DO QUE ESTÃO FALANDO POR AÍ. OU: E O QUE VOCÊ
DISSE?
- E o que você disse então?
- Do que?
- Do que estão falando por aí.
- Falando por aí sobre o que? Não estou entendendo.
- Sobre nós – aponta com o dedo indicador para si mesmo e para o outro
que embaralha as cartas que jogam.
- Ah. Não disse nada.
- Naldo! Quem cala consente!
- Fiz uma cara de quem não gostou das insinuações e pronto!
O silêncio se sobrepõe na
sala. Os dois jogam desde as dez da noite. Essa sexta-feira vai longe. Ao menos, uma vez por semana se encontram para conversar, jogar carteado e beber. A noite
quente recebe uma providencial brisa refrescante, essa invade o apartamento sem pedir
licença. Os sons exteriores nunca param, mesmo na madrugada, anunciam, assim,
que a cidade está viva. Distribuídas às cartas tem inicio as estratégias.
- humm. Humm – cantarola uma música Márcio – vamos ver. E você o que
pensa disso?
Concentrado no jogo, Naldo
não responde.
- Peraí. Peraí. Peraí.
O jogo continua. Compram
cartas, jogam e depois compram outra vez. Os olhares não se encontram. Naldo
está super concentrado, enquanto Márcio tem outras coisas em mente, jogando
mecanicamente. Nesse apartamento moram Márcio e sua única filha, Laura Maria.
Separado a seis anos da esposa, Márcio não casou mais e a filha preferiu morar
com ele após inumeráveis discussões com a mãe, pois os parentes maternos, intrometidos,
reprovavam as visitas frequentes que a moça fazia ao pai. Muitos homens
visitavam também o ap. de Márcio, o que julgavam inadequado a presença de uma
menina de quinze anos naquele ambiente sem pudor e desmoralizado.
- O que você acha disso Naldo?
- Disso o que?
- Do que falam de nós dois.
- O que temos nós dois?
- O povo não anda falando de nós? – Naldo acena com um movimento
afirmativo de cabeça – Então – insiste Márcio – o que você acha?
- Acha o que porra? – irrita-se Naldo.
- De nós dois – disse Márcio irritado usando de ironia ao mesmo tempo.
Naldo nada diz.
Concentrado no jogo.
- Não dizem que estamos namorando?
- Quem disse isso? Naldo de cenho franzido, espantado, olha para o amigo
a sua frente.
- Você – insiste verbalizando a impaciência – você disse que estão
dizendo por aí coisas entre nós dois – usa o dedo indicador, apontando para si
mesmo e para o amigo.
- Ah, é.
- Então?
- Então o que?
- Então! Eu e você estamos – suspende a fala por instantes esperando a atenção de Naldo – estamos namorando?
O outro não responde. Seguem jogando.
Márcio tem um sorriso nos lábios que não consegue dominar apesar do esforço que faz. Naldo por sua vez mantém o cenho cerrado sufocado pela concentração no jogo. Horas passam. Madrugada de Sábado: uma, uma e meia, duas, três. O rádio quase inaudível dilui a música que reprime o suposto silêncio da madrugada e da sala, pois a cidade não dorme. Com xícaras de café e vodca Naldo permanece acordado. Márcio serve-se de vinho.
- Como estão suas aulas? – Márcio quebra o gelo entre os dois.
- Quase terminando – responde automaticamente ao colega.
- Estão mesmo ou será outra que não vai terminar? – provoca o parceiro
das madrugadas infinitas.
- Como assim? – disse Naldo.
- Naldo. Sua fama é a de começar algo e não terminar. Ou desistir e
recomeçar.
- Ah. Nem sou assim.
- Ah, digo eu. Tá bom! Sua carteira de motorista levou oito anos para
sair do Detran.
- Tive problemas.
- Problemas? Problemas Naldo?
- É. Problemas.
- Você cria seus problemas
- Nem vem. Nem é assim.
- Naldo? Passar a mão, na bunda da instrutora, não é criar seus próprios problemas?
Naldo então nada diz. Com
o fim do jogo recolhe as cartas e embaralha outra vez mais. Distribui.
Segue o jogo.
A música no rádio dispersa
a monotonia da madrugada. Naldo canta, em sussurros, ao mesmo tempo em que
movimenta no ritmo a cabeça que balança.
- ta viejo, hem Naldo? –
Brinca Márcio em espanhol.
Naldo
não cai na provocação, segue concentrado no jogo e sussurrando a música. Até o
fim.
- Há quanto tempo não ouvia essa música – disse
Naldo a si mesmo.
- Velho! – dispara irônico Márcio.
- Meu pai é quem amava essa cantora.
- Quem?
- Quem o que?
- Quem é essa cantora? – perde a paciência Márcio, entre olhos arregalados e dentes cerrados.
