terça-feira, 5 de dezembro de 2017


TÍTULO: Uma vida cheia de surpresas.
PERSONAGENS:
Funcionário;
Encarregado (a);
Funcionário (a);
Funcionária (o);
                                               CENA
Uma linha de produção; alguns funcionários com chaves de boca nas mãos, trabalhando com rapidez.
FUNCIONÁRIO: (para o público) disseram-me que a vida seria cheia de surpresas. Háh! Meus pais sempre me aconselharam a estudar e trabalhar muito. Nunca desistir dos estudos para conseguir um bom emprego. Um ótimo emprego! Ótimo emprego esse que consegui! (mostra a mesa de produção para o publico) isso é um ótimo emprego? Tanto estudo e tantos sonhos, para ficar apertando parafusos?
(volta a trabalhar, com as chaves de mão a apertar os parafusos na linha de produção).
- Um lindo dia de Sol lá fora e eu aqui nesse “ótimo emprego”. Técnico, formado e apertando parafusos. “ótimo emprego” esse, disse meu tio. “Eu também sonhava em ser piloto de avião, rapaz, ou médico, mas isso quando somos jovens é normal. Sonhos são somente sonhos.” Será que esses sonhos são para os mais ricos?
(Volta a trabalhar).
- Desde as quatro da madrugada. Até parece na roça! Pior! Antes dos galos acordarem! O Sol ainda estava dormindo e a Lua já havia saído de cena, e eu enfiado dentro de um ônibus da empresa. Com toda essa gente que não dá um sorriso, ou só dizem bobagens. Até parecem essas máquinas desumanas que nós operamos! Só produzem bobagens! Para vender. E nós TRABALHADORES é quem compramos! Alienados e sem cultura. Não entendem que poderiam ser os donos da situação. Estudei tanto, sou técnico, tinha tantos sonhos e desde as quatro horas da manhã em pé. Sem sonhar. Com essas ferramentas nas mãos. Parecem grilhões! E o Sol lá fora lindo...
(volta a trabalhar em ritmo acelerado. Seca o suor do rosto, quando aparece ao seu lado o/a encarregado (a), olha desconfiado para o funcionário trabalhando).
ENCARREGADO (A) – Estou ouvindo muita conversa aqui. Vamos concentrar no trabalho e parar com a conversa. Nossas metas estão bem abaixo do esperado. Quero foco no trabalho gente. Metas a serem alcançadas. Trabalhando sem conversas.
(sai de cena o encarregado (a). trabalham acelerados).
FUNCIONÁRIO – as nove, almoço. Ás nove e meia, já acabou o almoço. Volto ao trabalho. Alguém aqui já tentou almoçar as nove horas da manhã? Já? Você já tentou? Não desce! Parafusos, chaves, parafusos, chaves! Calor, muito calor. Sapatão de operário! Algemado a linha de produção, só com a condicional das duas e quarenta da tarde posso respirar. Quando assinei o contrato de trabalho parece perdi os direitos sobre meu corpo, direito de ir e vir. Tenho que me explicar por que cheguei atrasado, por que faltei, não posso ficar doente. Onde fui? Qual a cor da merda que fiz no banheiro. “Ótimo emprego”, disse meu tio. Pode ter sido para ele. Mas para mim...
(Volta a apertar parafusos).
_ (trabalhando e falando) meu tio passou 35 anos aqui! 35 anos! Sabem o que é isso? Ele me indicou para a sua vaga quando se aposentou. “É um bom emprego”, disse ele. Junto com meu pai, os dois me convenceram de que ser musico não tem futuro. Esse negócio de violão e guitarra é coisa de vagabundo que fica na noite pelos bares, bebendo e usando drogas. Não tem futuro. Eu tinha uma banda e tocava violão e guitarra. Três vezes por semana tocava com uns amigos em um barzinho e até tirava uma grana boa. Mas não quis contrariar papai, e nem meu tio. Fiz o que queriam. Sempre os respeitei. Diziam que os jovens devem sempre ouvir os pais, os mais velhos. Sonhos de transformar o mundo todo mundo tem, especialmente quando somos jovens. E esses sonhos são coisas de maconheiros. Diziam que meus amigos eram todos maconheiros e eu iria acabar igualzinho a eles. “O mundo menino é assim mesmo e nunca irá mudar. Nesse mundo, manda quem pode e obedece quem tem juízo”. E ai, aqui estou eu. Apertando parafusos!  Salário? É uma piada, e sem graça. Com este salário de fome, com três filhos de três ex-namoradas para criar e pagar pensão para meus filhos, não dá! E ainda só tenho 21 anos. Ainda bem que mamãe me ajuda.
