domingo, 18 de fevereiro de 2018


Título: TIROS!
Personagens:
Sargento da P.M.;
Soldado Anselmo;
Geraldo;
Maria Angélica;
Meninas;

ATO I                                    
CENA
(Todos correndo).
GERALDO – Eu não vi nada! Socorro! Por favor, me ajudem! Socorro! Querem me matar! Ajudem-me! Por favor!
SARGENTO – Pare, é a polícia! Pare ou vou atirar! Filho da puta! Quer morrer então?
                                               (dois tiros).
SOLDADO ANSELMO – Errou sargento. Ele ainda foge. Pare é a policia!
SARGENTO – Desgraçado! Errei!
SOLDADO ANSELMO – Ele não pode fugir!
SARGENTO – Pare, é uma ordem!
SOLDADO ANSELMO – É a polícia! Esse desgraçado é rápido!
GERALDO – MEU DEUS! Meu deus! Eu não fiz nada! Por favor, ajudem-me! Socorro! (chorando) Querem me matar!
SARGENTO – Eu te disse Anselmo, para não deixar ninguém passar da barreira. Agora precisamos pegar esse desgraçado. Temos que pegar ele.
SOLDADO ANSELMO – Vou atirar sargento!
(dois tiros)
- Filho da puta! Errei!
SARGENTO – Apaga esse nego nojento!
SOLDADO ANSELMO – Morre filho de uma puta!
(mais três tiros)
- Errei de novo. Que merda! Sortudo do caralho. Ele subiu quando eu me distrai ao atender ao rádio. Uma chamada do COPOM.
(sempre correndo pelos becos e vielas do morro)
SARGENTO - Você é um idiota, mesmo. Vou atirar!
(mais três tiros)
- Ele corre como um raio. Para ai vagabundo!
(dois tiros)
- Será que ele viu o que a gente fazia com aquelas vagabundas? Se ele fugir você será responsabilizado, Anselmo. Vai dá merda pra você.
(correndo e com o folego no limite ao falar)
SOLDADO ANSELMO – Mas sargento...
SARGENTO – Mas nada, soldado! Seu merda! Pega esse desgraçado antes que ele fuja. Uma daquelas putas é prima dele. E ela já vinha me provocando faz algum tempo. Justo na hora da caixinha semanal elas me aparecem por lá! Precisamos pegar ele rápido. Depois apagamos aquelas vadias. Vou atirar.
(dois tiros)
GERALDO – (Correndo e chorando) eu não vi nada. Por favor! Eu não vi nada! Socorro! Socorro! Ajude-me Jesus! Juro que deixo esse vício maldito se me ajudar, eu não quero morrer!
SARGENTO – Para então filho de uma puta! Se não parar vou te matar seu preto filho de uma puta!
(três tiros)
- Anselmo não deixe ele fugir!
SOLDADO ANSELMO – Estou tentando sargento. Estou tentando.
SARGENTO – Já estamos enrolados com o caso dos meninos lá no morro da Boa Vista. Demos cabo daqueles vagabundos que incomodavam lá no centro depois de mais de vinte prisões. Depois da surra que levaram não tinha mais jeito. Só matando. E deu no que deu. Pega ele, pega ele.
SOLDADO ANSELMO – Vou atirar. Vou fazer mira.
(três tiros)
- Acertei! Caiu!
GERALDO – Socorro! Tá doendo. Socorro! Por favor! Ai, ai, ai. (chorando) não me mate. Eu não fiz nada. Socorro! Pelo amor ai, ai, tá doendo, não por ai, ai, eu não, ai, ai, ai.
SARGENTO – Te pegamos desgraçado.
SOLDADO ANSELMO – filho da puta. E agora?
SARGENTO – Vou te matar. E depois sua família.
GERALDO – (Chorando de dor e desespero) não, por favor. Eu não fiz nada. Ai, ai, que dor, por favor, tá doendo. Não me, ai. Eu não queria.
SARGENTO – Então por que fugiu? Cala a boca seu merda. Sua hora chegou.
SOLDADO ANSELMO - Tu deste uma canseira na gente seu neguinho desgraçado.
GERALDO – Não... Por favor... Não... (chorando em prantos).
SARGENTO – (Põe o pé na boca de Geraldo abafando o som de sua voz e choro) cadê a “outra”, Anselmo? Passa pra cá. A “riscadinha”.
SOLDADO ANSELMO – Sim senhor, sargento. Aqui.
GERALDO – (chora convulsivamente). Não, não, não.
SARGENTO – Gracias. Aqui selamos nosso segredo. Dá um abraço no capeta por mim e diz que uma hora dessa eu vou visitá-lo. Desgraçado, fez a gente suar.
(cinco tiros)
SOLDADO ANSELMO – Menos um para incomodar.

