CHÁ DE CUECA.
As três jovens entram
correndo em casa as gargalhadas. Atropelam-se caindo na cama, no chão e no
pequeno sofá deixado a um canto da sala. Riem soltas numa animação sem fim.
-
Vocês são loucas! Disse a jovem que rola pelo chão do quarto.
- Ah,
tá! Você dá a ideia, me desafia e a louca somos nós?
-
Gente! Isso é roubo! Já pensaram que podemos ser presas por roubar cuecas dos
vizinhos?
- Eu
vou dizer que fui obrigada por vocês duas, duas ladras de cuecas, por roubar
cuecas dos vizinhos.
- Cara
de pau heim? Roberta?! Você que é apaixonada pelo Vinie. Nós estamos ajudando
você e é assim que paga as amigas? Falsa!
- Eu
não dei ideia nenhuma Valéria! Foi da Fernandinha.
- Vou
dizer uma coisa as duas – apoia uma das mãos na cintura enquanto a outra aponta
o dedo às amigas a frente – sou a mais inteligente de nós três, a mais gostosa,
diga-se de passagem, a mais bonita e a mais desejada e beijada. E pelo jeito a
mais amiga também. Então, se ainda não beijaram o Vinicius é porque são burras,
e feias, diga-se de passagem, então dei a ideia de fazer um chá de cueca para
tomar...
-
“Então, então, então”, só sabe falar isso! Feia é você. Cadê a cueca do gostoso
do Vinicius? Dá logo aqui.
- Tá
aqui Roberta! Sua cadela. Faz seu chá e toma essa porra até mijar-se todinha.
A
loira corre até a pia, enche de água a chaleira, acende o fogo, joga a cueca
com força dentro, deixa uma risada marota escapar enquanto corre em direção a
Fernandinha, abraça-a pulando em seu pescoço enchendo-a de beijos, que a
empurra exclamando um “sai pra lá, sua piranha sem vergonha”.
Roberta
faz cocegas na gordinha ruiva que tenta chutá-la por insistir na brincadeira
irritante.
- Para
merda! Sua louca.
Valéria
pula do sofá e sobe nas costas de Roberta.
- Vai
Fer! Segurei-a para você revidar.
- Ai! Minhas
tetas suas galinhas. Grita Roberta, gargalhando com toda a alegria da
juventude.
As
duas caem no chão, esparramadas, enquanto Fernanda senta na cama, seca o suor
do rosto e testa, arruma a cabeleira ruiva e fica séria.
- Não
tem um baseado aí escondido pelo seu irmão, Roberta?
-
Claro que não, – disse, com dificuldade de respirar, enquanto se levanta do
chão – você quer bancar a esperta e diz que é maconheira, mas nem cigarro fuma.
- Sai
daí, ô, careta. Não sou você.
- A
única coisa que você fuma é o pinto dos meninos.
- Fuma
não sua burra! Chupa. Diz-se chupa. Eu chupo mesmo. Vocês não sabem como é bom.
- Nem
mente pra gente que meu irmão disse que quando mostrou o pinto pra você, tu
saíste correndo.
Irritada,
a jovem desafia a amiga que a acusa de mentir encarando-a de perto, rosto no
rosto.
-
Chama ele aqui então, chama. E quero ver se ele é homem o bastante de dizer
isso na minha cara.
-
Chama Roberta. Chama! Atiça então Valéria para ver a ruiva encurralada.
Roberta
abre a porta do quarto e grita pelo irmão.
-
Mauricio. Vem cá um minutinho. Quero perguntar uma coisa pra você.
- Não,
sua louca! Fernanda grita e agarra a amiga tampando sua boca com uma das mãos.
Puxa-a para dentro do quarto onde as duas caem no chão, depois de Roberta bater
com a cabeça na quina da cama.
- Aí,
sua puta!
Fica
no chão, encolhida, exibindo muita dor no rosto pela cabeçada. Chora.
-
Estão vendo crianças? Caçoa Valéria das duas amigas. Eu disse que iam se
machucar.
- Não
brinca. Tá doendo de verdade. Suas vacas.
-
Estava pensando.
- E
você pensa?
- Cale
a boca. Escuta.
-
Égua. Que grossa.
- Xiu!
Quando os adultos falam as crianças silenciam.
- Ei!
Grita Roberta, levantando-se enlouquecida do chão. – A cueca!
- Ih!
A louca. Vai louca, vai.
Roberta
torna com três canecas nas mãos junto à chaleira. Exibe alvos dentes entre seus
lábios finos e rosados. Entrega a cada uma das presentes uma caneca, onde serve
o chá. Antes de beber, dança com a caneca na frente dos olhos e seu sorriso
infantil cheio de alegria moleca que é sua característica. Beberica e faz uma
cara de nojo.
-
Erlg! Gosto de sabão! A língua de fora.
-
Queria era gosto de pinto?
- Sim.
Idiota.
-
Égua. Que grossa. Fernanda imita a voz da amiga com seu tom de sarcasmo.
-
Ninguém vai tomar? Roberta repreende as amigas.
- Não
é você quem quer que o Vinie se apaixone? Responde Fernandinha.
-
Pensando bem... A cueca é do Vincius... – intervém Valéria. Quem precisa se
apaixonar é ele... Pela Roberta... Então... ELE é quem precisa beber o chá da
calcinha da Robertinha... Parem! Grita.
Assustadas
as duas outras jovens olham para a histérica Valéria.
- Não
bebam mais! – avisa.
- Agora é tarde. Disse num murmúrio, Fernandinha, com a caneca vazia entre as mãos.
FIM.
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