(Acelera no trabalho. Volta o encarregado (a)).
ENCARREGADO (A) – Assim não vai dar! Tem muita conversa aqui, gente. Vamos parar de falar e começar a trabalhar! O pessoal lá de cima está de olho em vocês. A meta mais uma vez não será alcançada. Vocês querem ir para a rua? Já tem uma lista de demissão lá em cima no RH. Você quer ir para a rua? Tem muita gente ai fora que quer fazer o que tu está fazendo aqui. E olha que está fazendo muito mal feito! Olha isso aqui? Tá um lixo, cara! Tu achas que isso irá passar na qualidade? Tem muita gente lá fora que faria muito melhor do que você. Lá fora a fila tá grande. Presta a atenção! Ter uma chance, um emprego hoje é um luxo nesses tempos de crise que vivemos. Vamos melhorar. Tá muito ruim mesmo seu trabalho. E vamos parar de falar. Se não fizer direito vai para a rua! Já andaram reclamando de você por ai. Só ainda não te dispensaram por causa de seu tio e seu pai. Eles ainda são muito considerados por aqui. Já pensou o que vão pensar se você for dispensado? Isso aqui é um desperdício para a empresa. Precisa melhorar. Metas, vamos alcançar as metas. Olha isso aqui? Tá muito ruim. Vamos melhorar.
(Sai o encarregado (a). Mantem o trabalho).
FUNCIONÁRIO – (para o público) “ótimo emprego!” “ótimo trabalho!” Que piada de mau gosto, vocês não acham? Não posso ser músico, mas posso ser apertador de parafusos. Aonde isso vai me levar? Desde as quatro da matina. Na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta. “nos sábados, domingos e feriados é muito bom, ganha horas extras.” Isso dizia papai e meu tio. Encostado com varizes nas pernas, problema de coluna e nas articulações dos pulsos. Mas ainda insistem que foi um ótimo emprego. Pode ter sido para eles!
(continua na sina de apertar os parafusos).
FUNCIONÁRIO – que horas são? (pergunta a uma moça, também funcionária ao seu lado, que trabalha em ritmo alucinante).
FUNCIONÁRIA – Não sei. Tu não ouviste o (a) encarregado (a)? Cala a boca e faça o seu trabalho bem feitinho. Seu chato! É assim a vida. Dê graças a Deus por ter esse emprego! Eu preciso desse emprego, e muito. Tem muita gente por ai precisando também. Cala a boca e trabalha. Não pode ficar reclamando. Melhor que passar fome.
FUNCIONÁRIO – “Graças a Deus?” (Ficam em silêncio. Trabalham em ritmo acelerado).
- Desde as quatro da manhã até às duas e quarenta da tarde. E hoje é somente quarta-feira ainda. Que vida cheia de surpresas essa! E ainda tenho que agradecer a Deus? Queria ver se fosse Ele que tivesse que ficar em pé aqui esse tempo todo, apertando parafusos. Meia hora de almoço.
FUNCIONÁRIA – Cala a boca e trabalha idiota!  Que merda! Se ficar ai falando sozinho vai acabar fodendo com todo mundo. Quer ir pra rua? Pede logo pra sair, eu tenho duas filhas e sou sozinha para criar minhas meninas. Não posso ir pra rua.
(Trabalham. As horas passam. Trabalham sem parar. Quando chegam as duas e quarenta é o fim do turno. Volta o encarregado (a) a se reunir com os funcionários).
ENCARREGADO (A) – deixem tudo limpo, rapidinho que preciso passar algumas informações para vocês.
(Os funcionários varrem o local e guardam as ferramentas).
