sexta-feira, 16 de outubro de 2020

COM O PANDEIRO MA MÃO.

 

COM O PANDEIRO NA MÃO.

        

Com o pandeiro na mão, Flávio, demonstra o que muitos já sabiam na comunidade: seu enorme talento com instrumentos musicais. O rapaz distribui sorrisos e simpatias com o pandeiro na mão e a alegria de seus olhos que brilham. Reconhecido como um dos melhores músicos do morro, tem assim o ego alimentado. A companhia de uma ótima cerveja gelada, lubrificando lábios e garganta, mulheres bonitas e churrasquinho, é tudo o espera do mundo.

         Têm admiradores, amigos nas vielas do morro. Contudo, alguns moradores sentem certo desconforto com a presença do instrumentista, mantendo certa distância do rapaz. Sua presença gera rumores e murmúrios sobre a vida desregrada que leva, morro acima, morro abaixo. A admiração de alguns vem das esquivadas dos enrosco fugindo com a agilidade de um gato, por essas espertezas e malandragens que desenvolveu no vai e vem das vielas, é herói dos que o admiram. Entretanto, sabemos que outros não aceitam assim.

         Simples, sorridente, age com justiça, no caso de opinar ou resolver conflitos de terceiros. Ele mesmo nunca julga suas próprias ações, prejudicar um inocente ou se precisa enganar outros vai em frente. Afinal, pensa, preciso garantir minha sobrevivência. A consciência até pesa, mas, é só encharcar o corpo com uma cerveja bem gelada, anuviar a cabeça e pronto.

         Sorrisos. Animada roda de samba, Flávio domina com maestria o cavaquinho, é mestre, preferindo, entretanto, em especial nessa tarde de sábado, já avançando à noite, o pandeiro. Condiz mais liberdade de atacar o prato com nacos de carne do churrasco que passa por ali, acompanhado de linguicinha e farofa.

 Intrometido, sem convite, seguiu, das estreitas ladeiras, um amigo que encontrou nas escadarias. Cumprimentou-o, então, deveras já dito sobre sua simpatia, recebendo de volta um “como está?”; rápido, numa tentativa de escape inusitada, o que Flávio logo percebeu como estratégia de fuga. Desconfiado esticou a conversa, “e como está a tia?”; Flávio chama a mãe de seus conhecidos sempre por tia; “vai bem. Falou? Tenho de ir. Foi bom ti ver”; “vai onde?”; “na casa de um camarada.”; “legal”, responde Flávio depois de correr rápido os olhos pelas mãos e sacolas levadas pelo ansioso fugitivo. Identificou cervejas, carne, sal grosso e um reco-reco. Percebendo, o interrogado deixa um ligeiro “vou indo, valeu?”; Essa deixa não escapou a agilidade surpreendente que Flávio tem para arrumar desculpas e não deixar caça fugir.

- Agora lembrei – ligeiro – vi você e lembrei. Tenho que voltar em casa esqueci uns papéis, ainda bem que vi você. Onde estou com a cabeça? Vou aproveitar e subir junto, posso?

Não espera ser convidado e já gruda. Subiram quase em silêncio, só os questionamentos de Flávio tentando tirar segredos escondido pelo visivelmente receoso companheiro de escadarias quebrava o gelo. O esquecido Flávio juntou-se assim a roda de samba e ao churrasco, mesmo sem ser convidado. Hoje mata a vontade de cerveja e churrasco. Jardel, sem sorte, encontrou Flávio pelo caminho, e não passará ileso de um bom sabão da tia por ter trazido aquele cara de pau até sua casa.

A festa ganhou um ar pesado, denso e sufocante, mesmo que Flávio não demonstrasse a menor preocupação com isso, distribuindo sorrisos. Invertido, muitos ali se sentiram ultrajados, mesmo incomodados com a presença daquele “salafrário e sem vergonha”. Chateados deixaram a festa.

- Olha aí? Viu Jardel? Você não sabe que esse sem vergonha fez o que não devia com a filha da Neném e do Anselmo?

- Mas tia, ele me seguiu até aqui. Eu disse a ele que era só pra convidados e seu Anselmo estaria também.

- Eu vou ti matar – responde a tia, rosnando entre os dentes, descendo o braço no sobrinho, desferindo cascudos na cabeça dele.

E Flávio? Galanteador, dizem as venenosas línguas da comunidade, é pai de seis crianças no morro, isso aos vinte e um anos. Bonito ele é, cor de canela, pele que brilha ao sol, quase sempre sem camisa, cabelo alinhado, dentes fortes, brancos, perfeitos, sorriso desenhado por lábios grossos libidinosos. Encanta moças, inveja alguns homens e preocupa a diferentes pais da favela.

Meninas sonham com ele e seu robusto peitoral. Bom de conversa, tanto quanto de jogo de cintura. Olhos dentro dos olhos de uma moça que samba sem cansar, sabendo, mesmo assim desejoso, que é noiva de um morador do morro. Não está nem aí. “deixou filhas e noivas soltas, meu irmão...”.

