quarta-feira, 28 de abril de 2021

 

EU ENVENENEI O MEU MARIDO.

 

         Um troféu. Meu troféu. Como me sito livre hoje? Parece que tirei uma pedra de dez mil toneladas de minhas costas. Meu troféu? É você, colher de pau. Meu troféu é minha única amiga. Amigas, amigas mulheres, não tenho e nunca tive. O cão dos infernos do Aroldo nunca me deixou conversar com ninguém. Verdade, ninguém. Nem ele mesmo conversava comigo. Quando ia dirigir uma palavra a ele lançava-me com uma violência sem sentido sua enorme mão, numa bofetada que quebraram diversos dos meus dentes.

         Sou - ou era- uma sola suja de sapato para ele. O coco do cavalo do bandido. Nossos filhos? Foram feitos na violência, regados à cachaça e mau hálito.

           Agora tenho a minha vingança, meu troféu. Você, companheira, que sempre sentiu meu estado de nervos, chorou comigo, foi minha âncora. Agora compartilha comigo de minha vitória. Tortura. Desde os dezessete anos. E agora, colher de pau, meu troféu, minha vitória.

         Ontem Margarete foi à última de nossos filhos a deixar essa casa. Foi embora. Saiu para viver com o Cunha. Felicidade? Eu não sei. Acho que não existe. Contudo, o terror acabou. Para mim acabou. Na mesma tarde de despedidas envenenei esse desgraçado que roubou minha vida, meus sonhos, e minhas ilusões com violência e o estupro.

         Vingada. Nunca me senti tão leve. Alegre, se assim posso me imaginar. Vou tomar um banho e sair. O sol e essa tarde me esperam. Claro que vou levar você comigo, companheira de cada dia de pesadelo que duraram vinte e oito anos. Não vou avisar aos irmãos dele. Que apodreça aqui, engasgado. Como me sinto?... Feliz.

 

                            OUTONO/ABR/2021.

2 comentários:

UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...