ENCARREGADO (A) – Antes de vocês saírem tenho um pedido dos gerentes lá de cima: vamos precisar de voluntários para fazer hora extra hoje para conseguirmos fechar a meta do mês. Quem vai ficar? Preciso de comprometimento por parte da equipe, gente. Eu sempre estou ajudando vocês, sempre estou defendendo vocês, agora preciso que me ajudem. Estamos longe de atingir a meta, pessoal. E já adiantando: sábado e domingo tem hora extra. Precisamos alcançar a meta desse mês, quem quiser é só dizer o nome. É preciso um esforço de todos para alcançar nossos objetivos. O crescimento da empresa depende de vocês. E vocês sabem que os diretores estão de olho nos números. Eles sabem de cada um que dá resultados ou não.
UM DOS FUNCIONÁRIOS – você vai ficar hoje? (pergunta para o encarregado(a)).
ENCARREGADO (A) – Eu não posso. Vou para a faculdade.
OUTRA FUNCIONÁRIA – hoje minha irmã fica com meus filhos, mas no fim de semana eu não posso. Não tenho com quem deixar as crianças.
ENCARREGADO (A) – cada um com seus problemas. A gerência está de olho nos resultados e na lista de quem participa ou não das horas extras. Quem faz um esforço, tem comprometimento com o crescimento de nossa empresa está garantido. E quem não tem, não participa e não se compromete com as metas, tem maiores chances de ir embora. Entenderam?
FUNCIONÁRIO – “nossa empresa?”
ENCARREGADO (A) – O que você falou?
FUNCIONÁRIO – nada não.
ENCARREGADO (A) – e você vai ficar hoje? Vai vir no final de semana? Seria bom você ficar, seu tio sempre ficou e sempre foi comprometido com a empresa.
FUNCIONÁRIO – eu vou pra praia sábado. Estou pensando em ir pra praia.
ENCARREGADO (A) – XÍ! Não deixe os gerentes saberem disso. Se eu fosse você deixaria a praia para outro dia. Sua situação aqui pode ficar complicada. Mais do que já está. Então? Voluntários? Não saiam para assinar o ponto antes de falarem comigo. Quem vir sábado e domingo já assinem aqui para eu levar para o RH. Quem não vai ficar hoje e não vai vir fim de semana vou ter de repassar os nomes para o RH, esses que não tem comprometimento com a empresa. Infelizmente.
OUTRO FUNCIONÁRIO – Mas eu trabalho direitinho e estudo também, faço faculdade a noite. Nem durmo mais direito. Sábado faço um curso técnico. Fico até às dez e meia na aula todos os dias só consigo dormir depois da meia noite não consigo nem descansar mais. É injusto isso.
OUTRO FUNCIONÁRIO – E aquela promessa de uma ajuda no salário da gente, que foi prometido e acordado com os patrões?
(não recebe resposta do encarregado (a)).
ENCARREGADO (A) – Como disse antes: cada um com seus problemas! O que eu, a empresa e os diretores esperamos é comprometimento. Somos uma equipe e tudo que vocês, colaboradores, pedem eu corro atrás para conseguir, quando consigo fico feliz, mas muitas vezes também não consigo e fico feliz do mesmo jeito. Vamos lá gente, façam um esforço. Se não atingirmos a meta para o mês, com certeza haverá demissões. Depende de vocês.
(Saem todos ficando só o funcionário).
FUNCIONÁRIO – Me disseram que a vida seria cheia de surpresas. Essas surpresas? Desde as quatro da manhã até às duas e quarenta da tarde, perco o controle de minha vida e de meu corpo. Não sou mais dono de mim e de minhas vontades. Realmente são surpresas. De segunda-feira a domingo. “ótimo emprego!” diziam papai e meu tio. Por 35 anos algemados a mesa da linha de produção. Nunca participaram de uma greve. Movimentos mecânicos repetitivos e intensos que custaram a saúde dos dois, dores nas costas, varizes nas pernas, os pulmões carregados de toxinas, fibromialgia, e enriqueceram os patrões que sempre choram que a fábrica tá no vermelho! Foi o que ganharam. Por 35 anos! E eles ainda dizem que não posso reclamar?
(fecham as cortinas)
                                              

                                               FIM.

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...