Wanda chega tarde da noite em casa. Doze horas de trabalho a deixam com grossos calos nas mãos de uma aspereza que lembram lixas para madeira. Unhas sujas, roupas sujas, rosto magro, o cansaço é visível em seus olhos pesados de sono. Lava o rosto, mãos, com água que encontra na bacia deixada em cima da mesa. Cheiro forte de óleo mecânico exala do líquido. Com papel esfrega o rosto refletido no espelho, limpando-o do dia pesado de trabalho. E quando não é?
Importante são os elogios que recebe da gerência da fábrica. Inflaciona seu ego. Como suas colegas podem não cooperar com a melhoria da produção e qualidade da fábrica? Não entende elas. Então a chamam de mascarada.
Wanda percebeu que Hilton já chegou. Seu uniforme, como sempre, está estendido nas costas da cadeira onde seca ao ar da janela e sopra o mau cheiro de suor e fumaça. Hilton é seu companheiro. Hilton sempre conta porque seu pai lhe deu esse nome. Fumava o antigo cigarro Hilton. O homem se diverte com essa história. É um bobo.
Na mesa encontra carta oficial do Estado. Wanda lê o que contém. Desautorizando aos dois a se relacionarem nos próximos quinze dias. Puxa! Nada de sexo então? Para compensar ganharam, cada um, mais dois cartões créditos dos sonhos. Agora Wanda entendeu porque Hilton já foi dormir.
Dê pé em pé, Wanda invade o quarto de seu homem. Sorri satisfeita ao ver Hilton num sono profundo. Levanta as pálpebras do dorminhoco e acha graça dos movimentos dos olhos. O enorme fone de ouvido onde fica inserido o cartão crédito dos sonhos indica, pelas cores brilhantes dos Leds, a velocidade do acender e o apagar das pequenas luzes, que se passam momentos de ação, tensão e aventura. Então lê a palavra na borda do cartão: cangaço. Como esse homem gosta do cangaço.
Ao deixar o quarto de retorno a pequena sala retira do bolso três cigarros de canabis, deixando-os, dois, ao lado da carteira de Hilton. Para quando ele levantar amanhã. Destina-se, nua, a seus aposentos. Na realidade a moradia é uma grande peça dividida por cortinas. Mesmo o banheiro com uma privada de lata e a bacia de banho. Banho com caneca. Sai caro ter privilégios.
Wanda senta a beira da cama, acende um cigarro, sentindo relaxar as pernas depois de doze horas de pé, repelindo um gigantesco e esmagador cansaço. Pernas cruzadas, minutos depois, pita o cigarro, expele a fumaça grossa entre os finos lábios com todo o prazer do mundo.
Entre os dedos descansa o baseado. Cotovelo apoiado no braço esse apoiado nos seios. Como pode ter vivido tantos anos sem esse prazer? Por muitos anos foi proibido, agora tem o controle do Estado.
Ainda pensa naqueles elogios que vêm recebendo da direção da fábrica. Com pouco tempo já é a melhor entre as amigas, mesmo as que têm dez anos de casa. Sentencia a má vontade das outras operárias.
Wanda olha o cartão crédito dos sonhos que recebeu largado ao seu lado. Murmúrios e chutes atravessam o barraco vindos do quarto de Hilton. Seus créditos são de personagens como atriz pornô ou médica. O que quero em sonhar ser médica? Pensa com paciência. Passou os últimos dois cartões créditos dos sonhos sendo atriz de Hollywood dos anos de 1940.
Molha a ponta dos dedos na língua apagando o cigarro. Amanhã é outro dia. Levanta, olha o reflexo de seu magro corpo no espelho, girando uma volta completa sobre si mesma. Sabe precisar ganhar umas carnes. Tem comido pouco, fumado muito. Decide se masturbar antes de dormir. Pediria ao Hilton, sabe, porém, que é um medroso e essas proibições leva muito a sério. Não quer passar mais pelo que sofreu. Torturas, injeções de inibidores eróticos. Por seis meses.
Wanda chega então ao orgasmo. Explode! A sensação é incomparável. Também é bom e recomendável para longos períodos de proibição. Assim dizem as autoridades. Dizem que é bom para a pele também. Estica as pernas num alongamento como uma gata, sim, pois lembra da Mimi, uma gatinha da infância. Mia bem baixinho, ronrrona, sorrindo de prazer. Suspira, murmura palavras soltas para Hilton: sou sua gata fêmea, Hilton. Me pega vai! Me pega logo! Deixa fugir uma enorme e gostosa gargalhada irresponsável.
Salta rapidamente da cama, em seguida abre uma gaveta de onde retira com pressa o fone de ouvido, insere o cartão crédito dos sonhos com certo e moderado cuidado. Joga-se na cama com vontade, após ligar um rádio bem baixinho de som, não chegando a ser mais do que um sussurro. Amanhã tudo recomeça. Tenho seis horas de sono e doze de trabalho. Bons sonhos de boneca.
PRIMAVERA/SET/2020.
Muito bom, faz pensar, como será o futuro?
ResponderExcluirMuito bom. Muita criatividade, parece episódios de Black Mirror.
ResponderExcluirObrigado!
ResponderExcluir