SENHORES DE ENGENHO.
O senhor do engenho
Laranjeira Verde preocupado com o desaparecimento do filho que completam cinco
dias, recebe do capataz um pequeno maço de tecidos feito de algodão, sangue
manchava o pedaço de pano, pelo cheiro familiar identificava ser sangue.
Acostumado ao aroma contando anos a fio descarnando gado e outros animais,
incluindo seus escravos. Esses exalavam suor e sangue, do trabalho e das
chicotadas respectivamente.
- Mandaram entregar ao
senhor – disse o capataz.
- Quem? – senhor absoluto
daquelas terras estranhou o pacote. Sentiu certa audácia de seu capataz
encarando hora os olhos do homem temeroso hora o embrulho sangrento. Evitou
pegar por instantes, porém alcançou das mãos do empregado, vencido pela
curiosidade. Desenrolando do pano, vencendo o orgulho, trazendo a testa franzido,
sem entender, interessado no que existia no pacote.
Suas botas negras lustrosas de montaria e da lida
diária são feitas com couro de jacaré, bombachas, roupas com um leve tom de
gema de ovo, o definem como homem rico e importante que é na região. Consigo
traz um lenço com o qual enxuga o suor do corpo, nuca, testa e pescoço. O calor
por essas terras é coisa do diabo. Um belo chapéu cobre sua cabeleira,
protegendo seus olhos verde rubi, sensíveis a luz do astro sol. O céu azul,
poucas nuvens e muito calor a essa hora da manhã anunciam que esse será outro
dia de temperaturas altas.
- Quem ti entregou isso? – firme interroga o
capataz, esse de olhos baixos assim permanece, sabe muito bem que seu patrão
não gosta que o encarem.
- Um guri que nunca vi antes. – Responde.
- Que guri é esse? Desembucha logo, homem!
- Não sei patrão. Como disse nunca o vi antes.
Pediu para ti entregar, só isso.
- Sei. – encerra a conversa olhando para o pacote
em suas mãos, desconfia ser uma brincadeira de mau gosto. Pergunta a si mesmo
então quem teria essa audácia de bulir com ele?
Reinicia o desenrolar do pano que cobre o objeto em
suas mãos a fim de descobrir do que se trata afinal. Leva um susto jogando o
objeto longe. Esbugalha os olhos emitindo um grito de horror, engasgado com um “Deus
do céu”, seguido de um “que brincadeira é essa?” Em choque, tremendo os lábios
afasta-se do pano de algodão ao qual vinha enrolado um pedaço de carne, ou
nervo. Recompondo-se perscruta com os olhos os que se encontram a sua volta, o
capataz e alguns cativos, trocando rapidamente para aquele pedaço de carne sujo
de sangue. Deixa escapar uma única palavra num horrorizado tom de voz:
- Filho.
Essa história tem uma série de acontecimentos
sucessivos carregado de sangue, estupros, vinganças. Carnificina, incêndios nos
canaviais e castigos brutais.
Já a muito os senhores de engenhos abusam de suas
escravas, servindo-se delas para saciarem suas intermináveis e incontroláveis
sedes por sexo. Essas mulheres, aprisionadas suportam humilhantes ataques aos
seus corpos, indefesas, muitas vezes insurgem contra essas tiranias patriarcais
a que foram submetidas com fugas ou assassinatos. Quase sempre o resultado é o
mesmo: chicotadas mostrando o lugar delas, ou pior: a cafua.
O fruto não cai longe do pé. Os filhos homens dos
senhores de engenho são ensinados a comandar, e na puberdade aliviam-se, como
os pais, tios e irmãos, nas negras dos engenhos e em suas filhas, fáceis
vitimas de seus desejos masculinos.
Cinco tardes atrás o único filho do senhor desse
engenho, orgulho do pai, perseguia arbitrariamente uma das escravas do latifúndio,
como ele mesmo fez, seu avô e mesmo o bisavô, na ânsia de matar a sede por
mulher. Juliana, com seus dezenove anos, de uma beleza incomparável, encontrava
dificuldades de escapar as investidas do senhorzinho Miguel, ávido em provar de
seu corpo roliço, cor de canela e cheiro. Essas últimas semanas foi brutalmente
atacada, sem, contudo, Miguel conseguir o que tanto desejava.
Juliana, moça nascida escrava tem boa parte da roupa
que vestia rasgada nas tentativas do senhorzinho Miguel de violentá-la,
agarrando-a em plena cozinha onde a moça ascendia o fogo a lenho e ajudava no
preparo do almoço. Com uma cotovelada, desvencilhou-se do perseguidor, sem mais
outra opção arriscou a correr, podendo ser castigada, mais tarde por demorar no
preparo da comida, aos gritos, corre, estímulo ainda maior ao seu senhorzinho,
esse corre atrás dela.
A virgindade de Juliana fora roubada pelo pai do
insistente Miguel, aos quinze anos. Após tal violência, sem descaso a atacavam
constantemente, mesmo os capatazes. Desistiram de importuná-la quando cansaram
dela. Sem sorte é perseguida por Miguel. Muitas vezes a beleza é uma maldição,
mas, ser a posse de alguém como um insignificante objeto sem luxo, que usa e
joga fora, com certeza é milhões de vezes pior.
