quarta-feira, 28 de abril de 2021

Denúncia.

 

                                                DENÚNCIA



O que fazer? Saiu determinada a acabar com tudo. Enquanto seus passos perdem a firmeza o organismo inunda-se de uma náusea muito forte que balança sua vontade. Sabe o que deve fazer. Entregar a policia o que vem acontecendo em casa, em sua vida há anos. Desde que a irmã se matou com a tesoura enfiada no próprio coração passou a ser ela possuída por aquela situação insuportável.

No inicio acreditava mesmo ser parte de uma brincadeira, como insistia sua mãe. Era somente uma criança. Nove anos. Nos últimos meses intuiu que algo errado sucedia nessa situação pela qual suas amiguinhas de escola não passavam. Desde quando teve sua primeira experiência sexual com um namorado há alguns meses entendeu que algo estava errado.

Sua mãe insistia para que prosseguisse. Por ela, sim, pois não poderia viver sem o Jair. Insistia que precisava dela para não sofrer e que isso é normal nas famílias, apesar de ninguém comentar e não poderiam saber de forma alguma que vinha ocorrendo este tipo de brincadeira na intimidade delas. Palavras da mãe: você não quer que sua mãe acabe presa não é, minha vida?

Uma grande náusea apoderou-se da jovem. Seu corpo rejeita cada vez mais aquela turbulenta situação em casa. Uma angustia forte e ranço tão grande que é preciso ser segura pela mãe, a qual tenta consolá-la com palavras amigáveis e amáveis. Abraça-a, deitando sua cabeça em seu colo, segura-a com as pernas cruzadas na cintura convencendo-a que é para o bem de sua mãe. Enquanto acontece a invasão de seu corpo.

Sabe o quanto é bonita. O quanto desperta o desejo dos homens. Pernas firmes, lisas, brancas, são presentes, diz seu namorado. Com ele encontrou certa segurança. Levam tardes de abandono na cama do jovem. Perdeu essa segurança quando no colo ultrajante da mãe.

 A insegurança a oprime tanto que suga sua certeza. Se der cabo ao que sucede em casa, pondera, minha mãe vai para a cadeia, e quem vai cuidar de nós? Eu só tenho dezesseis anos! Senta na calçada, arruma a saia entre as pernas e lágrimas aguam seus olhos já inchados de tanto chorar.

- O que faço meu deus, o que faço? Ilumine-me Senhor. Sussurra.

Surge na esquina sua mãe. Grita pelo seu nome. Contente por tê-la encontrado. Convida a filha a voltar ao lar, a jovem persevera estar tudo errado à mãe, não da para continuar com isso. A mãe rebate interrogando-a se ela não pensa na felicidade de sua mãezinha? Se encerrar com tudo o Jair vai embora e a mulher não sabe se sobrevive a tamanha tristeza. E a causa é a própria filha, injusta, egoísta. Persiste, pode fechar os olhos na hora, eu falo pra ele. É minha felicidade, disse a filha, segurando-a e erguendo-a do chão pelo braço forçando tomarem a direção de casa. Chora pedindo a mãe que não deixe mais o padrasto tocar em seu corpo. Implora. A mãe silencia por um bom caminho enquanto conduz a menina de volta a casa. Rosto fechado, pensamentos nebulosos.

- Filha, rancorosa a mulher disse, você não quer a felicidade de sua mãe? Não quer que sua mãe seja feliz? Eu tenho esse direito e proíbo a você fazer o que fez sua irmã, tá ouvindo?

Os dedos apertam as carnes brancas do braço da menina, que chora, entre a obediência e a angústia de desistir, tendo de passar por tudo outra vez mais.

 

VERÃO/JAN/2021.

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