QUINDINS
DE DONA NONÓCA.
Dona Nonóca aguarda
ansiosa por suas visitas secretas semanais. Calada à um canto da cozinha
saboreia aquele momento singular comparado ao duro cotidiano da vida na Colônia. Em
uma bandeja dona Nonóca reparte simétricos pedaços iguais e quadrados de um bolo de banana
que preparou. Deixa-o esfriar no arejo da brisa da tarde, essa que entra pelas janelas verdes da beira da floresta que circunda a casa.
Alguns instantes são passados. Curtidos por xícaras de
café no momento em que surge uma pequena mão cor de caramelo, ligeira e audaciosa,
furtando um pequeno torrão do bolo de dona Nonóca.
Aperta-se mais ao canto da parede na tentativa de não ser
vista pelos ladrõezinhos. Surrupiam um pedaço do doce. Sussurros trocados
seguidos de outra mão ligeira de pinturas vermelhas que invadem a janela e
arrancam de uma só vez três pedaços do delicioso e cheiroso bolo. Dona Nonóca
ouve então risos, murmúrios de crianças ao qual, por fim correm. A doceira rapidamente
pendura-se à janela no exame inundado de curiosa vontade de ver os pequeninos depois de visitas constantes por dois meses, alegra-se. Peles morenas, cabelos negros brilhantes,
tinturas vermelhas pelos corpos nus, pés descalços, acompanhados de um cão.
Ganha presentes também dona Nonóca. Deixam um cesto de
vime verde com farinha branca conhecida nessas terras por Tapioca. Esses dias
compensam o cansaço da vida dessa mulher nas terras distantes de seu país de
origem. O sorriso ilumina o rosto de dona Nonóca ao final, por ver suas visitas
secretas.
- Esses miúdos!
Semanas depois tudo se sucede. O bolo tem outro sabor. Bolo
de milho. Alegrias preenchem o ar abaixo da janela. Murmúrios e sussurros. O cão
que acompanha as crianças exige a parte dele com choros e grunhidos. Desta vez
deixam, além de plumagens, um pequeno porco do mato.
- Nonóca? O que é isso agora? Aprendeu a caçar, foi?
- Por que não?
- Nonóca? De onde é esse porco? Exige saber o marido.
- Come.
Os homens da família, sentados à mesa trocam olhares
desconfiados e interrogativos.
- Comem, insiste dona Nonóca. Não está bom? Estão sem
fome? Comem.
- Nonóca... Adverte seu marido com sublimes ameaças, Joaquim Gusmão.
Na janela, quindins. Aprendeu em Belém. Mãos pintadas com
carvão. Risos de crianças. O cão, alerta, rosna diferente, chamando aos
naturais da terra. Fogem pela trilha de volta. Dona Nonóca
voa até a janela não entendendo o que os espantou. Ao chão, tigelas e cumbucas de
cerâmica deixadas às pressas no corre-corre. Palavras em línguas nativas, vozes
ansiosas de crianças soltas. Costas pintadas são o que dona Nonóca vê por fim. Então,
tiros.
Tiros, tiros, tiros.
Então cozinheira sente o mundo girar numa vertigem
que quase a joga ao chão. A mesa rústica a socorre, apoia as mãos querendo deduzir o que já sabe o que aconteceu.
O marido, de bigodes brancos, surge da curva da trilha
arrastando, num largo sorriso, a fila de homens armados. Os filhos e o cunhado. Nos lábios esbanjam um orgulho idiota pelo prêmio conquistado
depois de cinco dias de tocaia. Arrastados pelos pés, os miúdos e o cão. Largados abaixo da janela como trapos velhos. Horrorizada, dona Nonóca leva a mão aos
lábios. Um de seus filhos, altivo e orgulhoso, comemora erguendo a arma e agita na
direção da mãe silenciosa na janela.
- Pegamos.
INVERNO/AGO/2020.
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