O CADERNO.
-
Gildo! Você já viu o caderno de arte do Heitor?
-
Oi? Responde Gildo.
-
Você já viu o caderno de arte do Heitor?
- Não. O que tem?
-
Astrogildo você sabe que é também responsável pelo Heitor, o nosso filho, não
sabe?
Astrogildo
está a se arrumar no quarto do casal, uma camiseta social, branca, com as
mangas dobradas na altura dos antebraços. Sai do quarto antes que Melissa, sua
esposa o procure. Ele sabe que a mulher exagera em tudo. Astrogildo já a
conhece há bastante tempo para saber que qualquer coisa a impressiona. Mas
também sabe que esse tom de voz de Melissa significa o fim de sua paciência,
ainda mais quando diz seu nome por inteiro com um tom de voz carregado de indignação
diluído em uma sopa de sarcasmo.
Astrogildo
aproxima-se da mulher, não pode se atrasar para o trabalho e se esforça para
demonstrar algum interesse. Esse assunto da educação do filho não interessa e ele só importa o
pagamento do boleto. O restante é responsabilidade das mulheres. assim foi criado pela família.
Melissa
abre o caderno ao lado do marido com uma máscara de indignação que cobre seu rosto.
- O
que é isso aqui gildo? – sua indignação é revelada também no tom de voz,
irritada.
-
Não sei do que você está falando amor.
-
Isso aqui gildo, olha! Lê e demonstre um pouco de interesse pelo nosso filho,
por favor?
- Ta
então. O que é que tem?
-
Astrogildo! Melissa o olha seriamente caçando os olhos
fugitivos do marido que tentam escapar dos olhos inquisitivos da esposa. Melissa fecha o caderno do filho
ilustrando sua indignação pelo ato de descaso do seu esposo. – Você está sendo
irresponsável com a educação de NOSSO filho. Descaso com a educação e a criação
de nosso filho é, lembre-se: obrigação dos pais, e você já sabe muito bem
disso, olha o que aconteceu com seu tio, que infringiu a Lei, não uma, mas três
vezes, e foi, além de multado, também preso e forçado a fazer serviços pesados.
-
Mas ele, o Oswaldino, - indignado Astrogildo acompanha a esposa no tom de voz
irritadiço, meu tio, era um sapateiro. Eu sou um Administrador
Sênior.
-
Seu filho, Melissa finge não ter ouvido a conversa fiada do marido, abre o
caderno e o expõe sob os olhos do esposo. Quase o enfia na cara dele na
verdade. Ele não é só meu, continua com o sermão Melissa, que fique muito claro
essa informação, é seu também, e nós dois, eu e você, acentua a voz no você, veja
bem, somos responsáveis por ele. E você sabe muito bem que VIGIAR os filhos e
seus educadores é uma das principais tarefas descritas do artigo da Lei 21002
responsabilizando os irresponsáveis sociais, isso me inclui e inclui você, pela falta
de interesse na educação dos filhos, se isso vier a acontecer eu lhe entrego as
autoridades e ainda contrato um advogado,pausa, respira e conclui - pode até ser um caso de
traição á pátria por falta de vigilância e delação de outros infratores.
- Eu
sei Melissa, eu sei. A tal Lei “a pátria a cima de todos e Deus acima da
Pátria”.
-
Que bom, tu sabes, então, por que não...
- O
que tem esse caderno, me deixa ver. - Astrogildo toma das mãos da esposa na
tentativa de terminar com a aporrinhação e seu cansativo blá, blá, blá. Ao
menos, e ela tem razão nisso, precisa fingir interesse na vida do filho. Troca a máscara ao ler os temas trabalhados nas aulas de Arte.
-
Viu o que esse professor anda ensinando ao nosso filho? – Melissa insiste na
aspereza contida na voz.
-
Ta, não entendi.
-
Cores Astrogildo, CORES! – grita com fúria a mulher. - homem burro, suspira.
Astrogildo
volta ao texto, às palavras escritas, interpretação de texto e leitura nunca
foi seu forte, então soletra as palavras com o movimento silencioso dos lábios,
denunciando sua péssima visão, o que indica que precisa de óculos.
-
Astrogildo isso não configura crime?
Astrogildo
não responde, parece não entender o que leu quando seu filho entra no quarto e
desvia sua atenção.
-
Meu amor, Melissa se dirige a criança, mamãe e papai estão tendo uma conversa
séria. Diga a verdade à mamãe.
O
filho a olha meio receoso sem saber o que fazer.
-
Heitor, como são as aulas de arte filho? Não precisa ter medo da mamãe.
A
criança insegura demonstra medo ao gaguejar as palavras.
- É
que... É que... São palavras apertadas.
