Título: TIROS!
Personagens:
Sargento da P.M.;
Soldado Anselmo;
Geraldo;
Maria Angélica;
Meninas;
ATO
I
CENA
(Todos
correndo).
GERALDO – Eu não vi nada!
Socorro! Por favor, me ajudem! Socorro! Querem me matar! Ajudem-me! Por favor!
SARGENTO – Pare, é a
polícia! Pare ou vou atirar! Filho da puta! Quer morrer então?
(dois tiros).
SOLDADO ANSELMO – Errou
sargento. Ele ainda foge. Pare é a policia!
SARGENTO – Desgraçado!
Errei!
SOLDADO ANSELMO – Ele não
pode fugir!
SARGENTO – Pare, é uma
ordem!
SOLDADO ANSELMO – É a
polícia! Esse desgraçado é rápido!
GERALDO – MEU DEUS! Meu
deus! Eu não fiz nada! Por favor, ajudem-me! Socorro! (chorando) Querem me
matar!
SARGENTO – Eu te disse Anselmo,
para não deixar ninguém passar da barreira. Agora precisamos pegar esse
desgraçado. Temos que pegar ele.
SOLDADO ANSELMO – Vou atirar
sargento!
(dois
tiros)
- Filho da puta! Errei!
SARGENTO – Apaga esse nego
nojento!
SOLDADO ANSELMO – Morre
filho de uma puta!
(mais
três tiros)
- Errei de novo. Que merda!
Sortudo do caralho. Ele subiu quando eu me distrai ao atender ao rádio. Uma
chamada do COPOM.
(sempre
correndo pelos becos e vielas do morro)
SARGENTO - Você é um idiota,
mesmo. Vou atirar!
(mais
três tiros)
- Ele corre como um raio.
Para ai vagabundo!
(dois
tiros)
- Será que ele viu o que a
gente fazia com aquelas vagabundas? Se ele fugir você será responsabilizado,
Anselmo. Vai dá merda pra você.
(correndo
e com o folego no limite ao falar)
SOLDADO ANSELMO – Mas
sargento...
SARGENTO – Mas nada,
soldado! Seu merda! Pega esse desgraçado antes que ele fuja. Uma daquelas putas
é prima dele. E ela já vinha me provocando faz algum tempo. Justo na hora da
caixinha semanal elas me aparecem por lá! Precisamos pegar ele rápido. Depois
apagamos aquelas vadias. Vou atirar.
(dois
tiros)
GERALDO – (Correndo e
chorando) eu não vi nada. Por favor! Eu não vi nada! Socorro! Socorro! Ajude-me
Jesus! Juro que deixo esse vício maldito se me ajudar, eu não quero morrer!
SARGENTO – Para então filho
de uma puta! Se não parar vou te matar seu preto filho de uma puta!
(três
tiros)
- Anselmo não deixe ele
fugir!
SOLDADO ANSELMO – Estou
tentando sargento. Estou tentando.
SARGENTO – Já estamos
enrolados com o caso dos meninos lá no morro da Boa Vista. Demos cabo daqueles
vagabundos que incomodavam lá no centro depois de mais de vinte prisões. Depois
da surra que levaram não tinha mais jeito. Só matando. E deu no que deu. Pega
ele, pega ele.
SOLDADO ANSELMO – Vou
atirar. Vou fazer mira.
(três
tiros)
- Acertei! Caiu!
GERALDO – Socorro! Tá
doendo. Socorro! Por favor! Ai, ai, ai. (chorando) não me mate. Eu não fiz
nada. Socorro! Pelo amor ai, ai, tá doendo, não por ai, ai, eu não, ai, ai, ai.
SARGENTO – Te pegamos
desgraçado.
SOLDADO ANSELMO – filho da
puta. E agora?
SARGENTO – Vou te matar. E
depois sua família.
GERALDO – (Chorando de dor e
desespero) não, por favor. Eu não fiz nada. Ai, ai, que dor, por favor, tá
doendo. Não me, ai. Eu não queria.
SARGENTO – Então por que
fugiu? Cala a boca seu merda. Sua hora chegou.
SOLDADO ANSELMO - Tu deste
uma canseira na gente seu neguinho desgraçado.
GERALDO – Não... Por
favor... Não... (chorando em prantos).
SARGENTO – (Põe o pé na boca
de Geraldo abafando o som de sua voz e choro) cadê a “outra”, Anselmo? Passa
pra cá. A “riscadinha”.
SOLDADO ANSELMO – Sim
senhor, sargento. Aqui.