Corre, tem a
saia rasgada e pés descalços, o perseguidor na sua cola a gritar ordens e
ameaças. A moça lembra-se então, dos avisos que recebeu na senzala na noite
anterior, das conversas que o moço travava com capatazes e amigos sobre ela.
Esses atiçavam sua curiosidade quanto ao calor da negra. Recorda-se do aviso: “se
acontecer amanhã siga na direção do rio”. Sem mais opções é o que faz. Além,
são os búzios que guiam seus pés. Não duvida.
Miguel tem seu sexo rígido e fora das calças
fazendo piadas para a desesperada Juliana. Ela desce a picada que leva ao rio
que corta as terras do afortunado Miguel, herdeiro do engenho. Os olhos da
perseguida vertem lágrimas de desespero, os tormentos infligidos pelos homens
livres e desalmados que tanto a torturou, achou um dia que haviam terminado,
porém retornam. “Nunca vai acabar isso?”
Pensa.
Escuta em desespero os mandos do senhorzinho,
passos atrás dela, quando, é segura por mãos negras surgidas de trás de uma
grande pedra na picada do rio, tirando-a da trilha. Surpresa vira-se e consegue
ver de quem são os negros e potentes punhos, após recuperar-se do puxão. Três
enormes homens, na pele, as cores da África. Esses a olham quando um deles com
o dedo indicador na frente dos grossos lábios característicos de sua humanidade
sugerem silêncio.
Instante depois chega o senhorzinho Miguel berrando
pela moça. Tem então a brusca aparição daqueles homens, nus da cintura pra
cima, os troncos detalhados pelos músculos e marcados com cicatrizes. A
respiração ofegante do menino congela, os olhos dilatam, ao reconhecer os
negros que fugiram do engenho de seu pai. Nada diz, a voz engasga o fôlego lhe
falta e o cansaço da caçada a moça impedem uma reação, uma ordem ou uma fuga.
Sem tempo um desses homens segura-o e tapa com a mão sua boca prevenindo um
pedido de socorro ou ajuda. Em seus olhos, das cores dos de seu pai, desenha-se
o desespero pelo que o aguarda. Nos de Juliana, ao contrário, os olhos emitem
brilhos como sinais de justiça que agora poderá, e pretende afinal cumprir em
nome de todos os que foram arrancados e arrastados da África, aos que pereceram
no caminho ao Novo Mundo, aos atormentados e vilmente acorrentados, recairá
sobre os senhores do Engenho Laranjeira Verde. A justiça contra a violência
praticada pelos senhores brancos e seus aliados, os algozes de suas misérias e
de seus irmãos serão vingados por Juliana. Essa abre um sorriso irônico. Suas
pretensões de castigo vão ser cruéis.
- Então – murmura Juliana, carregando de malicia a
voz rouca – pretendia aliviar seus desejos – aponta para o membro sexual do
rapaz – em mim senhorzinho Miguel?
O agora prisioneiro responde com um meneio da
cabeça, negando. O desespero o domina.
- Eu apanhei muito desse moleque, Juliana. Pense em
algo muito cruel para puni-lo. – Num dialeto Banto sugere um dos homens,
respondendo também a menina na mesma língua, agora dona da situação.
- Como era mesmo a história dos eunucos que nossos
antepassados cantavam tio?
- Ah. Boa menina. É um bom preço pelos anos de
horror que sofremos.
- Não demore Iaiá, - avisa um dos homens na língua
zulu africana. Diferente das usadas por Juliana e seu tio. Recebendo da moça a
resposta na língua com a qual articulou esse último homem.
- Vai ser rápido. Doído, mas rápido. - O sarcasmo
que Juliana trás na voz ao ouvido do mijado senhorzinho, anuncia suas pretensões
ao pegar no pênis do carrasco de meninas, encolhido, agora, como um pinto com
frio.
O agora aterrorizado senhor do engenho, vê seu
mundo e as forças de suas pernas desmoronarem, caindo ao chão, percebe que
aquele pedaço de carne humana sujo de sangue, é o órgão da masculinidade viril
arrebatado do corpo de seu filho!, por um agente cruel e desumano, quem teria a
pachorra a ponto de fazer uma maldade dessas ao seu inocente filho?
- Quem fez isso? – geme mais pra si mesmo do que
aos ali presentes.
O horror cobre seu rosto como um manto branco,
pálido, um silêncio sideral domina o momento. Nem pássaros, relinchar dos
cavalos, mugir do gado, cantar do vento nas árvores. A respiração ofegante do
fazendeiro sobrepuja os sons do mundo.
Enrolando o membro agora separado do corpo, roxo
sujo de sangue, reconhece enfim o tecido da camisa de Miguel, o qual ele mesmo
comprou para o filho em uma viagem a Lisboa. Em movimentos assustadores recolhe
ao peito a trouxa de pano, levanta-se transtornado, com enlouquecidos olhos
estralados, corre em direção da Casa Grande, sua morada, e lá permanece sem
sair, sem ordenar aos comandados daquele dia em diante.
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