ME SINTO
ABSINTO.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
TÍTULO: Uma vida cheia de
surpresas.
PERSONAGENS:
Funcionário;
Encarregado (a);
Funcionário (a);
Funcionária (o);
CENA
Uma linha de produção;
alguns funcionários com chaves de boca nas mãos, trabalhando com rapidez.
FUNCIONÁRIO: (para o
público) disseram-me que a vida seria cheia de surpresas. Háh! Meus pais sempre
me aconselharam a estudar e trabalhar muito. Nunca desistir dos estudos para
conseguir um bom emprego. Um ótimo emprego! Ótimo emprego esse que consegui! (mostra
a mesa de produção para o publico) isso é um ótimo emprego? Tanto estudo e
tantos sonhos, para ficar apertando parafusos?
(volta a trabalhar, com as
chaves de mão a apertar os parafusos na linha de produção).
- Um lindo dia de Sol lá
fora e eu aqui nesse “ótimo emprego”. Técnico, formado e apertando parafusos.
“ótimo emprego” esse, disse meu tio. “Eu também sonhava em ser piloto de avião,
rapaz, ou médico, mas isso quando somos jovens é normal. Sonhos são somente
sonhos.” Será que esses sonhos são para os mais ricos?
(Volta a trabalhar).
- Desde as quatro da
madrugada. Até parece na roça! Pior! Antes dos galos acordarem! O Sol ainda
estava dormindo e a Lua já havia saído de cena, e eu enfiado dentro de um
ônibus da empresa. Com toda essa gente que não dá um sorriso, ou só dizem
bobagens. Até parecem essas máquinas desumanas que nós operamos! Só produzem
bobagens! Para vender. E nós TRABALHADORES é quem compramos! Alienados e sem
cultura. Não entendem que poderiam ser os donos da situação. Estudei tanto, sou
técnico, tinha tantos sonhos e desde as quatro horas da manhã em pé. Sem sonhar.
Com essas ferramentas nas mãos. Parecem grilhões! E o Sol lá fora lindo...
(volta a trabalhar em ritmo
acelerado. Seca o suor do rosto, quando aparece ao seu lado o/a encarregado
(a), olha desconfiado para o funcionário trabalhando).
ENCARREGADO (A) – Estou
ouvindo muita conversa aqui. Vamos concentrar no trabalho e parar com a
conversa. Nossas metas estão bem abaixo do esperado. Quero foco no trabalho
gente. Metas a serem alcançadas. Trabalhando sem conversas.
(sai de cena o encarregado
(a). trabalham acelerados).
FUNCIONÁRIO – as nove,
almoço. Ás nove e meia, já acabou o almoço. Volto ao trabalho. Alguém aqui já
tentou almoçar as nove horas da manhã? Já? Você já tentou? Não desce!
Parafusos, chaves, parafusos, chaves! Calor, muito calor. Sapatão de operário!
Algemado a linha de produção, só com a condicional das duas e quarenta da tarde
posso respirar. Quando assinei o contrato de trabalho parece perdi os direitos
sobre meu corpo, direito de ir e vir. Tenho que me explicar por que cheguei
atrasado, por que faltei, não posso ficar doente. Onde fui? Qual a cor da merda
que fiz no banheiro. “Ótimo emprego”, disse meu tio. Pode ter sido para ele. Mas
para mim...
(Volta a apertar parafusos).
_ (trabalhando e falando)
meu tio passou 35 anos aqui! 35 anos! Sabem o que é isso? Ele me indicou para a
sua vaga quando se aposentou. “É um bom emprego”, disse ele. Junto com meu pai,
os dois me convenceram de que ser musico não tem futuro. Esse negócio de violão
e guitarra é coisa de vagabundo que fica na noite pelos bares, bebendo e usando
drogas. Não tem futuro. Eu tinha uma banda e tocava violão e guitarra. Três
vezes por semana tocava com uns amigos em um barzinho e até tirava uma grana
boa. Mas não quis contrariar papai, e nem meu tio. Fiz o que queriam. Sempre os
respeitei. Diziam que os jovens devem sempre ouvir os pais, os mais velhos.