GERALDO – (chora
convulsivamente). Não, não, não.
SARGENTO – Gracias. Aqui
selamos nosso segredo. Dá um abraço no capeta por mim e diz que uma hora dessa
eu vou visitá-lo. Desgraçado, fez a gente suar.
(cinco
tiros)
SOLDADO ANSELMO – Menos um
para incomodar.
FIM
DO PRIMEIRO ATO.
ATO
II:
CENA.
(Uma cozinha. Na casa de
Geraldo e Maria Angélica. Os dois são casados, a mulher passa um café. Geraldo
está sentado em uma cadeira).
PERSONAGENS:
Geraldo;
Maria Angélica;
MARIA ANGÉLICA – Geraldo? Tu
não vai fazer nada, homem? Não vai ir atrás de sua sobrinha? (Geraldo não
responde).
- O que houve Geraldo? O que
tá acontecendo? Tá no mundo da Lua é? Não vai me dizer que tá usando droga de
novo?
GERALDO – Não mulher! A
Izabel sabe se cuidar, não é mais criança.
MARIA ANGÉLICA – Hah. Tá!
Ela tem só dezesseis anos!
GERALDO – Então? Já está
mais do que na hora dela e virar sozinha.
MARIA ANGÉLICA – Você sabe
que ela não tem juízo, Geraldo. Mesmo a gente proibindo ela de andar com aquele
marginal do Sandrinho eu sei muito bem que ela tá por aí com a irmã dele.
GERALDO – Claro Maria. Elas
estudam juntas.
MARIA ANGÉLICA – Eu sei
disso. Esse é o problema Geraldo. Pediram para um de nós dois ir à escola. A
diretora quer falar sobre a Izabel.
GERALDO – Eu não vou. É só
incomodação.
MARIA ANGÉLICA – (serve café
para Geraldo) E eu é que tenho que me incomodar com sua sobrinha?
GERALDO – Eu é quem não vou.
Qualquer coisa que falo para Izabel ela solta os cachorros em mim. Diz que não
sou o pai dela e não mando em sua vida.
MARIA ANGÉLICA – Também, tu
já vais com duas pedras na mão para falar com ela. Ela é só uma menina Geraldo.
Sem pai nem mãe.
GERALDO – Menina nada, ela
já é uma mulher.
MARIA ANGÉLICA – Eu não
estou falando “disso” Geraldo. Na cabeça ela é ainda uma menina. Precisa de
nosso apoio e paciência.
GERALDO – Mas se ela não
aceita isso eu é que não vou me incomodar.
MARIA ANGÉLICA – Ela é
responsabilidade nossa seu Geraldo! Você sabe como é perigoso aqui na favela.
Ainda mais para essas meninas na idade de Izabel. Lembra o que aconteceu com a
filha da polaca?
GERALDO – Também com aqueles
shortinhos que ela andava! Aparecendo metade da bunda!
MARIA ANGÉLICA – Ô...
Geraldo? Quer dizer que eu não posso andar como quero? No calor que faz neste
inferno de cidade tenho que vestir roupa de esquimó? Faça-me o favor! Os homens
precisam aprender a respeitar as mulheres! Aqui não é a Arábia! Só por que
homem é igual a cachorro tenho que viver me escondendo?
GERALDO – Não Maria. Mas
porque aqui na favela quem manda é a lei do tráfico. Os mesmos que “fizeram” a
filha da polaca. E são os mesmos que mataram o José e a Sabrina. Tu achas que
eu gosto disso? José era meu irmão! Por sorte eles não mataram a gente também.
Agora para impedir eles de fazer o que quiserem aqui dentro só matando esses
desgraçados. Ou saindo do morro.
MARIA ANGÉLICA – Eu sei
Geraldo. Por isso que me preocupo com a Izabel. Ela é responsabilidade nossa
agora. E não adianta fingir que não! Essa preocupação sobrou pra gente. Ao
menos isso, devemos ao seu irmão.
GERALDO – Eu estou muito
cansado Maria. Tem mais café ai?
MARIA ANGÉLICA – Tem.
Infelizmente Izabel ficou com a gente, ou felizmente, e se algo acontecer com
ela, não ficarei sossegada. Eu sei que a culpa é minha por não ter sido mais
firme com ela antes.
GERALDO – Agora é tarde.
MARIA ANGÉLICA – Mas é
preciso ir atrás dela.
GERALDO – Eu é que não vou.
Já tenho problemas demais e Izabel já é bem grandinha para saber o que é certo
ou errado. Sabe que é perigoso ficar a noite nas ruas.
