sexta-feira, 16 de outubro de 2020

DO QUE ESTÃO FALANDO POR AÍ. OU: E O QUE VOCÊ DISSE?

 

DO QUE ESTÃO FALANDO POR AÍ. OU: E O QUE VOCÊ DISSE?

 

- E o que você disse então?

- Do que?

- Do que estão falando por aí.

- Falando por aí sobre o que? Não estou entendendo.

- Sobre nós – aponta com o dedo indicador para si mesmo e para o outro que embaralha as cartas que jogam.

- Ah. Não disse nada.

- Naldo! Quem cala consente!

- Fiz uma cara de quem não gostou das insinuações e pronto!

         O silêncio se sobrepõe na sala. Os dois jogam desde as dez da noite. Essa sexta-feira vai longe. Ao menos, uma vez por semana se encontram para conversar, jogar carteado e beber. A noite quente recebe uma providencial brisa refrescante, essa invade o apartamento sem pedir licença. Os sons exteriores nunca param, mesmo na madrugada, anunciam, assim, que a cidade está viva. Distribuídas às cartas tem inicio as estratégias.

- humm. Humm – cantarola uma música Márcio – vamos ver. E você o que pensa disso?

         Concentrado no jogo, Naldo não responde.

- Peraí. Peraí. Peraí.

         O jogo continua. Compram cartas, jogam e depois compram outra vez. Os olhares não se encontram. Naldo está super concentrado, enquanto Márcio tem outras coisas em mente, jogando mecanicamente. Nesse apartamento moram Márcio e sua única filha, Laura Maria. Separado a seis anos da esposa, Márcio não casou mais e a filha preferiu morar com ele após inumeráveis discussões com a mãe, pois os parentes maternos, intrometidos, reprovavam as visitas frequentes que a moça fazia ao pai. Muitos homens visitavam também o ap. de Márcio, o que julgavam inadequado a presença de uma menina de quinze anos naquele ambiente sem pudor e desmoralizado.

- O que você acha disso Naldo?

- Disso o que?

- Do que falam de nós dois.

- O que temos nós dois?

- O povo não anda falando de nós? – Naldo acena com um movimento afirmativo de cabeça – Então – insiste Márcio – o que você acha?

- Acha o que porra? – irrita-se Naldo.

- De nós dois – disse Márcio irritado usando de ironia ao mesmo tempo.

         Naldo nada diz. Concentrado no jogo.

- Não dizem que estamos namorando?

- Quem disse isso? Naldo de cenho franzido, espantado, olha para o amigo a sua frente.

- Você – insiste verbalizando a impaciência – você disse que estão dizendo por aí coisas entre nós dois – usa o dedo indicador, apontando para si mesmo e para o amigo.

- Ah, é.

- Então?

- Então o que?

- Então! Eu e você estamos – suspende a fala por instantes esperando a atenção de Naldo – estamos namorando?

    O outro não responde. Seguem jogando. 

    Márcio tem um sorriso nos lábios que não consegue dominar apesar do esforço que faz. Naldo por sua vez mantém o cenho cerrado sufocado pela concentração no jogo. Horas passam. Madrugada de Sábado: uma, uma e meia, duas, três. O rádio quase inaudível dilui a música que reprime o suposto silêncio da madrugada e da sala, pois a cidade não dorme. Com xícaras de café e vodca Naldo permanece acordado. Márcio serve-se de vinho.

- Como estão suas aulas? – Márcio quebra o gelo entre os dois.

- Quase terminando – responde automaticamente ao colega.

- Estão mesmo ou será outra que não vai terminar? – provoca o parceiro das madrugadas infinitas.

- Como assim? – disse Naldo.

- Naldo. Sua fama é a de começar algo e não terminar. Ou desistir e recomeçar.

- Ah. Nem sou assim.

- Ah, digo eu. Tá bom! Sua carteira de motorista levou oito anos para sair do Detran.

- Tive problemas.

- Problemas? Problemas Naldo?

- É. Problemas.

- Você cria seus problemas

- Nem vem. Nem é assim.

- Naldo? Passar a mão, na bunda da instrutora, não é criar seus próprios problemas?

         Naldo então nada diz. Com o fim do jogo recolhe as cartas e embaralha outra vez mais. Distribui. Segue o jogo.

         A música no rádio dispersa a monotonia da madrugada. Naldo canta, em sussurros, ao mesmo tempo em que movimenta no ritmo a cabeça que balança.

- ta viejo, hem Naldo? – Brinca Márcio em espanhol.

                Naldo não cai na provocação, segue concentrado no jogo e sussurrando a música. Até o fim.

- Há quanto tempo não ouvia essa música – disse Naldo a si mesmo.

- Velho! – dispara irônico Márcio.