Flávio mora com a avó. Não sabe dos pais, e não tem irmãos. Estudos? O ensino Médio por persistência da avó que o venceu pela aporrinhação, daí por diante toca a vida como dá: foi moto táxi, sem habilitação fazia corridas dentro da comunidade, entrega de água é gás, no mesmo mercadinho onde era uma espécie de faz tudo, repõe mercadoria, ajudava no caixa, na padaria e entregas, nessas idas e vindas pelas vielas conheceu muitas das namoradas com quem teve diferentes filhos e filhas.

Flávio sabe muito bem onde coloca o nariz, mantendo distância do tráfico e da ladroagem. Tem noção do perigo, sabe que o envolvimento com os malucos nunca acaba bem. Ultimamente vem se garantindo no apoio de músicos famosos ou os que procuram seus espaços pelos bares da cidade, seu domínio no cavaquinho e no pandeiro desceu o morro e correu até o asfalto. Numa dessas apresentações  conheceu e engravidou uma artista famosa das telenovelas. É. Seu mundo é esse.

Como ninguém pode culpá-lo de não gostar do tedioso, chato e desumano trabalho mecânico, de oito horas diárias, o jovem tem razão em não aceitar se submeter à tamanha violência física. Convenhamos, amigos leitores, ele tem razão.    

A cerveja gelada seca rápido no copo de Flávio, tão rápido quanto os molejos da incansável dançarina, seus movimentos luxuriantes no rebolar e quebrar do samba. É atacada inexoravelmente pelos olhares maliciosos de Flávio. Há muito andava cuidando da moça, e agora estão próximos. Sua chance de trocar umas ideias com a morena surgiu hoje.

- Lê, lê, lê, lê – todos cantam num coro uníssono.

- “Vai vadiar, vai vadiar, vai vadiar, vai vadiar” – outro coro.

- “Sonho meu, sonho meu”... – e outro.

- “Põe meia dúzia de Brahma pra gelar que eu tô voltando” - e outro.

- Flávio! – um grito, seu nome sobrepujou todos os instrumentos, conversas empolgadas e a cantoria. Assustado olha na direção de quem o chamou.

- dona Neném! Não, pelo amor de deus! Não faça essa bobagem! – grita à dona da casa, tia de Jardel, quem organizou a festa e convidou à vizinha, dona Neném. 

 Portava uma arma apontada diretamente para o jovem que destruiu sua vida e desgraçou com a da filha, quando essa caiu na conversa desse salafrário. Flávio assediou sua única filha, iludindo-a com promessas de casamento. Quinze anos a moça, apaixonada, acreditou e engravidou. Depois de descobrir, Flávio pulou fora do barco.

Os olhos expressando um pânico nunca antes tocado em seus nervos dessa forma, respiração tensa, lábios trêmulos, sua reação é correr.

- Vai fugir? – dona Neném dá um tiro de advertência na frente dos pés de Flávio.

Sua menina, com vergonha e desesperada por ter sido enganado pelo galanteador desistiu da vida dando um fim na dor pulando da ponte Rio-Niterói.

- Vai fazer como da outra vez, desgraçado? – disse dona Neném.

Metade dos convidados fugiu, ficando os mais chegados à tentativa de impedir o provável final anunciado como um trovão antes da tempestade.

- Não dona Neném. Não faça isso – implora o tio de Jardel que caminha em direção de dona Neném, essa atira ao chão avisando para não se aproximar, demonstra não estar de brincadeira. Ali a coisa é séria.

O silêncio assustador rompe por completo com qualquer murmúrio ou pedidos de deixa disso. Nada mais escutam, além da respiração acelerada do algoz e do condenado. O peito de Flávio parece que irá explodir como se fosse cuspir o coração. Sem mais, tenta correr outra vez, contudo, outro estampido seco o impede. Uns tampam os ouvidos, outros fecham também os olhos aliando as duas reações automáticas. 

- Tenta de novo. Vai seu desgraçado. Hoje você não sai vivo daqui.

Flávio levanta as mãos numa reação de rendição. Nada diz, nada pode dizer.

- dona Neném não faz isso pelo amor de deus. Vai desgraçar com sua vida – suplica a tia de Jardel – isso não trará sua filha de volta.

- Eu sei – ríspida dona Neném corta os apelos da vizinha – só que quando eu acabar com ele irei encontrar minha filhinha ao lado de Jesus no céu.

- Não Neném não! – implora desesperadamente à amiga. Incontida, derrama lágrimas e soluços, entre os quais, diz, repetidas vezes, não, não e não.

Um chute assusta o marido de dona Neném, que acorda do sono pesado, ao mesmo tempo em que a mulher se debate ao seu lado na cama.

- Neném? Acorda mulher. Teve um pesadelo?

Dona Neném encara o marido, de bagos arregalados, abraça-o chorosa, intensamente, murmurando a saudade que sente da filha que perdeu.

 

 

                                      FIM. VERÃO/MARÇO/2020.

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