MARIA ANGÉLICA – Geraldo,
que problemas?
GERALDO – Cortaram umas
verbas lá na obra. Disseram que foi o banco que não liberou o empréstimo, eu
sei lá. Só sei que a obra vai continuar a conta gotas como disse Valdinei.
Metade da piãozada vai ir para a rua. Vão levar alguns para outra obra da
empreiteira.
MARIA ANGÉLICA – Meu deus! O
Valdinei já falou algo? Você vai ir para a rua?
GERALDO – Nada. Nem ele sabe
se fica.
MARIA ANGÉLICA – Ai meu
deus! E essa agora?
GERALDO – E ainda tem
aqueles babacas lá da condicional me incomodando.
MARIA ANGÉLICA – Como assim?
GERALDO – A policia pegou o
“Chinelo” fumando pedra na hora do almoço e revistaram todos lá na obra. Sobrou
para mim que estou nessa situação. O pessoal lá do juizado ficaram sabendo
dessa história e agora tenho que ir lá para explicar. O pior é que estavam bem
na hora lá na obra os gerentes e os donos da empreiteira que ficaram
ressabiados comigo.
(tiros)
MARIA ANGÉLICA - Ai meu
senhor! É tiro isso?
GERALDO – Acho que sim.
MARIA ANGÉLICA – Ai meu
deus! Cadê essa menina que não volta para casa? A Izabel não tem juízo. Jesus!
Proteja essa menina. É muito perigoso essa menina andando por ai, sozinha e
esses tiros. Eu vou atrás dela.
GERALDO – Tá louca mulher?
Essa hora da noite?
(três
tiros)
MARIA ANGÉLICA – Eu vou
fazer o que homem?
(cinco
tiros)
- Meu deus! Meu deus. Onde
tá essa menina sem juízo?
GERALDO – Que saco! Eu vou
atrás de Izabel.
MARIA ANGÉLICA – Não deixa
que eu vou. Você tá cansado do serviço.
GERALDO – Para depois você
ficar me incomodando, dizendo que eu não cuido da menina? Eu vou é perigoso a
essas horas na rua. Fica aqui e tranca a porta quando eu sair.
MARIA ANGÉLICA – Toma
cuidado Geraldo. Ela deve estar na Suzana ou na casa do Sandrinho. Só pode
estar lá a essas horas da noite. Meu deus! Ô menina sem juízo! É só para
incomodar.
GERALDO – Tranca a casa
Maria. Já volto.
(Geraldo
sai)
FIM
DO TERCEIRO ATO.
ATO III.
PERSONAGENS:
Os dois policiais;
Izabel;
Amigas de Izabel;
Geraldo;
Cena
(numa
viela de algum morro)
UMA AMIGA DE IZABEL – Me
larga seu nojento!
SARGENTO – O que é isso
agora lindinha? Tá se fazendo de difícil?
IZABEL – Larga ela seu
nojento! Nós somos menores.
SARGENTO – De menor? Mas
andam por aí com o pessoal do “movimento”. Você é a namoradinha daquele
marginal, o Sandrinho que eu sei. Meninas de respeito não estariam a essas
horas nas ruas da favela que é um lugar perigoso.
IZABEL – Eu fui sim. E daí?
Agora não sou mais. O que você tem com isso?
SARGENTO – “Me diga com quem
andas, e direi quem tu és”.
IZABEL – Você não pode fazer
isso com a gente. Só estamos indo na casa da mãe dela. Estamos levando ela para
casa. Larga ela seu folgado que somos todas de menores. Isso é crime.
SARGENTO – Ah, tá bom. Há
essa hora na rua? E o que é isso aqui que achei escondido na calcinha dela?
Farinha de trigo é que não é. Diz-me? Onde conseguiram o pó? Com que dinheiro?
Ou estão de aviãozinho para o Sandrinho?
MENINA - Isso não é meu.
SARGENTO – E de quem é
então? Como é que foi parar aí?
MENINA – Não sei.
IZABEL – Tu não podes fazer
isso com a gente. Nós temos direitos.
SARGENTO – Não posso por
quê? Aqui a autoridade sou eu. O que achei aqui não é nada bom para vocês. É
flagrante e podem dar uns seis meses de reformatório. Bom, quem sabe eu posso
aliviar o lado de vocês, princesinhas, se fizerem uns favores para a autoridade
aqui.
MENINA – Seu porco.
SARGENTO - Soldado. Veja o
que encontrei nas roupas intimas da menina aqui.
