sexta-feira, 23 de abril de 2021

 

 

 O CÃO DA ARMA.

                                                                  

O gatilho o deixa excitado.

         Os pelos de seu corpo se arrepiam.

         Um choque sensual percorre da nuca aos pés, passando pela espinha, rabiscando uma torção, nos lábios de seu duro rosto. Surge um riso. Um som muito baixo que é produzido pela excitação. Parecido com o de uma hiena.

         Os olhos acompanham os lábios propagando essa sensação maníaca.

         O tambor começa a girar.

         O cão move-se.

         A eletricidade aumenta. Com os pelos do corpo arrepiados, os culhões esquentam.

         O sorriso se alarga exibindo dentes amarelos de cigarro e cariados. Os olhos, apesar dos óculos escuros, brilham refletindo a excitação que sente. Respiração ofegante e hálito quente.

         O tambor move.

         O cão da arma acompanha o movimento.

         TÁ!

Um estalo.

         O alvo, amarrado a uma cadeira, com um saco de pano na cabeça, nu, assusta-se, deixando escapar um grito de desespero. Choque. Primeiro retrai o corpo, em seguida treme por toda sua extensão sem se controlar. Um choro abafado sai pelo capuz, escoltado, entre soluços e lamurias de um “porque estão fazendo isso comigo?”

         Não recebe resposta.

         Outra vez mais, puxa o cão da arma que engatilha. Seguido do som da trava.

         O tambor começa a girar com a pressão exercida sobre o gatilho. Agora a ponta fria da arma pressiona outra região da cabeça do prisioneiro: a nuca. O cão em movimento gira o tambor, suspendendo o ar de mofo do lugar. Horrorosos gritos, lamúrias e prantos surgem próximos ou distantes, abafados. De onde? De quem?

Tá!

         Outro estalo.

         Choro e soluços. Outra vez o cão da arma engatilha. A excitação é tão grande que o homem tem uma ereção.

         - Sente isso? – encosta o membro ereto e firme no braço da pessoa encapuzada. Aquela sua amiguinha, a pirainha comunista sentiu! Pedia mais, mais, mais.

Silvia? – lembra da amiga e companheira, foram presos juntos. O cano do revólver movia-se da nuca para a orelha. O cão da arma move-se.

         - Todo mundo aqui passou a pica naquela putinha. O homem fala com gotas de sarcasmo ao pé do ouvido.

         TÁ!

Outro estalo.

         Desespero total. Chora.

         - Por que você não me mata logo seu filho da puta? Mata-me logo. Pelo amor de Deus!

         O único som que ouve são passos se distanciando. O abrir de uma porta, o desligar do interruptor, a sensação de penumbra e o som de uma porta distante metálica abrindo e fechando, por fim um tilintar quase inaudível de chaves. Sente que agora está só naquele cômodo. Escuridão.

 Chora, e, entre soluços, pedidos de socorro e perguntas endereçadas aos seus algozes, recebe de volta, gemidos distantes.

          Entre esses gemidos distantes, alguém, grita, insistindo em lembrar seus direitos constitucionais e os sons dos sapatos desaparecem após um bater de portas metálicas, trancas e o tilintar de chave.

 

         Instantes depois ao destrancar de portas duas lindas mulheres entram na sala, roupas sensuais, cabelos presos em grandes coques, maquiadas, conjurando com suas belas feições. Uma delas solta das amarras o homem que logo se levanta. Por instantes um silêncio inibidor domina a sala, quebrado por um obrigado por parte do homem, que acena com a cabeça em agradecimento, enquanto as moças arrumam o espaço onde se encontram de pé. Uma delas, a ruiva fala ao prisioneiro.

         - O senhor pode pagar no caixa. Espero que tenha encontrado a satisfação que procurava. Sua esposa o aguarda na saída junto ao caixa.

         - Mais uma vez, obrigado.

                                              

FIM.

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