você não manda em mim.
IRMÃ – Mando sim, senhor. Não lembra que mamãe pediu antes de morrer para eu cuidar de você?
IRMÃO – Mamãe já morreu! Está ouvindo?  Já morreu. E todas as promessas morreram com ela! Enxerga isso! Merda! Cadê aquela arma?
IRMÃ – Aquela arma eu vendi. Tem anos já. O próprio sargento a vendeu.
IRMÃO – Não fale o nome daquele desgraçado na minha frente!
IRMÃ – Você está se confundindo com as coisas irmão.
IRMÃO – Eu devia já ter feito como nosso primo, entrado para o tráfico.
IRMÃ – E aí? No que deu? Olha onde ele está hoje. No inferno!
IRMÃO – E nós também não estamos querida irmã? Tu não achas essa vida um inferno?
IRMÃ – Honestamente é melhor vivo do que morto!
IRMÃO – E eu cansei de ser o bonzinho. Cansei! Ninguém é bonzinho como a gente. Ninguém nem liga para a gente! E aí, por ser bonzinho é que estamos nessa merda. Sendo tratados como bonzinhos e honestos e vivendo de esmolas nos semáforos da vida e comendo pão com mortadela por três dias! E tu achas que alguém liga? Cansei!
IRMÃ – Não irmão, não.
IRMÃO – Como dizia nosso primo no tráfico quem compra é por que quer. Ninguém obriga ao viciado a usar drogas. Também é um trabalho honesto, apesar de ser ilegal. Só vendem como se fosse um comércio. O que tem de errado nisso?
IRMÃ – Não irmão, não, por favor.
IRMÃO – Lembra que ele dizia que quem subia aqui eram as filhas dos juízes? Filhos de empresários? De políticos? Até filhos de médicos e advogados? São eles mesmos quem fazem as leis. Proíbem as vendas, mas usam. Que mundo é esse, irmã? E nós temos que ser os bonzinhos?
IRMÃ – Não irmão, e no que deu a vida dele?
IRMÃO – E a nossa vida no que vai dar?
IRMÃ – Sente aqui irmão. Pense bem irmão, se acalme. Por favor, isso sente.
IRMÃO – Não dá mais pra viver assim, vou falar com o nadinho.
IRMÃ – Irmão não, eu não irei permitir. Você é o último homem de nossa família. É minha ancora. É meu sustento nessa vida, eu não vou aguentar. Depois que você se enrolou com a irmã desse marginal você mudou muito irmão. Não me ouve mais.
IRMÃO – Você deve se acertar com o Márcio, vai cuidar de sua vida com ele, vai ser feliz e me liberte dessa prisão que é a obediência a mamãe, ao passado que tanto me tortura.
IRMÃ – Não, não, não!
IRMÃO – Me deixe! Larga de mim! Esqueça-me para sempre!
(levanta e segue em direção a porta, quando sua irmã levanta também pega uma garrafa e acerta a cabeça do irmão que cai no chão imóvel)
IRMÃ – Eu não posso permitir que você saia de minha vida assim. Não vou permitir. Você é meu, só meu. Irmão? Irmão? Levanta irmão. Por favor, levanta irmão! Não! Eu te amo irmão! Eu te amo. Por favor, irmão. Não me deixe sozinha. Eu te amo.

                                                           FIM.                                       Junho, 2018.

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...