Sonhos de transformar o mundo todo mundo tem, especialmente quando somos
jovens. E esses sonhos são coisas de maconheiros. Diziam que meus amigos eram
todos maconheiros e eu iria acabar igualzinho a eles. “O mundo menino é assim
mesmo e nunca irá mudar. Nesse mundo, manda quem pode e obedece quem tem juízo”.
E ai, aqui estou eu. Apertando parafusos!
Salário? É uma piada, e sem graça. Com este salário de fome, com três
filhos de três ex-namoradas para criar e pagar pensão para meus filhos, não dá!
E ainda só tenho 21 anos. Ainda bem que mamãe me ajuda.
(Acelera no trabalho. Volta
o encarregado (a)).
ENCARREGADO (A) – Assim não
vai dar! Tem muita conversa aqui, gente. Vamos parar de falar e começar a
trabalhar! O pessoal lá de cima está de olho em vocês. A meta mais uma vez não
será alcançada. Vocês querem ir para a rua? Já tem uma lista de demissão lá em
cima no RH. Você quer ir para a rua? Tem muita gente ai fora que quer fazer o
que tu está fazendo aqui. E olha que está fazendo muito mal feito! Olha isso
aqui? Tá um lixo, cara! Tu achas que isso irá passar na qualidade? Tem muita
gente lá fora que faria muito melhor do que você. Lá fora a fila tá grande. Presta
a atenção! Ter uma chance, um emprego hoje é um luxo nesses tempos de crise que
vivemos. Vamos melhorar. Tá muito ruim mesmo seu trabalho. E vamos parar de
falar. Se não fizer direito vai para a rua! Já andaram reclamando de você por
ai. Só ainda não te dispensaram por causa de seu tio e seu pai. Eles ainda são
muito considerados por aqui. Já pensou o que vão pensar se você for dispensado?
Isso aqui é um desperdício para a empresa. Precisa melhorar. Metas, vamos
alcançar as metas. Olha isso aqui? Tá muito ruim. Vamos melhorar.
(Sai o encarregado (a).
Mantem o trabalho).
FUNCIONÁRIO – (para o
público) “ótimo emprego!” “ótimo trabalho!” Que piada de mau gosto, vocês não
acham? Não posso ser músico, mas posso ser apertador de parafusos. Aonde isso
vai me levar? Desde as quatro da matina. Na segunda, na terça, na quarta, na
quinta, na sexta. “nos sábados, domingos e feriados é muito bom, ganha horas
extras.” Isso dizia papai e meu tio. Encostado com varizes nas pernas, problema
de coluna e nas articulações dos pulsos. Mas ainda insistem que foi um ótimo
emprego. Pode ter sido para eles!
(continua na sina de apertar
os parafusos).
FUNCIONÁRIO – que horas são?
(pergunta a uma moça, também funcionária ao seu lado, que trabalha em ritmo
alucinante).
FUNCIONÁRIA – Não sei. Tu
não ouviste o (a) encarregado (a)? Cala a boca e faça o seu trabalho bem
feitinho. Seu chato! É assim a vida. Dê graças a Deus por ter esse emprego! Eu
preciso desse emprego, e muito. Tem muita gente por ai precisando também. Cala a
boca e trabalha. Não pode ficar reclamando. Melhor que passar fome.
FUNCIONÁRIO – “Graças a
Deus?” (Ficam em silêncio. Trabalham em ritmo acelerado).
- Desde as quatro da manhã
até às duas e quarenta da tarde. E hoje é somente quarta-feira ainda. Que vida
cheia de surpresas essa! E ainda tenho que agradecer a Deus? Queria ver se
fosse Ele que tivesse que ficar em pé aqui esse tempo todo, apertando
parafusos. Meia hora de almoço.
FUNCIONÁRIA – Cala a boca e
trabalha idiota! Que merda! Se ficar ai
falando sozinho vai acabar fodendo com todo mundo. Quer ir pra rua? Pede logo
pra sair, eu tenho duas filhas e sou sozinha para criar minhas meninas. Não
posso ir pra rua.
(Trabalham. As horas passam.
Trabalham sem parar. Quando chegam as duas e quarenta é o fim do turno. Volta o
encarregado (a) a se reunir com os funcionários).
ENCARREGADO (A) – deixem
tudo limpo, rapidinho que preciso passar algumas informações para vocês.
(Os funcionários varrem o
local e guardam as ferramentas).
