segunda-feira, 5 de julho de 2021

NEGOCIANDO DESTINOS NO CÉU

 

NEGOCIANDO DESTINOS NO CÉU

 

         - Diabo? Diabo?

  O susto que leva o senhor das profundezas pela força das batidas na porta não é um bom sinal do que vem por aí. A entidade, sentada ao sofá lê, ou lia, calmamente um jornal, pergunta quem é que o chama mesmo sabendo de quem se trata. Controla-se do sobressalto respirando e pedindo clemência num surdo murmúrio.

- Quem é?

- Diabo. Papai quer falar com você.

- Emanoel?

- Papai quer falar com você.

- O que houve Emanoel?

  Paciente o Diabo atende o irritado homem barbudo que por pouco não derrubou sua porta. Convida-o a entrar com um sinal do braço dando passagem e oferece, por cortesia, algo para beber. Emanoel até aceita se tiver suco de maracujá, já que seus nervos estão a flor da pele. O Diabo vai a cozinha prepara um suco, tem também um copo de água com açúcar, serve ao homem com delicadeza que agradece.

- Papai quer falar com você.

- Não sabe o que Ele quer Emanoel?

- Não! Responde com irritação.

- O que aconteceu que está tão irritado Emanoel? Essas últimas semanas você está bem difícil, hein?

- Se todos sempre pedissem favores a você, o tempo todo, eu queria ver se não ficaria irritado como estou! Jesus isso, Jesus aquilo! Agora até o Papai me usa como garoto de recados! Favores! Favores!

- Sei bem. Sou Eu o culpado de tudo. “ A culpa é do Diabo”.

- Mas você ainda pode se vingar torturando quem te incomodar. E eu?

- Depois de tanto tempo vira rotina. Igual trabalho.

A porta então se abre dando passagem a uma bela mulher de curvas generosas, longos cabelos negros bem cuidados e brilhantes, um short jeans da moda, cigarro entre os dedos, pele vermelha, pequenos cornos saindo do alto da testa onde prende seus óculos escuros de grandes lentes arredondadas. Encara os dois homens sentados no sofá, sucinta disfarça a surpresa, baixando os olhos para a poltrona desocupada onde deixa cair as bolsas que trás consigo.

- Oi, Emanoel. Cumprimenta a visita sem calor na voz.

- Oi, responde o Salvador.

Tinhosa se furta de cumprimentar o companheiro que percebe a irritação na atitude da mulher. Segue-a com os olhos até a entrada do quarto, o que escapa de seus pensamentos a frase “é hoje”.

- Cê vê Diabo. Nem casar eu posso.

- Admito que isso seja um castigo cruel. Mas você sabe de sua posição.

- Tem dois mil anos! São novos Tempos.

- Pergunte ao seu Pai, Ele tem que dar um jeito.

- A Tinhosa é sempre assim, brava?

- Quase.

- Eu sei que você é o Senhor das mentiras.

O Diabo abre os braços em sinal de incompreensão.

- Papai quer falar com você. Amolado, Jesus levanta-se sem se despedir e sai furioso, visível nos passos que o denunciam.

O Diabo dirige-se ao quarto de casal onde Tinhosa toma banho na suíte de porta aberta. Aborrecido, briga com a mulher, a qual se limita a admirar da altura de sua beleza e arrogância, o queixoso.

- Trate-o bem. Só isso. Ele não pediu para ser quem é. Disse, alvoroçado o Diabo.

Tinhosa lança um beijo apoiado pela mão para o marido, virando-se e exibindo, de imediato, suas curvas longamente desenhadas, das costas passando pelos glúteos até os tornozelos delineados. A risadinha que deixa escapar completa a posse das vontades do homem que ali de pé a mira.

- Droga, mulher! Você sabe que não resisto aos seus feitiços. Oh, mulher do Diabo!

A gargalhada emitida por Tinhosa é o ponto final da discussão. O cramunhão se despe, entrando no banho junto à mulher que lá o espera.

- Tentação!

 

- Senhor?

- Sente-se.

Por instantes um obtuso silêncio é mantido enquanto Deus alcança da gaveta de sua escrivaninha uma caixa a qual abre entre movimentos contidos e monta as peças de um tabuleiro de xadrez.

- Vamos jogar, disse afinal.

