EU ENVENENEI O MEU MARIDO.
Um troféu. Meu troféu.
Como me sito livre hoje? Parece que tirei uma pedra de dez mil toneladas de
minhas costas. Meu troféu? É você, colher de pau. Meu troféu é minha única
amiga. Amigas, amigas mulheres, não tenho e nunca tive. O cão dos infernos do
Aroldo nunca me deixou conversar com ninguém. Verdade, ninguém. Nem ele mesmo
conversava comigo. Quando ia dirigir uma palavra a ele lançava-me com uma
violência sem sentido sua enorme mão, numa bofetada que quebraram diversos dos
meus dentes.
Sou - ou era- uma sola suja
de sapato para ele. O coco do cavalo do bandido. Nossos filhos? Foram feitos na violência, regados à cachaça
e mau hálito.
Agora tenho a minha vingança, meu
troféu. Você, companheira, que sempre sentiu meu estado de nervos, chorou
comigo, foi minha âncora. Agora compartilha comigo de minha vitória. Tortura. Desde
os dezessete anos. E agora, colher de pau, meu troféu, minha vitória.
Ontem Margarete foi à
última de nossos filhos a deixar essa casa. Foi embora. Saiu para viver com o
Cunha. Felicidade? Eu não sei. Acho que não existe. Contudo, o terror acabou. Para
mim acabou. Na mesma tarde de despedidas envenenei esse desgraçado que roubou minha
vida, meus sonhos, e minhas ilusões com violência e o estupro.
Vingada. Nunca me senti
tão leve. Alegre, se assim posso me imaginar. Vou tomar um banho e sair. O sol
e essa tarde me esperam. Claro que vou levar você comigo, companheira de cada
dia de pesadelo que duraram vinte e oito anos. Não vou avisar aos irmãos dele. Que
apodreça aqui, engasgado. Como me sinto?... Feliz.
OUTONO/ABR/2021.
Muito bom ! Mesmo que triste...
ResponderExcluirObrigado.
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