FIM DO PRIMEIRO ATO.


ATO II:                                              
CENA.
(Uma cozinha. Na casa de Geraldo e Maria Angélica. Os dois são casados, a mulher passa um café. Geraldo está sentado em uma cadeira).
PERSONAGENS:
Geraldo;
Maria Angélica;

MARIA ANGÉLICA – Geraldo? Tu não vai fazer nada, homem? Não vai ir atrás de sua sobrinha? (Geraldo não responde).
- O que houve Geraldo? O que tá acontecendo? Tá no mundo da Lua é? Não vai me dizer que tá usando droga de novo?
GERALDO – Não mulher! A Izabel sabe se cuidar, não é mais criança.
MARIA ANGÉLICA – Hah. Tá! Ela tem só dezesseis anos!
GERALDO – Então? Já está mais do que na hora dela e virar sozinha.
MARIA ANGÉLICA – Você sabe que ela não tem juízo, Geraldo. Mesmo a gente proibindo ela de andar com aquele marginal do Sandrinho eu sei muito bem que ela tá por aí com a irmã dele.
GERALDO – Claro Maria. Elas estudam juntas.
MARIA ANGÉLICA – Eu sei disso. Esse é o problema Geraldo. Pediram para um de nós dois ir à escola. A diretora quer falar sobre a Izabel.
GERALDO – Eu não vou. É só incomodação.
MARIA ANGÉLICA – (serve café para Geraldo) E eu é que tenho que me incomodar com sua sobrinha?
GERALDO – Eu é quem não vou. Qualquer coisa que falo para Izabel ela solta os cachorros em mim. Diz que não sou o pai dela e não mando em sua vida.
MARIA ANGÉLICA – Também, tu já vais com duas pedras na mão para falar com ela. Ela é só uma menina Geraldo. Sem pai nem mãe.
GERALDO – Menina nada, ela já é uma mulher.
MARIA ANGÉLICA – Eu não estou falando “disso” Geraldo. Na cabeça ela é ainda uma menina. Precisa de nosso apoio e paciência.
GERALDO – Mas se ela não aceita isso eu é que não vou me incomodar.
MARIA ANGÉLICA – Ela é responsabilidade nossa seu Geraldo! Você sabe como é perigoso aqui na favela. Ainda mais para essas meninas na idade de Izabel. Lembra o que aconteceu com a filha da polaca?
GERALDO – Também com aqueles shortinhos que ela andava! Aparecendo metade da bunda!
MARIA ANGÉLICA – Ô... Geraldo? Quer dizer que eu não posso andar como quero? No calor que faz neste inferno de cidade tenho que vestir roupa de esquimó? Faça-me o favor! Os homens precisam aprender a respeitar as mulheres! Aqui não é a Arábia! Só por que homem é igual a cachorro tenho que viver me escondendo?
GERALDO – Não Maria. Mas porque aqui na favela quem manda é a lei do tráfico. Os mesmos que “fizeram” a filha da polaca. E são os mesmos que mataram o José e a Sabrina. Tu achas que eu gosto disso? José era meu irmão! Por sorte eles não mataram a gente também. Agora para impedir eles de fazer o que quiserem aqui dentro só matando esses desgraçados. Ou saindo do morro.