-
Filho, fala pra mamãe sem medo. Se mentir ou chorar, serei obrigada a brigar
com você e pegar a varinha da domesticação para ti ensinar a me respeitar e
sempre dizer a verdade para a mamãe e o papai.
Heitor
olha para o vazio, tentando lembrar-se de algo.
-
Heitor, insiste sua mãe, fala pra sua mãe, fala. Eu te amo filho.
- Tu
sabes que essa história de amor materno está com os dias contados, não sabe?
Astrogildo, ainda irritado pelas cobranças da mulher intervém com uma cutucada
no ego feminino de Melissa.
Melissa
finge não ouvir o companheiro, dessa vez o ignora. Encara seriamente o filho
iniciando uma perseguição com seus olhos grandes e verdes os do filho, azul
acinzentado, que, tentam escapar dessa perseguição desleal e implacável da mãe.
-
Filho... As palavras quando saem da boca da mulher, imbuído de ameaça, sugere
que o tempo do menino lhe contar a verdade está acabando.
-
Então ta! Eu te dei uma chance e você não aproveitou. Vamos já para seu quarto
e vou te ensinar com a varinha da domesticação a obedecer à mamãe e papai.
Vamos já! – Melissa segura o filho pelo braço fino e alvo, quando resolve mais
uma vez insistir na fala que fez anteriormente. Se não falar será obrigada a
cumprir com as ameaças. O coitadinho gagueja e quase não respira mais.
- É
que... É que... O professor pediu para não falar pra ninguém.
-
Falar o que filho? Conta. Calmamente a mulher se abaixa, e olha bem nos olhos
do menino que foge mais uma vez. Tu deves saber que se não contar pra mamãe e o
papai sobre o que é ensinada na escola a gente pode até ir preso e você vai
ficar sozinho no mundo, e depois, vão te mandar para um colégio interno, e mais
depois vão te dar para outra família e nunca mais vamos nos ver. É isso que
você quer é?
O
menino ainda reluta, porém, acuado, sob ameaças diversas próximas a serem
cumpridas expõe, sem outra opção o que foi combinado entre a classe e o docente
de arte.
- É
que o professor pediu pra não contar a ninguém o que ensinou a turma. Sufocado
com a pressão sofrida deixa escapar tudo de uma única vez.
-
Não! Eu sou sua mamãe, não pode mentir pra mim – agita o dedo indicador, em
riste, demonstrando que não aceita mentiras nem segredos. A criança coça a
cabeça nervosamente.
-
Heitor! - prossegue a mãe – não coce a
cabeça assim. Você não tem piolho! E nem chore, por favor. Você já é um
homenzinho e homem não chora.
-
Você já viu o papai chorar meu herói grego? – comenta Astrogildo.
- Viu
papai não chora. Completa Melissa com um tom de voz aveludada, sem deixar de
ser afirmativa deixando a criança sem alternativa. – Heitor? Você quer que eu
force a você dizer?
Heitor
então se desmancha em lágrimas. A mãe o segura pelo braço outra vez, aperta,
firmemente, deixando a marca de suas unhas no menino. E áspera, pela irritação
que só aumenta explode na voz entre os dentes.
-
Ei! Eu nem bati em você ainda. – nova ameaça faz a criança soluçar de medo,
tentando engolir o choro.
-
Esses desenhos aqui são proibidos. Astrogildo parece agora entender a
preocupação da mãe. Que o olha insinuando um “agora tu entendeu seu idiota?”
- Ele
mostrou na aula fotos de muitos arco-íris, muito colorido, também... Também... É...
Ensinou sobre cores - Heitor vai enumerando com os dedos, como se estivesse contando
- ensinou também as cores... Cores
primárias; e que a Terra é redonda também - Melissa espantada, melhor,
aterrorizada, arregala os olhos com a mão enfrente da boca (segurando o que não
quer falar!) exprime o sentimento de não acreditar no o que está ouvindo.
-
Minha nossa senhora. – exclama Melissa.
-
Vou ligar para essa escola já! – indignado Astrogildo resolve tomar uma
atitude. Enquanto termina de se arrumar demonstrando na velocidade de seus atos
e na testa franzida o limite de suas paciência e resignação.
Enquanto
isso Melissa continua a folhear o caderno do filho. Sentada no chão seu rosto
expressa os absurdos que encontra.
-
Olha isso aqui gildo. – Melissa levanta-se chorando de indignação, frustração e
desespero pela forma a qual está sendo educado seu filho. Sente impotência
perante este acontecimento. Continua. – são cores primárias, secundárias e
terciárias. É preciso fazer alguma coisa. Seu choro é reflexo de sua falta de
responsabilidade com seu filho nesses últimos meses. Sente a culpa pesar-lhe
pela ingerência de seu ato. – A culpa é nossa gildo, nossa. Murmura para o
esposo. Esse choro é de vergonha. Vergonha por faltar com a responsabilidade
que é um direito de todo o cidadão.
