DENÚNCIA
O que fazer? Saiu determinada a acabar com tudo.
Enquanto seus passos perdem a firmeza o organismo inunda-se de uma náusea muito
forte que balança sua vontade. Sabe o que deve fazer. Entregar a policia o que
vem acontecendo em casa, em sua vida há anos. Desde que a irmã se matou com a tesoura
enfiada no próprio coração passou a ser ela possuída por aquela situação
insuportável.
No inicio acreditava mesmo ser parte de uma
brincadeira, como insistia sua mãe. Era somente uma criança. Nove anos. Nos
últimos meses intuiu que algo errado sucedia nessa situação pela qual suas
amiguinhas de escola não passavam. Desde quando teve sua primeira experiência
sexual com um namorado há alguns meses entendeu que algo estava errado.
Sua mãe insistia para que prosseguisse. Por ela,
sim, pois não poderia viver sem o Jair. Insistia que precisava dela para não
sofrer e que isso é normal nas famílias, apesar de ninguém comentar e não
poderiam saber de forma alguma que vinha ocorrendo este tipo de brincadeira na
intimidade delas. Palavras da mãe: você não quer que sua mãe acabe presa não é,
minha vida?
Uma grande náusea apoderou-se da jovem. Seu corpo
rejeita cada vez mais aquela turbulenta situação em casa. Uma angustia forte e
ranço tão grande que é preciso ser segura pela mãe, a qual tenta consolá-la com
palavras amigáveis e amáveis. Abraça-a, deitando sua cabeça em seu colo,
segura-a com as pernas cruzadas na cintura convencendo-a que é para o bem de
sua mãe. Enquanto acontece a invasão de seu corpo.
Sabe o quanto é bonita. O quanto desperta o desejo
dos homens. Pernas firmes, lisas, brancas, são presentes, diz seu namorado. Com
ele encontrou certa segurança. Levam tardes de abandono na cama do jovem.
Perdeu essa segurança quando no colo ultrajante da mãe.
A
insegurança a oprime tanto que suga sua certeza. Se der cabo ao que sucede em
casa, pondera, minha mãe vai para a cadeia, e quem vai cuidar de nós? Eu só
tenho dezesseis anos! Senta na calçada, arruma a saia entre as pernas e
lágrimas aguam seus olhos já inchados de tanto chorar.
- O que faço meu deus, o que faço? Ilumine-me
Senhor. Sussurra.
Surge na esquina sua mãe. Grita pelo seu nome.
Contente por tê-la encontrado. Convida a filha a voltar ao lar, a jovem persevera
estar tudo errado à mãe, não da para continuar com isso. A mãe rebate
interrogando-a se ela não pensa na felicidade de sua mãezinha? Se encerrar com
tudo o Jair vai embora e a mulher não sabe se sobrevive a tamanha tristeza. E a
causa é a própria filha, injusta, egoísta. Persiste, pode fechar os olhos na
hora, eu falo pra ele. É minha felicidade, disse a filha, segurando-a e
erguendo-a do chão pelo braço forçando tomarem a direção de casa. Chora pedindo
a mãe que não deixe mais o padrasto tocar em seu corpo. Implora. A mãe silencia
por um bom caminho enquanto conduz a menina de volta a casa. Rosto fechado,
pensamentos nebulosos.
- Filha, rancorosa a mulher disse, você não quer a
felicidade de sua mãe? Não quer que sua mãe seja feliz? Eu tenho esse direito e
proíbo a você fazer o que fez sua irmã, tá ouvindo?
Os dedos apertam as carnes brancas do braço da
menina, que chora, entre a obediência e a angústia de desistir, tendo de passar
por tudo outra vez mais.
VERÃO/JAN/2021.
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