quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

CHÁ DE CUECA.

 

CHÁ DE CUECA.

As três jovens entram correndo em casa as gargalhadas. Atropelam-se caindo na cama, no chão e no pequeno sofá deixado a um canto da sala. Riem soltas numa animação sem fim.

         - Vocês são loucas! Disse a jovem que rola pelo chão do quarto.

         - Ah, tá! Você dá a ideia, me desafia e a louca somos nós?

         - Gente! Isso é roubo! Já pensaram que podemos ser presas por roubar cuecas dos vizinhos?

         - Eu vou dizer que fui obrigada por vocês duas, duas ladras de cuecas, por roubar cuecas dos vizinhos.

         - Cara de pau heim? Roberta?! Você que é apaixonada pelo Vinie. Nós estamos ajudando você e é assim que paga as amigas? Falsa!

         - Eu não dei ideia nenhuma Valéria! Foi da Fernandinha.

         - Vou dizer uma coisa as duas – apoia uma das mãos na cintura enquanto a outra aponta o dedo às amigas a frente – sou a mais inteligente de nós três, a mais gostosa, diga-se de passagem, a mais bonita e a mais desejada e beijada. E pelo jeito a mais amiga também. Então, se ainda não beijaram o Vinicius é porque são burras, e feias, diga-se de passagem, então dei a ideia de fazer um chá de cueca para tomar...

         - “Então, então, então”, só sabe falar isso! Feia é você. Cadê a cueca do gostoso do Vinicius? Dá logo aqui.

         - Tá aqui Roberta! Sua cadela. Faz seu chá e toma essa porra até mijar-se todinha.

         A loira corre até a pia, enche de água a chaleira, acende o fogo, joga a cueca com força dentro, deixa uma risada marota escapar enquanto corre em direção a Fernandinha, abraça-a pulando em seu pescoço enchendo-a de beijos, que a empurra exclamando um “sai pra lá, sua piranha sem vergonha”.

         Roberta faz cocegas na gordinha ruiva que tenta chutá-la por insistir na brincadeira irritante.

         - Para merda! Sua louca.

         Valéria pula do sofá e sobe nas costas de Roberta.

         - Vai Fer! Segurei-a para você revidar.

         - Ai! Minhas tetas suas galinhas. Grita Roberta, gargalhando com toda a alegria da juventude.

         As duas caem no chão, esparramadas, enquanto Fernanda senta na cama, seca o suor do rosto e testa, arruma a cabeleira ruiva e fica séria.

         - Não tem um baseado aí escondido pelo seu irmão, Roberta?

         - Claro que não, – disse, com dificuldade de respirar, enquanto se levanta do chão – você quer bancar a esperta e diz que é maconheira, mas nem cigarro fuma.

         - Sai daí, ô, careta. Não sou você.

         - A única coisa que você fuma é o pinto dos meninos.

         - Fuma não sua burra! Chupa. Diz-se chupa. Eu chupo mesmo. Vocês não sabem como é bom.

         - Nem mente pra gente que meu irmão disse que quando mostrou o pinto pra você, tu saíste correndo.

         Irritada, a jovem desafia a amiga que a acusa de mentir encarando-a de perto, rosto no rosto.

         - Chama ele aqui então, chama. E quero ver se ele é homem o bastante de dizer isso na minha cara.

         - Chama Roberta. Chama! Atiça então Valéria para ver a ruiva encurralada.

         Roberta abre a porta do quarto e grita pelo irmão.

         - Mauricio. Vem cá um minutinho. Quero perguntar uma coisa pra você.

         - Não, sua louca! Fernanda grita e agarra a amiga tampando sua boca com uma das mãos. Puxa-a para dentro do quarto onde as duas caem no chão, depois de Roberta bater com a cabeça na quina da cama.

         - Aí, sua puta!

         Fica no chão, encolhida, exibindo muita dor no rosto pela cabeçada. Chora.

         - Estão vendo crianças? Caçoa Valéria das duas amigas. Eu disse que iam se machucar.

         - Não brinca. Tá doendo de verdade. Suas vacas.

         - Estava pensando.

         - E você pensa?

         - Cale a boca. Escuta.

         - Égua. Que grossa.

         - Xiu! Quando os adultos falam as crianças silenciam.

         - Ei! Grita Roberta, levantando-se enlouquecida do chão. – A cueca!

         - Ih! A louca. Vai louca, vai.

         Roberta torna com três canecas nas mãos junto à chaleira. Exibe alvos dentes entre seus lábios finos e rosados. Entrega a cada uma das presentes uma caneca, onde serve o chá. Antes de beber, dança com a caneca na frente dos olhos e seu sorriso infantil cheio de alegria moleca que é sua característica. Beberica e faz uma cara de nojo.

         - Erlg! Gosto de sabão! A língua de fora.

         - Queria era gosto de pinto?

         - Sim. Idiota.

         - Égua. Que grossa. Fernanda imita a voz da amiga com seu tom de sarcasmo.

         - Ninguém vai tomar? Roberta repreende as amigas.

         - Não é você quem quer que o Vinie se apaixone? Responde Fernandinha.

         - Pensando bem... A cueca é do Vincius... – intervém Valéria. Quem precisa se apaixonar é ele... Pela Roberta... Então... ELE é quem precisa beber o chá da calcinha da Robertinha... Parem! Grita.

         Assustadas as duas outras jovens olham para a histérica Valéria.

         - Não bebam mais! – avisa.

         - Agora é tarde. Disse num murmúrio, Fernandinha, com a caneca vazia entre as mãos. 

                                                    FIM.      

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...