terça-feira, 16 de janeiro de 2018

JORGE NÃO RESPONDE.
- Jorge! Sai desse banheiro agora!
Jorge não responde. Continua sentado na privada com o rosto apoiado nas mãos.
- Jorge sai dai agora! Sua irmã quer fazer xixi e precisa escovar os dentes para ir para a aula!
Nada. Jorge não responde. Sentado na privada lembra o que aprendeu em uma aula de história sobre a privada. O professor disse que a frase vida privada, essa vida particular das pessoas, vem das privadas dos banheiros, porque antigamente não existiam banheiros dentro das casas e mesmo assim eram coletivos, depois da revolução francesa é que começaram a construir banheiros privados e só os moradores das casas que possuíam banheiros podiam usar. O banheiro se tornou privado como a própria casa, os quartos, a cozinha. Às vezes fico pensando, os pensamentos de Jorge vão longe, será mesmo? Eu não acredito muito nisso. Nem acredito naquele professor.
BUM BUM BUM.
Sua mente retorna a problemas mais imediatos. Leva um grande susto com os socos de sua mãe na porta. BUM,BUM,BUM.
- Jorge eu vou te matar! Sai dai agora guri! O que deu em você?
Mamãe não mata ninguém – pensa Jorge – algumas chineladas sim, até dá, mas matar?
- Jorge sai. Eu vou fazer xixi nas calças – mas Jorge não reponde. Sua irmã, Brida é  mais nova que Jorge, passa o dia inteiro em uma creche, a coitadinha tá apertada para ir no banheiro, ocupado por Jorge.
Mas Jorge fica lá. Sem responder e sem se mexer. Por que será que o menino Jorge resolveu se trancar no banheiro? Infelizmente para saber o motivo só quem tiver tempo e paciência para ler até o final essa história.
- ai.
- O que foi Brida?
- Não aguentei mamãe, desculpa. – a menina começa a chorar – fiz xixi.
- Eu vou te matar Jorge! Olha o que tu fez? Sua irmã fez xixi nas calças. Sai logo desse banheiro!
Jorge não responde.
- Eu vou lá no quarto e quando voltar quero você fora desse banheiro e pronto para ir a escola. Vamos meu amor, vamos trocar de roupa rapidinho. Eu não acredito nisso.
- Desculpe mamãe, eu não consegui segurar.
- Tudo bem meu amor. A culpa não é sua é de seu irmão – grita essa última parte – eu vou te matar quando voltar Jorge. Vem trocar de roupa Brida, vem.
O que faria um menino de doze anos de idade ficar nesta situação? Será somente preguiça? Ou alguma coisa o está apavorando? Hoje ele acordou desse jeito. Quase não levantou da cama esta manhã. Sua mãe precisou berrar várias vezes com ele para levantar. Nunca aconteceu isso antes.  – e agora entrou nesse banheiro e não saiu mais – pensa a mãe de Jorge – o que deu nesse menino hoje? – disse mais cedo sua mãe na hora de acordar o filho.
Mas Jorge continua lá. Sentado na privada com o queixo entre as mãos. Parece não pensar em nada, só que não. Sua mente esta longe remoendo algo que o perturba, algo que o incomoda. Justo ele que é um menino falador, até demais em alguns momentos, tornando-se inconvenientemente chato. Se mete nas conversas dos adultos, gosta de ficar até tarde da noite junto dos mais velhos sentindo-se mais adulto que sua irmã, Brida. – mas é claro que eu sou mais adulto do que a Bri, eu tenho doze anos ela só quatro, tudo bem que vai fazer cinco, semana que vem, mas é cinco. Eu tenho 12, não sou mais criança – disse para a mãe um dia desses.
- Ahhh! Tá bom - Diz sempre sua mãe quando ele a retruca e não quer obedecer as suas ordens de ir dormir – para a cama, já! – sentenciava sua mãe.
Ficava morrendo de raiva da mãe por tratá-lo como uma criança. O que Jorge não entende é que todas as mães tratam seus filhos como eternos bebês. Sempre serão os filhinhos da mamãe. Só que Jorge ainda não entende isso. Quem sabe um dia irá entender, um dia quem sabe, mas, não hoje.
Jorge ficou com muito ciúme quando soube que sua mãe estava grávida de Brida, dizia que ia matar a irmã, percebeu que não seria mais o bebê da casa. Entretanto quando Brida nasceu os dois se tornaram bons amigos e Jorge sempre protegeu e cuidou da irmãzinha. Jorge nunca perguntou a mãe quem era o pai de Brida. Na realidade ele ainda não pensou nisso, sabe que seu pai mora atualmente em Brasília. Longe, muito longe. De vez em quando ele os visita. Só o que não entende é que sua mãe sempre sai de casa quando seu pai vem. Será que brigaram? – pensa, - uma hora dessas pergunto a mamãe – mas no fim sempre esquece.
