sábado, 10 de julho de 2021

SAMBA NO MORRO ou PARA QUEM ENTENDE DE SAMBA.

 

SAMBA NO MORRO ou PARA QUEM ENTENDE DE SAMBA.

        

        Sexta, sábado e domingo. A roda de samba no alto do morro canta as mazelas e conta as malícias do povo contra um sistema de privilégios que empurra a nós, trabalhadores, para a margem da sociedade contemporânea. Quanto mais alto a melanina de sua pele, mais próxima fica a margem social dos esquecidos.

         A roda de samba é aberta a todos. Comida, peixe frito, cerveja, refrigerantes e muita alegria. Um dos puxadores do samba é Munico. Dependendo de quem, e o que vem procurar, a letra cantada por Munico é acompanhada dos demais sambistas num animado coro, entre sorrisos, entendimentos, olhares e recados pré-estabelecido.

         Com a chegada de um homem, de cabelos brancos entre fios pretos, esses o denunciam passar da casa dos quarenta, leva Munico a colar seus olhos no recém-chegado, entendido, aguarda o fim da canção. Os sambistas molham a garganta com cerveja gelada. Então Munico inicia outra música, de arrasto tem a mensagem no entrelinhas.

         - É cocada boa não é/

           Cocada boa.

         Entendido? É por aí que vai a coisa.

         Para se chegar à roda tem de ter alguém autorizado e que o batize, um padrinho, uma madrinha, que vá com a cara do consumidor que ali quer comprar o que vendem no morro. Esse padrinho deve deixar inteirado de como funciona o movimento dentro da roda de samba. A aprovação de quem pode participar parte de todos os músicos da roda de samba. Quando alguém não é de confiança, também é Munico quem dá o lance cantando de acordo, avisando que a barra tá suja e, é preciso segurar até sair os sujeiras.

         - Era caguete sim/

           Era caguete sim/

           Até no velório o defunto apontava pra mim.

         - Se gritar pega ladrão/

           Não fica um meu irmão/

           Se gritar pega ladrão/

           Não fica um.

         E esse:

         - Vou apertar/

           Mas não vou acender agora/

           Vou apertar/

           Se segura malandro/

           Pra fazer a cabeça tem hora.

         Sempre as mensagens sugeridas estão escondidas na música cantada pelo grupo. Um grupo de moças se aproxima da roda. Munco e os outros cantores lançam olhares para as jovens que sambam, bebem cerveja enquanto aguardam as “ordens” de Munico.

         - Dá uma geral/

           Faz um bom defumador/

           Encha a casa de flor/

           Que eu tô voltando.

         Terminada a música, Munico dá um golaço na cerveja de seu copo e seca-o. Alguns instantes silenciam todos, enquanto parece pensar. Meche nas cordas do cavaquinho, acelera as notas que toca e solta à voz.

         - O meu vizinho jogou uma semente em meu quintal/

           E Derrepente brotou/

           Um tremendo matagal/

           O meu vizinho jogou.

         Uma das moças, ruiva, de sardas que cobrem a pele branca de seu rosto escondido entre seus cacheados cabelos, enquanto samba, de copo com cerveja na mão, dirige seus olhos para Munico e sua música que puxa. Faz um sinal com o dedão de entendida, sorrindo, volta a ter com as amigas. Por fim, Munico puxa outro samba com mensagens para os entendidos de seus negócios.

         - Madalena, Madalena/

           Você é meu bem querer/

           Eu vou falar pra todo mundo/

          Vou falar pra todo mundo/

           Que eu só quero é você.

         Todavia, a moça, sabida das regras a adotar, tem de cumprir os passos: deixar findar a canção, sozinha, dirigir-se a casa da tia de Munico chamada Madalena, onde encontrará o que veio buscar. Outro grupo sobe e outro samba é animado na voz de Munico e seus companheiros de roda de samba.

         - Ô, Irene/

           Ô, Irene/

           Vai buscar querosene para acender o fogareiro/

         Então, o negócio está com a cabelereira Irene. Famosa no alto da comunidade. Outro samba insinua que é preciso ir à frutaria do Alvino.

         - Fui no pagode/

           Acabou a comida/

           Acabou a bebida/

           Acabou a canja/

           Sobrou pra mim/

           O bagaço da laranja

         Entendidas ambas as partes, a roda de samba de Munico teve um fim trágico. Com quinze anos de existência certo governador subiu em um helicóptero de onde gravava lives para redes sociais respondendo a seus eleitores, pagando promessas de que estava dando cabo, finalmente, do problema que aflige grande parte da sociedade carioca: o tráfico de drogas controlado pelos favelados dos morros da cidade.

         Incrível como os mesmos grupos sociais que alimentam esse mercado são os mesmos que exigem pela moralização da sociedade, pedem por segurança, e por justiça.

 

                            PRIMAVERA/NOV/2020.

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