ENCARREGADO (A) – Antes de
vocês saírem tenho um pedido dos gerentes lá de cima: vamos precisar de
voluntários para fazer hora extra hoje para conseguirmos fechar a meta do mês. Quem
vai ficar? Preciso de comprometimento por parte da equipe, gente. Eu sempre
estou ajudando vocês, sempre estou defendendo vocês, agora preciso que me
ajudem. Estamos longe de atingir a meta, pessoal. E já adiantando: sábado e
domingo tem hora extra. Precisamos alcançar a meta desse mês, quem quiser é só
dizer o nome. É preciso um esforço de todos para alcançar nossos objetivos. O crescimento
da empresa depende de vocês. E vocês sabem que os diretores estão de olho nos
números. Eles sabem de cada um que dá resultados ou não.
UM DOS FUNCIONÁRIOS – você
vai ficar hoje? (pergunta para o encarregado(a)).
ENCARREGADO (A) – Eu não
posso. Vou para a faculdade.
OUTRA FUNCIONÁRIA – hoje
minha irmã fica com meus filhos, mas no fim de semana eu não posso. Não tenho
com quem deixar as crianças.
ENCARREGADO (A) – cada um
com seus problemas. A gerência está de olho nos resultados e na lista de quem
participa ou não das horas extras. Quem faz um esforço, tem comprometimento com
o crescimento de nossa empresa está garantido. E quem não tem, não participa e
não se compromete com as metas, tem maiores chances de ir embora. Entenderam?
FUNCIONÁRIO – “nossa
empresa?”
ENCARREGADO (A) – O que você
falou?
FUNCIONÁRIO – nada não.
ENCARREGADO (A) – e você vai
ficar hoje? Vai vir no final de semana? Seria bom você ficar, seu tio sempre
ficou e sempre foi comprometido com a empresa.
FUNCIONÁRIO – eu vou pra
praia sábado. Estou pensando em ir pra praia.
ENCARREGADO (A) – XÍ! Não
deixe os gerentes saberem disso. Se eu fosse você deixaria a praia para outro
dia. Sua situação aqui pode ficar complicada. Mais do que já está. Então?
Voluntários? Não saiam para assinar o ponto antes de falarem comigo. Quem vir
sábado e domingo já assinem aqui para eu levar para o RH. Quem não vai ficar
hoje e não vai vir fim de semana vou ter de repassar os nomes para o RH, esses
que não tem comprometimento com a empresa. Infelizmente.
OUTRO FUNCIONÁRIO – Mas eu
trabalho direitinho e estudo também, faço faculdade a noite. Nem durmo mais
direito. Sábado faço um curso técnico. Fico até às dez e meia na aula todos os
dias só consigo dormir depois da meia noite não consigo nem descansar mais. É
injusto isso.
OUTRO FUNCIONÁRIO – E aquela
promessa de uma ajuda no salário da gente, que foi prometido e acordado com os
patrões?
(não recebe resposta do encarregado
(a)).
ENCARREGADO (A) – Como disse
antes: cada um com seus problemas! O que eu, a empresa e os diretores esperamos
é comprometimento. Somos uma equipe e tudo que vocês, colaboradores, pedem eu
corro atrás para conseguir, quando consigo fico feliz, mas muitas vezes também
não consigo e fico feliz do mesmo jeito. Vamos lá gente, façam um esforço. Se
não atingirmos a meta para o mês, com certeza haverá demissões. Depende de
vocês.
(Saem todos ficando só o
funcionário).
FUNCIONÁRIO – Me disseram
que a vida seria cheia de surpresas. Essas surpresas? Desde as quatro da manhã
até às duas e quarenta da tarde, perco o controle de minha vida e de meu corpo.
Não sou mais dono de mim e de minhas vontades. Realmente são surpresas. De
segunda-feira a domingo. “ótimo emprego!” diziam papai e meu tio. Por 35 anos
algemados a mesa da linha de produção. Nunca participaram de uma greve. Movimentos
mecânicos repetitivos e intensos que custaram a saúde dos dois, dores nas
costas, varizes nas pernas, os pulmões carregados de toxinas, fibromialgia, e
enriqueceram os patrões que sempre choram que a fábrica tá no vermelho! Foi o
que ganharam. Por 35 anos! E eles ainda dizem que não posso reclamar?
(fecham as cortinas)
FIM.
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