- Maria Bethânia.
- Nem sei quem é.
- Tu estás brincando né?
- Não – responde
sinceramente Márcio – desculpe a minha ignorância, vovô.
Naldo não responde.
Dá-se ao luxo, isso sim, de esboçar com um movimento sarcástico da
cabeça indicando negação, como reprovação pela falta de cultura do amigo.
É gozação. Márcio de sua parte abre os olhos dissipando sua impaciência com
Naldo, terminando enfim, com um rosto coberto por uma máscara de ironia. Sacode
também a cabeça provocando o amigo.
-
ai, ai – disse demonstrando cansaço com um bocejo. E seguem o jogando.
-
Quer vinho?
-
Não.
-
Tem café ainda?
-
Sim.
-Cansou?
-
Não.
Seguem
jogando.
-
Você ainda não me respondeu – insiste outra vez Márcio.
-
Não respondi o que? Não estou entendendo.
-
Terra chamando Naldo.
-
Por que você não é mais direto? – irritado disse Naldo.
Márcio
o olha sem demonstrar a impaciência que sente. Respirando profundamente
demonstra sua frustração. Volta a distrair-se com as cartas que tem em mãos.
-
O cantor que mais gosto é do Gil.
-
Velho.
Canta
então Naldo: “Ainda me lembro/da gente sentado ali/amigos presos/amigos sumindo
assim”.
-
Estou ti falando que você está velho.
-
A vida passa para todos.
-
Shi! Fala baixo. A Laura está dormindo.
-
Hum? Dormindo?
-
É. Amanhã ela vai fazer o Enem.
-
Amanhã ou hoje?
-
Ah. Você entendeu né? Mas quem é que falou da gente?
-
Falou o que?
-
Quem falou que estamos namorando?
-
Quem que falou isso?
-
Naldo, tu és burro também ou só se faz? Estou me irritando já com essa
história.
-
Que história?
-
Deixe! Esquece.
-
Que nós estamos tendo um caso?
-
Deixe. Esquece. E jogue logo. Saco.
-
Um monte de gente.
Márcio
não responde mais, finge se divertir escolhendo as cartas que vai jogar. Por
alguns minutos Naldo parece distraído também com a estratégia que vai lançar
mão. Por fim retoma o assunto.
-
O Júnior, o Lázaro, o Gabriel. A Amélia, irmã do Otávio e do Junior é quem me
contou.
-
Eu já não ti disse pra esquecer esse assunto? – irritado com Naldo Márcio
engrossa a falta de paciência que antes dispensava ao amigo.
Naldo
não se importa. Continua.
-
Eu nem to ai.
A
curiosidade é natural às pessoas, impositiva e muito mais forte que qualquer
irritação ou indignação. O próprio Márcio se surpreende com sua pergunta
involuntária.
-
E você?
-
Não dou importância ao o que aqueles idiotas dizem.
-
E a Amélia?
-
O que tem? – Naldo disse com visível aceleração do coração.
-
Tu gostavas dela não?
-
Já passou.
-
Esse seu “já passou” não me convenceu.
Naldo
não responde.
-
Ela gostava de judiar de você.
-
São águas passadas.
-
Ah. Águas passadas. Esse – aponta Márcio com o dedo indicador primeiro o olho
direito e depois o esquerdo – é irmão deste.
-
Posso admitir que ainda – disse Naldo – sinto um frio na barriga quando a vejo
– completando instantes depois com muito esforço – mas passou.
-
Tu comes até coco de galinha por causa daquela bruaca – insinua Márcio sem
olhar para o amigo com os olhos presos nas cartas que tem em mãos – bruaca e
loira.
Naldo
deixa escapar um grande bocejo longamente prolongado e no fim disse “que sono”.
-
Também são quase quatro horas da manhã.
-
Posso dormir no sofá? – pergunta Naldo entre outro prolongado bocejo já a
esticar dos braços e do corpo na poltrona abraçando ao mesmo tempo uma
almofada.
-
Pode – disse Márcio – ia ti convidar pra dormir comigo na minha cama, mas já
que não estamos namorando, pode dormir no sofá sim.
-
Obrigado – Naldo agradece entre outro bocejo e o fechar dos olhos já deitado –
se poder fechar a janela fico ti devendo uma, Márcio.
-
Só – avisa Márcio no momento em que encosta os vidros da janela e fecha a cortina,
seguindo ao corredor que leva ao quarto – não durma pelado – quando alcança o interruptor
das luzes da sala – A Laura pode acordar de madrugada ou na manhã e sofrer um
susto com um homem nu dormindo no meu sofá – apaga a luz – ou eu mesmo não resistir
e vir te agarrar.
-
Vai catar coquinho! Boa noite – responde Naldo.
-
Boa noite, Bobão.
FIM.
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