Agora pensa em Brida. Tem o cabelo da mamãe – para ele os olhos são de seu pai. Apesar de seu pai nunca perguntar sobre sua irmã. Brida é muito inteligente. Já sabe ler, escrever e está aprendendo a jogar xadrez com o vovô. Jorge não gosta de xadrez. Prefere videogames, pois acha muito melhor. Se mamãe deixasse jogaria a noite toda só que nessas horas ela é muito chata, sempre com a história de ir dormir.
- Está na hora de ir dormir – diz todas as vezes sua mãe.
Sempre com esse papo de que criança tem de ir deitar cedo, amanhã tem aula. O que será que ficam fazendo, ela e seus amigos adultos quando a gente vai dormir? Pensa. Sua mãe nunca diz. Papai diz que ficam bebendo e fazendo coisas erradas de adultos, sempre bravo.  – uma hora dessas pergunto a mamãe. Entretanto sempre esquece. Por hora está com outras preocupações mais urgentes. Não sabe o que fazer.
BUM, BUM, BUM, BUM!
Que susto.
- Jorge! Quer sair agora dai! Não estou para brincadeiras, sai já desse maldito banheiro! Que merda Jorge! – grita.
Ouve os passos rápidos e pesados de sua mãe se afastando no corredor. Mamãe está brava mesma. Porém, ele continua na mesma posição de antes, imóvel, imagina que é um daqueles bonecos de cera que viu uma vez na televisão. Lembra-se que ficam em um museu, em outro pais. Outro pensamento que invade sua mente é aquela brincadeira de estátua. Jorge odeia essa brincadeira. Ele é falador demais para ficar parado como uma estátua, por isso não gosta, sempre perde.
Só que hoje seria um ótimo dia para Jorge brincar de estátua. Ele está paralisado com um desânimo que nunca sentiu antes na vida. – que droga – pensa Jorge – vou ter de sair uma hora daqui, queria mesmo era ficar para sempre, mas, aí não poderia mais jogar videogame.
Como seria a vida morando dentro de um banheiro? Sem nunca sair? Fica imaginando. Empinar pipa, como os outros garotos ele não gosta mesmo. Videogame ainda dá tem tomadas no banheiro. Ali pega o sinal de internet e para dormir é só ter uma colchonete. Mas e quando alguém quiser usar o banheiro? Mamãe leva horas no banho. Já disse para ela que a água potável está acabando, é o que dizem na escola, que é preciso economizar água, desligar o chuveiro, fechar as torneiras, utilizar a água da maquina de lavar roupas para limpar o chão, mas mamãe nem responde. Ou pede desculpas e sempre se esquece disso. Da próxima vez irá se lembrar.
BUM, BUM, BUM, BUM!
-filho? O que está acontecendo meu amor? Fala pra mamãe. Eu te amo, meu filho, não vou bater em você, eu juro. Está tudo bem com você meu anjo? Fala alguma coisa, por favor. Estou ficando preocupada com você.
Jorge permanece da mesma forma que antes. Imóvel e em silêncio.
- alguém quer bater em você na escola meu filho? São problemas com os amiguinhos? Se precisar eu vou lá à escola resolver isso com você. Vamos conversar com a diretora. Jorge? Jorge? Fala comigo filho, por favor.
- mamãe – Brida chama lá da sala. Jorge escuta os passos de sua mãe afastando-se. E a voz dela.
- o que foi amorzinha? – Jorge escuta.
Jorge lá parado, sentado e desanimado permanece por alguns instantes. Enfim toma uma decisão, está na hora. Com atitude levanta da privada, levanta as calças que estavam arriadas e dirige-se a porta, quando lembra que ainda não escovou os dentes. Volta até a pia e pega a escova, o creme dental e escova. Lava a boca e lava as mãos. Volta-se para a porta, respira fundo e então destranca a chave e a abre.
- Jorge! – sua mãe grita e vem correndo ver o filho. Abraça o menino com muita força – meu bebezinho. O que houve com você? O que tá acontecendo meu amor? – a mulher chora. Jorge odeia quando ela o chama de bebezinho. Indignado ele mantém o silêncio e fica de cabeça abaixada.
- Jorge, sua irmã já esta pronta para ir para a creche. Diz para mamãe filho, por que isso? Por que se trancou no banheiro? – os dois se olham. A espera de uma resposta sua mãe abre um sorriso e enxuga as lágrimas dos olhos. Tenta assim acalmar Jorge. O menino está calmo, e afinal fala.
- Mãe... Eu juro que estudei a semana toda para a prova de biologia, mas não consigo lembrar nada. Vou tirar um zero.
- Ai, Jorge! Meu filho! Meu amor!
A mãe abraça o menino com muita força.
- Meu amor.
FIM.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...