sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

NÃO ESQUEÇA O QUE DISSE A CIGANA.

 

 Agnaldo caminha distraído tomado por seus problemas diários como os de qualquer pessoa. Está decidindo para onde se dirige primeiro. Ao banco ou ao consultório médico do trabalho? Tem em sua mente essa dúvida ao desembarcar do ônibus que o leva ao centro da cidade. Decide caminhar até a Praça Nereu Ramos para resolver em seguida o próximo passo. Sorriso no rosto, como velas de navios ao vento, alegra-se com o emprego que veio bem a calhar neste momento tão difícil.

Seus passos distraídos, desajeitados como o de toda sua família, são impedidos de continuar por uma mulher que se atira em seu caminho, literalmente. Assusta abrupto jovem distraído arrastando-o de volta a realidade. Agnaldo tenta desviar, cordial, sorrindo, o que não tolhe a barragem que a pequena mulher lhe impõe. Agarra-o pelo braço, sorriso amarelo, entre cinquenta e sessenta anos, pele enrugada, uma cor caramelo, olhos vivos, verdes, hipnóticos, deixam uma impressão forte e singular na presa. O jovem tenta desvencilhar-se daquelas mãos de dedos amarelos, que não o deixa passar. Sua atenção, então, é dominada pela insistência da mulher.

Uma cigana. Sim, uma cigana. Agnaldo presume de histórias que ouviu na infância de pessoas que por ali passam todos os dias. O que não é de seu costume. Passar por ali todos os dias: roupas, brincos, cartas de tarô, roubo de crianças. 

Cordial, tenta se desgarrar outra vez das mãos da velha esquelética. A voz rouca da cigana o faz permanecer, por fim, estático dirigindo à velha mulher seu olhar apreensivo com um sorriso amarelo disfarçado de simpatia.

- Posso ler sua mão? – disse a cigana.

- Hoje não. Obrigado. – responde Agnaldo.

- Por favor, é rápido. – insiste a cigana.

- Hoje não senhora. Estou com pressa. – retruca o jovem.

Quando percebe suas mãos já estão entre as da cigana.

- Preciso ir. - insiste outra vez Agnaldo.

- Calma - A cigana o domina com essa palavra doce e dormente que foge de seus lábios junto ao cheiro de fumo.

Agnaldo sossega. Olhar irônico para a pequena cigana. Não disfarça um sorriso que lhe escapa dos gracejos que pensa.

- Sabe o que vejo aqui? – disse a cigana.

- O quê? – brinca Agnaldo.

- No distante futuro, nada vejo. Olha para o jovem que sorri.

- E o que vê, então? – Agnaldo estica a corda.

- Bem - olha outra vez mais. As linhas da mão de sua presa riscando com a ponta dos dedos. - Estranho que só enxergo o “hoje”. Isso não é lá muito comum.

- Comum o quê?

- Não ver seu futuro, menino. O que está revelado aqui é o dia de Hoje.

- O que está me aguardando para Hoje, senhora?

- Antes de decidir para onde vai, meu jovem, olhe para os dois lados, siga, rápido, pelo caminho que escolher, mas, não pare na pista. Sentencia à cigana.

Agnaldo deixa fugir uma doce gargalhada.

- Tentarei lembrar-me disso. - O jovem decide retomar a caminhada quando a cigana estica a mão bem na sua frente.

- Tem ao menos cinco Reais?

- Toma. Sete. Agnaldo segue divertido enquanto a cigana sorri deliciosamente com a generosidade e simpatia do moço.

 

Seu José está indignado. Vinte anos de entrega, agora forçado a usar um celular. Registro das entregas. Essas geringonças só dificultaram sua vida. Antes fazia as entregas assinavam os papéis e só. Não! Não estava bom. Inventaram o celular e a necessidade de registro da hora da entrega e para quem.

Conduzindo pelas ruas centrais da cidade das bicicletas, “essas obras do demônio que estragaram com o centro”, seu José está em fúria. Com sessenta e cinco anos orgulha-se de nunca ter se envolvido em acidente de transito nenhum. Viu os anos passarem, a cidade crescer e o transito que de uns anos para cá viraram uma loucura. Ruas engarrafadas. No pico da manhã e no pico da tarde. Gostam, hoje, esses jovens de palavras estrangeiras, rush, seu José vai mesmo de engarrafamento. Tem muito carro. No seu tempo tinha eram bicicletas. Era comovente na saída das fábricas. Hoje? Acabou tudo. Carro, carro, carro. E quando chove, então. Ah!, é um deus nos acuda!

Ruas viram rios. Águas transbordam de bueiros, chuva aliada a maré cheia que transbordam e inundam as vias centrais. Filmaram esses tempos atrás até peixe saindo das caixas de passagem em pleno dia de sol, sem chuva e no meio do centro da cidade. Pelas bocas de lobo a maré sobe alagando tudo.

