O CÃO DA ARMA.
O gatilho o deixa excitado.
Os
pelos de seu corpo se arrepiam.
Um
choque sensual percorre da nuca aos pés, passando pela espinha, rabiscando uma
torção, nos lábios de seu duro rosto. Surge um riso. Um som muito baixo que é
produzido pela excitação. Parecido com o de uma hiena.
Os
olhos acompanham os lábios propagando essa sensação maníaca.
O
tambor começa a girar.
O cão
move-se.
A
eletricidade aumenta. Com os pelos do corpo arrepiados, os culhões esquentam.
O
sorriso se alarga exibindo dentes amarelos de cigarro e cariados. Os olhos,
apesar dos óculos escuros, brilham refletindo a excitação que sente. Respiração
ofegante e hálito quente.
O
tambor move.
O cão
da arma acompanha o movimento.
TÁ!
Um estalo.
O
alvo, amarrado a uma cadeira, com um saco de pano na cabeça, nu, assusta-se,
deixando escapar um grito de desespero. Choque. Primeiro retrai o corpo, em
seguida treme por toda sua extensão sem se controlar. Um choro abafado sai pelo
capuz, escoltado, entre soluços e lamurias de um “porque estão fazendo isso comigo?”
Não
recebe resposta.
Outra
vez mais, puxa o cão da arma que engatilha. Seguido do som da trava.
O
tambor começa a girar com a pressão exercida sobre o gatilho. Agora a ponta
fria da arma pressiona outra região da cabeça do prisioneiro: a nuca. O cão em
movimento gira o tambor, suspendendo o ar de mofo do lugar. Horrorosos gritos,
lamúrias e prantos surgem próximos ou distantes, abafados. De onde? De quem?
Tá!
Outro
estalo.
Choro
e soluços. Outra vez o cão da arma engatilha. A excitação é tão grande que o
homem tem uma ereção.
-
Sente isso? – encosta o membro ereto e firme no braço da pessoa encapuzada.
Aquela sua amiguinha, a pirainha comunista sentiu! Pedia mais, mais, mais.
Silvia? – lembra da amiga e companheira, foram
presos juntos. O cano do revólver movia-se da nuca para a orelha. O cão da arma
move-se.
- Todo
mundo aqui passou a pica naquela putinha. O homem fala com gotas de sarcasmo ao
pé do ouvido.
TÁ!
Outro estalo.
Desespero
total. Chora.
- Por
que você não me mata logo seu filho da puta? Mata-me logo. Pelo amor de Deus!
O
único som que ouve são passos se distanciando. O abrir de uma porta, o
desligar do interruptor, a sensação de penumbra e o som de uma porta distante
metálica abrindo e fechando, por fim um tilintar quase inaudível de chaves.
Sente que agora está só naquele cômodo. Escuridão.
Chora, e,
entre soluços, pedidos de socorro e perguntas endereçadas aos seus algozes, recebe
de volta, gemidos distantes.
Entre esses gemidos distantes, alguém, grita,
insistindo em lembrar seus direitos constitucionais e os sons dos sapatos
desaparecem após um bater de portas metálicas, trancas e o tilintar de chave.
Instantes
depois ao destrancar de portas duas lindas mulheres entram na sala, roupas sensuais,
cabelos presos em grandes coques, maquiadas, conjurando com suas belas feições.
Uma delas solta das amarras o homem que logo se levanta. Por instantes um
silêncio inibidor domina a sala, quebrado por um obrigado por parte do homem,
que acena com a cabeça em agradecimento, enquanto as moças arrumam o espaço
onde se encontram de pé. Uma delas, a ruiva fala ao prisioneiro.
- O
senhor pode pagar no caixa. Espero que tenha encontrado a satisfação que
procurava. Sua esposa o aguarda na saída junto ao caixa.
-
Mais uma vez, obrigado.
FIM.
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