- O
planeta Terra pintado de azul. Olha a outra folha. Vira a página do caderno bem
devagar enquanto as lágrimas escorrem por seu delicado rosto – olha.
-
Minha mãe da madrugada. Astrogildo exclama como se fosse algo violento.
Melissa
horrorizada olha nos olhos do esposo, dos seus correm lágrimas.
–
Foi nossa culpa gildo. Arruma o cabelo, limpa as lágrimas do rosto com as mãos
parecendo ter se transformado em outra pessoa, liga logo gildo, liga. Rápido
homem.
-
vou contratar um advogado pra processar esse filho da puta e a escola, a se
vou!
-
liga e denuncie esse subversivo aliciador de crianças. Tem o 917 para fazer a
denuncia. Podemos até receber uma recompensa patriótica. Será que ele não sabe
da Lei dos costumes?
-
Não sei – disse Astrogildo – Mas vou desmascarar este filho da puta corruptor
de menores. Calça os sapatos, quando se levanta para procurar as chaves do
carro e sua bolsa ainda disse – esse deve ser até “veado”, pra falar de
arco-íris. A Lei Anti Homofobia prevê punição contra essas imundícies.
- Entrega-o
lá no partido amor. A escola também. Quem sabe você não ganha status lá e é
promovido? – Melissa tem muita ternura na voz agora o trata com amor. Sabe que
isso pode ser sua ascensão social? – e chora.
- Já
pensei nisso. Responde a ela Astrogildo.
- Olha
isso amor, olha. Parece carregar de doçura sua voz.
- Tem
mais?
-
Veja querido.
Astrogildo
olha. Balbucia a leitura soletrando.
-
Olha que filho da puta!
-
Que audácia. Isso é um ato de traição. Ao pronunciar essas palavras Melissa se
vira e empurra o filho para fora do quarto, como se fosse um cão, com desdém. Vai
filho vai!
-
Por essa eu não esperava. Enquanto Astrogildo exclama com indignação o que lê,
Melissa se despe, deixando seu vestido cair no chão, agora nua olha
sensualmente para o marido, depois caminha até um guarda- roupas e se enrola em
uma toalha para ir ao banho.
- Se
você denunciar esse depravado, Melissa pronuncia docemente e cheio de malicia
no pé do ouvido de Astrogildo – vou te dar um presente quando voltar à noite.
Mostra seus dentes alvos e olhos encantados.
Astrogildo
parece indiferente, enquanto percorre com seus olhos fugindo da mulher ao
caderno do filho. Não sente mais nada pela esposa já há muito. Só indiferença.
- Ouça
só uma coisa dessas, Melissa – prossegue Astrogildo com o caderno na mão –
escute, é o que está escrito aqui que vou ler pra você: “Nem sempre a bandeira
do Brasil foi tão cinza e triste. Apesar do apoio das classes dirigentes nas
antigas cores, e pelo uso indiscriminado dos dois lados da população, pobres e
ricos, capitalistas e socialistas, foi determinada a mudança de cores para a
bandeira Nacional: branco e preto. Sendo, mesmo assim, negado por boa parte da
população demonstrando, através de protestos de rua a indignação.
A
bandeira Nacional era muito mais bonita do que a de hoje, triste e sem vida,
pois, as fascinantes cores vivas, que a alegravam, o verde, o amarelo, o azul e
o branco serviam somente para lembrar ao povo, as minorias, as classes
trabalhadoras e subalternas que a vida foi e deve ser mais democrática, tanto
quanto e como foram às diferentes cores que já a ilustrou.
O
verde das florestas, que já não existe; o amarelo do sol, ou o ouro que custou
tantas vidas; o azul do céu límpido, do mar ou das Araras por qual ficaram
conhecidos o país; e por fim o branco espumoso do mar, as nuvens, a pomba da
paz, e, como alegam as classes dominantes, a pureza de cor da pele, alva, da
higienização social. Hoje a bandeira é um horror”.
-
Nossa! Como é que você conseguiu ler isso tudo, amor? – saída do banho,
enrosca-se na cintura do marido, esfregando seus seios e cochas nele,
provocando-o.
-
Não sei, acho que é raiva. Estou até com dor de cabeça depois dessa. Disse
Astrogildo. Desvencilhando-se da mulher, que faz cara de não entender por que
não aceita mais seus apelos. Caminha até a porta, e ao sair decide falar uma última
coisa – Vou ao trabalho e pelo caminho faço o que tenho de fazer, é direito
nosso denunciar esse subversivo. Não podemos ser tolerantes com essa corja.
Melissa
agora só, e o filho a esperar por ela na cozinha se resigna e parece abatida
pela rejeição de seu marido os seus encantos e pedidos.
FIM. Primavera/Nov./2019.
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