IRMÃOS.
Personagens:
Irmão;
Irmã;
(A cena se passa em um
quarto alugado de qualquer lugar da cidade de qualquer cidade)
IRMÃ – Irmão? O que
aconteceu com você? Está todo machucado. Bateram-te ou você foi atropelado?
IRMÃO – Onde você guardou aquela
arma que era do papai? (entra direto no quarto e começa a mexer nas gavetas de
um armário)
IRMÃ – Do que você está
falando?
IRMÃO – A arma. A arma que
era de papai. Onde está?
IRMÃ – Por quê? O que
aconteceu com você? Bateram em você?
IRMÃO – Cadê aquela arma?
Cadê?
IRMÃ – Não vou te dizer se
não contar o que aconteceu.
IRMÃO – É melhor você não
ficar sabendo.
IRMÃ – Não irmão. Eu sou sua
irmã e jurei que ia cuidar de você para mamãe.
IRMÃO – Eu não sou mais criança!
Não vou te obedecer mais!
IRMÃ – E daí? Se você não é
mais criança, tudo bem, mas eu jurei para mamãe que iria cuidar de você para
sempre. Sou responsável por você. Diga logo o que aconteceu? Você não estava no
sinaleiro?
IRMÃO – sim.
IRMÃ – te roubaram?
IRMÃO – Cadê aquela arma?
Cadê? Vou te dizer. Aquele
cafajeste do sargento Coelho levou tudo o que consegui hoje.
IRMÃ – Sargento Coelho?
Mas...
IRMÃO – Eu estava lá no
sinaleiro da Guaíra quando a PM parou e não quis saber. Chegaram chutando-me e
me jogaram no carro, largaram-me lá na Estrada do Pico depois de me espancarem
e me roubarem.
IRMÃ – Irmão? Isso tudo que
você está dizendo é verdade?
IRMÃO – Por que você duvida
de mim, irmã?
IRMÃ – O sargento Coelho já
morreu faz cinco anos.
IRMÃO – Você está louca,
irmã?
IRMÃ – Acho que ainda não.
Irmão? Você tem tomado seu remédio?
IRMÃO – Sim! É claro.
IRMÃ – E você já tomou o
remédio hoje?
IRMÃO – Já. Agora: onde está
a arma?
IRMÃ – Não irmão, não.
IRMÃO – Eu vou acabar com
isso agora. Cadê a arma? Irmã? Eu não posso mais passar por esta humilhação. Só
por que somos pobres e negros não podemos mais aceitar isso, irmã. Levar
bordoada e não reagir. Chega. Chega!
IRMÃ – A vida é assim mesmo
irmão.
IRMÃO – Não, irmã, não! Não
podemos ser tratados como cães! Eu não tenho culpa de ter nascido preto e pobre
e por isso não vou aceitar viver assim.
IRMÃ – Não irmão, não. Pela
memória de nossa mãe, não, por favor!
IRMÃO – Cadê a arma?
IRMÃ – Irmão, não lembra
mais o que mamãe nos dizia? Tanto que ela pediu para nos tornarmos pessoas
boas, honestas, nunca roubar, mentir, enganar, mesmo que com isso dependesse a
nossa vida, a nossa fome. Sempre trabalhar, sempre.
IRMÃO – E não é só isso o
que faço na vida, irmã? E você sabe mais do que ninguém, irmã, o quanto eu
tento fazer isso todos os dias de minha vida, mesmo que ninguém me dê um
emprego com carteira assinada por que tomo meus remédios e acham que sou louco.
Eu nunca roubei nada de ninguém, nunca! Mas o que eu recebo em troca? Pancada!
IRMÃ – E você acha que eu
também não levo porrada lá cuidando da Saionara? Tu sabes muito bem que mamãe
levou muita porrada na vida até de nosso pai ela aguentou muita humilhação e
porrada por nós.
IRMÃO – Cadê a arma? Eu vou
matar aquele desgraçado.
IRMÃ – E isso vai te levar
aonde? Ao que? É loucura, irmão. Ai desculpe, não foi isso que eu quis dizer.
IRMÃO – Que sou louco? É
isso que quis dizer? Eu sou louco sim irmã, e eu sei muito bem disso, por isso
tomo remédios para louco. Por isso não consigo emprego. Por isso estou todos os
dias lá no sinaleiro fazendo o que posso fazer: malabarismo com bolas e tochas.
Agora me diga, irmã: o que tem de errado nisso? Estou ganhando a vida da forma
que posso, honestamente, mas todo trabalho decente precisa ser dentro de uma
fábrica para ser considerado honrado? Precisa para ser honesto? E quem diz que
precisa ser assim?
