Seus passos
distraídos, desajeitados como o de toda sua família, são impedidos de
continuar por uma mulher que se atira em seu caminho, literalmente. Assusta abrupto jovem distraído arrastando-o de volta a realidade. Agnaldo tenta desviar,
cordial, sorrindo, o que não tolhe a barragem que a pequena mulher lhe impõe.
Agarra-o pelo braço, sorriso amarelo, entre cinquenta e sessenta anos, pele
enrugada, uma cor caramelo, olhos vivos, verdes, hipnóticos, deixam
uma impressão forte e singular na presa. O jovem tenta desvencilhar-se daquelas
mãos de dedos amarelos, que não o deixa passar. Sua atenção, então, é dominada
pela insistência da mulher.
Uma cigana. Sim, uma cigana. Agnaldo presume de histórias que ouviu na infância de pessoas que por ali passam todos os dias. O que não é de seu costume. Passar por ali todos os dias: roupas, brincos, cartas de tarô, roubo de crianças.
Cordial, tenta se
desgarrar outra vez das mãos da velha esquelética. A voz rouca da cigana
o faz permanecer, por fim, estático dirigindo à velha mulher seu olhar apreensivo com
um sorriso amarelo disfarçado de simpatia.
- Posso ler sua
mão? – disse a cigana.
- Hoje não.
Obrigado. – responde Agnaldo.
- Por favor, é
rápido. – insiste a cigana.
- Hoje não senhora.
Estou com pressa. – retruca o jovem.
Quando percebe suas mãos já estão entre as da cigana.
- Preciso ir. - insiste
outra vez Agnaldo.
- Calma - A cigana o
domina com essa palavra doce e dormente que foge de seus lábios junto ao
cheiro de fumo.
Agnaldo sossega.
Olhar irônico para a pequena cigana. Não disfarça um sorriso que lhe escapa
dos gracejos que pensa.
- Sabe o que vejo
aqui? – disse a cigana.
- O quê? – brinca
Agnaldo.
- No distante
futuro, nada vejo. Olha para o jovem que sorri.
- E o que vê,
então? – Agnaldo estica a corda.
- Bem - olha outra
vez mais. As linhas da mão de sua presa riscando com a ponta dos dedos. - Estranho que só enxergo o “hoje”. Isso não é lá muito comum.
- Comum o quê?
- Não ver seu
futuro, menino. O que está revelado aqui é o dia de Hoje.
- O que está me
aguardando para Hoje, senhora?
- Antes de decidir
para onde vai, meu jovem, olhe para os dois lados, siga, rápido, pelo caminho
que escolher, mas, não pare na pista. Sentencia à cigana.
Agnaldo deixa fugir
uma doce gargalhada.
- Tentarei
lembrar-me disso. - O jovem decide retomar a caminhada quando a cigana estica a
mão bem na sua frente.
- Tem ao menos
cinco Reais?
- Toma. Sete.
Agnaldo segue divertido enquanto a cigana sorri deliciosamente com a
generosidade e simpatia do moço.
Seu José está indignado.
Vinte anos de entrega, agora forçado a usar um celular. Registro das entregas.
Essas geringonças só dificultaram sua vida. Antes fazia as entregas assinavam
os papéis e só. Não! Não estava bom. Inventaram o celular e a necessidade de
registro da hora da entrega e para quem.
Conduzindo pelas
ruas centrais da cidade das bicicletas, “essas obras do demônio que estragaram
com o centro”, seu José está em fúria. Com sessenta e cinco anos orgulha-se de
nunca ter se envolvido em acidente de transito nenhum. Viu os anos passarem, a
cidade crescer e o transito que de uns anos para cá viraram uma loucura. Ruas
engarrafadas. No pico da manhã e no pico da tarde. Gostam, hoje, esses jovens
de palavras estrangeiras, rush, seu
José vai mesmo de engarrafamento. Tem muito carro. No seu tempo tinha eram
bicicletas. Era comovente na saída das fábricas. Hoje? Acabou tudo. Carro,
carro, carro. E quando chove, então. Ah!, é um deus nos acuda!
Ruas viram rios.
Águas transbordam de bueiros, chuva aliada a maré cheia que transbordam e
inundam as vias centrais. Filmaram esses tempos atrás até peixe saindo das
caixas de passagem em pleno dia de sol, sem chuva e no meio do centro da
cidade. Pelas bocas de lobo a maré sobe alagando tudo.