MARIA ANGÉLICA – Eu sei Geraldo. Por isso que me preocupo com a Izabel. Ela é responsabilidade nossa agora. E não adianta fingir que não! Essa preocupação sobrou pra gente. Ao menos isso, devemos ao seu irmão.
GERALDO – Eu estou muito cansado Maria. Tem mais café ai?
MARIA ANGÉLICA – Tem. Infelizmente Izabel ficou com a gente, ou felizmente, e se algo acontecer com ela, não ficarei sossegada. Eu sei que a culpa é minha por não ter sido mais firme com ela antes.
GERALDO – Agora é tarde.
MARIA ANGÉLICA – Mas é preciso ir atrás dela.
GERALDO – Eu é que não vou. Já tenho problemas demais e Izabel já é bem grandinha para saber o que é certo ou errado. Sabe que é perigoso ficar a noite nas ruas.
MARIA ANGÉLICA – Geraldo, que problemas?
GERALDO – Cortaram umas verbas lá na obra. Disseram que foi o banco que não liberou o empréstimo, eu sei lá. Só sei que a obra vai continuar a conta gotas como disse Valdinei. Metade da piãozada vai ir para a rua. Vão levar alguns para outra obra da empreiteira.
MARIA ANGÉLICA – Meu deus! O Valdinei já falou algo? Você vai ir para a rua?
GERALDO – Nada. Nem ele sabe se fica.
MARIA ANGÉLICA – Ai meu deus! E essa agora?
GERALDO – E ainda tem aqueles babacas lá da condicional me incomodando.
MARIA ANGÉLICA – Como assim?
GERALDO – A policia pegou o “Chinelo” fumando pedra na hora do almoço e revistaram todos lá na obra. Sobrou para mim que estou nessa situação. O pessoal lá do juizado ficaram sabendo dessa história e agora tenho que ir lá para explicar. O pior é que estavam bem na hora lá na obra os gerentes e os donos da empreiteira que ficaram ressabiados comigo.
(tiros)
MARIA ANGÉLICA - Ai meu senhor! É tiro isso?
GERALDO – Acho que sim.
MARIA ANGÉLICA – Ai meu deus! Cadê essa menina que não volta para casa? A Izabel não tem juízo. Jesus! Proteja essa menina. É muito perigoso essa menina andando por ai, sozinha e esses tiros. Eu vou atrás dela.
GERALDO – Tá louca mulher? Essa hora da noite?
(três tiros)
MARIA ANGÉLICA – Eu vou fazer o que homem?
(cinco tiros)
- Meu deus! Meu deus. Onde tá essa menina sem juízo?
GERALDO – Que saco! Eu vou atrás de Izabel.
MARIA ANGÉLICA – Não deixa que eu vou. Você tá cansado do serviço.
GERALDO – Para depois você ficar me incomodando, dizendo que eu não cuido da menina? Eu vou é perigoso a essas horas na rua. Fica aqui e tranca a porta quando eu sair.
MARIA ANGÉLICA – Toma cuidado Geraldo. Ela deve estar na Suzana ou na casa do Sandrinho. Só pode estar lá a essas horas da noite. Meu deus! Ô menina sem juízo! É só para incomodar.
GERALDO – Tranca a casa Maria. Já volto.
(Geraldo sai)
FIM DO TERCEIRO ATO.