IRMÃ – Não ligue para essas
coisas, irmão.
IRMÃO – Eu ligo sim irmã,
ligo, pois me espancaram por isso. Não sou digno de respeito por que trabalho
em um sinaleiro? Um catador de papel não é digno por que cata papel? Um coletor
de lixo não é digno por que recolhe o resto dos outros? Somos menos dignos que
um soldado que só serve para matar pessoas? Para acabar com sonhos? Para acabar
com a felicidade?
IRMÃ – Somos sim irmão somos
dignos de respeito. Enquanto honrarmos a memória de mamãe, fazendo o mínimo do
que ela nos pediu nunca roubar, não tomar o que não nos pertença e tudo o que
conseguirmos é pelo nosso suor, estará sim irmão, honrando a memória de mamãe e
de tudo por que ela sofreu e passou por nós.
IRMÃO – E o que nós temos?
Um barraco na favela!
IRMÃ – Olha aqui seu
remédio, bebe.
IRMÃO – Não quero essa
porra, eu já bebi.
IRMÃ – Mas eu quero que você
tome. Agora!
IRMÃO – Você não manda em
mim.
IRMÃ – Mando sim, senhor.
Não lembra que mamãe pediu antes de morrer para eu cuidar de você?
IRMÃO – Mamãe já morreu!
Está ouvindo? Já morreu. E todas as
promessas morreram com ela! Enxerga isso! Merda! Cadê aquela arma?
IRMÃ – Aquela arma eu vendi.
Tem anos já. O próprio sargento a vendeu.
IRMÃO – Não fale o nome
daquele desgraçado na minha frente!
IRMÃ – Você está se
confundindo com as coisas irmão.
IRMÃO – Eu devia já ter
feito como nosso primo, entrado para o tráfico.
IRMÃ – E aí? No que deu?
Olha onde ele está hoje. No inferno!
IRMÃO – E nós também não
estamos querida irmã? Tu não achas essa vida um inferno?
IRMÃ – Honestamente é melhor
vivo do que morto!
IRMÃO – E eu cansei de ser o
bonzinho. Cansei! Ninguém é bonzinho como a gente. Ninguém nem liga para a
gente! E aí, por ser bonzinho é que estamos nessa merda. Sendo tratados como
bonzinhos e honestos e vivendo de esmolas nos semáforos da vida e comendo pão
com mortadela por três dias! E tu achas que alguém liga? Cansei!
IRMÃ – Não irmão, não.
IRMÃO – Como dizia nosso
primo no tráfico quem compra é por que quer. Ninguém obriga ao viciado a usar
drogas. Também é um trabalho honesto, apesar de ser ilegal. Só vendem como se
fosse um comércio. O que tem de errado nisso?
IRMÃ – Não irmão, não, por
favor.
IRMÃO – Lembra que ele dizia
que quem subia aqui eram as filhas dos juízes? Filhos de empresários? De
políticos? Até filhos de médicos e advogados? São eles mesmos quem fazem as
leis. Proíbem as vendas, mas usam. Que mundo é esse, irmã? E nós temos que ser
os bonzinhos?
IRMÃ – Não irmão, e no que
deu a vida dele?
IRMÃO – E a nossa vida no
que vai dar?
IRMÃ – Sente aqui irmão.
Pense bem irmão, se acalme. Por favor, isso sente.
IRMÃO – Não dá mais pra
viver assim, vou falar com o nadinho.
IRMÃ – Irmão não, eu não
irei permitir. Você é o último homem de nossa família. É minha ancora. É meu
sustento nessa vida, eu não vou aguentar. Depois que você se enrolou com a irmã
desse marginal você mudou muito irmão. Não me ouve mais.
IRMÃO – Você deve se acertar
com o Márcio, vai cuidar de sua vida com ele, vai ser feliz e me liberte dessa
prisão que é a obediência a mamãe, ao passado que tanto me tortura.
IRMÃ – Não, não, não!
IRMÃO – Me deixe! Larga de
mim! Esqueça-me para sempre!
(levanta e segue em direção
a porta, quando sua irmã levanta também pega uma garrafa e acerta a cabeça do
irmão que cai no chão imóvel)
IRMÃ – Eu não posso permitir
que você saia de minha vida assim. Não vou permitir. Você é meu, só meu. Irmão?
Irmão? Levanta irmão. Por favor, levanta irmão! Não! Eu te amo irmão! Eu te
amo. Por favor, irmão. Não me deixe sozinha. Eu te amo.
FIM. Junho,
2018.
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