Atenção redobrada
depois dessa distração e precisa entregar tudo na hora marcada. Coça a cabeça
já grisalha. Aquela moça da logística anda enticando com ele. Trocaram farpa
diversas vezes. Seu José não é um homem rancoroso, ranzinza, longe disso e
muito pelo contrário. Respeitador, educado, calmo, prestativo, teimoso como diz
a esposa, dona Nancinha. Entretanto, por trabalhar a tempo em entregas da
empresa não vê a necessidade de mudar as coisas agora. Nunca morcegou no
trabalho, enfim, agora tem esse maldito celular controlando seus horários. O
manuseio dessa porcaria é o que o tira do sério. Está a ponto de deixar a
empresa. Tempo de aposentadoria já tem, sobra até, seu Nelsinho é quem não o
deixa sair. Trabalhou com o avô, chamava de “doutor” Gláucio. Agora o neto, seu
Nelsinho.
Uma chamada então no celular. Seu José procura
um lugar para estacionar depois atender o diabo do telefone, achar como um
canto nessas horas no centro?
- Aparelho dos
infernos! Perde a paciência de vez seu José.
Tenta alcançar o
telefone sem tirar os olhos da rua, apalpa o banco do carona, derrubando no
assoalho do automóvel o diabo do aparelho. A paciência extrapolou seus limites
sentindo que a idade não permite mais adaptar-se a essas novidades dos anos em
mudança.
A chamada do telefone insiste. E seu José faz
a última coisa que faria em toda sua vida de motorista: solta o cinto de
segurança e desvia os olhos da rua. Rápido deixa uma última olhadela pra
frente, então decide que é a chance de alcançar o demônio do telefone que berra
sem parar por ele. Com a mão direita tenta. Não. Visualiza outra vez a rua e
tenta pegar outra vez o irritante aparelho. Quando está em suas mãos o miserável do celular silencia.
- Não acredito!
Grita seu José.
Retornando a
posição de motorista, tem um rápido alívio. Só que a idade cobra esses
malabarismos, dificultando, bastante, o encostar as costas no banco. Uma dor próxima
de insuportável o faz perder a consciência escurecendo toda a sua vista. E no
volante, meu amigo...
Agnaldo, divertido
com a distração inesperada sorri ardentemente, chamando a atenção das pessoas
que cruzam contra ele pelas calçadas. Essa euforia o havia dominado dias antes
com a proposta do novo emprego que surgiu. Seu corpo sofre uma invasão eufórica
por conta de uma nova esperança, com dias promissores e melhores. Diverte-se,
lembrando a cigana e a própria mãe em como diferentes pessoas podem acreditar
nas coisas que não veem e não podem tocar. Como jovem, a realidade, pressupõe
ele, é o que enxergamos e tocamos. Não tem juízo de valores sobre crenças
religiosas.
Distraído pelo
passado que o assalta atravessa a via na faixa de pedestres em direção a Praça
a Nereu Ramos. Algo chama logo sua atenção entre as faixas brancas e pretas
desenhada no asfalto. Abaixa e pega um maço de dinheiros enrolado num elástico
que o surpreende.
- Meu dia de sorte,
sorri.
Feliz pelo achado
não percebe que parou no meio da rua. Um zumbido assustador de buzina e freio
acorda o rapaz do transe que no mesmo instante recorda as palavras da cigana.
- Antes de decidir
para onde vai, olhe para os dois lados, siga rápido, pelo caminho que escolher.
Não pare na pista.
Agnaldo paralisa e assim fica pelo susto.
Seu José sente uma
pressão na coluna nunca antes nesse nível de dor. Ao mesmo tempo essa dor o faz
retomar a consciência. Por milésimos de segundos pergunta-se onde está e o que
aconteceu, quando recobra a consciência. Pisa forte no freio que berra lancinante
e segura por centímetros o carro depois do deslize físico da frenagem do
automóvel.
...
Agnaldo assustado,
como todos que cruzavam a rua, ciclistas, pedestres, vendedores entre outros
mais, tem roubada sua atenção, instinto e susto, olha na direção do espalhafatoso
buzinaço e chiar de freios, a uns quinze metros dali de onde se encontra. Seu
José, ágil, impede um acidente contra um carro que saia de um estacionamento
sem olhar para a rua e sem ligar o pisca de direção, invadiu o meio da via bloqueando,
assim, a passagem do automóvel de entregas do seu José.
Todos, por
instantes, tentam entender o motivo do estardalhaço som de freios e buzinas.
Olhos assustados, sussurros e palavras de “bateu”, “aí meu deus”, flutuam pelo
ar sobre os transeuntes. Passado o susto Agnaldo percebe que nada de ruim
aconteceu e retoma, outra vez, a direção de seu destino. O jovem, agora, não
lembra mais o que disse a cigana. Seu José mira olhos de repreensão ao
motorista desatento e segue às entregas atrasadas do dia.
E é isso.
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