- Meu pai é quem amava essa cantora.

- Quem?

- Quem o que?

- Quem é essa cantora? – perde a paciência Márcio, entre olhos arregalados e dentes cerrados.

- Maria Bethânia.

- Nem sei quem é.

- Tu estás brincando né?

- Não – responde sinceramente Márcio – desculpe a minha ignorância, vovô.

    Naldo não responde. Dá-se ao luxo, isso sim, de esboçar com um movimento sarcástico da cabeça indicando negação, como reprovação pela falta de cultura do amigo. É gozação. Márcio de sua parte abre os olhos dissipando sua impaciência com Naldo, terminando enfim, com um rosto coberto por uma máscara de ironia. Sacode também a cabeça provocando o amigo.

- ai, ai – disse demonstrando cansaço com um bocejo. E seguem o jogando.

- Quer vinho?

- Não.

- Tem café ainda?

- Sim.

-Cansou?

- Não.

Seguem jogando.

- Você ainda não me respondeu – insiste outra vez Márcio.

- Não respondi o que? Não estou entendendo.

- Terra chamando Naldo.

- Por que você não é mais direto? – irritado disse Naldo.

Márcio o olha sem demonstrar a impaciência que sente. Respirando profundamente demonstra sua frustração. Volta a distrair-se com as cartas que tem em mãos.

- O cantor que mais gosto é do Gil.

- Velho.

Canta então Naldo: “Ainda me lembro/da gente sentado ali/amigos presos/amigos sumindo assim”.

- Estou ti falando que você está velho.

- A vida passa para todos.

- Shi! Fala baixo. A Laura está dormindo.

- Hum? Dormindo?

- É. Amanhã ela vai fazer o Enem.

- Amanhã ou hoje?

- Ah. Você entendeu né? Mas quem é que falou da gente?

- Falou o que?

- Quem falou que estamos namorando?

- Quem que falou isso?

- Naldo, tu és burro também ou só se faz? Estou me irritando já com essa história.

- Que história?

- Deixe! Esquece.

- Que nós estamos tendo um caso?

- Deixe. Esquece. E jogue logo. Saco.

- Um monte de gente.

Márcio não responde mais, finge se divertir escolhendo as cartas que vai jogar. Por alguns minutos Naldo parece distraído também com a estratégia que vai lançar mão. Por fim retoma o assunto.

- O Júnior, o Lázaro, o Gabriel. A Amélia, irmã do Otávio e do Junior é quem me contou.

- Eu já não ti disse pra esquecer esse assunto? – irritado com Naldo Márcio engrossa a falta de paciência que antes dispensava ao amigo.

Naldo não se importa. Continua.

- Eu nem to ai.

A curiosidade é natural às pessoas, impositiva e muito mais forte que qualquer irritação ou indignação. O próprio Márcio se surpreende com sua pergunta involuntária.

- E você?

- Não dou importância ao o que aqueles idiotas dizem.

- E a Amélia?

- O que tem? – Naldo disse com visível aceleração do coração.

- Tu gostavas dela não?

- Já passou.

- Esse seu “já passou” não me convenceu.

Naldo não responde.

- Ela gostava de judiar de você.

- São águas passadas.

- Ah. Águas passadas. Esse – aponta Márcio com o dedo indicador primeiro o olho direito e depois o esquerdo – é irmão deste.

- Posso admitir que ainda – disse Naldo – sinto um frio na barriga quando a vejo – completando instantes depois com muito esforço – mas passou.

- Tu comes até coco de galinha por causa daquela bruaca – insinua Márcio sem olhar para o amigo com os olhos presos nas cartas que tem em mãos – bruaca e loira.

Naldo deixa escapar um grande bocejo longamente prolongado e no fim disse “que sono”.

- Também são quase quatro horas da manhã.

- Posso dormir no sofá? – pergunta Naldo entre outro prolongado bocejo já a esticar dos braços e do corpo na poltrona abraçando ao mesmo tempo uma almofada.

- Pode – disse Márcio – ia ti convidar pra dormir comigo na minha cama, mas já que não estamos namorando, pode dormir no sofá sim.

- Obrigado – Naldo agradece entre outro bocejo e o fechar dos olhos já deitado – se poder fechar a janela fico ti devendo uma, Márcio.

- Só – avisa Márcio no momento em que encosta os vidros da janela e fecha a cortina, seguindo ao corredor que leva ao quarto – não durma pelado – quando alcança o interruptor das luzes da sala – A Laura pode acordar de madrugada ou na manhã e sofrer um susto com um homem nu dormindo no meu sofá – apaga a luz – ou eu mesmo não resistir e vir te agarrar.

- Vai catar coquinho! Boa noite – responde Naldo.

- Boa noite, Bobão.

 

                                                FIM.

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