ATO III.
PERSONAGENS:
Os dois policiais;
Izabel;
Amigas de Izabel;
Geraldo;
Cena
(numa viela de algum morro)
UMA AMIGA DE IZABEL – Me larga seu nojento!
SARGENTO – O que é isso agora lindinha? Tá se fazendo de difícil?
IZABEL – Larga ela seu nojento! Nós somos menores.
SARGENTO – De menor? Mas andam por aí com o pessoal do “movimento”. Você é a namoradinha daquele marginal, o Sandrinho que eu sei. Meninas de respeito não estariam a essas horas nas ruas da favela que é um lugar perigoso.
IZABEL – Eu fui sim. E daí? Agora não sou mais. O que você tem com isso?
SARGENTO – “Me diga com quem andas, e direi quem tu és”.
IZABEL – Você não pode fazer isso com a gente. Só estamos indo na casa da mãe dela. Estamos levando ela para casa. Larga ela seu folgado que somos todas de menores. Isso é crime.
SARGENTO – Ah, tá bom. Há essa hora na rua? E o que é isso aqui que achei escondido na calcinha dela? Farinha de trigo é que não é. Diz-me? Onde conseguiram o pó? Com que dinheiro? Ou estão de aviãozinho para o Sandrinho?
MENINA - Isso não é meu.
SARGENTO – E de quem é então? Como é que foi parar aí?
MENINA – Não sei.
IZABEL – Tu não podes fazer isso com a gente. Nós temos direitos.
SARGENTO – Não posso por quê? Aqui a autoridade sou eu. O que achei aqui não é nada bom para vocês. É flagrante e podem dar uns seis meses de reformatório. Bom, quem sabe eu posso aliviar o lado de vocês, princesinhas, se fizerem uns favores para a autoridade aqui.
MENINA – Seu porco.
SARGENTO - Soldado. Veja o que encontrei nas roupas intimas da menina aqui.
SOLDADO ANSELMO – Sim sargento.
SARGENTO – O que achas que é?
SOLDADO ANSELMO – Cocaína. Entorpecente.
SARGENTO – Quais são as providências que devemos tomar?
SOLDADO ANSELMO – Delegacia. É flagrante. Vão ser enquadrada no tráfico de drogas, casa de custódia para os menores de idade. O conselho tutelar vai resolver. Para sorte delas.
SARGENTO – Eu estou sendo bonzinho com vocês meninas. É só um favorzinho. O que acham?
(silêncio)
 - Não deixe ninguém subir soldado.
SOLDADO ANSELMO – Sim senhor.
(falando baixinho para o sargento)
- Eu quero aquela pretinha ali das coxas grossas.
SARGENTO – Assuma seu posto soldado. Aguarde outras instruções.
(sai o soldado)
- vem cá neguinha. Vou te ensinar umas coisinhas legais.
UMA DAS MENINAS – Me larga seu nojento! Eu não sou disso. Me larga. Socorro! (grita chorando).
SARGENTO – agora é só um pouquinho tarde para chorar. Isso não é hora de meninas na rua só podem estar procurando macho! E agora que acharam choram? Quieta vadia!
IZABEL – Larga dela seu porco nojento! Socorro. Socorro.
SARGENTO – cala a boca piranha! Quer tomar o lugar dela sua puta? Garanto que sou melhor que o sandrinho. (dá um empurrão em Izabel que cai no chão).
IZABEL – socorro. Socorro! Ele vai matar a gente!
SARGENTO – (saca a arma e aponta para Izabel) quer morrer piranha? Cale a boca se não eu te mato vagabunda. Cale a boca todas vocês. Quietas. Querem morrer? Não? Então quietinhas suas vadias. Eu mato vocês e ninguém vai se importar com um bando de faveladas vagabundas como vocês. Só mais vitimas da guerra do tráfico como a imprensa gosta de divulgar. Em dois dias já estão esquecidas. Como cadelas atropeladas. Calem a boca ou mato vocês. É só um carinho que quero dessa neguinha aqui. Vem aqui linda. Não chore minha neguinha vai ser bem gostoso viu? Ai você aprende para fazer com a rapaziada ai do morro. Acho que tu já até deu pra alguém por ai, ou não?
MENINA - Por favor, não. (chorando). Eu não quero. Não!
(aparece o Geraldo na cena)
GERALDO – Izabel? O que você tá fazendo aí? Vamos pra casa agora menina.
SARGENTO – Como você passou pela barreira? Anselmo! Suba! Tu tá preso vagabundo!
(aponta a arma para Geraldo)
- Parado.
IZABEL – Corre tio! Corre! Ele vai nos matar. Corre.
GERALDO – Vamos pra casa Izabel. Eu não fiz nada, senhor, só vim buscar minha sobrinha, por favor, me deixe a levar.
IZABEL – Corre tio, corre!
SARGENTO – Parado ai você tá preso. Encosta ali no muro e mãos para o alto. Anselmo, seu imbecil. Como tu deixaste alguém passar? Sobe aqui!
IZABEL – Corre tio, corre. (chorando).
GERALDO – (Corre, escorrega e cai do bolso um pedaço de um “tijolo” de maconha) vai pra casa Izabel. (grita enquanto se levanta e corre).
SOLDADO ANSELMO – Sargento! Fui atender o COPOM chamando as viaturas da região e ele subiu.
SARGENTO – Meliante em fuga! Vamos atrás deles. Ele viu o que estava acontecendo. Atira nele!
(três tiros)
(os três saem de cena)
IZABEL – Corre tio! Corre! Meu deus eles vão matar meu tio! Socorro, socorro! (chorando).
(tiros à distância)
FIM DO ATO III.



ATO IV.
CENA.
(O corpo no chão de Geraldo, os moradores o cobrem com um lençol branco, ascendem velas em volta de Geraldo e começam a rezar um Pai Nosso. Um dos presentes adianta-se e diz a seguinte frase)
- Morto, Geraldo não vale uma nota de rodapé nos jornais. Nem ao menos nos noticiários sensacionalistas que ganham a vida em exibir o triste cotidiano dos moradores das periferias e favelas desse pais como se fossem todos criminosos e culpados. Para os telespectadores é só mais uma vitima do tráfico de drogas. E para você?


FIM.

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UMA FAMÍLIA BRASILEIRA.

       Wigo andava por esses últimos dias com um incômodo que não sabia o do por quê. O imigrante alemão veio à vila vender seu sabão e vela...