Cantarola uma música não identificada pelo Senhor das Profundezas, mantendo os olhos nas mãos do Pai Eterno, conhecido também por Pai do nazareno.

- O Senhor sabe – quebra o silêncio o Satanás – que Emanoel está passando por problemas.

- Sei. O Criador precipita-se dominador e concordante. Depois de dois mil anos Ele ainda não se acostumou. Vai superar.

- E o que o Senhor quer comigo?

- Bem – antes de falar o Criador estuda o movimento da peça feita pelo demônio. Satanás não entende porque esse Barbudo perde tempo ainda jogando se tudo Ele sabe. - Conhece os filhos do Zé Pedro? Nininha, Pedrinho, Agnaldo e Aélison?

Aélison? Pensa o Diabo, quem foi o cão que batizou o menino com esse nome dos infernos?

Com um leve acenar de cabeça, afirmativo, o Demônio conclui a resposta.

- Quero saber por que prejudica tanto aquela gente?

- Não estou entendendo, Senhor. Poderia ser mais... Claro?

- Eles culpam a Você por todos os males que os afligem.

- Desculpa, mas, eles ainda nem caíram em meu colo, se assim posso dizer, Senhor.

- Você sabe Mefistófeles, que todos os problemas da Humanidade recaem sobre você.

- Eu não tenho poder sobre o mundo dos homens – rápido defende-se da acusação – se o castigo os leva ao meu reino, aí então, e juro que sigo todas as regras, é por culpa deles próprios, Senhor. Livre Arbítrio.

- Preciso culpar alguém Mefistófeles!

- Ah. Claro. Sarcástico o Senhor das Trevas aceita a vontade de Deus – estou às ordens.

- Pense como um castigo a você. Essa família está com muitas dificuldades na mortal vida que levam.

- Só essa família, Senhor?

- O que Eu quero – não dá caso ao sarcasmo do Diabo e continua com seu plano – é que os meninos sejam exemplos para os outros milhões de viventes com dificuldades no mundo mundano. Quero ajudar um pouco a eles.

O que passa pela mente do Diabo é um só me faltava essa.

- E onde entro nisso, Senhor?

- Preciso que se encarregue de botar pedras no caminho deles. Com brandura.

- Senhor? Se não sabe eu não tenho influência nenhuma na vida dos mortais.

- Eu sei Diabo! Irrita-se. Quero acreditar que ainda mando e sou obedecido, homem. Você é o único que ainda me ouve.

- Senhor, perdão.

- Nós dois sabemos que isso não diminuirá o número de condenados ao inferno.

- Cada dia diminui mais Senhor.

- Mefistófeles! Não mintas, por favor.

O chifrudo, envergonhado diante de Deus enterra a cabeça entre os ombros.

- Então, espero que resolva para mim esse problema – disse docemente Deus.

- Vou fazer o melhor ao meu alcance.

- Agora – encerrando o assunto, Deus retoma sua posição de Senhor – termine de jogar.

Mefistófeles movimenta uma peça, sem esperança no resultado, pois, eles já sabem qual o final do jogo.

- Você é previsível, disse o Criador.

- Então Senhor, o Diabo aproveita a deixa para fazer uma proposta. Se eu resolver o que tu me pedes posso exigir uma contra partida?

- Diga. Deus disse após instantes de pensamentos desconfiados.

- Jogar, uma vez, uma partida destituída da visão do futuro?

- E abrir mão de vencer você?

Irritado o demônio encolhe-se num abraço com o silêncio. Até o fim da previsível partida. Resultado mais do que esperado.

- Xeque-mate. Disse do alto de sua arrogância expressa nas gargalhadas pachorrentas.

Ao sair do salão divino o demônio tem planos articulados para o pedido do Todo Poderoso. Emanoel vem em sua direção resmungando sozinho, esbarra com ele como se não existisse e continua com a marcha impaciente nos passos de chinelos gastos. Distante dirige-se ao perguntar se já falou com o Pai. Complicados esses homens de Luzes, pensa o demônio.

Em casa o demônio margeia a vida dos mortais legado aos seus cuidados. Algumas pedras são colocadas pelo caminho dificultando a passagem e escolhas da vida. Tinhosa, curiosa, aproxima-se procurando saber o que seu companheiro tanto faz nesse longo tempo que passa no computador do escritório. Ele sai, volta, fuma, respira, e volta, interessado mais nesse trabalho do que na tortura dos condenados por esses últimos tempos. Roça suas belas pernas no corpo do Diabo. Esse não se importuna com essa tentação. Mantém atenção na tarefa que lhe foi destinado.