SOLDADO ANSELMO – Sim
sargento.
SARGENTO – O que achas que
é?
SOLDADO ANSELMO – Cocaína.
Entorpecente.
SARGENTO – Quais são as
providências que devemos tomar?
SOLDADO ANSELMO – Delegacia.
É flagrante. Vão ser enquadrada no tráfico de drogas, casa de custódia para os
menores de idade. O conselho tutelar vai resolver. Para sorte delas.
SARGENTO – Eu estou sendo bonzinho
com vocês meninas. É só um favorzinho. O que acham?
(silêncio)
- Não deixe ninguém subir soldado.
SOLDADO ANSELMO – Sim
senhor.
(falando baixinho para o
sargento)
- Eu quero aquela pretinha
ali das coxas grossas.
SARGENTO – Assuma seu posto
soldado. Aguarde outras instruções.
(sai
o soldado)
- vem cá neguinha. Vou te
ensinar umas coisinhas legais.
UMA DAS MENINAS – Me larga
seu nojento! Eu não sou disso. Me larga. Socorro! (grita chorando).
SARGENTO – agora é só um pouquinho
tarde para chorar. Isso não é hora de meninas na rua só podem estar procurando
macho! E agora que acharam choram? Quieta vadia!
IZABEL – Larga dela seu
porco nojento! Socorro. Socorro.
SARGENTO – cala a boca
piranha! Quer tomar o lugar dela sua puta? Garanto que sou melhor que o
sandrinho. (dá um empurrão em Izabel que cai no chão).
IZABEL – socorro. Socorro!
Ele vai matar a gente!
SARGENTO – (saca a arma e
aponta para Izabel) quer morrer piranha? Cale a boca se não eu te mato
vagabunda. Cale a boca todas vocês. Quietas. Querem morrer? Não? Então
quietinhas suas vadias. Eu mato vocês e ninguém vai se importar com um bando de
faveladas vagabundas como vocês. Só mais vitimas da guerra do tráfico como a
imprensa gosta de divulgar. Em dois dias já estão esquecidas. Como cadelas
atropeladas. Calem a boca ou mato vocês. É só um carinho que quero dessa
neguinha aqui. Vem aqui linda. Não chore minha neguinha vai ser bem gostoso
viu? Ai você aprende para fazer com a rapaziada ai do morro. Acho que tu já até
deu pra alguém por ai, ou não?
MENINA - Por favor, não.
(chorando). Eu não quero. Não!
(aparece
o Geraldo na cena)
GERALDO – Izabel? O que você
tá fazendo aí? Vamos pra casa agora menina.
SARGENTO – Como você passou
pela barreira? Anselmo! Suba! Tu tá preso vagabundo!
(aponta
a arma para Geraldo)
- Parado.
IZABEL – Corre tio! Corre!
Ele vai nos matar. Corre.
GERALDO – Vamos pra casa
Izabel. Eu não fiz nada, senhor, só vim buscar minha sobrinha, por favor, me
deixe a levar.
IZABEL – Corre tio, corre!
SARGENTO – Parado ai você tá
preso. Encosta ali no muro e mãos para o alto. Anselmo, seu imbecil. Como tu
deixaste alguém passar? Sobe aqui!
IZABEL – Corre tio, corre.
(chorando).
GERALDO – (Corre, escorrega
e cai do bolso um pedaço de um “tijolo” de maconha) vai pra casa Izabel. (grita
enquanto se levanta e corre).
SOLDADO ANSELMO – Sargento!
Fui atender o COPOM chamando as viaturas da região e ele subiu.
SARGENTO – Meliante em fuga!
Vamos atrás deles. Ele viu o que estava acontecendo. Atira nele!
(três
tiros)
(os
três saem de cena)
IZABEL – Corre tio! Corre!
Meu deus eles vão matar meu tio! Socorro, socorro! (chorando).
(tiros
à distância)
FIM
DO ATO III.
ATO
IV.
CENA.
(O corpo no chão de Geraldo,
os moradores o cobrem com um lençol branco, ascendem velas em volta de Geraldo e
começam a rezar um Pai Nosso. Um dos presentes adianta-se e diz a seguinte
frase)
- Morto, Geraldo não vale
uma nota de rodapé nos jornais. Nem ao menos nos noticiários sensacionalistas
que ganham a vida em exibir o triste cotidiano dos moradores das periferias e
favelas desse pais como se fossem todos criminosos e culpados. Para os
telespectadores é só mais uma vitima do tráfico de drogas. E para você?
FIM.
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