Atenção redobrada depois dessa distração e precisa entregar tudo na hora marcada. Coça a cabeça já grisalha. Aquela moça da logística anda enticando com ele. Trocaram farpa diversas vezes. Seu José não é um homem rancoroso, ranzinza, longe disso e muito pelo contrário. Respeitador, educado, calmo, prestativo, teimoso como diz a esposa, dona Nancinha. Entretanto, por trabalhar a tempo em entregas da empresa não vê a necessidade de mudar as coisas agora. Nunca morcegou no trabalho, enfim, agora tem esse maldito celular controlando seus horários. O manuseio dessa porcaria é o que o tira do sério. Está a ponto de deixar a empresa. Tempo de aposentadoria já tem, sobra até, seu Nelsinho é quem não o deixa sair. Trabalhou com o avô, chamava de “doutor” Gláucio. Agora o neto, seu Nelsinho.

 Uma chamada então no celular. Seu José procura um lugar para estacionar depois atender o diabo do telefone, achar como um canto nessas horas no centro?

- Aparelho dos infernos! Perde a paciência de vez seu José.

Tenta alcançar o telefone sem tirar os olhos da rua, apalpa o banco do carona, derrubando no assoalho do automóvel o diabo do aparelho. A paciência extrapolou seus limites sentindo que a idade não permite mais adaptar-se a essas novidades dos anos em mudança.

 A chamada do telefone insiste. E seu José faz a última coisa que faria em toda sua vida de motorista: solta o cinto de segurança e desvia os olhos da rua. Rápido deixa uma última olhadela pra frente, então decide que é a chance de alcançar o demônio do telefone que berra sem parar por ele. Com a mão direita tenta. Não. Visualiza outra vez a rua e tenta pegar outra vez o irritante aparelho. Quando está em suas mãos o  miserável do celular silencia.

- Não acredito! Grita seu José.

Retornando a posição de motorista, tem um rápido alívio. Só que a idade cobra esses malabarismos, dificultando, bastante, o encostar as costas no banco. Uma dor próxima de insuportável o faz perder a consciência escurecendo toda a sua vista. E no volante, meu amigo...

 

Agnaldo, divertido com a distração inesperada sorri ardentemente, chamando a atenção das pessoas que cruzam contra ele pelas calçadas. Essa euforia o havia dominado dias antes com a proposta do novo emprego que surgiu. Seu corpo sofre uma invasão eufórica por conta de uma nova esperança, com dias promissores e melhores. Diverte-se, lembrando a cigana e a própria mãe em como diferentes pessoas podem acreditar nas coisas que não veem e não podem tocar. Como jovem, a realidade, pressupõe ele, é o que enxergamos e tocamos. Não tem juízo de valores sobre crenças religiosas.

Distraído pelo passado que o assalta atravessa a via na faixa de pedestres em direção a Praça a Nereu Ramos. Algo chama logo sua atenção entre as faixas brancas e pretas desenhada no asfalto. Abaixa e pega um maço de dinheiros enrolado num elástico que o surpreende.

- Meu dia de sorte, sorri.

Feliz pelo achado não percebe que parou no meio da rua. Um zumbido assustador de buzina e freio acorda o rapaz do transe que no mesmo instante recorda as palavras da cigana.

- Antes de decidir para onde vai, olhe para os dois lados, siga rápido, pelo caminho que escolher. Não pare na pista.

 Agnaldo paralisa e assim fica pelo susto.

 

Seu José sente uma pressão na coluna nunca antes nesse nível de dor. Ao mesmo tempo essa dor o faz retomar a consciência. Por milésimos de segundos pergunta-se onde está e o que aconteceu, quando recobra a consciência. Pisa forte no freio que berra lancinante e segura por centímetros o carro depois do deslize físico da frenagem do automóvel.

...

Agnaldo assustado, como todos que cruzavam a rua, ciclistas, pedestres, vendedores entre outros mais, tem roubada sua atenção, instinto e susto, olha na direção do espalhafatoso buzinaço e chiar de freios, a uns quinze metros dali de onde se encontra. Seu José, ágil, impede um acidente contra um carro que saia de um estacionamento sem olhar para a rua e sem ligar o pisca de direção, invadiu o meio da via bloqueando, assim, a passagem do automóvel de entregas do seu José.

Todos, por instantes, tentam entender o motivo do estardalhaço som de freios e buzinas. Olhos assustados, sussurros e palavras de “bateu”, “aí meu deus”, flutuam pelo ar sobre os transeuntes. Passado o susto Agnaldo percebe que nada de ruim aconteceu e retoma, outra vez, a direção de seu destino. O jovem, agora, não lembra mais o que disse a cigana. Seu José mira olhos de repreensão ao motorista desatento e segue às entregas atrasadas do dia.

E é isso.

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