- Sabe que estou sentindo sua falta, Diabo? Sugere ao pé do ouvido da entidade com melodiosa voz tentadora.

O Diabo murmura palavras sem significado. Tinhosa afasta as mãos do amante sentando em seu colo. O Diabo continua com a atenção na árdua tarefa depositada a ele pelo Senhor de todas as coisas. A fogosa carinha o companheiro enquanto lê o que ele escreveu. Curiosa questiona o porquê daquilo.

- Não sei Tinhosa. Pergunte a Ele.

- Me arrepio toda só de pensar em ir aquele Salão. Tinhosa lê em voz alta o escrito. “Pés descalços no frio do inverno; dezoito quilômetros diários para ir até o colégio? Inicia a falar com sete? Nininha abusada pelo tio dos doze até os vinte e um?” coitadinha homem! “Pedrinho casou com uma herdeira de fazenda e fortunas?” Você tá mudado Homem!

 

Com o passar dos tempos às coisas vão acontecendo na vida dos jovens. Esses ascendem à vida adulta com muitas dificuldades. Passam pela fome, vivem na rua ao mudarem para a cidade grande, brigam, choram, sofrem. Contudo, é encaixado pelo caminho o destino virtuoso programado para eles.

Pedrinho tornou-se fazendeiro. Aguinaldo escritor de sucesso, cartunista famoso nos meios, superou sua dificuldade de falar através de seu talento com as Letras e a arte do desenho. Ajudou muitos jovens a encontrarem uma oportunidade como a dele. Todavia, a pedra que encontram no caminho precisa ser ultrapassada. O demônio não facilitou a vida desses mortais. Aguinaldo esconde um segredo com o qual precisa lutar por toda a vida: sente uma vontade insana invadir seu corpo precisando com todas as forças controlar-se a aproximação de meninos e meninas em suas aulas de desenho. Sequentemente sofre depressão e já diversas vezes cogitou arriscar-se ao suicídio.

Pedrinho não compreende seu ranço pelas pessoas. Homens e mulheres. Isso acentua sua indiferença ao descaso com que trata as pessoas a sua volta.

Aélison tornou-se professor universitário. Medicina, Direito e Antropologia. Alcoólatra. Diversas vezes largado na sarjeta sempre socorrido por seus estudantes. Não casou. Caso teve mais jovem, com uma professora não correspondida. Tem nas bebidas sua muleta.

E Nininha? Perseguida pelos pesadelos passados, tanto quanto pelos homens enfeitiçados por sua beleza, inteligência e talento para transformar em ouro os negócios aos quais toca, tem as mesmas dificuldades dos irmãos com acréscimo por ser mulher no mundo machista. Dominadores, os homens tentam impor suas vontades sobre Nininha, o que faz o Diabo injetar muita rebeldia no sangue da mulher, percepção do mundo e da vida. Desejo de liberdade e vontade férrea. Nininha é cantora de sucesso, escritora, artista, ativista e feminista. Isso deixa o Criador cismado. Cobra, então, um relatório do demônio.

- Você quer me irritar, Diabo?

Nada responde Mefistófeles.

- Mulheres criam mais turbulências do que deveriam. Inteligentes, belas, fervem o sangue e o coração dos mortais. Guerras são iniciadas por causa delas. Tróia, Diabo, Tróia!

- Por que as criou então, Senhor?

Deus alcança da gaveta o tabuleiro de xadrez, arruma as peças, movimenta um peão. Demonstra, irritação em sua divina voz.

- Jogue, manda. Tenta controlar-se, pois Ele é Deus.

- Não sei ainda por que jogo com você – disse o Diabo sendo sarcástico. Refaz a pergunta na tentativa de dilatar o mau humor de Deus.

- Por que as criou Senhor?

Suspira forte e Deus cruza os braços atento a partida recostando-se ao trono coçando a enorme barba que cultiva há milênios.

- Que encrenca meteu a gente, Senhor. Escravos dos seres mais belos e inteligentes da Existência.

- Só jogue. Deus encerra, com uma ordem, a conversa.

 

                              FIM.

 

 

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UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

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